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terça-feira, 13 de janeiro de 2026

"Tudo deve mudar para que tudo fique como está"


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Nestes momentos de negociação entre governos e sindicatos, há um histórico que me recorda sempre o escritor italiano Giuseppe Lampedusa: "tudo deve mudar para que tudo fique como está". É exactamente o que não pode acontecer.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

O caricato tema dos sumários sintetiza o que os estudos dizem há mais de uma década: "há uma organização do trabalho que adoece os professores".

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O caricato tema dos sumários sintetiza o que os estudos dizem há mais de uma década: "há uma organização do trabalho que adoece os professores". E se estão mais do que identificadas as causas organizacionais e relacionais que colocaram Portugal no topo dessa patologia, os governantes espantosamente ignoram-nas ou não sabem o que fazer. Mas o mais grave é que as acentuam com estas decisões, quando a fuga dos professores ao ensino já é declarada até pela maioria dos mais jovens com 5 ou menos anos de serviço.


E o leitor menos versado nestas questões interrogar-se-á: mas os professores não preenchem os sumários e não devem receber o salário se não o fizerem? E se se sabe a quem pagar horas extraordinárias - e quantas -, são precisos os sumários para se conhecer o número de horários sem professor? A resposta às questões é simples: esta decisão é caricata e não são necessários os sumários para se saber quantos horários estão sem professor.


De facto, os professores faziam os sumários analógicos desde que há escolas e era um registo mais simbólico do que outra coisa qualquer. Aliás, desde que há escolas que os professores sabem que prestam duas contas, desde que legalmente convocados, a qualquer momento: como gerem o programa que leccionam e como avaliam os alunos. Estes sumários digitais são um picar do ponto e uma síntese da aula associada à marcação das faltas aos alunos. Nem sequer permitem que o professor consulte os seus históricos. Os professores usam o conceito de sumário para informar os alunos, mas têm outros modos de controlar o planeamento. E nem sequer as escolas consultam os sumários para saber se um professor faltou - como também não o faziam no tempo dos livros de ponto.


Mas com a inserção dos horários dos professores em plataformas digitais, os sumários seguiram o mesmo caminho. Passaram a ter um limite temporal - a falha exige justificação - para o preenchimento em ambientes de exasperante lentidão, ou de interrupção de servidores e de sinal de internet. Em regra, o sumário tornou-se mais um trabalho de casa.


Interrogar-se-á ainda o leitor: mas como é que se marcam as faltas dos professores? As faltas são, e bem, sinalizadas por assistentes administrativos e operacionais. Mal seria se numa escola não se conhecesse em tempo real, e sem o digital, a falta de um professor.


Claro que o fenómeno tem vários e importantes ângulos de análise. Fiquemos por três.


1. O conhecido ambiente de caos informacional nas escolas, que incluiu a decisão de digitalizar sumários, sumaria-se assim: o MECI licencia o software de empresas privadas que os agrupamentos e as escolas usam, e pagam, para a gestão de dados (e o tragicómico, é que o MECI começou, em 1998, o seu portal - denominou-o depois E360, já que ia englobar tudo - e abandonou-o em 2024 por incapacidade). E como os Governantes não indicam às empresas a informação a obter, a relacionar e a automatizar, instala-se uma balburdia informacional. As escolas mergulham num inferno de emails, onde anexam grelhas em excel ou word, e de plataformas digitais para obter dados repetidos ou inúteis em reuniões inúteis. Por precaução, os registos são ainda impressos e arquivados em infindáveis prateleiras.


2. Agravou-se porque a fatal desconfiança nos professores até saliva com o picar do ponto e com o controlo. Portugal é tristemente campeão nessa doença. Nas escolas, e ao contrário do Multibanco ou do Banco Online, a transição digital não significou eliminar procedimentos. Por exemplo, seria lógico que dos livros de ponto analógicos só transitasse o lançamento das faltas dos alunos. Mas não. Transitou tudo e o Governo carimbou os sumários digitais com um argumento tecnicamente surreal: só assim se apurará, finalmente e em 2026, quantos horários de professores estão por preencher e quantos alunos estão sem aulas; e entregou a trapalhada à KPMG (que parece que sugeriu a epifania controladora com os  sumários).


3. Por fim, a história das revoluções tecnológicas demonstra que a esperança em encurtar e frutificar o trabalho humano também levou ao seu excesso, a muita violência e ao aumento das desigualdades. Na presente revolução tecnológica correm-se riscos ainda maiores. O poder absoluto das gigantes tecnológicas, e da IA-GEN, estende-se à educação e é notório o perigo da imposição destes procedimentos.


Nota: já usei, naturalmente, muita desta argumentação ao longo dos anos.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

O Ministro da Educação propõe uma espécie de cheque-residência, ou cheque-alojamento, que é da família do comprovadamente desastroso cheque-ensino (desastroso também para os mais pobres)

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Título: O Ministro da Educação propõe uma espécie de cheque-residência, ou cheque-alojamento, que é da família do comprovadamente desastroso cheque-ensino (desastroso também para os mais pobres).


Texto:


A propósito das polémicas declarações do Ministro da Educação sobre "a degradação das residências universitárias preenchidas por estudantes dos meios mais desfavorecidos", fui ver a sua intervenção. O Ministro da Educação parece que propõe uma espécie de cheque-residência, ou cheque-alojamento, que é da família do comprovadamente desastroso cheque-ensino (desastroso também para os mais pobres). Sumariamente, se uma residência tem 100 vagas preenchidas por 100 estudantes dos meios mais desfavorecidos que pagam 90 euros mensais, o Ministro da Educação defende que isso a degrada e que a opção por uma lógica de mercado seria a solução elevatória da qualidade. A bolsa devia ser entregue aos estudantes que, em liberdade de escolha, seleccionariam o alojamento num mercado que incluiria as residências e os quartos e apartamentos privados. Tudo isto em igualdade com os estudantes dos mais diversos estratos sociais. Nesta lógica, garantir-se-ia uma mistura de estratos sociais na tal residência com 100 vagas para milhares de candidatos desfavorecidos (muitos, cada vez mais, desistem).


E antes do mais e para leitores menos versados no tema, como se comprovou com a tragédia do cheque-ensino e da liberdade de "escolha da escola", as vagas numa instituição vão sendo preenchidas por estudantes de um mesmo estrato social. O fenómeno de guetização dos mais pobres (que se auto-excluem das matrículas nas escolas dos mais ricos, mas nem sempre são menos educados ou têm menor ambição escolar) torna-se ainda mais selectivo e determinante e uma parte substancial do financiamento público beneficia os mais favorecidos e os lucros das organizações privadas de gestão. Estas ideias ultraliberais foram aplicadas também pela Suécia em meados da década de 1990 e abandonadas com estrondo há pouco tempo por queda das aprendizagens, por clivagens sociais e pela degradação do serviço associado a inaceitáveis privatizações de lucros com os orçamentos públicos para a educação (leia este texto no Público em que um ex-Ministro da Educação sueco, dos Liberais, revela o seu arrependimento (é preciso desplante)).


Mas voltando às declarações, para o Ministro da Educação, que não referiu a privatização da gestão e nem sequer, e obviamente, que os desfavorecidos vandalizam as instalações, as residências só para pobres tornam-se "menos acolhedoras" em função do escasso financiamento dos bolseiros e da incompetência da gestão (pareceu-me que a sua plateia era constituída pelos incompetentes que ainda foram acusados de não ouvirem a voz dos pobres). E aqui há dois aspectos: não sei a experiência do Ministro da Educação, mas geri uma escola pública e foi preciso muito trabalho e muita concretização de impossíveis para transformar uma "escola para pobres" numa referência em menos de uma década; e, a propósito, lembro-me que um dos vários ministros desse período disse, cheio de prosápia e num registo que criou um sentimento de revolta em quem dirigia escolas públicas, que só não contratava pessoas como João Rendeiro do BPP para gerir as escolas porque não tinha dinheiro para lhes pagar; "caiu" pouco tempo depois por causa de uma memorável incompetência política e técnica na gestão dos concursos de professores e o banqueiro teve o triste fim que se conhece; por outro lado, o Ministro da Educação devia era explicar o que se passa com o Orçamento de Estado que é onde as democracias avançadas encontraram soluções que estimulam o que se designa por elevador social.


Aliás, aconselho este texto no Público de onde colo um pedaç:


"A última vez que o investimento em educação, em percentagem do Produto Interno Bruto (PIBedu), esteve abaixo do mínimo democrático dos 3% a 4% foi em 1973, com 1,63%. Mas 52 anos depois, o executado em 2025 e o orçamentado para 2026 serão inferiores a 3%.(...)Baixar-se-á do mínimo democrático com os 7,7 mil milhões de euros orçamentados para 2026. O PIBedu cairá para cerca de 2,8%. Poderá, no final da década ou até antes, aproximar-se dos 2%.(...)"


Por outro lado, no dia 11 de Setembro de 2025 estive na SIC Notícias (aqui o vídeo) a comentar a falta estrutural de professores. Disse que o Ministro da Educação estava a manipular dados para a campanha eleitoral ao afirmar que 98% das escolas tinham todos os professores (depois de declarar que não conseguia apurar os números). Eu também disse que duas semanas depois seríamos confrontados com a realidade. E assim foi. No dia 28 de Setembro de 2025 voltei à SIC Notícias (aqui o vídeo) porque afinal 78% das escolas não tinham todos os professores.


E é isto. O debate da educação não existe ou é isto. Já em 21 de Setembro de 2024 o Ministro da Educação teve que pedir desculpas públicas por ter divulgado dados manipulados (no Expresso, onde uma semana antes se fez um destaque de primeira página com a notícia bombástica, mas falsa, da "resolução" da falta de professores). Depois, ou antes, foi, do que me lembro, o caso de um reitor no Porto e da aura. É uma sucessão de desculpas, desmentidos, esclarecimentos, precisões e por aí fora que divide ainda mais a sociedade.


Em suma, é da minha personalidade não gostar de comentar a espuma dos dias. Nem sequer é uma crítica a quem o faz. Gosto de reflectir e de tentar sintetizar. Procuro ser justo e fundamentado. Em mais de 20 anos de blogue, nunca apaguei um post por me ter precipitado ou vim desculpar-me no dia seguinte. Aliás, estas trapalhadas governativas não ajudam a democracia. Há um quadro político com queda para o ultraliberalismo, como já abordei noutros textos. Disse-o à SIC Notícias quando se conheceu a composição do Governo e tive que ir à procura do pensamento de quem foi nomeado para a educação. Não encontrei muito, mas o que li foi nesse sentido. Imagina-se que a realidade deve gerar desorientação. Naturalmente. Claro que o ministro beneficia, em termos de imagem, da aura da recuperação faseada do tempo de serviço dos professores que a crescente folga orçamental, resultante das aposentações, permite. Mas como as pessoas perdem a paciência com a inércia nos temas fundamentais, veremos o que o futuro nos reserva.




 



segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Como é que o “algoritmo” da irritação contribuiu para a fuga a ser professor com a participação da comunicação social 

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Título: Como é que o “algoritmo” da irritação contribuiu para a fuga a ser professor com a participação  da comunicação social 


Texto:


Foi em 10.06.2023 que fiz o último post sobre as investidas de Miguel Sousa Tavares (MST) sobre os professores. Prometi que seria o derradeiro. Como pode ler no link que meto no primeiro comentário, dessa vez escrevi assim: "MST mentiu sobre a avaliação dos professores e sobre a carreira(...)numa fase com milhares de professores em "fuga" e sem candidatos a essa profissão tão exigente e difícil. MST analisa sem o mais elementar conhecimento da realidade. São duas décadas desta devassa mediática da profissionalidade dos professores."


Após a recente greve geral, MST escreveu que os professores “adoram fazer greves antes do fim de semana" e que o fazem para "terem quatro dias de fim de semana". Não ia abordar o assunto, mas um comentador habitual do blogue desafiou-me e um anónimo comentou assim - subscrevo-o e transcrevo o essencial -: “Há anos que o jornalista MST, avisado noutras matérias, tem um discurso persecutório e irresponsável em relação aos professores(...)nunca fez o trabalho de casa, sempre se pronunciou com ligeireza(...)o seu discurso, mais emocional do que racional(...)nem a fuga de professores ao sistema o fazem questionar-se, se ser professor é um festim como ele diz, por que razão não há fila de espera?”


E lembrei-me de um podcast - no "Vale a pena", de Mariana Alvim, ou no "Fala com ela", de Inês Meneses - em que ouvi o maestro Martim Sousa Tavares, filho de MST, explicar, com desconforto, estas investidas: "ainda noutro dia falámos disso ao almoço. Acho que o faz só para irritar".


Se a ideia é irritar, consegue quase a unanimidade junto dos professores - claro que haverá professores laranjas que agora justificam as investidas, como antes houve professores rosas que o terão feito.


Usar a irritação e o ódio é destrutivo e deslaça as sociedades, mas granjeia popularidade se se escolher bem os alvos. MST, e muito comentário da bolha político-mediática, foi percursor dessa realidade e também usou informação falsa.


Em síntese, a escolha de MST tem as características do fenómeno que está a degradar as democracias (e repetindo alguma argumentação): as gigantes tecnológicas, que dominam as redes sociais, criaram algoritmos que destacam posts com mensagens, que podem ser falsas, de ódio e irritação. Servem-se do perfil dos utilizadores para os viciarem. Há muito que se sabe tudo isto e há muitos testemunhos de programadores destacados que discordaram e se afastaram. Os criadores das mensagens irritantes usam o racismo, a xenofobia, a misoginia, as informações falsas e por aí fora, no que se tornou no exercício favorito da extrema-direita e das autocracias mais poderosas que tudo fazem para desestabilizar as democracias ocidentais. É uma luta muito desigual, até porque quantos mais posts denunciadores se faz mais se alimenta o monstro.


E no pior que tem o sistema, destaca-se diariamente a decadência que chefia os EUA (ainda esta semana fez uma declaração de irritação e ódio a lamentar-se que não cheguem aos EUA "imigrantes da Noruega ou da Suécia e só apareçam os repugnantes - e mais umas classificações aberrantes - somalis"). Aliás, o pequeno Tutti-frutti da Lusitânia usa os bengalis com o mesmo fim de irritação tiktokiana e não se pode dizer que as gigantes tecnológicas, nem as instituições democráticas, onde se inclui a comunicação social, não estavam informadas.


Em suma, o “algoritmo” da irritação contribuiu para a fuga a ser professor com a participação da comunicação social.


Nota: não voltarei ao tema MST.



 

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Um país a várias velocidades


"“Sobressalto” no acesso ao ensino superior: ministério convoca instituições de ensino. Taxas de ocupação baixaram significativamente. Ministros da Educação e da Coesão vão debater a situação com nove politécnicos especialmente afectados pela quebra de alunos."


domingo, 14 de setembro de 2025

Homenageio todos os professores que lutaram durante 20 anos contra a autocracia na gestão das escolas

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Diz o Público que o "PS quer escolas a eleger a direcção em lista e evitar “contaminação” partidária""


E pesando bem as palavras, 20 anos após o início de tanta destruição na organização da escola pública e na vida pessoal e profissional de milhares de professores e de outros profissionais da educação, o PS, diz o Público, quer que "as direcções escolares deixem de ser eleitas pelo conselho geral e passem a ser um órgão colegial eleito em lista por uma assembleia eleitoral composta por todos os docentes e não docentes em serviço na escola ou agrupamento, por representantes dos encarregados de educação de cada uma das turmas e, ainda, se for no ensino secundário, pelos delegados de cada turma." Leio por aí que isto pretende ser uma antecipação ao actual Governo. Diz-se que a AD quer legislar o mesmo. Nesse caso, seria um duplo salto mortal à retaguarda, já que a AD apoiou estas políticas do PS dede 2005 (o modelo vigente entrou em vigor em 2008 e foi agravado em 2013) e agravou-as sempre que governou (e o actual Governo tem feito referência a um estatuto do director). Mais vale tarde, sei disso. Mas num caso que nunca devia ter existido, é muito tarde e com resultados irreparáveis na queda das aprendizagens e na falta estrutural de professores. Neste momento, homenageio todos os professores que lutaram durante 20 anos contra a autocracia na gestão das escolas e contra o clima de parcialidades e de anti-democráticas “contaminações político-partidárias”.


"PS quer escolas a eleger a direcção em lista e evitar “contaminação” partidária"


Pode ler que os "socialistas pretendem que direcções escolares deixem de ser eleitas pelo conselho geral e passem a ser um órgão colegial eleito em lista pela comunidade escolar. (...)É com vontade de acabar com eventuais “contaminações político-partidárias”, mas também de fazer evoluir o modelo de gestão das escolas, que o PS dá entrada a um conjunto de iniciativas no Parlamento que mudam as regras de eleição das direcções escolares e fomentam a participação no associativismo estudantil. Ao PÚBLICO, o deputado Porfírio Silva assegura tratar-se de uma mudança para uma “escola mais colaborativa e participativa”, rejeitando tratar-se de “descontinuidades radicais”. Neste projecto de lei, os socialistas prevêem que a direcção seja eleita por uma assembleia eleitoral composta por todos os docentes e não docentes em serviço na escola ou agrupamento, por representantes dos encarregados de educação de cada uma das turmas e, ainda, se for no ensino secundário, pelos delegados de cada turma. A apresentação de candidaturas deverá ser feita em lista, com indicação expressa dos candidatos a director, director-adjunto e vogais.(...)"

domingo, 24 de agosto de 2025

E os portugueses a empobrecer


"44 mil estudantes colocados no Ensino Superior: o número mais baixo em quase uma década. Sobram agora mais de 11 mil vagas para a 2ª fase, mais do dobro do ano passado. Voltou a descer o número de colocados com carências económicas. Matrículas serão entre dia 25 e 28 de agosto."



 

domingo, 27 de julho de 2025

Não é por causa da escola e do que lá se ensina numa aula semanal que os jovens eleitores se apresentam misóginos, racistas, xenófobos e violentos

 




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Não é por causa da escola e do que lá se ensina numa aula semanal da disciplina de cidadania que os jovens eleitores se apresentam misóginos, racistas, xenófobos e violentos. E também não é por causa do hardware (smartphones, tabletes ou portáteis). Há exemplos, e muitos, do bom uso educativo da tecnologia nas salas de aula. E se usarem os smartphones para telefonar e tirar fotografias ou fazer vídeos, por exemplo, não precisam de qualquer proibição. O que os aliena é o software. Proíba-se, até aos 16 anos, redes sociais em que se fica à mercê de influencers como Andrew Tate na série "Adolescência (violência no namoro e tantas outras pragas que têm regressado) e da ampliação do bullying, navegadores na internet que possibilitam a adicção em pornografia e jogos nos smartphones. É absurdo e ridículo advogar com o é "proibido proibir" fora da escola, como se a proibição de conduzir antes dos 18 anos, ou de adquirir álcool ou tabaco, não fizesse sentido. É tão absurdo como apontar a insensatez dos professores nas aulas de cidadania; e não se generalize. Actue-se em casos de insensatez. Sabe-se sempre o que se passa em cada sala de aula. Mas tudo isto não interessa à extrema-direita do tiktok (Trump confessou a importância desses eleitores e anulou, logo que foi eleito, a decisão de Biden sobre a proibição do tiktok). Por outro lado, quem é que colocou a disciplina de cidadania na agenda? Foi o marketing da divisão, do ódio, da dor (da dor das minorias alvo) e da ideia de caos. Mas isto só é possível porque o mainstream assistiu de braços cruzados, por interesses comercias e industriais, durante bem mais de uma década à adicção de crianças e de adolescentes ao software referido. E não foi por falta de avisos. É importante que se cruze o debate sobre a disciplina de um tempo semanal com o tempo de écran e com o seu conteúdo. Tudo se liga e as manobras de distracção são como os vírus: tomam sempre a dianteira.



Em suma, a sociedade tem que se envolver sem empurrar mais uma vez a responsabilidade para a escola.


 


 

quinta-feira, 24 de julho de 2025

O grave equívoco dos que sabiam como se aprende

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O grave equívoco dos que sabiam como se aprende.


Fica agora muito mais claro o que levou a classificar como neoliberais e extractivos os que diziam que se sabia como se aprende. Pois bem: se sabemos como se aprende, também temos que aceitar que se sabe como se aprende mais e mais depressa. E é bom que se saiba que é neste espaço que renascem as discriminatórias (e assutadoras) teses neoliberais que associam a inteligência - medida em testes de quociente de inteligência - à herança genética e às linhas raciais.


De facto, é fundamental repetir as categorias essenciais das políticas inclusivas.


E antes do mais e salvo melhor opinião, a desvalorização do professor foi um erro histórico participado por pedagogos. Advogou-se, como inclusivo, o radicalismo da escola centrada na aprendizagem, em oposição à escola centrada no professor. Foram extremos que se tocaram.


Verdade seja dita que se ignorou os avisos (década de 1980) de que a democracia exigia dos professores a selecção dos conteúdos (com conhecimentos, destrezas, valores e atitudes), e das formas de avaliação, que ultrapassaria a relação contraditória com os alunos. Desconstruíram-se três teses que ainda hoje se confrontam: a da harmonia, do psicoterapeuta Carl Rogers, baseada em relações individualizadas e empáticas, mas inaplicável em turmas; e duas de desequilíbrio: magistercentrismo (o professor rei de Alain, Dewey e Durkheim) e pedocentrismo (o aluno rei de Freinet, Montessori e Summerhill).


Além de tudo, e é hoje cientificamente mais claro, há diversos estilos para ensinar, mas é mais correcto falar em ignorância do que em conhecimento no que se refere ao modo como cada um aprende. Se na investigação é imperativa a busca desse conhecimento, nas políticas educativas requer-se equilíbrio e prudência. Confundiu-se ciência com o valor moral positivo dado ao estímulo para aprender, agravado com a hierarquização de estilos de aprendizagem.


A partir de dado momento, não era inclusivo treinar as memórias de médio e longo prazos nem estimular a repetição, o estudo em casa, a atenção nas aulas e até o respeito pelos professores. Nem sequer se valorizava o número de alunos por turma e perdeu-se também a articulação com a sociedade em áreas fundamentais como a saúde mental, as emoções e o sono. Aliás, o ensino superior, que "desapareceu" da formação contínua, impôs, na formação inicial, um vazio no treino de professores que aumentou o desconhecimento sobre estilos de ensino.


Por outro lado, acentuou-se o erro com a generalização nos serviços centrais do Ministério da Educação (foram anos a fio de uma mistura desastrosa de prateleiras douradas com emprego partidário) da cultura anti-professor e anti-sala de aula. Alargou-se a escolas e sindicatos e abriu-se portas a modelos autocráticos. Resultou ainda na infernal burocracia que eliminou o que restava da "confiança nos professores".


Nota: já usei estes argumentos noutros textos.

domingo, 20 de julho de 2025

Mas é óbvio que há professores pouco educados

Sempre que há um excesso nos protestos de professores, emerge de imediato uma legião de comentadores que alinha o discurso: "até concordo com as causas da sua luta, mas é inadmissível que se formem professores com estes comportamentos". Ou seja: nunca explicam as tais causas, nunca se comprometem com a defesa do exercício de professor, mas aproveitam para umas beliscadelas generalizáveis; e essa devassa mediática também explica o estado de fuga a ser professor. Não a crítica dos excessos, claro. O silêncio em tudo o resto é que isola a defesa do imperativo democrático.


Até porque é óbvio que há professores pouco educados, como nas restantes funções e profissões. Há professores que cometem crimes de dolo e de falsificação de documentos ou que se apropriam do bem comum usando os cargos que ocupam para actos parciais e de amiguismo como se fossem lugares para a vida. Mas alguém tem dúvidas disso ou da falta de eficácia e de celeridade do MP e inspecções?


É por isso que os modelos e os seus contrapesos são cruciais. Na educação, e para as funções de avaliação e administração educacionais, deu-se primazia a uma formação acrescida, em regra, irrelevante, e eliminou-se a eleição de lideranças pelo reconhecimento das características pessoais e profissionais. O que existe permite que um indivíduo dirija arbitrariamente uma organização onde nunca seria eleito pelos profissionais que a constituem; e com uma limitação de mandatos irrisória. E, sublinhe-se, que a manutenção deste modelo interessa à indústria da formação e que a coragem para desmontar esta máquina de perversidades é um dos desafios mais difíceis que Portugal tem que enfrentar na educação pública.

domingo, 22 de junho de 2025

Breve história do falhanço do digital na educação

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Breve história do falhanço do digital na educação


As tecnologias estão na educação desde o lápis de carvão. Em síntese, a pergunta a fazer é equivalente à das guitarras: não me digas a marca da tua guitarra, diz-me antes o que fazes com ela.


Na verdade, a educação, que vai muito para além da escola, é a arte do equilíbrio e da sensatez; mas não só. Exige humildade e a aplicação diária do mito de Sísifo.


As chamadas novas tecnologias estão na educação em duas redes: a de recursos administrativos, mais no universo escolar, e a de recursos educativos, na sociedade e no universo escolar.


A primeira é muito mais exigente na construção de software e muito menos lucrativa para as gigantes tecnológicas. Por isso, o caos no Ocidente na gestão de dados da educação. O investimento em software não tem retorno nos curto e médio prazos, apesar de ser crucial para a consolidação da democracia. Mas os tecnocratas desprezam esse objectivo. Aliás, foge-se a ser professor também por causa desse inferno. Não há, em resumo, algo que se assemelhe à rede multibanco, que inclui os homebanking, ou até, no nosso caso, ao portal das finanças.


A rede de recursos educativos é muito lucrativa para as gigantes tecnológicas; mais do que os drones, o comércio electrónico, o 5G ou a tele-medicina. Recorde-se as mais conhecidas componentes do negócio: um smartphone por aluno e por professor, redes sociais através de apps com software elementar e milhões de portáteis e de tabletes nas escolas para alimentar a indústria das escolas digitais e antecipar o ensino à distância. Os olhos dos neoliberais até brilham (como sempre, os nórdicos metem pedras na engrenagem).


Claro que o "reconhecimento de padrões" - mais divulgado como Inteligência Artificial (IA) - exige um outro debate. Estamos numa fase em que o pêndulo da condição humana oscila entre o pânico e a apreensão, porque as crianças e jovens das democracias ocidentais estão entregues à selva digital e com falta de professores. Mas sempre se alertou, há mais de uma década, para duas graves consequências do digital na rede de recursos educativos: conteúdos pornográficos e redes sociais. No segundo caso, foram usadas, e para além do ciberbullying, por organizações da extrema-direita com conteúdos xenófobos, racistas, misóginos e violentos e que fidelizaram eleitores logo que os jovens chegaram aos 18 anos.


E se qualquer das crises, selva digital e falta de professores, compromete o crescimento como pessoas livres respeitadas nos direitos fundamentais, a simultaneidade acentua preocupações com quatro dimensões bem identificadas: internet, recursos digitais para o ensino, "Reconhecimento de Padrões" - mais divulgado como Inteligência Artificial (IA) - e desinvestimento na Educação.


Por outro lado, já se percebeu que o que aí vem informatizará tudo o que for para informatizar, automatizará tudo o que for para automatizar e que as aplicações digitais usadas para controle e vigilância serão usadas para controle e vigilância. É o nível 4 da transição digital. O nível 5, que será longo e incerto, inclui a inteligência artificial e a robotização. Por exemplo, Luc Julia, um dos criadores da Siri da Apple, diz que não tem a certeza que queira falar com o seu frigorífico. No universo escolar, também não se terá a certeza que se queira falar com um robô como se fosse um professor que ensina e ajuda a formar a personalidade.


Como se percebe, os nórdicos estão a ser sensatos com o digital na educação. Até já regressaram fundamentadamente ao papel. Ou seja, voltam a passar ao lado de uma vaga neoliberal; a vigente; a segunda. Como referiram os prémios Nobel da economia em 2024, Acemoglu e Robinson, em "Porque falham as nações", os nórdicos passaram ao lado da primeira vaga neoliberal começada por Thatcher e Reagan e que Clinton, Blair, e Schröder continuaram.


No digital, preocupam-se com as crianças e jovens e têm há muito uma educação a tempo inteiro que mitiga a tragédia da escola a tempo inteiro. Nós estamos perdidos e completamente condicionados pelos interesses da indústria das gigantes tecnológicas que se alastrou às políticas educativas, às leis laborais, ao inverno demográfico, aos fluxos migratórios e, repita-se, à proliferação de movimentos racistas, misóginos, xenófobos e violentos.


Nota: este texto é também uma síntese de textos anteriores, aonde fui buscar algumas passagens.

quinta-feira, 19 de junho de 2025

Os professores e a enésima reforma do Estado

Se na enésima reforma do Estado a ideia fosse fazer uma justiça histórica na destruída carreira dos professores, só colocando cada professor no escalão correspondente ao tempo de serviço prestado. Ninguém seria prejudicado e dar-se-ia um passo histórico e efectivo numa encruzilhada administrativa calamitosa, em que cada professor é um caso com histórias de injustiças, ultrapassagens, esquecimentos e sonegações. De facto, a destruída carreira dos professores é um labirinto que desespera por uma simplificação. E uma carreira decente na linha das melhores práticas europeias, exclui farsas administrativas na avaliação do desempenho e inclui um respeito escrupuloso pela diminuição do número de horas lectivas e das restantes tarefas escolares à medida que a idade aumenta. E ao contrário do que se propagou no início do milénio em que se desvalorizou a experiência profissional, as melhores práticas salariais dos professores (que pode consultar no site, "Quanto ganha um médico, professor, bancário ou polícia no Luxemburgo?", que sugiro) "praticam 7.052 euros por mês no início de carreira (que aumenta a cada ano adicional de experiência profissional), 8.400 euros após cinco anos de experiência e 9.000 euros após nove anos de exercício."

Avaliação de professores - Texto de Mário Silva


Avaliação de professores - Texto de Mário Silva


"Este mês é a época da aplicação da ADD (Avaliação da Desmotivação) nas escolas, com as SAD a reunir informalmente para distribuir as quotas de mérito, com base em critérios ‘achistas’ e de informação de bastidores, com inquéritos informais a docentes sobre opiniões de desempenho dos colegas. A todos os docentes e direções envolvidos no processo, uma reflexão: 75% dos docentes avaliados não têm mérito; se estes docentes trabalhassem zelosamente de acordo com a falta de mérito, as escolas bloqueavam ou ficariam muitas atividades por concretizar. A prioridade é que as escolas continuem a proporcionar as condições que a sociedade não proporciona aos jovens ou é poupar nos salários e posteriormente nas pensões de reforma? Se querem motivar, há ações juridicas que podem ser concretizadas na escola para mitigar a estupidez legislativa.“Para bom entendedor, meia palavra basta”."


quarta-feira, 18 de junho de 2025

Agora, a casa está a arder

Agora, a casa está a arder.

Há mais de dez anos que se assiste de braços cruzados à adicção tecnológica de crianças e jovens, muito por influência do guloso mercado e das ubíquas gigantes tecnológicas. Foi um dos exercícios socialmente e politicamente mais irresponsável a que assisti.

Sempre se alertou para duas graves consequências: acesso a conteúdos pornográficos e a redes sociais que, para além do ciberbullying, foram usadas por organizações da extrema-direita com conteúdos xenófobos, racistas, misóginos e violentos e que fidelizaram eleitores assim que os jovens chegaram aos 18 anos. Aconselho o filme francês "brincar com o fogo", que divulguei aqui.

Sempre considerei absurdo e ridículo advogar com o é "proibido proibir". Como se a proibição de conduzir antes do 18 anos, ou de adquirir álcool ou tabaco, não fizesse sentido. De facto, adultos também adictos não conseguiram impor regras e a geração que governa deixa um péssimo legado. E como também sempre se disse, a escola é apenas um pequeno universo. A proibição na escola é insuficiente (e é pior nas sociedades, como a nossa, que trocaram a responsabilidade da educação a tempo inteiro pela economicista escola a tempo inteiro).

Este texto do Público, "Crianças longe dos ecrãs: quatro regras para garantir a infância", tem 4 pontos de partida:

"Crianças longe dos ecrãs: quatro regras para garantir a infância
Neste contexto, surgiram quatro normas claras para combater o impacto negativo das tecnologias na infância:

1. Nada de smartphones antes dos 14 anos.
Dar um smartphone cedo demais leva as crianças para um mundo online que ainda não sabem gerir. Muitos pais cedem porque têm medo de que os filhos sejam excluídos; outros porque é uma solução fácil para não estar de olho neles. A solução passa por criar uma regra clara e simples: não dar smartphones antes do secundário ou dos 14 anos. Assim, nenhuma criança fica isolada.

2. Redes sociais só a partir dos 16 anos.
Redes sociais não são seguras para menores. Estas plataformas recolhem dados, expõem crianças a conteúdos inadequados e provocam ansiedade, entre outros problemas de saúde mental. A Austrália e vários estados nos EUA já aumentaram a idade mínima para 16 anos. E isto está a criar um padrão global. Por cá, como primeiro passo, devíamos aumentar já a idade de consentimento digital de 13 para 16, tal como noutros países europeus.

3. Escolas sem telemóveis.
Crianças distraídas não aprendem. Por isso, por este mundo fora, escolas começaram a proibir os telemóveis durante as aulas. Em vários países, os governos e educadores apoiaram esta mudança. E os resultados são claros: alunos mais atentos, com melhores resultados, menos bullying, felizes e sociáveis.

4. Mais tempo para brincar livremente e com autonomia.
O problema é bem maior que os telemóveis. As crianças precisam de brincar livremente, sem supervisão, longe dos pais e dos ecrãs. Precisam de descobrir o mundo, assumir responsabilidades e viver experiências reais.(...)."