Constato-o cada vez com mais evidência: o bloco central tomou conta dos interesses da vida política portuguesa. Não é uma novidade, dirão alguns. Claro que não é uma novidade, mas, nesta fase de cooperação estratégica, entre a Presidência da República e o Governo, torna-se ainda mais evidente.
E ao nível local verifica-se o mesmo: nas conversas que vou tendo com alguns militantes do PS, verifico que, na oportunidade de exercer um qualquer lugar de poder, o fariam num partido ou no outro. E mais: entendem que quando o PSD voltar a governar seguirá as mesmas linhas estratégicas, os mesmos "tiques" e os mesmos propósitos. Aliás, em relação aos propósitos das políticas não concebem alternativa. Não vêem diferenças. Parece que acreditam no fim da história. Uma coisa descomunal.
Um outro sinal apareceu a nível nacional: os dirigentes do PS indicam a sua preferência, nas eleições internas do PSD, por Manuela Ferreira Leite, a candidata da simpatia de Cavaco Silva, parece-me. Nunca tinha visto nada assim.
É grave. Pode asfixiar a participação política e atrasar ainda mais o desenvolvimento do país. Os portugueses devem exigir uma clarificação do cenário partidário.
Não se deve dizer que é igual aquilo que a história nos diz que é diferente.
Li, hoje, a seguinte ideia de Vasco Pulido Valente, que conhece muito bem o PSD:
"... é preciso dizer que Manuela Ferreira Leite representa o que há de mais genuíno e profundo no partido: a tradição autoritária que vem de Salazar e Marcelo e que Sá Carneiro e depois Cavaco manifestamente receberam".
Estará o PS do presente nesta mesma linha? Não há clivagens políticas e ideológicas significativas na história de cada um dos partidos? Ou tudo se resume à oportunidade de encher a agenda mediática com os seguintes objectivos:
- Conquistar o poder;
- Manter o poder.
Visto de fora, alguém autorizado como Eduardo Lourenço diz o seguinte:
"... o jogo político deixou de ter qualquer componente, digamos, de um dinamismo suficiente para que nós nos interessemos por este tipo de luta. A paisagem neste capítulo é muito desertificada, [tal] como se vive em regime único. A superioridade política, neste momento, do PS, é tal que… Pode ser também uma aparência. Mas PSD e PS não são opositores, numa oposição agressiva e dinâmica, como foi em tempos. São duas alternativas à mesma coisa. Isso arrasta uma dramatização menor da cena nacional e quem está lá fora, realmente, não se pode interessar por uma espécie de drama que não existe".
Quem capitulou? Quem desistiu? Não se avizinha nada de bom, parece-me.
Não podemos deixar que a engrenagem nos triture, antes de, pelo menos, mostrarmos a nossa indignação. Agir é preciso! Mas que raio de "momento"vivemos nós em Portugal? Está nas nossas mãos a mudança, ou não?
ResponderEliminarMuito pertinente, este post.
Não podemos deixar que a engrenagem nos triture, antes de, pelo menos, mostrarmos a nossa indignação. Agir é preciso! Mas que raio de "momento"vivemos nós em Portugal? Está nas nossas mãos a mudança, ou não?
ResponderEliminarMuito pertinente, este post.
Obrigado. Alguém, com sentido de humor, disse-me o seguinte: o Cavaco voltou ao leme. Abraço.
ResponderEliminarNão me importava nada que a história acabasse, se é que tem que acabar.
ResponderEliminarMas para acabar em bem, um final feliz, há umas quantas mudanças que têm que ser feitas.
Temos que julgar quem, de entre os candidatos, aposta nas mesmas acções que desejamos, tanto quanto possível, claro.
Acredito na esquerda democrática. Se deixar de a ver no PS, deixarei de votar neles.
Tenho que decidir de vez se o Bloco de Esquerda é uma alternativa para o meu voto.
Sejas bem aparecido, caro Luís. E o semrede? "Não me importava nada que a história acabasse, se é que tem que acabar.
ResponderEliminarMas para acabar em bem, um final feliz, há umas quantas mudanças que têm que ser feitas". Era bom era, mas um final feliz é uma ideia demasiado generosa.
"Acredito na esquerda democrática", também eu. Quanto ao voto, e no que a mim me toca, tenho tempo para ver e decidir: é a nossa singular prerrogativa e onde todos valem o mesmo, felizmente. Abraço e obrigado.
Parece "novidade", mas, ou eu muito me engano e tenho um "handicap" no que respeita a leitura da história recente, ou o que "agora se pretende novidade" é já procedimento que se vem arrastando/aplicando há 15 ou mais anos... Será que me escapou, nesse intervalo, alguma medida menos agradável, que o "poder" seguinte (que sucedeu) tivesse abolido e melhorado (ou apenas recuperado)? Que me recorde, não... O que me leva de novo para a velha e dita "sabedoria popular" - "atrás de mim virá, quem de mim bom fará"...
ResponderEliminarTanto quanto se me oferece, direi pois - preparemo-nos... vem aí pior... pelo menos na minha perspectiva que, se para alguns pode ser derrotista/pessimista, prefiro classificar de realista...
Será que ainda passa pela cabeça de alguém, que os actuais protagonistas da política deste nosso pequenino rincão, estejam dispostos a perder a(s) oportunidade(s) de se virem a "safar" (económica e socialmente, entre outras "...mentes")?
Quanto a mim, não!... Lamento, mas penso sinceramente que, por iniciativa própria, os não veremos a ser tão altruístas...
É uma opinião... Vale o que vale...
Claro, vale o que vale. Mas não resisto a colar por aqui duas frases de GMTavares que já publiquei mais do que uma vez no meu blogue:
ResponderEliminar1 Na politica contemporânea recomeça-se quase sempre de novo o que se traduz numa violência: iniciar é eliminar o que existia antes. Recomeça-se permanentemente, não por ignorância (do que existia antes), não por oposição absoluta em relação ao anterior (como existe no germe de uma revolução), mas por vaidade.
2 A politica parece cada vez mais uma administração de palavras e não de coisas. Não se trata já de transportar pesos, de deslocar acontecimentos de um lado para outro, trata-se antes, e primeiro, de um transporte de vocábulos.
E, apesar de tudo, tens alguma razão quando escreves "Será que me escapou, nesse intervalo, alguma medida menos agradável, que o "poder" seguinte (que sucedeu) tivesse abolido e melhorado (ou apenas recuperado)? Que me recorde, não...".
O optimismo, ou o seu contrário, claro, tem uma relação muito directa com o "estado" do olhar: e, esse, não passa por grandes tempos, ai isso não.
Abraço.
Cá para mim andas a falar com os gajos errados do PS...ainda há quem resista, ainda há quem diga não... Paulo! A deriva, como eu lhe costumo chamar, liberal do Sócrates é só isso mesmo..uma deriva. O PS é mais do que isso (não sei é quantos são...só espero que a tua amostragem não seja significativa. Mas até ter uma resposta vou mantendo o "cartão" actualizado)
ResponderEliminar"só espero que a tua amostragem não seja significativa", claro, também eu: e bem que gostava de estar enganado. Vamos vendo. Obrigado pelo comentário e por passares por aqui. Abraço.
ResponderEliminarEspero bem que eu esteja na minoria utilizada como amostra....A Política é a arte de conservar e de manter.....o poder e não só........dizem os tratados e os pensadores.Nunca percebi bem se esta máxima foi construída à priori ou a posteriori.....parece-me que a mim foi a posteriori, depois de experiências que, inevitavelmente, correram mal.
ResponderEliminarPor mim não sou um desencantado, pois sou apoixanado pela História, nem me revejo no situacionismo do Cavaco ser o Homem do Leme.
O alinhamento será sempre conjuntural, nas democracias sempre assim foi, talvez sempre será, não sei.
O que me angustia na situação actual é á tendência para o suicidio político das maiorias, que acontece sempre que o regime se refugia nos ghettos do exercício do poder desligados da realidade e dos cidadãos, do tipo:
Então existe uma crise? Claro, nós sabemos que sim mas não podemos fazer nada....depende de Bruxelas e do preço do petróleo e de mil outras coisas, menos da nossa intervenção.
O Estado tornou-se o "monstro" de que falava o Padre António Vieira, só que para o PAV o monstro era a guerra.....
Quanto ao PSD, sem comentários por considerar que estamos perante uma opereta, com um mau libreto e uma música exclusivamente escrita com recurso a samples...
Um abraço,
ResponderEliminarSejas bem aparecido meu caro Nicolau. Se bem me lembro, é a primeira vez que inseres um comentário no correntes: obrigado.
Essa coisa das amostras é aquilo que todos sabemos e o que afirmei não é nada de novo: os militantes do PS conhecem bem os contornos do que escrevi e, no caso das Caldas da Rainha, os que por aqui apareceram têm, sobre isso, um conhecimento muito mais profundo do que eu.
Tenho conversado com muitas pessoas do PS e até participei, recentemente, numa reunião da estrutura local com deputados para discutir a situação actual na educação: e o que afirmei é aquilo que todos constatamos: a sensação que muitas pessoas estão no PS como poderiam estar no PSD: sei que isso é antigo, claro, mas não me parece positivo e, actualmente, manifesta-se de um modo mais evidente.
Maquiavel, nas suas tarefas de assessoria ao Príncipe, desenvolveu bem a tese das principais funções da política: conquistar e manter o poder. Foi um exercício à posteriori mas, com o decorrer dos séculos, instalou-se como um apriorismo absoluto. Talvez antes se tenha falado disso, talvez. Mas Maquiavel não deve ser, também, o fim da história.
Também não me revejo na ideia do Cavaco ser o homem do leme: mas no que à educação se refere, sinto uma verdadeira cooperação estratégica.
"O que me angustia na situação actual é á tendência para o suicidio político das maiorias, que acontece sempre que o regime se refugia nos ghettos do exercício do poder desligados da realidade e dos cidadão" - não podia estar mais de acordo. Olha: neste post, tinha um parágrafo exactamente sobre isso, mas acabei por retirar para que não ficasse muito longo.
Obrigado por passares por aqui.
Aquele abraço e força aí
CANÇÃO DE OUTONO
ResponderEliminarPor um caminho de ouro vão os melros... Aonde?
Por um caminho de ouro vão as rosas... Aonde?
Por um caminho de ouro vou... Aonde,
Outono? Aonde, pássaros e flores?
Juan Ramón Jiménez
(1881-1958)
Mas que coisa tão bela. Obrigado. Abraço.
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