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domingo, 20 de julho de 2025

Mas é óbvio que há professores pouco educados

Sempre que há um excesso nos protestos de professores, emerge de imediato uma legião de comentadores que alinha o discurso: "até concordo com as causas da sua luta, mas é inadmissível que se formem professores com estes comportamentos". Ou seja: nunca explicam as tais causas, nunca se comprometem com a defesa do exercício de professor, mas aproveitam para umas beliscadelas generalizáveis; e essa devassa mediática também explica o estado de fuga a ser professor. Não a crítica dos excessos, claro. O silêncio em tudo o resto é que isola a defesa do imperativo democrático.


Até porque é óbvio que há professores pouco educados, como nas restantes funções e profissões. Há professores que cometem crimes de dolo e de falsificação de documentos ou que se apropriam do bem comum usando os cargos que ocupam para actos parciais e de amiguismo como se fossem lugares para a vida. Mas alguém tem dúvidas disso ou da falta de eficácia e de celeridade do MP e inspecções?


É por isso que os modelos e os seus contrapesos são cruciais. Na educação, e para as funções de avaliação e administração educacionais, deu-se primazia a uma formação acrescida, em regra, irrelevante, e eliminou-se a eleição de lideranças pelo reconhecimento das características pessoais e profissionais. O que existe permite que um indivíduo dirija arbitrariamente uma organização onde nunca seria eleito pelos profissionais que a constituem; e com uma limitação de mandatos irrisória. E, sublinhe-se, que a manutenção deste modelo interessa à indústria da formação e que a coragem para desmontar esta máquina de perversidades é um dos desafios mais difíceis que Portugal tem que enfrentar na educação pública.

sábado, 19 de julho de 2025

Para ensinar - recebi sem referência ao autor e não o consigo encontrar

Para ensinar - recebi sem referência ao autor e não o consigo encontrar.



"Ensinar não é preciso, teria dito o poeta, se fosse perguntado a esse respeito. Afirmaria até que o mais difícil da missão do professor é não se restringir ao ensino das matérias adstritas à disciplina a seu cargo, tal como veio a postular Abel Salazar.
Para alcançar a culminância do magistério, não bastam o domínio dos conhecimentos ou habilidades e o rigor didático do método; são requeridos olhares, sensibilidade, ousadia, desvios e transgressões. É isto que perfaz o artista; e é este quem dá cor às palavras, aos gestos, às emoções, às exigências, às tarefas e ao cenário da educação. A combinação da arte e do saber permite moldar a realidade dada e realizar a obra projetada.
Para ensinar é, pois, necessário estudar os livros da especialidade. Mas é imprescindível ler igualmente as obras que cartografam o estado e as vias da Humanidade; estas leituras são fontes de diagnóstico da situação e de prescrição da ação. Só por alienação alguém julga que pode ser professor, ignorando as arestas e dores do mundo, afastando delas a atenção. Ensinar é irradiar luz e coragem para coabitar ética e esteticamente na Cidade; um ato de criação da bondade, de estreitamento ou fechamento das portas da maldade."


domingo, 4 de setembro de 2022

O Tribalismo Tomou Conta do Escolar

 


O contraditório no debate ideológico é essencial. É também assim nas políticas educativas, onde o progresso não é linear: tem recuos e recomeços. Mas é importante sublinhar que os retrocessos civilizacionais levam anos a recuperar. A escola, que é "desde sempre", e quase por definição, uma instituição em crise, está  exposta ao tribalismo que tomou conta das sociedades.


Saberes estruturantes e coração do currículo, interdisciplinaridade (um desejo antigo), sucesso escolar, avaliação contínua - com rigor e exigência e nos modos formativo e sumativo -, e inclusão, são, há muito, as bandeiras da boa vontade. São atributos essenciais do escolar democrático. Estabelecem o denominador comum que dificulta a possibilidade do tribalismo. É absurdo, por exemplo, contrapor o "ler, escrever e contar" ao imperativo moderno dos saberes estruturantes que incluem ciências, humanidades, línguas, artes ou desportos.


É reconhecida a dificuldade organizacional em ligar saberes, buscar o sucesso para todos, significar provas de avaliação ou construir a escola onde cabem todos. A dificuldade cresce se considerarmos a existência do senso comum, das ideologias e dos pragmatismos governativos. Mas são matérias em que a oscilação nos extremos abre espaço ao tribalismo, desde logo por contraposição. As sociedades "sobreviventes" - têm uma consistente e maioritária classe média -, com sistemas modernos e sensatos, anteciparam a gestão escolar propriamente dita, sintetizando a incomunicabilidade das ciências da educação com as da gestão e administração. Não precarizaram a carreira dos professores, bem pelo contrário, testemunhando-lhe um clima de confiança numa atmosfera desburocratizada.


Portugal tem caminhado o mais possível no sentido oposto. A precarização, a hiperburocracia e a desconfiança nos professores são causa e consequência da desorientação das políticas educativas e da prevalência de lógicas tribais.


2ª edição.


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terça-feira, 8 de junho de 2021

Tribalismo Escolar

O contraditório é essencial nas políticas educativas, onde o progresso inclui recuos e recomeços. Mas convém recordar que os retrocessos civilizacionais levam anos a recuperar. A escola, que será sempre uma instituição em crise, está exposta aos tribalismos que ciclicamente emergem nas sociedades.


Saberes estruturantes e coração do currículo, interdisciplinaridade, sucesso escolar, avaliação contínua - com rigor e exigência e nos modos formativo e sumativo -, e inclusão, são, há muito, as bandeiras do progresso, os atributos essenciais do escolar democrático e o denominador comum que impede o tribalismo: por exemplo, não tem sentido contrapor o "ler, escrever e contar" ao imperativo dos saberes estruturantes que incluem ciências, humanidades, línguas, artes ou desportos.


Por outro lado, é reconhecida a dificuldade organizacional, acrescida se considerarmos a existência do senso comum, das ideologias e dos pragmatismos governativos, em ligar saberes, buscar o sucesso para todos, significar provas de avaliação ou construir a escola onde cabem todos. Mas são matérias em que a oscilação nos extremos abre espaço ao tribalismo; desde logo por contraposição. As sociedades "sobreviventes" - que têm uma consistente e maioritária classe média -, com modelos sensatos, anteciparam a gestão escolar propriamente dita sintetizando a comunicabilidade das ciências da educação com as da gestão e administração. Não precarizaram a carreira dos professores, bem pelo contrário, testemunhando-lhe um clima de confiança numa atmosfera desburocratizada. Portugal tem caminhado o mais possível no sentido oposto. A precarização, a hiperburocracia e a desconfiança nos professores são causa e consequência da desorientação das políticas educativas e da prevalência de lógicas tribais.


Nota: é a 2ª edição deste post. A 1ª foi em 04.02.2020.


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quarta-feira, 29 de julho de 2020

A Intemporalidade dos Conflitos da Educação

 


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Em 1984 (biénio 1983-85), quando fiz a profissionalização em exercício na Escola Nadir Afonso, em Chaves, um dos meus seminários foi exactamente sobre esta tese da ultrapassagem de Hubert Hannoun que apresento de forma resumidaParece-me oportuno, quem diria, participar na discussão actual com este texto.


 



Partindo da lógica Hegeliana e da inerente concepção dialéctica da categoria "contradição", em que o desenvolvimento se faz pelo reconhecimento e ultrapassagem dos diversos conflitos, Hubert Hannoun construiu um conjunto de teses no âmbito das correntes pedagógicas que me ajudaram a nortear o ensino por volta da década de oitenta numa fase em que a proliferação de propostas atingia um auge significativo. 


Afinal, Hubert Hannoun, considerado um pedagogo marxista e arrumado por muitos na gaveta dos ultrapassados, apenas propôs o óbvio: ao mestre competia escolher a grande maioria dos conteúdos, seleccionar os objectivos e assumir a responsabilidade pelo ensino e pela avaliação dos alunos; nada de dramático, portanto. Mas para chegar aí, Hubert Hannoun desmontou e arrumou em grupos as teses conhecidas. 


Considerando o vasto elenco dos conflitos da Educação, o autor centrou os seus estudos na relação contraditória professor versus aluno (CPA) estabelecendo "os conteúdos de ensino" como elemento mediador da relação


Pegou na história e considerou três grupos de teses:




  • um que negou a contradição CPA - a tese da harmonia - com o lugar cimeiro atribuído ao psicoterapeuta Carl Rogers e às suas relações empáticas (as propostas rogerianas foram bem sucedidas nas relações individualizadas, mas mostraram-se desastrosas quando aplicadas aos grandes grupos de alunos na organização tradicional das escolas);



  • e outros dois grupos, que aceitaram a existência da CPA - as teses do desequilíbrio - mas que sobrevalorizaram à partida um dos elementos do conflito: as do magistercentrismo (professor rei, digamos assim), com expoentes como Alain, Dewey e Durkheim, e as do pedocentrismo (aluno rei, digamos assim), com expoentes como Freinet, Montessori e Summerhill.



Hubert Hannoun propôs a tese da ultrapassagem com os conteúdos de ensino como intermediadores do conflito. Só se ensina o que se sabe (por muito que se alarguem as fontes de acesso ao conhecimento) e a garantia dessa autoridade é o oxigénio da democracia: no presente e no futuro e tanto ontem como hoje.


Parece-me que este é o debate a que invariavelmente se tem necessidade de regressar. Num tempo sobreaquecido e de crise das instituições (da escola também), o lugar da hierarquia de soluções é de novo imperativo; é curial encontrar o fio condutor de que falava Confúncio:


 


- Pensas que sou um homem culto e instruído?


- Com certeza - respondeu Zi-gong. - Não é?


- De modo nenhum - disse Confúcio.


- Simplesmente descubro o fio da meada.


Sima Quian, "Confúcio")


 


"Os conflitos da educação" de Hubert Hannoun,


foi traduzido por Maria Antónia Morais Miranda


e publicado em 1980 pela Socicultur


na colecção Biblioteca de Pedagogia.


(1ª edição em 12 de Outubro de 2009. Reescrito.)

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Do Tribalismo Escolar

O contraditório é essencial nas políticas educativas, onde o progresso inclui recuos e recomeços. Mas convém recordar que os retrocessos civilizacionais levam anos a recuperar. A escola, que será sempre uma instituição em crise, está muito exposta aos tribalismos que ciclicamente emergem nas sociedades.


Saberes estruturantes e coração do currículo, interdisciplinaridade, sucesso escolar, avaliação contínua - com rigor e exigência e nos modos formativo e sumativo -, e inclusão, são, há muito, as bandeiras do progresso, os atributos essenciais do escolar democrático e o denominador comum que impede o tribalismo: por exemplo, não tem sentido contrapor o "ler, escrever e contar" ao imperativo dos saberes estruturantes que incluem ciências, humanidades, línguas, artes ou desportos.


Por outro lado, é reconhecida a dificuldade organizacional, acrescida se considerarmos a existência do senso comum, das ideologias e dos pragmatismos governativos, em ligar saberes, buscar o sucesso para todos, significar provas de avaliação ou construir a escola onde cabem todos. Mas são matérias em que a oscilação nos extremos abre espaço ao tribalismo; desde logo por contraposição. As sociedades "sobreviventes" - que têm uma consistente e maioritária classe média -, com modelos sensatos, anteciparam a gestão escolar propriamente dita sintetizando a incomunicabilidade das ciências da educação com as da gestão e administração. Não precarizaram a carreira dos professores, bem pelo contrário, testemunhando-lhe um clima de confiança numa atmosfera desburocratizada. Portugal tem caminhado o mais possível no sentido oposto. A precarização, a hiperburocracia e a desconfiança nos professores são causa e consequência da desorientação das políticas educativas e da prevalência de lógicas tribais.


Nota: já usei parte deste texto noutro post.


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quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Enquanto Existirem Professores

 


Enquanto existirem professores, haverá cargas genéticas e componentes ambientais a influenciar estilos de ensino. Se o professor quiser que os alunos o ouçam, recorrerá a um estilo de comando ou directivo. Se organizar os alunos por grupos, irá da avaliação recíproca aos pequenos ou grandes grupos e se pretender que os alunos encontrem uma solução pode ir pela resolução de problemas, atribuição de tarefas ou descoberta guiada.


Não é avisado misturar docimologia e técnicas de ensino com correntes ideológicas. As primeiras são, a par do conhecimento científico, o património dos professores. E nada disto significa que na educação não haja disputa ideológica; pelo contrário. Só que, e como se tem comprovado, as ideias não coincidem com as acções e muito menos com os resultados.


(Já usei esta argumentação noutros posts)


 


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segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Os Conflitos da Educação e a Intemporalidade

 


 


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Partindo da lógica Hegeliana e da inerente concepção dialéctica da categoria "contradição", em que o desenvolvimento se faz pelo reconhecimento e ultrapassagem dos diversos conflitos, Hubert Hannoun construiu um conjunto de teses no âmbito das correntes pedagógicas que me ajudaram a nortear o ensino por volta da década de oitenta numa fase em que a proliferação de propostas atingia um auge significativo. 


Afinal, Hubert Hannoun, considerado um pedagogo marxista e arrumado por muitos na gaveta dos ultrapassados, apenas propôs o óbvio: ao mestre competia escolher a grande maioria dos conteúdos, seleccionar os objectivos e assumir a responsabilidade pelo ensino e pela avaliação dos alunos; nada de dramático, portanto. Mas para chegar aí, Hubert Hannoun desmontou e arrumou em grupos as teses conhecidas. 


Considerando o vasto elenco dos conflitos da Educação, o autor centrou os seus estudos na relação contraditória professor versus aluno (CPA) estabelecendo "os conteúdos de ensino" como elemento mediador da relação


Pegou na história e considerou três grupos de teses:




  • um que negou a contradição CPA - a tese da harmonia - com o lugar cimeiro atribuído ao psicoterapeuta Carl Rogers e às suas relações empáticas (as propostas rogerianas foram bem sucedidas nas relações individualizadas, mas mostraram-se desastrosas quando aplicadas aos grandes grupos de alunos na organização tradicional das escolas);



  • e outros dois grupos, que aceitaram a existência da CPA - as teses do desequilíbrio - mas que sobrevalorizaram à partida um dos elementos do conflito: as do magistercentrismo (professor rei, digamos assim), com expoentes como Alain, Dewey e Durkheim, e as do pedocentrismo (aluno rei, digamos assim), com expoentes como Freinet, Montessori e Summerhill.



Hubert Hannoun propôs a tese da ultrapassagem com os conteúdos de ensino como intermediadores do conflito. Só se ensina o que se sabe (por muito que se alarguem as fontes de acesso ao conhecimento) e a garantia dessa autoridade é o oxigénio da democracia: no presente e no futuro e tanto ontem como hoje.


Parece-me que este é o debate a que invariavelmente se tem necessidade de regressar. Num tempo sobreaquecido e de crise das instituições (da escola também), o lugar da hierarquia de soluções é de novo imperativo; é curial encontrar o fio condutor de que falava Confúncio:


 


- Pensas que sou um homem culto e instruído?


- Com certeza - respondeu Zi-gong. - Não é?


- De modo nenhum - disse Confúcio.


- Simplesmente descubro o fio da meada.


Sima Quian, "Confúcio")


 


"Os conflitos da educação" de Hubert Hannoun, foi traduzido por Maria Antónia Morais Miranda e publicado em 1980 pela Socicultur na colecção Biblioteca de Pedagogia.


(1ª edição em 12 de Outubro de 2009. Reescrito.)

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Do professor e da centralidade

 


 


 


 


Surprende como, ciclicamente, se assume o afastamento do professor da centralidade do processo de ensino e aprendizagem. No século XVII, por exemplo, procuravam-se novos recursos didácticos mas sempre com o professor dentro do espaço central. Aliás, foi com a célebre "Lição de Anatomia do Dr Nicolaes Tulp" (1632) que Rembrandt se apresentou, e se afirmou, em Amesterdam. Se atentar, verá que os alunos deixaram de estar alinhados e que o seu olhar divergia: para o professor, para o livro aberto, para o objecto de estudo e até para a "objectiva". E claro: todos estavam iluminados mas muito atentos, como que a sublinhar que na pedagogia há intemporalidades que é fundamental que sobrevivam aos modismos.



Imagem:
Rembrandt van Rijn, The Anatomy Lesson of Dr Nicolaes Tulp, 1632
Museu Mauritshuis, Haia, Agosto de 2017


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domingo, 5 de fevereiro de 2017

a intemporalidade dos conflitos da educação

 



 


 


Partindo da lógica Hegeliana e da inerente concepção dialéctica da categoria "contradição", em que o desenvolvimento se faz pelo reconhecimento e ultrapassagem dos diversos conflitos, Hubert Hannoun construiu um conjunto de teses no âmbito das correntes pedagógicas que me ajudaram a nortear o ensino por volta da década de oitenta numa fase em que a proliferação de propostas atingia um auge significativo.


 


Afinal, Hubert Hannoun, considerado um pedagogo marxista e arrumado por muitos na gaveta dos ultrapassados, apenas propôs o óbvio: ao mestre competia escolher a grande maioria dos conteúdos, seleccionar os objectivos e assumir a responsabilidade pelo ensino e pela avaliação dos alunos; nada de dramático, portanto. Mas para chegar aí, Hubert Hannoun desmontou e arrumou em grupos as teses conhecidas.


 


Considerando o vasto elenco dos conflitos da Educação, o autor centrou os seus estudos na relação contraditória professor versus aluno (CPA) estabelecendo "os conteúdos de ensino" como elemento mediador da relação.


 


Pegou na história e considerou três grupos de teses:



  • um que negou a contradição CPA - a tese da harmonia - com o lugar cimeiro atribuído ao psicoterapeuta Carl Rogers e às suas relações empáticas (as propostas rogerianas foram bem sucedidas nas relações individualizadas, mas mostraram-se desastrosas quando aplicadas aos grandes grupos de alunos na organização tradicional das escolas);

  • e outros dois grupos, que aceitaram a existência da CPA - as teses do desequilíbrio - mas que sobrevalorizaram à partida um dos elementos do conflito: as do magistercentrismo (professor rei, digamos assim), com expoentes como Alain, Dewey e Durkheim, e as do pedocentrismo (aluno rei, digamos assim), com expoentes como Freinet, Montessori e Summerhill.


Hubert Hannoun propôs a tese da ultrapassagem com os conteúdos de ensino como intermediadores do conflito. Só se ensina o que se sabe e a garantia dessa autoridade é o oxigénio da democracia: no presente e no futuro e tanto ontem como hoje.


 


Parece-me que este é o debate que mais importa fazer em Portugal. Num tempo sobreaquecido e de crise das instituições (da escola também), o lugar da hierarquia de soluções é de novo imperativo; é curial encontrar o fio condutor de que falava Confúncio:


 


- Pensas que sou um homem culto e instruído?


- Com certeza - respondeu Zi-gong. - Não é?


- De modo nenhum - disse Confúcio.


- Simplesmente descubro o fio da meada.


Sima Quian, "Confúcio")


 


 


 


 


"Os conflitos da educação" de Hubert Hannoun, foi traduzido por Maria Antónia Morais Miranda e publicado em 1980 pela Socicultur na colecção Biblioteca de Pedagogia.


 


 


 


(1ª edição em 12 de Outubro de 2009. Reescrito.)

sexta-feira, 29 de abril de 2011

uma espécie de contraditório

 


 


Cortesia da Manuela Silveira.




 


“Os professores sabem que as notas não são fiáveis, que não dariam a mesma nota ao mesmo trabalho se lho apresentassem algumas semanas mais tarde e que os seus colegas dariam notas diferentes a esse mesmo trabalho. Eles sabem que são incapazes de precisar, mesmo para si mesmos, os objectivos e critérios de notação. Eles sabem que não sabem em que consiste o «nível» mínimo que permite «passar». Sabem que escapar à média é absurdo. Conhecem os efeitos da estereotipia e de halo. Sabem mas não querem saber que sabem. Sabem inconscientemente. E é por isso que podem em boa fé falar da sua consciência profissional. Ela é, de facto, inocente: trata-se sim do inconsciente!
Mas porquê? O que é que eles defendem com esta resistência? (...) Defendem um prazer. Um prazer de má qualidade mas seguro, garantido, quotidiano. Um prazer que se tem de disfarçar para ser vivido sem culpabilidade (...). Esse prazer, é o prazer do Poder com P maiúsculo. O professor é o mestre absoluto das suas notas. Ninguém, nem o seu director, nem o seu inspector, nem mesmo o seu ministro, podem fazer nada quanto às notas que ele deu. Pois foi de acordo com o seu carácter e a sua consciência que ele as deu. Com o seu diploma, foi-lhe reconhecida a competência de avaliar (o que não deixa de ter graça!). A sua consciência profissional é inatacável. Na sua tarefa de avaliador, ele é omnipotente. E esse domínio significa poder sobre os alunos. A omnipotência de avaliar: um prazer que vem dos infernos e que não podemos olhar de frente...”


 


Patrice Ranjard, 1984, 93-94 


in Philippe Perrenoud, 1992, 169-170

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

alteridade

 


 


 


 



 


 


 


 


Encontrar culpas pode ter um efeito prospectivo. São muitos os que escolhem os princípios de liberdade, de igualdade e de fraternidade da revolução francesa para explicar os problemas de autoridade nas salas de aula, nomeadamente na transposição do conceito de igualdade para a relação do professor com os seus alunos. As questões colocam-se de forma simples e em dois domínios: o aluno deve ser o outro e não um igual e isso é fundamental para garantir o poder democrático da escola e, em consequência disso, o da própria sociedade.


 


De modo nenhum esta asserção deve ser confundida com a vivência democrática da escola-organização. O que se trata é de tornar claro a quem compete organizar e orientar o ensino. Esta excelente entrevista ao filósofo espanhol Fernando Savater vai no sentido do que acabei de escrever. Foi grave o que se passou nas últimas décadas, onde o aluno igual começou na família e no pré-escolar e projectou-se no inferno burocrático e no excesso de garantismo.

sábado, 3 de julho de 2010

empowerment

 


 


 



Foi daqui


 


 


 


O mundo das organizações empresariais, por gerarem lucros financeiros em muitos casos incomensuráveis mas também por proporcionarem benefícios inquestionáveis para o aumento da esperança e da qualidade da vida humana, ganharam preponderância em relação à gestão de outro tipo de instituições, considerando-se nesse grupo os estudos relativos aos diversos níveis dos sistemas escolares.


 


Sendo assim, os pressupostos que orientavam a vida das primeiras eram quase copiados e impostos ao metabolismo das segundas; muitas vezes com resultados desastrosos, como aqui é referido.


 


Também a evolução do pensamento político, e dos respectivos sistemas, afectou de modo significativo as relações dentro das salas de aula e as condições que as envolvem. Houve modas político-sociais ou de terapia psicológica que se transformaram em correntes de ensino; como aqui, se lhe interessar esse conhecimento.


 


Os acontecimentos recentes em Portugal trouxeram de novo para a agenda mediática a questão da autoridade dos professores. Começa mesmo a ser recorrente.


 


Essa discussão faz eco na blogosfera. Alguns bloggers mantêm o assunto na sua linha editorial e fizeram nos últimos dias posts a não perder: Paulo Guinote, aqui, Ramiro Marques, aqui, José Luiz Sarmento, aqui e Mário Machaqueiro da APEDE, aqui.


 


Tenho dedicado, naturalmente, vários posts ao assunto e não me canso de repetir: (...)Vem isto a propósito de outro clássico da vida das sociedades: a recuperação da autoridade (por parte dos adultos em relação às crianças e aos jovens) na vida das escolas e não só, claro. No que se refere ao quotidiano das nossas escolas, pode dizer-se assim: a autoridade é também um direito do aluno; de todos os alunos, salientando-se que nesse grupo estão incluídos os que têm mais vontade em aprender. E isso, o exercício da autoridade, deve acontecer com os professores mais capazes de liderar e com os professores menos capazes de liderar. E por mais voltas que dermos, tudo começa na casa de cada um. Quando não começa, a escola tem de o impor: com regras simples e claras e sem tibiezas. Mas, para isso, a escola não pode estar só nem a tempo inteiro: é isso que as crianças e os jovens esperam e desejam."


 


Não há receitas infalíveis para a liderança e há muitos aspectos que podem ser aprendidos. O link que indiquei do Paulo Guinote faz essa abordagem.


 


Mas há uma associação que se relaciona com o desvalorização actual do ensino e com a filosofia taylorista de gestão das organizações e das pessoas que teve efeitos nefastos e que contaminou os sistemas escolares.


 


Podemos considerar ainda os exemplos mais conhecidos de empowerment e de accountability que mais não eram que as sedutores e bem-pensantes ideias de "dou-te responsabilidades mas quero a respectiva prestação de contas". E estas asserções, lançadas no universo escolar com um acompanhamento mediático que insinuava a "definitiva e corajosa solução do problema", trouxeram um clima social propício à desautorização dos professores, principalmente dos mais frágeis.


 


É precisamente por tudo o que foi descrito, e por se perceber que a forma da sala de aula estar imune a modismos mas também porque tem de recuperar a justificação para a sua existência, é que muitos defendem que a única saída é a que indica um ensino centrado nos conteúdos, devendo esta preposição ser lida não apenas no sentido da mediação mas também da inter-transformação (sei que é mais uma palavrão, mas encontra a sua explicação num dos links indicados neste post) da relação pedagógica.




 


(1ª edição em 14 de Março de 2010)

domingo, 4 de abril de 2010

da crise da escola - o caminho faz-se caminhando

 


 


"Deliberadamente vamos utilizar terminologia clássica, aclarando, desde logo, que "não se trata de advogar ou propôr o regresso a uma passado mítico, e muito menos a defender programas mínimos como ler, escrever e contar ou as tendência de "back to basics". Trata-se, pelo contrário, de abrir novas perspectivas que ponham a aprendizagem, no seu sentido mais amplo, no centro das nossas preocupações" (Novoa, 2009, 194). Somamo-nos à exigência de clareza no debate sobre as coisas públicas: "O buraco negro do debate público sobre educação, capaz de absorver e fazer desaparecer qualquer ideia que se aproxime, é hoje a dificuldade em chamar as coisas pelos seus nomes" (Fernando Enguita, 2009, 72)"


 


Angel García del Dujo.





La escuela en crisis/Recontrucción del sentido de


la actividad educativa escolar (página 83)


(a tradução é minha)

quinta-feira, 18 de março de 2010

que raio de coisa é esta?

 


 


Um leitor identificado enviou-me um vídeo que está patente no youtube e que pode ver de seguida. Vi a coisa e nem liguei muito tal a incredulidade que se apoderou do lado crédulo do meu ser; mas não.


 


Pedi a quem mo enviou que indagasse detalhes sobre a coisa. Fiquei a saber que uma universidade portuguesa de ensino à distância recomenda o dito objecto de "animação crítico-reflexiva" (sic) como suporte para um trabalho para a classificação dos alunos no âmbito de uma cadeira de avaliação da licenciatura em ciências da educação. Ciências da educação? Nem queria crer.


 


Minhas senhoras e meus senhores, fiquem então com o inesquecível momento "O Ponto Avaliar".


 


 


segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

e o que é que se ensina?

 



Foi daqui


 


 


 


Um dos exemplos de que nos podemos socorrer para caracterizar o período critico e sobreaquecido que vai abanando os alicerces das instituições (e a escola é um exemplo flagrante) na época em que vivemos, prende-se com o conteúdo histórico que deve ser ensinado, colocando em contraposição a cultura de origem dos diversos sujeitos do processo de ensino à matriz dominante na maioria dos estados e das nações; mais ainda se pensarmos em termos globais e de sociedades abertas.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

os patos preferem a escola

 


 







Foi daqui


 

"O TEMPO em que os animais falavam, os bichos constataram que o meio em que viviam começava a tornar-se cada vez mais complexo e havia que impor novas hierarquias, estabelecer novos parâmetros de comportamento, uma vez que já não chegavam os seus instintos inatos para enfrentar as modificações do meio.Esta necessidade deu lugar à ideia de ESCOLA: uma estrutura social, que os habilitaria, A TODOS, para enfrentar as crescentes modificações a que assistiam. Foram escolhidos os melhores animais para a docência, isto é, os reconhecidos como mais experientes, alta profissionalização nos seus domínios específicos, grandes títulos em competições. O reconhecimento destas qualificações envaideceu-os, naturalmente, e a maioria esqueceu, desde logo, a razão por que estava ali. Com muitas reuniões gerais de professores, muitas reuniões de grupo, reuniões de conselho pedagógico, de departamento, de secções, reuniões de conselho executivo, etc… escolheram o seguinte currículo: Nadar, Correr, Voar, Galgar montes e Saltar obstáculos.



Os primeiros alunos foram o Cisne, o Pato, o Coelho e o Gato.



Começadas as aulas, cada professor, altamente preocupado com a sua disciplina, preparava primorosamente a matéria, dava sem perder tempo, procurando cumprir o programa e a planificação do mesmo. Faziam, assim jus aos seus títulos e competências. Mas os alunos iam-se desencantando com a tão sonhada escola. Vejam o caso particular de cada aluno:


·         O Cisne, nas aulas de correr, voar e galgar montes era um péssimo aluno. E mesmo quando se esforçava, ao ponto de ficar com as patas ensanguentadas das corridas e calos nas asas, adquiridos na ânsia de voar, tinha notas más. O pior era que, com o esforço e desgaste psicológico despendido nessas disciplinas, estava a enfraquecer na natação, em que era o máximo.


·         O Coelho, por sua vez padecia nas matérias de nadar e voar. Como poderia voar se não tinha asas? Em se tratando de nadar, a coisa também não era fácil não tinha nascido para aquilo. Em contrapartida, ninguém melhor do que ele, corria e galgava montes.


·         O Gato tinha problemas idênticos aos do coelho, nas disciplinas de natação e voo. Ele bem insistia com o professor que, se o deixasse voar de cima para baixo, ainda poderia ter êxito. Só que o professor não não estava contemplada no programa aprovado e o critério de selecção era igual para todos.aceitava essa ideia louca:


·         O Pato, finalmente, voava um pouquinho, corria mais ou menos, nadava bem mas muito pior do que o cisne, e desastradamente, embora com algum desembaraço, até conseguia subir montes e saltar obstáculos. Não tinha reprovações a nenhuma disciplina, como os seus restantes colegas o que o fazia sumamente brilhante nas pautas finais.


Os professores consideraram-no o aluno mais equilibrado, deram-lhe a possibilidade de prosseguir estudos e, com tantos “atributos”, até fomentaram nele a esperança de um dia, poder vir a ser professor.


 

Os restantes alunos estavam inconformados. Nada tinham contra o pato, gostavam dele, compreendiam o seu grau mínimo de suficiência a todas as disciplinas, mas, perguntavam-se: a espantosa capacidade do Coelho em saltar obstáculos, correr e galgar montes não poderia ser aproveitada para enfrentar as tais novas situações sociais, que os levaram a ter a ideia de ESCOLA? E o Gato? De nada lhe serviria correr e saltar melhor do que o Pato? E que utilidade teria, para o Cisne, nadar como nenhum outro? Cada um tinha, de facto, a sua queixa justificada. A escola, pensavam eles, era o local onde aperfeiçoariam as capacidades que tinham, de modo a pô-las ao serviço da sociedade. Se as coisas já estavam difíceis, que fazer agora com a tremenda frustração de não servirem para nada? Foram falar com os professores. As limitações de cada um eram um facto, eles sabiam que jamais seriam polivalentes, de modo a terem grandes escolhas. Contudo, se reprovassem no ano seguinte estariam exactamente na mesma situação.



Os professores lamentaram muito. Havia um programa, superiormente estabelecido e a questão era só esta: ninguém tinha média igual à do Pato e, por isso, na sua mediocridade, ele era, estatisticamente superior a todos.



Os outros alunos abandonaram a escola. Desde então por razões óbvias a escola atrai mais os patos e, na sociedade, são eles que dominam."


 




in Noesis, nº20, Setembro de 1991


Cortesia de Manuela Silveira.


 


 


 

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

a escola como bem público

 



Foi daqui



 


 


Um dos muitos debates a que se assiste é sobre o que se faz na escola ou no que lá se deixa de fazer.


 


O mais comum é considerar-se a escola como um espaço de encontro e de aprendizagem, e, para evitar redundâncias, reduzir a classificação apenas ao lugar de aprendizagens para uma formação integral (mais uma formulação imperceptível inventada pela pedagogia moderna). Esse facto não é questionado nem interna nem externamente mas somente por quem observa a sobrecarga do caderno de encargos desta instituição; e é nesta última asserção que tudo se joga.


 


Em vez de se discutir o que se aprende, e mais do que isso, de remeter para e escola desde o atravessamento na passadeira até ao consumo excessivo de gomas e de rebuçados, é fundamental definir o que é que se ensina.



 

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

da defesa da escola

 


 



Foi daqui 


 


 


Por muito que custe aos defensores das desastrosas políticas Educativas do anterior governo, o cerne da defesa do poder da escola democrática vai ganhando terreno e torna-se uma evidência. Foi por assentar num conjunto de ideias sólidas e estruturadas, que os professores resistiram contra tudo e contra todos e vão registando vitórias consecutivas - embora algumas ainda sejam ténues ou de resultado mais distante no tempo -.


 


Bem sei que para alguns fazedores de opinião a verdadeira motivação do núcleo de professores que constrói a sua argumentação a partir do interior das salas de aula pode parecer uma retórica destinada apenas aos importantes objectivos financeiros ou de carácter corporativo - também legítimos, por falar nisso -.


 


Mas o que se está a tornar indestrutível é o olhar de uma escola que se quer redefinir em tempos de pós-modernidade (sociedade heterogénea, aberta, relativista, incerta, plural e abundante de informação) e de globalização. Não adianta remeter os autores do discurso "resistente" para o lugar dos conservadores e não necessariamente dos progressistas; é um logro, como se tem visto.


 


Entre tantos outros parâmetros, o que começa a prevalecer (e com tanto que podia escrever sobre o assunto) são as ideias de escola, de autoridade, de ensino, de transmissão ou de educação em detrimento dos conceitos de conhecimento, de informação, de aprendizagem e de ao longo da vida (estes últimos são tão óbvios e tão eternos que entraram num processo de autofagia).


 


Quem são os responsáveis, políticos, económicos e sociais, pelas ideias em queda? Em primeiro lugar, os mesmos da hecatombe financeira.