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quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

Horizonte Cosmopolita


"Há ocasiões na história, como na vida, em que faltam as pessoas necessárias e outras em que faltam as condições embora os actores estejam bem preparados. Pirandello criou uma grande metáfora para nos fazer compreender que falta sempre qualquer coisa na realidade, que a vida, a sociedade, são uma grande montagem precedida de ensaios nos quais se vai verificando que tudo está no seu lugar, que ninguém falha a sua função e que as responsabilidades estão asseguradas. Muitas vezes, já redigida a tabela e mobilizados os actores, não se vê em parte nenhuma aquele que devia ter construído a encenação, a inteligência que aproveita a oportunidade, a instância que põe em acção as novas regras do jogo."



 



Innerarity (2010:253)


O novo espaço público. Lisboa: Teorema


 


quarta-feira, 5 de maio de 2021

A Escola na Sociedade Que Aí Vem

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É importante pensar para lá da pandemia, até porque se prevê a sobreposição do isolamento físico sobre o gregário na sociedade que aí vem; e dito assim para simplificar. E se no espaço do isolamento físico estão os que acreditam no absolutamente digital, no gregário não encontramos os que o rejeitam nem sequer os neoluditas. É um debate centrado num "enxame digital" e nos "gigantes da web - os GAFAM (Google, Apple, Facebook, Amazon e Microsoft) - que nos querem controlar" (Naomi Klein) e que hierarquizam prioridades: "ensino à distância, 5G, telemedicina, drones e comércio online generalizado". Acima de tudo, há uma estratégia à procura da melhor posição global no "monopólio da inteligência artificial que governará o mundo" (Vladimir Putin). A escola não escapará ao vórtice. Os milhões que se prevêem para o digital escolar em Portugal talvez melhorem o que existe, mas abrirão mais espaço ao isolamento físico que se impõe também por obra de países e organizações não democráticas.


Portanto, quando se pensa no futuro da democracia, e do bem público e comum numa sociedade mais justa e igualitária, defende-se o espaço gregário onde é imperativa a escola como instituição nuclear e estruturante dos princípios fundadores que consolidam a razão e a ciência. Digamos que é um espaço de segurança democrática dependente da nossa vontade. E como a escola portuguesa está consensualmente asfixiada num doentio emaranhado depois de quase duas décadas de políticas comuns de contracção, e radicalmente antagónicas nos conceitos, urge um reinício assente, desde logo, na simplificação organizacional.


Para além da essencial redução de alunos por turma e por escola ou organização, há quem use a ideia de escola como abrangente sala de estudo (ou biblioteca: A. Nóvoa) em clima de conectivismo (tese de George Siemens que seria preciosa na pandemia) e currículo completo. Um espaço gregário onde os alunos estudam, pesquisam, socializam e aprendem, com os professores e com os pares, num ambiente em que os conteúdos digitais são construídos no interior da escola de modo a contrariar os massificados e homogeneizados.


Essa ideia de escola necessita de educar para detalhes decisivos e já testados: horários escolares sem campainhas e que instituam intervalos descentrados no tempo, e decididos pelos professores, de acordo com as exigências das diversas disciplinas e das idades dos alunos. Esses horários escolares, em escolas bem dimensionadas, permitirão diversas soluções de co-ensino. Uma vez que a combinação interdisciplinar permite todas as possibilidades, é necessário tempo e previsibilidade para a construção de projectos que considerem o perfil dos professores, as instalações e os respectivos horários; e essas variáveis não só não se definem por decreto, como oxigenam a inovação, a autonomia e a responsabilidade.


Estando aqui, importa precisar estilos de ensino sem engavetar teorias. O triângulo decisivo - alunos, professores e conhecimentos - é intemporal "como percebeu Hubert Hannoun". A ultrapassagem dos conflitos e contradições da educação, e da tensão da relação pedagógica (professor-aluno), tem os conhecimentos como mediadores e data e reequilibra três propostas: pedocentrismo, magistercentrismo e rogerianismo.


Finalmente, se também urge, como a pandemia revelou, uma escola que não substitua a sociedade e que integre no currículo as sessões realizadas fora da escola desde que reconhecidas pelos professores, então estamos no domínio da consolidação democrática. Mas para tudo isto, é essencial que o Professor volte a liderar a ideia de escola. Aliás, "um dos motivos pelos quais é tão difícil prever qual será o final da nossa história com a Inteligência Artificial prende-se com o facto desta história não ser apenas sobre máquinas. Também é uma história sobre seres humanos" (Kai-Fu Lee em "as superpotências da inteligência artificial - a china, silicon valley e a nova ordem mundial").


Nota: neoluditas são aqueles que se opõem às novas tecnologias e/ou às novas relações laborais que delas decorrem.


Este texto foi publicado pelo Público em 7 de Setembro de 2020. De acordo com o combinado, agendei a sua publicação aberta no blogue para o dia 8 de Setembro de 2020.

sexta-feira, 30 de abril de 2021

Semântica e Sintaxe

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O texto de John Searle do livro "Mente, Cérebro e Ciência" ajudar a explicar o desinvestimento (que também se expressa nas inutilidades que o poder central exporta incessantemente) na escola pública em Portugal.


Fica-se com a ideia que os sucessivos governantes não conhecem a semântica que envolve as escolas portuguesas: ficam, quando muito, pela sintaxe.

Ora leia. 



"A razão por que nenhum programa de computador pode alguma vez ser uma mente é simplesmente porque um programa de computador é apenas sintáctico, e as mentes são mais do que sintácticas. As mentes são semânticas, no sentido de que possuem mais do que uma estrutura formal, têm um conteúdo.
Para ilustrar este ponto, concebi uma certa experiência intelectual. Imaginemos que um grupo de programadores de computador escreveu um programa que capacitará um computador para simular a compreensão do chinês. Assim, por exemplo, se ao computador se puser uma questão em chinês, ele conferirá a questão com a sua memória ou a base de dados e produzirá respostas apropriadas para as perguntas em chinês. Suponhamos, em vista da discussão, que as respostas do computador são tão boas como as de um falante chinês nativo. Ora bem, entenderá o computador, nesta base, o chinês tal como os falantes chineses entendem o chinês? Bem, imaginemos que alguém está fechado num quarto e que neste quarto há vários cestos cheios de símbolos chineses. Imaginemos que alguém, como eu, não compreende uma palavra de chinês, mas que lhe é fornecido um livro de regras em português para manipular os símbolos chineses. As regras especificam as manipulações dos símbolos de um modo puramente formal em termos da sua sintaxe e não da sua semântica. Assim a regra poderá dizer: «Tire do cesto número 1 um símbolo esticado e ponha o junto de um símbolo encolhido do cesto número 2.» Suponhamos agora que alguns outros símbolos chineses são introduzidos no quarto e que esse alguém recebe mais regras para passar símbolos chineses para o exterior do quarto. Suponhamos que, sem ele saber, os símbolos introduzidos no quarto se chamam «perguntas» feitas pelas pessoas que se encontram fora do quarto e que os símbolos mandados para fora do quarto se chamam «respostas às perguntas». Suponhamos, além disso, que os programadores são tão bons a escrever programas e que alguém é igualmente tão bom em manipular os símbolos que muito depressa as suas respostas são indistinguíveis das de um falante chinês nativo. Lá está ele fechado no quarto manipulando os símbolos chineses e passando cá para fora símbolos chineses em resposta aos símbolos chineses que são introduzidos. [...].
Ora, o cerne da história, é apenas este: em virtude da realização de um programa formal de computador, do ponto de vista de um observador externo, esse alguém comporta se exactamente como se entendesse chinês, mas de qualquer modo não compreende uma só palavra de chinês. [...] Repetindo, um computador tem uma sintaxe, mas não uma semântica. Tudo o que a parábola do quarto chinês pretende é lembrar um facto que já conhecíamos. Entender uma língua ou, sem dúvida, ter estados mentais, implica mais do que a simples posse de um feixe de símbolos formais. Implica ter uma compreensão ou um significado associado a esses símbolos. (John Searle, Minds, Brains and Science, Cambridge [Mass.], Harvard University Press, 1984, pp.31-33; Mente, Cérebro e Ciência, trad.port., Lisboa, Ed.70, 1987, pp.39-41).


quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Semântica e Sintaxe

 


3ª edição.


 


O texto de John Searle que se encontra no livro "Mente, Cérebro e Ciência" pode ajudar a explicar o desinvestimento (que também se expressa nas inutilidades que o poder central exporta incessantemente) na escola pública em Portugal.
Fica-se com a ideia que os sucessivos governantes não conhecem a semântica que envolve as escolas portuguesas: ficam, quando muito, pela sintaxe.
Ora leia. 



"A razão por que nenhum programa de computador pode alguma vez ser uma mente é simplesmente porque um programa de computador é apenas sintáctico, e as mentes são mais do que sintácticas. As mentes são semânticas, no sentido de que possuem mais do que uma estrutura formal, têm um conteúdo.
Para ilustrar este ponto, concebi uma certa experiência intelectual. Imaginemos que um grupo de programadores de computador escreveu um programa que capacitará um computador para simular a compreensão do chinês. Assim, por exemplo, se ao computador se puser uma questão em chinês, ele conferirá a questão com a sua memória ou a base de dados e produzirá respostas apropriadas para as perguntas em chinês. Suponhamos, em vista da discussão, que as respostas do computador são tão boas como as de um falante chinês nativo. Ora bem, entenderá o computador, nesta base, o chinês tal como os falantes chineses entendem o chinês? Bem, imaginemos que alguém está fechado num quarto e que neste quarto há vários cestos cheios de símbolos chineses. Imaginemos que alguém, como eu, não compreende uma palavra de chinês, mas que lhe é fornecido um livro de regras em português para manipular os símbolos chineses. As regras especificam as manipulações dos símbolos de um modo puramente formal em termos da sua sintaxe e não da sua semântica. Assim a regra poderá dizer: «Tire do cesto número 1 um símbolo esticado e ponha o junto de um símbolo encolhido do cesto número 2.» Suponhamos agora que alguns outros símbolos chineses são introduzidos no quarto e que esse alguém recebe mais regras para passar símbolos chineses para o exterior do quarto. Suponhamos que, sem ele saber, os símbolos introduzidos no quarto se chamam «perguntas» feitas pelas pessoas que se encontram fora do quarto e que os símbolos mandados para fora do quarto se chamam «respostas às perguntas». Suponhamos, além disso, que os programadores são tão bons a escrever programas e que alguém é igualmente tão bom em manipular os símbolos que muito depressa as suas respostas são indistinguíveis das de um falante chinês nativo. Lá está ele fechado no quarto manipulando os símbolos chineses e passando cá para fora símbolos chineses em resposta aos símbolos chineses que são introduzidos. [...].
Ora, o cerne da história, é apenas este: em virtude da realização de um programa formal de computador, do ponto de vista de um observador externo, esse alguém comporta se exactamente como se entendesse chinês, mas de qualquer modo não compreende uma só palavra de chinês. [...] Repetindo, um computador tem uma sintaxe, mas não uma semântica. Tudo o que a parábola do quarto chinês pretende é lembrar um facto que já conhecíamos. Entender uma língua ou, sem dúvida, ter estados mentais, implica mais do que a simples posse de um feixe de símbolos formais. Implica ter uma compreensão ou um significado associado a esses símbolos. (John Searle, Minds, Brains and Science, Cambridge [Mass.], Harvard University Press, 1984, pp.31-33; Mente, Cérebro e Ciência, trad.port., Lisboa, Ed.70, 1987, pp.39-41).


domingo, 26 de novembro de 2017

É o OE2018, a seca, o black friday, o zimbabwe e os professores

 


 


 


"Assim vai o mundo", era o título do documentário que antecedia os filmes, nas salas de cinema, quando era miúdo. Ficávamos a conhecer os temas principais do mundo noticioso. Entrei há pouco no Público on-line e não resisti a captar a página inicial; tem uma espécie de documentário com um panorama do mundo em cinco tópicos cimeiros: OE2018, Seca, Black Friday, Zimbabwe e, claro, Professores.


 


 


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quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Lá regressa o futebol

 


 


 


 


Faço diariamente viagens curtas (5 minutos) de automóvel com a companhia das Antenas 1 e 2 e da TSF. Exceptuando a Antena 2, o ambiente é de polémica mediática. No início do mês, a exclusão dos professores no relógio do descongelamento das carreiras silenciava consciências distraídas. A imposição da presença do Governo na mesa negocial, convocou a turba do arremesso ao professor. Como regressa o campeonato de futebol, e pelo que percebi com uma greve de árbitros, o sobreaquecimento mudará a agulha até porque os opinadores circulam credenciados pela tudologia.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Do mundo mediático e dos professores

 


 


 


 


Os professores são muitos (57% da administração central), ficam mais à mão em termos financeiros e ponto final; o resto é ruído. O Governo excluiu os professores e estes reagiram. Um Governo democrático negoceia, corrige e procura uma solução digna enquadrada na política financeira e orçamental. Os professores (99 mil do quadro contra 145 mil em 2006) estão no lugar cimeiro dos cortes na administração pública. Não reivindicam 9 mil milhões de retroactivos, quantia equivalente à autorização do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira para os pagamentos antecipados ao FMI - 9.400 milhões, 60% do empréstimo - ou a quase metade da ajuda à banca. Mas isso, os mediáticos irritados silenciam. Nem sequer estudam o resultado salarial dos descongelamentos ou comparam os detalhes das carreiras. Aliás, um dos mais benevolentes insinuou, no decadente eixo-do-mal, que os professores deviam ter rejeitado, veja-se bem, os cortes a eito e apagou o momento mais difícil que ocorreu em Junho de 2013.



Quando se percebeu a exclusão dos professores, surgiram novos geringonceiros dos sítios mais improváveis. Regressaram à base com o andar da carruagem. O livro "On bullshit”" ("Conversa da treta", na tradução), do filósofo americano Harry Frankfurt, explica o fenómeno irritadiço. O “bullshit é mais ameaçador para a verdade do que a mentira e é objecto de uma estranha tolerância. Aumentou muito porque se exige opinião sobre tudo, mesmo sobre o que não se sabe. O mundo dos media constitui um inigualável caldo de cultura “bullshit“”. A coisa está tão no fundo, que num debate na televisão pública - com o nome sintomático, "O último apaga a luz" - um interruptor (googlei a ficha técnica e tem Deus como último nome) foi taxativo: "os professores são miseráveis".


 


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 Imagem encontrada na internet
sem referência ao autor

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Da renascença em tempos de web summit

 


 


 


A generalização dos motores de pesquisa já tem uma história e inquieta os que se preocupam com as aprendizagens das novas gerações. O google, por exemplo, é uma ferramenta poderosíssima para os adultos e muito questionável para os mais jovens. Ora leia a entrevista a Umberto Eco.


Umberto Eco. "O Google é uma tragédia para os jovens".




"(...)O Google cria uma lista, mas no momento em que olho para a lista que o Google gerou, ela já mudou. Essas listas podem ser perigosas - não para os adultos como eu, que adquiriram conhecimento de outro modo -, mas para os jovens, para quem o Google é uma tragédia. As escolas deveriam ensinar a arte da discriminação. (...).A educação deveria regressar às estratégias das oficinas da Renascença. Aí, os mestres podiam não ser capazes de explicar aos alunos por que razão uma pintura era boa em termos teóricos, mas faziam-no de maneiras mais práticas. Olha, isto é o aspecto que o teu dedo pode ter e este é aquele que deve ter. Olha, esta é uma boa combinação de cores. A mesma abordagem deveria ser utilizada nas escolas quando se lida com a internet. O professor deveria dizer: "Escolham qualquer assunto: a história da Alemanha ou a vida das formigas. Pesquisem em 25 páginas web diferentes, comparando-as, e tentem descobrir qual tem informação importante e pertinente". Se dez páginas disserem a mesma coisa, pode ser sinal de que essa informação está correcta. Mas isso também pode acontecer porque alguns sites se limitaram a copiar os erros dos outros.(...)"


quarta-feira, 27 de abril de 2016

Sintaxe e semântica

 


 


 


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O texto de John Searle que se encontra no livro "Mente, Cérebro e Ciência" pode ajudar a explicar o desinvestimento (que também se expressa nas inutilidades que o poder central exporta incessantemente) na escola pública em Portugal.

Fica-se com a ideia que os sucessivos governantes não conhecem a semântica que envolve as escolas portuguesas: ficam, quando muito, pela sintaxe.

Ora leia. 




"A razão por que nenhum programa de computador pode alguma vez ser uma mente é simplesmente porque um programa de computador é apenas sintáctico, e as mentes são mais do que sintácticas. As mentes são semânticas, no sentido de que possuem mais do que uma estrutura formal, têm um conteúdo.
Para ilustrar este ponto, concebi uma certa experiência intelectual. Imaginemos que um grupo de programadores de computador escreveu um programa que capacitará um computador para simular a compreensão do chinês. Assim, por exemplo, se ao computador se puser uma questão em chinês, ele conferirá a questão com a sua memória ou a base de dados e produzirá respostas apropriadas para as perguntas em chinês. Suponhamos, em vista da discussão, que as respostas do computador são tão boas como as de um falante chinês nativo. Ora bem, entenderá o computador, nesta base, o chinês tal como os falantes chineses entendem o chinês? Bem, imaginemos que alguém está fechado num quarto e que neste quarto há vários cestos cheios de símbolos chineses. Imaginemos que alguém, como eu, não compreende uma palavra de chinês, mas que lhe é fornecido um livro de regras em português para manipular os símbolos chineses. As regras especificam as manipulações dos símbolos de um modo puramente formal em termos da sua sintaxe e não da sua semântica. Assim a regra poderá dizer: «Tire do cesto número 1 um símbolo esticado e ponha o junto de um símbolo encolhido do cesto número 2.» Suponhamos agora que alguns outros símbolos chineses são introduzidos no quarto e que esse alguém recebe mais regras para passar símbolos chineses para o exterior do quarto. Suponhamos que, sem ele saber, os símbolos introduzidos no quarto se chamam «perguntas» feitas pelas pessoas que se encontram fora do quarto e que os símbolos mandados para fora do quarto se chamam «respostas às perguntas». Suponhamos, além disso, que os programadores são tão bons a escrever programas e que alguém é igualmente tão bom em manipular os símbolos que muito depressa as suas respostas são indistinguíveis das de um falante chinês nativo. Lá está ele fechado no quarto manipulando os símbolos chineses e passando cá para fora símbolos chineses em resposta aos símbolos chineses que são introduzidos. [...].
Ora, o cerne da história, é apenas este: em virtude da realização de um programa formal de computador, do ponto de vista de um observador externo, esse alguém comporta se exactamente como se entendesse chinês, mas de qualquer modo não compreende uma só palavra de chinês. [...] Repetindo, um computador tem uma sintaxe, mas não uma semântica. Tudo o que a parábola do quarto chinês pretende é lembrar um facto que já conhecíamos. Entender uma língua ou, sem dúvida, ter estados mentais, implica mais do que a simples posse de um feixe de símbolos formais. Implica ter uma compreensão ou um significado associado a esses símbolos. (John Searle, Minds, Brains and Science, Cambridge [Mass.], Harvard University Press, 1984, pp.31-33; Mente, Cérebro e Ciência, trad.port., Lisboa, Ed.70, 1987, pp.39-41).


sábado, 26 de dezembro de 2015

sintaxe e semântica

 


 


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O texto de John Searle que pode ler mais abaixo, e que se encontra no livro "Mente, Cérebro e Ciência", ajuda a explicar o desinvestimento (que também se expressa nas inutilidades que o poder central exporta incessantemente) na escola pública em Portugal.


 


Fica-se com a certeza que os sucessivos "habitantes" do MEC não conhecem a semântica que envolve as escolas portuguesas: ficam, quando muito, pela sintaxe.


 



"A razão por que nenhum programa de computador pode alguma vez ser uma mente é simplesmente porque um programa de computador é apenas sintáctico, e as mentes são mais do que sintácticas. As mentes são semânticas, no sentido de que possuem mais do que uma estrutura formal, têm um conteúdo.


Para ilustrar este ponto, concebi uma certa experiência intelectual. Imaginemos que um grupo de programadores de computador escreveu um programa que capacitará um computador para simular a compreensão do chinês. Assim, por exemplo, se ao computador se puser uma questão em chinês, ele conferirá a questão com a sua memória ou a base de dados e produzirá respostas apropriadas para as perguntas em chinês. Suponhamos, em vista da discussão, que as respostas do computador são tão boas como as de um falante chinês nativo. Ora bem, entenderá o computador, nesta base, o chinês tal como os falantes chineses entendem o chinês? Bem, imaginemos que alguém está fechado num quarto e que neste quarto há vários cestos cheios de símbolos chineses. Imaginemos que alguém, como eu, não compreende uma palavra de chinês, mas que lhe é fornecido um livro de regras em português para manipular os símbolos chineses. As regras especificam as manipulações dos símbolos de um modo puramente formal em termos da sua sintaxe e não da sua semântica. Assim a regra poderá dizer: «Tire do cesto número 1 um símbolo esticado e ponha o junto de um símbolo encolhido do cesto número 2.» Suponhamos agora que alguns outros símbolos chineses são introduzidos no quarto e que esse alguém recebe mais regras para passar símbolos chineses para o exterior do quarto. Suponhamos que, sem ele saber, os símbolos introduzidos no quarto se chamam «perguntas» feitas pelas pessoas que se encontram fora do quarto e que os símbolos mandados para fora do quarto se chamam «respostas às perguntas». Suponhamos, além disso, que os programadores são tão bons a escrever programas e que alguém é igualmente tão bom em manipular os símbolos que muito depressa as suas respostas são indistinguíveis das de um falante chinês nativo. Lá está ele fechado no quarto manipulando os símbolos chineses e passando cá para fora símbolos chineses em resposta aos símbolos chineses que são introduzidos. [...].


Ora, o cerne da história, é apenas este: em virtude da realização de um programa formal de computador, do ponto de vista de um observador externo, esse alguém comporta se exactamente como se entendesse chinês, mas de qualquer modo não compreende uma só palavra de chinês. [...] Repetindo, um computador tem uma sintaxe, mas não uma semântica. Tudo o que a parábola do quarto chinês pretende é lembrar um facto que já conhecíamos. Entender uma língua ou, sem dúvida, ter estados mentais, implica mais do que a simples posse de um feixe de símbolos formais. Implica ter uma compreensão ou um significado associado a esses símbolos. (John Searle, Minds, Brains and Science, Cambridge [Mass.], Harvard University Press, 1984, pp.31-33; Mente, Cérebro e Ciência, trad.port., Lisboa, Ed.70, 1987, pp.39-41).


sábado, 31 de outubro de 2015

por que é que os professores só pensam na "fuga?

 


 


 


Impressiona o clima de "fuga" de professores e conhecem-se as causas: cortes a eito, desconfiança e degradação do estatuto da carreira. Mas há no universo organizacional muito a fazer, desde logo na opção pela supressão de procedimentos em vez da substituição, manutenção ou aumento. Há procedimentos de obtenção de informação, alguns sem sequer suporte no código de procedimento administrativo, que existem por "negligência" informacional e que não suportam qualquer tomada de decisão. Os momentos de passagem para as "modernas" plataformas digitais, podem ser, por exemplo, oportunidades de supressão.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

fechaduras

  


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


1ª  edição em 19 de Abril de 2009.


 


 


 


No dia da inauguração da Escola Básica Integrada de Santo Onofre, a 10 de Setembro de 1993, ocorreu uma pacífica invasão da comunidade tal era a curiosidade em conhecer uma escola que nasceu numa zona que há muito ansiava por uma estabelecimento de ensino com aquelas características. Um detalhe interessante desse dia marcado por uma natural euforia, constou do seguinte: cada fechadura, da grande maioria das cerca de duzentas portas do estabelecimento de ensino, tinha três chaves metidas numa argola e uma delas inserida na própria fechadura; nenhuma identificada. Uma zelosa funcionária da escola, e receosa pela sobrevivência das ditas, meteu-as todas num mesmo saco. Rico sarilho.


 


Durou anos o processo de ordenação dos chaveiros gerais e sectoriais e a necessária identificação de todas as chaves e portas.


 


Mas por incrível que possa parecer, mesmo o processo organizacional descrito foi ficando obsoleto.


 


E porquê?


 


É já bastante conhecido o modelo singular que caracteriza o ambiente organizacional que esta escola oferece no âmbito da sociedade da informação e do conhecimento. Foi tudo construído paulatinamente e do modo mais cooperativo que tive oportunidade de conhecer. Por isso as constantes visitas externas e o reconhecimento de governantes e de empresas especializadas, algumas de âmbito internacional, que se mostraram interessados em conhecer esta originalidade "in loco".


 


E já se sabe que a sociedade em rede exige transparência e alarga os conceitos de "espaço aberto". A rede administrativa chega a ter mais de uma centena de terminais a operar em simultâneo, permitindo aos utilizadores o acesso à informação em tempo real e apenas condicionado aos privilégios de acesso das suas "palavras chave".


 


Também as instalações foram cobertas, desde cedo, pelos mais modernos sistema de segurança electrónica.


 


Existe um local e um objecto que continuam a requer especiais cuidados de segurança: o cofre que se situa nas instalações dos serviços administrativos e o computador servidor das diversas redes informáticas que, estando nas mesmas instalações, é objecto dos denominados "processos de cópias de segurança" realizados diariamente.


 


Tudo isto se instituiu como um metabolismo devidamente testado e certificado que durou até ao presente.


 


Agora imagine-se que umas pessoas, que nunca tiveram o mais pequeno contacto com esta singular realidade, se consideravam capazes de dirigir este exigente conjunto de procedimentos e que tomavam como uma das primeiras e únicas medidas a seguinte: mudar as fechaduras das portas de acesso ao gabinete do Conselho Executivo. Isso não auguraria nada de bom.

sábado, 6 de junho de 2015

do óbvio, da internet e do intemporal

 


 


 


 


É interessante esta entrevista a Humberto Eco onde o jornalista salientou uma frase que tem tanto de óbvio como de intemporal: "A internet é perigosa para o ignorante e útil para o sábio".


 


Foi George Orwell quem disse que "descemos a um ponto tal que a reafirmação do óbvio é o primeiro dever dos homens inteligentes" e, apesar de Humberto Eco não se estar a referir a um momento de descida profunda, podemos considerar óbvias e intemporais as suas conclusões. Retirei dois parágrafos.


 


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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Da guerra aos professores: números e curiosidades

 


 


 


 


A guerra aos professores, confessada por António Costa do PS, foi declarada em 2006 e prossegue. Tem tido picos. Nuno Crato perpetrou o mais elevado e sairá ao nível de Lurdes Rodrigues.


 


Do primeiro dia de aulas de 2006/07 até ontem, leccionei 2976 aulas a 1176 alunos (não contabilizei as inúmeras substituições).


 


Como sou sempre o primeiro a chegar à aula (e com os alunos da puberdade a preparação do espaço nos intervalos, se existirem, ajuda muito) e o último a sair (na minha disciplina a eficiência tem, desde sempre e também nestes mais de 30 anos de professor, uma relação directa com a eficácia e não é uma qualquer epifania tardia), organizei 94310 minutos e meio da actividades lectivas como tempo potencial de aprendizagem. Durante esse tempo, seleccionei exercícios critério das seguintes unidades didácticas: atletismo (872), basquetebol (1213), dança moderna (24), exploração da natureza (22), futebol (979), ginástica (2051), jogos pré-desportivos com inclusão do andebol e do badminton (570), natação (55) e voleibol (950).


 


Estou a obter informação num software que criei para a gestão das aulas e para a avaliação dos alunos.


 


Os relatórios ficam à distância de um clique e da necessidade de informação para apoio à tomada de decisões. Podia divulgar as notas que dei, o tempo dos exercícios critério de cada unidade didáctica, o número de raparigas e rapazes, os anos de nascimento e por aí fora. Não estou a usar folhas excel nem calculadoras. É quase uma década com lançamento de dados em todas as aulas.


 


E é interessante olhar para o que é que os atacantes dos professores fizeram nos domínios da organização e da gestão escolar nesse período. Era importante que esses beligerantes prestassem contas no domínio da eliminação da hiperburocratização, analógica e digital, com que inundaram as escolas e que não tergiversassem com simulações de autonomia no regime mais do mesmo desta vez disfarçada de municipalização rumo à sacrossanta privatização. Aliás, há três certezas sobre o desempenho do mainstream: parou no século passado, é avesso a procedimentos que dão mesmo trabalho e que produzem conhecimento e lançou o país no estado em que estamos.


 


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Parte do layout do sumário dos projectos de aula - base de dados construída em filemaker. 

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

do conhecimento

 


 


 


 


A generalização dos motores de pesquisa começa a ter história e a preocupar os que se inquietam com as aprendizagens das novas gerações. O google, por exemplo, é uma ferramenta poderosíssima para os adultos e muito questionável para os mais jovens. Ora leia a entrevista a Umberto Eco.


 


 



Umberto Eco. "O Google é uma tragédia para os jovens".


 


"(...) Sim, no caso do Google, ambos os conceitos convergem. O Google cria uma lista, mas no momento em que olho para a lista que o Google gerou, ela já mudou. Essas listas podem ser perigosas - não para os adultos como eu, que adquiriram conhecimento de outro modo -, mas para os jovens, para quem o Google é uma tragédia. As escolas deveriam ensinar a arte da discriminação. (...). A educação deveria regressar às estratégias das oficinas da Renascença. Aí, os mestres podiam não ser capazes de explicar aos alunos por que razão uma pintura era boa em termos teóricos, mas faziam-no de maneiras mais práticas. Olha, isto é o aspecto que o teu dedo pode ter e este é aquele que deve ter. Olha, esta é uma boa combinação de cores. A mesma abordagem deveria ser utilizada nas escolas quando se lida com a internet. O professor deveria dizer: "Escolham qualquer assunto: a história da Alemanha ou a vida das formigas. Pesquisem em 25 páginas web diferentes, comparando-as, e tentem descobrir qual tem informação importante e pertinente". Se dez páginas disserem a mesma coisa, pode ser sinal de que essa informação está correcta. Mas isso também pode acontecer porque alguns sites se limitaram a copiar os erros dos outros. (...)"


 


 


 


sexta-feira, 28 de novembro de 2014

das relações

 


 


 


 


Mesmo numa lógica de conhecimento sumário e introdutório, deve precisar-se que agir sobre a informação é não só atuar sobre os dados obtidos, mas proceder sobre as relações que se estabelecem, “(...) ou seja, sobre os padrões coletivos ou individuais de formatação e através deles sobre a perceção do real e sobre a ação que dela decorre (...)” Rascão (2004, pág. 21).

quinta-feira, 10 de abril de 2014

da internet, do óbvio e do intemporal

 


 


 


É interessante esta entrevista a Humberto Eco onde o jornalista salientou uma frase que tem tanto de óbvio como de intemporal: "A internet é perigosa para o ignorante e útil para o sábio".


 


Foi George Orwell quem disse que "descemos a um ponto tal que a reafirmação do óbvio é o primeiro dever dos homens inteligentes" e, apesar de Humberto Eco não se estar a referir a um momento de descida profunda, podemos considerar óbvias e intemporais as suas conclusões. Retirei dois parágrafos.


 


 




 


 


 


 


 


 

segunda-feira, 17 de março de 2014

do criador da Siri

 


 


 


 


 


O ambiente de sociedade de informação nas organizações escolares deve incidir na simplificação dos procedimentos informacionais que envolvem os professores e os restantes profissionais.


 


Se isso acontecer, está dado um primeiro e fundamental passo para que as tecnologias e o software só entrem nas salas de aula de forma sensata e com alergia aos modismos.


 


"O criador da Siri, a aplicação que serve de assistente pessoal no iPhone e que a Apple comprou por 200 milhões de dólares, veio a Portugal dar conselhos de empreendedorismo" e apresentou a seguinte conclusão:


 


 



 

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

semântica e sintaxe

 


 


 



 


 


 


O texto de John Searle que se encontra no livro "Mente, Cérebro e Ciência" pode ajudar a explicar o desinvestimento (que também se expressa nas inutilidades que o poder central exporta incessantemente) na escola pública em Portugal.


 


Fica-se com a certeza que os sucessivos "habitantes" do MEC não conhecem a semântica que envolve as escolas portuguesas: ficam, quando muito, pela sintaxe.


 


Ora leia.


 


 


"A razão por que nenhum programa de computador pode alguma vez ser uma mente é simplesmente porque um programa de computador é apenas sintáctico, e as mentes são mais do que sintácticas. As mentes são semânticas, no sentido de que possuem mais do que uma estrutura formal, têm um conteúdo.


Para ilustrar este ponto, concebi uma certa experiência intelectual. Imaginemos que um grupo de programadores de computador escreveu um programa que capacitará um computador para simular a compreensão do chinês. Assim, por exemplo, se ao computador se puser uma questão em chinês, ele conferirá a questão com a sua memória ou a base de dados e produzirá respostas apropriadas para as perguntas em chinês. Suponhamos, em vista da discussão, que as respostas do computador são tão boas como as de um falante chinês nativo. Ora bem, entenderá o computador, nesta base, o chinês tal como os falantes chineses entendem o chinês? Bem, imaginemos que alguém está fechado num quarto e que neste quarto há vários cestos cheios de símbolos chineses. Imaginemos que alguém, como eu, não compreende uma palavra de chinês, mas que lhe é fornecido um livro de regras em português para manipular os símbolos chineses. As regras especificam as manipulações dos símbolos de um modo puramente formal em termos da sua sintaxe e não da sua semântica. Assim a regra poderá dizer: «Tire do cesto número 1 um símbolo esticado e ponha o junto de um símbolo encolhido do cesto número 2.» Suponhamos agora que alguns outros símbolos chineses são introduzidos no quarto e que esse alguém recebe mais regras para passar símbolos chineses para o exterior do quarto. Suponhamos que, sem ele saber, os símbolos introduzidos no quarto se chamam «perguntas» feitas pelas pessoas que se encontram fora do quarto e que os símbolos mandados para fora do quarto se chamam «respostas às perguntas». Suponhamos, além disso, que os programadores são tão bons a escrever programas e que alguém é igualmente tão bom em manipular os símbolos que muito depressa as suas respostas são indistinguíveis das de um falante chinês nativo. Lá está ele fechado no quarto manipulando os símbolos chineses e passando cá para fora símbolos chineses em resposta aos símbolos chineses que são introduzidos. [...].


Ora, o cerne da história, é apenas este: em virtude da realização de um programa formal de computador, do ponto de vista de um observador externo, esse alguém comporta se exactamente como se entendesse chinês, mas de qualquer modo não compreende uma só palavra de chinês. [...] Repetindo, um computador tem uma sintaxe, mas não uma semântica. Tudo o que a parábola do quarto chinês pretende é lembrar um facto que já conhecíamos. Entender uma língua ou, sem dúvida, ter estados mentais, implica mais do que a simples posse de um feixe de símbolos formais. Implica ter uma compreensão ou um significado associado a esses símbolos. (John Searle, Minds, Brains and Science, Cambridge [Mass.], Harvard University Press, 1984, pp.31-33; Mente, Cérebro e Ciência, trad.port., Lisboa, Ed.70, 1987, pp.39-41).