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segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

O caricato tema dos sumários sintetiza o que os estudos dizem há mais de uma década: "há uma organização do trabalho que adoece os professores".

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O caricato tema dos sumários sintetiza o que os estudos dizem há mais de uma década: "há uma organização do trabalho que adoece os professores". E se estão mais do que identificadas as causas organizacionais e relacionais que colocaram Portugal no topo dessa patologia, os governantes espantosamente ignoram-nas ou não sabem o que fazer. Mas o mais grave é que as acentuam com estas decisões, quando a fuga dos professores ao ensino já é declarada até pela maioria dos mais jovens com 5 ou menos anos de serviço.


E o leitor menos versado nestas questões interrogar-se-á: mas os professores não preenchem os sumários e não devem receber o salário se não o fizerem? E se se sabe a quem pagar horas extraordinárias - e quantas -, são precisos os sumários para se conhecer o número de horários sem professor? A resposta às questões é simples: esta decisão é caricata e não são necessários os sumários para se saber quantos horários estão sem professor.


De facto, os professores faziam os sumários analógicos desde que há escolas e era um registo mais simbólico do que outra coisa qualquer. Aliás, desde que há escolas que os professores sabem que prestam duas contas, desde que legalmente convocados, a qualquer momento: como gerem o programa que leccionam e como avaliam os alunos. Estes sumários digitais são um picar do ponto e uma síntese da aula associada à marcação das faltas aos alunos. Nem sequer permitem que o professor consulte os seus históricos. Os professores usam o conceito de sumário para informar os alunos, mas têm outros modos de controlar o planeamento. E nem sequer as escolas consultam os sumários para saber se um professor faltou - como também não o faziam no tempo dos livros de ponto.


Mas com a inserção dos horários dos professores em plataformas digitais, os sumários seguiram o mesmo caminho. Passaram a ter um limite temporal - a falha exige justificação - para o preenchimento em ambientes de exasperante lentidão, ou de interrupção de servidores e de sinal de internet. Em regra, o sumário tornou-se mais um trabalho de casa.


Interrogar-se-á ainda o leitor: mas como é que se marcam as faltas dos professores? As faltas são, e bem, sinalizadas por assistentes administrativos e operacionais. Mal seria se numa escola não se conhecesse em tempo real, e sem o digital, a falta de um professor.


Claro que o fenómeno tem vários e importantes ângulos de análise. Fiquemos por três.


1. O conhecido ambiente de caos informacional nas escolas, que incluiu a decisão de digitalizar sumários, sumaria-se assim: o MECI licencia o software de empresas privadas que os agrupamentos e as escolas usam, e pagam, para a gestão de dados (e o tragicómico, é que o MECI começou, em 1998, o seu portal - denominou-o depois E360, já que ia englobar tudo - e abandonou-o em 2024 por incapacidade). E como os Governantes não indicam às empresas a informação a obter, a relacionar e a automatizar, instala-se uma balburdia informacional. As escolas mergulham num inferno de emails, onde anexam grelhas em excel ou word, e de plataformas digitais para obter dados repetidos ou inúteis em reuniões inúteis. Por precaução, os registos são ainda impressos e arquivados em infindáveis prateleiras.


2. Agravou-se porque a fatal desconfiança nos professores até saliva com o picar do ponto e com o controlo. Portugal é tristemente campeão nessa doença. Nas escolas, e ao contrário do Multibanco ou do Banco Online, a transição digital não significou eliminar procedimentos. Por exemplo, seria lógico que dos livros de ponto analógicos só transitasse o lançamento das faltas dos alunos. Mas não. Transitou tudo e o Governo carimbou os sumários digitais com um argumento tecnicamente surreal: só assim se apurará, finalmente e em 2026, quantos horários de professores estão por preencher e quantos alunos estão sem aulas; e entregou a trapalhada à KPMG (que parece que sugeriu a epifania controladora com os  sumários).


3. Por fim, a história das revoluções tecnológicas demonstra que a esperança em encurtar e frutificar o trabalho humano também levou ao seu excesso, a muita violência e ao aumento das desigualdades. Na presente revolução tecnológica correm-se riscos ainda maiores. O poder absoluto das gigantes tecnológicas, e da IA-GEN, estende-se à educação e é notório o perigo da imposição destes procedimentos.


Nota: já usei, naturalmente, muita desta argumentação ao longo dos anos.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

(des)articular (2)

 


 



 


(1ª edição em 26 de Julho de 2010)


O fenómeno articular nasceu em 1990 para enquadrar uma série de síndromas que ganhavam força e terreno. Foi aí que as teorias curriculares iniciaram um metabolismo de invenções técnico-pedagógicas, de má burocracia e de infantilização da aprendizagem; um processo imparável.


Para solidificar o edifício, construiu-se um modelo de gestão inspirado nas teorias tayloristas de organizar empresas: poucos pensam e muitos executam, processos muito burocráticos para a prestação de contas, imposição do uni-pessoal e vários patamares de lideranças intermédias. Este acervo de ideias seduziu tecnocratas com alergia às salas de aula, que se entretiveram a desenhar modelos como se a actividade lectiva não fosse o cerne da organização.


Inventaram um modelo que se testou em cerca de 30 escolas portuguesas de 1992 a 1998. O balanço foi negativo. Percebeu-se, por exemplo, a inutilidade dos departamentos curriculares que apenas apresentaram como positiva a diminuição dos membros dos conselhos pedagógicos - objectivo que se podia atingir de maneira diferente -.


Com o novo milénio, as sociedades consolidaram as ideias empresariais do downsizing e abandonou-se o taylorismo. O achatamento organizacional reduziu os patamares de decisão. Mas não no ME de Portugal, que teimou em caminhar à revelia da história, da modernidade e da racionalização da despesa.


Em 2005, impuseram-se as tais ideias que medravam desde 1990. Os desastrosos resultados estão à vista. Só não os regista quem não quer mesmo ver o estado de sítio organizacional a que se chegou.

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Há "uma organização de trabalho que adoece os professores" e nada acontece

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Título: Há "uma organização de trabalho que adoece os professores" e nada acontece.


Texto:


Os estudos mais diversos repetem a conclusão: os professores desesperam pelo dia da reforma e os mais jovens equacionam mudar de profissão. Identifica-se repetidamente "uma organização de trabalho que os adoece". Mas apesar desta evidência ter quase duas décadas, não há um relatório dos serviços centrais do Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI) que o detecte e nem sequer os governantes o identificam tal o grau de insensibilidade e de ineficiência.


De facto, "reformam-se este ano mais 3600 professores, o segundo valor mais alto da última década," diz o Público, e percebe-se que, em regra, a minoria privilegiada que prolonga o exercício não fez parte da maioria que foi, há muito, identificada pelos estudos do cansaço e da exaustão (números acima dos 70%). Desde 2021, e pelo menos até 2030, que o número de professores que se reforma se situa entre os 3500 e os 4000 por ano.



Acima de tudo, a burocracia não pára de crescer e é um dos flagelos identificados. Uma das componentes críticas descreve-se assim: todas as escolas e agrupamentos pagam licenças a empresas privadas para a gestão de diversas áreas (e o mais triste e caricato, é que o MECI começou em 1998 o seu portal - o E360 - e abandonou-o recentemente por incompetência), onde se incluem os dados dos alunos, da gestão pedagógica e da avaliação interna das organizações. Seria moderno e sensato que o MECI, que licencia o software e sempre que cria nova legislação que exige esses dados, indicasse às empresas a "nova" informação a obter, e a relacionar e automatizar, nas plataformas digitais. Como não o faz, as escolas e agrupamentos entram, com mais ou menos "criatividade", numa infernal circulação de ficheiros excel e word por email. Origina o doentio lançamento de dados inúteis e a realização de reuniões de agenda repetida. Os registos são ainda inúmeras vezes impressos e arquivados, a maioria sem qualquer descrição identificável, em quilómetros (literalmente) de prateleiras.


Agravou-se porque os serviços centrais do MECI impuseram, há mais de uma década, mega-agrupamentos de escolas, num modelo testado e veementemente desaconselhado já no século passado. Apesar de mal-desenhado para uma escola, os serviços centrais generalizaram-no (agrupando a eito dez, vinte ou trinta escolas das mais variadas tipologias) ampliando o fenómeno da má burocracia que sustenta a ilusão do controlo. Mas, repita-se, quem ler os relatórios dos avaliadores externos, convence-se que tudo funciona na perfeição e a tragédia parece não ter fim.


terça-feira, 16 de setembro de 2025

A gestão das escolas entre o passado e o futuro - por Paulo Prudêncio

 



Há algum tempo que movimentos e sindicatos de professores me solicitaram um pequeno vídeo sobre a gestão das escolas. Prometi-o para esta semana. Há petições em curso e haverá outras e tempo e espaço para discussões informadas. Designei-o por "A gestão das escolas entre o passado e o futuro". É um contributo para um debate num momento em que, finalmente, se alterará o que existe.




 

 

domingo, 14 de setembro de 2025

Homenageio todos os professores que lutaram durante 20 anos contra a autocracia na gestão das escolas

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Diz o Público que o "PS quer escolas a eleger a direcção em lista e evitar “contaminação” partidária""


E pesando bem as palavras, 20 anos após o início de tanta destruição na organização da escola pública e na vida pessoal e profissional de milhares de professores e de outros profissionais da educação, o PS, diz o Público, quer que "as direcções escolares deixem de ser eleitas pelo conselho geral e passem a ser um órgão colegial eleito em lista por uma assembleia eleitoral composta por todos os docentes e não docentes em serviço na escola ou agrupamento, por representantes dos encarregados de educação de cada uma das turmas e, ainda, se for no ensino secundário, pelos delegados de cada turma." Leio por aí que isto pretende ser uma antecipação ao actual Governo. Diz-se que a AD quer legislar o mesmo. Nesse caso, seria um duplo salto mortal à retaguarda, já que a AD apoiou estas políticas do PS dede 2005 (o modelo vigente entrou em vigor em 2008 e foi agravado em 2013) e agravou-as sempre que governou (e o actual Governo tem feito referência a um estatuto do director). Mais vale tarde, sei disso. Mas num caso que nunca devia ter existido, é muito tarde e com resultados irreparáveis na queda das aprendizagens e na falta estrutural de professores. Neste momento, homenageio todos os professores que lutaram durante 20 anos contra a autocracia na gestão das escolas e contra o clima de parcialidades e de anti-democráticas “contaminações político-partidárias”.


"PS quer escolas a eleger a direcção em lista e evitar “contaminação” partidária"


Pode ler que os "socialistas pretendem que direcções escolares deixem de ser eleitas pelo conselho geral e passem a ser um órgão colegial eleito em lista pela comunidade escolar. (...)É com vontade de acabar com eventuais “contaminações político-partidárias”, mas também de fazer evoluir o modelo de gestão das escolas, que o PS dá entrada a um conjunto de iniciativas no Parlamento que mudam as regras de eleição das direcções escolares e fomentam a participação no associativismo estudantil. Ao PÚBLICO, o deputado Porfírio Silva assegura tratar-se de uma mudança para uma “escola mais colaborativa e participativa”, rejeitando tratar-se de “descontinuidades radicais”. Neste projecto de lei, os socialistas prevêem que a direcção seja eleita por uma assembleia eleitoral composta por todos os docentes e não docentes em serviço na escola ou agrupamento, por representantes dos encarregados de educação de cada uma das turmas e, ainda, se for no ensino secundário, pelos delegados de cada turma. A apresentação de candidaturas deverá ser feita em lista, com indicação expressa dos candidatos a director, director-adjunto e vogais.(...)"

domingo, 8 de junho de 2025

O que as escolas devem aprender com as empresas

As escolas foram atrás das empresas quando não deviam e agora têm que recuar para onde nunca deviam ter saído.



"A geração Z não quer liderar (e isso está a trazer desafios à gestão das empresas)"


"A velha linha de comando e reporte vertical que nas últimas décadas tem marcado o organograma da maioria das empresas, em que as decisões emergem do topo e os trabalhadores seguem ordens, pode não ter vida longa no futuro. O modelo tradicional de gestão empresarial está a ser desafiado por uma nova geração de trabalhadores — a geração Z —, que está a entrar no mercado laboral com novas perspetivas sobre a carreira e o trabalho. Ao contrário das gerações que os antecederam, estes profissionais, nascidos entre 1997 e 2012, não se movem por status ou poder e a sua visão de sucesso não está centrada numa progressão profissional da base até ao topo. Não sonham liderar nem assumir cargos de direção intermédia e não estão dispostos a sacrificar a sua saúde mental ou equilíbrio familiar por um lugar de CEO.(...)"


sábado, 31 de maio de 2025

As faltas escolares, o absurdo e a burocracia

 



Numa sociedade saudável, a gestão administrativa das faltas escolares tem a justificação como ponto de partida. Ou seja, os sistemas de informação são programados para que o lançamento inicial seja como falta justificada.


Noutras sociedades, o ponto de partida administrativo da falta escolar é a injustificação. Ou seja, a desconfiança prevalece e este pequeno detalhe provoca uma sucessão de procedimentos para justificar uma maioria de faltas que são justificadas. É absurdo, mas é mesmo assim. É até um bom exemplo, risível para quem não lida com tanto absurdo, para explicar o inferno burocrático que caracteriza estas sociedades. Aliás, registam um queixume constante em relação ao excesso de burocracia e um permanente passar de culpas entre actores viciados em desconfiança; uma espécie de espelho.


3ª edição.


 


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quarta-feira, 28 de maio de 2025

segunda-feira, 19 de maio de 2025

Da educação tutti-frutti

Apesar da democracia cinquentenária, a gestão das escolas nunca encerrou a possibilidade de poder dinástico, de autocracia e de clima de caudilho. É, a exemplo da falta de professores, um assunto grave e sério que se tornou estrutural.


Em síntese, a história da democracia nas escolas revela a inconsciência e a indiferença de partidos democráticos. O PS e o PSD foram complacentes com a queda. A fragilidade da democracia e a radicalização de eleitores passou também por aí. Altere-se sem tacticismos eleitorais. O futuro demora uma eternidade e a escola desespera pela conjugação dos verbos renovar e inovar que elevará a cooperação e a mobilização.


 

sexta-feira, 16 de maio de 2025

(des)articular


 



 


(1ª edição em 26 de Julho de 2010)


O fenómeno articular nasceu em 1990 para enquadrar uma série de síndromas que ganhavam força e terreno. Foi aí que as teorias curriculares iniciaram um metabolismo de invenções técnico-pedagógicas, de má burocracia e de infantilização da aprendizagem; um processo imparável.


Para solidificar o edifício, construiu-se um modelo de gestão inspirado nas teorias tayloristas de organizar empresas: poucos pensam e muitos executam, processos muito burocráticos para a prestação de contas, imposição do uni-pessoal e vários patamares de lideranças intermédias com o consequente aumento dos custos financeiros. Este acervo de ideias seduziu tecnocratas com alergia às salas de aula, que se entretiveram a desenhar modelos como se a actividade lectiva não fosse o cerne da organização.


Inventaram um modelo que se testou em cerca de 30 escolas portuguesas de 1992 a 1998. O balanço foi negativo. Percebeu-se, por exemplo, a inutilidade dos departamentos curriculares que apenas apresentaram como positiva a diminuição dos membros dos conselhos pedagógicos - objectivo que se podia atingir de maneira diferente -.


Com o novo milénio, as sociedades consolidaram as ideias empresariais do downsizing e abandonou-se o taylorismo. O achatamento organizacional reduziu os patamares de decisão. Mas não no ME de Portugal, que teimou em caminhar à revelia da história, da modernidade e da racionalização da despesa.


Em 2005, impuseram-se as tais ideias que medravam desde 1990. Os desastrosos resultados estão à vista. Só não os regista quem não quer mesmo ver o estado de sítio organizacional a que se chegou.

quinta-feira, 15 de maio de 2025

A escola e a dança dos homens (3)

 


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"Se houvesse um povo de deuses, ele governar-se-ia democraticamente. Um governo tão perfeito não convém a homens" (1). Esta conclusão explica o Ministério da Educação das últimas duas décadas, em que houve homens acima dos deuses e da democracia.


Se a entropia social evidenciada em 2008 expôs a "lei de bronze da oligarquia" (ideia de Robert Michels) que condicionou os governos, na escola portuguesa a dependência ficou a cargo de uma dança de homens que descolou o discurso oficial de qualquer realidade. Quando se denuncia a tormenta burocrática de um centralismo distante das salas de aula e com forte tendência para sofisticar à exaustão a administração de inutilidades que excluem o conhecimento das disciplinas, não se pensa em funcionários. A sofisticação é obra de grupos de missão bem avençados; sem tabela de remuneração, sem escrutínio e sem avaliação. Está para além de ser ministro ou secretário de estado, embora estes incluam a função de correia de transmissão. É um bailado que infernizou qualquer ideia de modernidade e sustentou quatro pilares da proletarização dos professores: destruição da carreira, avaliação Kakfiana, gestão autocrática e monstro da burocracia. 






O Grupo de Missão, que estimula o conceito de Grupo Fechado, resulta desse triunfo que fez escola no sistema escolar. Corre patamares bloqueando canais participativos e mecanismos mobilizadores. Impacienta-se com o contraditório. Pugna pela pirâmide da organização militar. Omite que um professor do 1º escalão pode leccionar a mesma turma que um do 10º e que a tarefa cimeira da escola é a sala de aula.


Outro sinal negativo para a escola pública, é a publicidade dos Grupos de Missão. Visitam escolas e recomendam o modo organizacional, como exemplo de cooperação, sem sequer vislumbrarem a contradição. Invariavelmente, argumentam: mas os resultados escolares na escola pública não melhoraram nos últimos 45 anos? Claro que melhoraram. O essencial é sempre a evolução da sociedade, como demonstra a história mundial dos sistemas escolares, e basta comparar o Portugal de 60 e 70 do século passado com o actual. E se ainda temos 2 milhões de pobres, é natural que 50 mil crianças reprovem logo nos primeiros ciclos. É uma realidade que está a montante da escola, por muito que esta atenue desigualdades. 


Os Grupos de Missão estão completamente ultrapassados numa sociedade em rede, porque estão estritamente ligados a uma linha centralista e hierarquizada. Só persistem como um fatalismo histórico porque, e como alguém também disse, "as nossas elites são historicamente viciadas em viver à custa do trabalho dos outros; foi assim durante três séculos com a escravatura, também com o ouro e as especiarias e até com o colonialismo."


Escolhi uma imagem de "danças de deuses" na esperança de que um dia se cumpra o desejo de Rousseau e a lembrar-me como é cada vez mais difícil regressar a George Steiner (2): "Quem não estiver doente de esperança não tem a mais pequena hipótese de ser professor".






(1) Jean-Jacques Rousseau, Contrat Social ou Príncipes ãu Droit Politique, Paris, Garnier, s/à, p 281.


(2), George Steiner (2005:148) "A Lição dos Mestres", Gradiva, Lisboa.


Encontrei a imagem do post na internet sem referência ao autor.




quarta-feira, 14 de maio de 2025

Articular

 


 



 


Articular, o verbo, é um modismo na linguagem do sistema escolar. Conjuga-se nas situações de maior embaraço. Por exemplo, quando nada mais resta para justificar a terraplanagem de escolas, as três pessoas do plural entram em acção; embora a terceira, e no futuro do indicativo (para dar alguma folga ao bem-pensante devaneio), seja a mais requisitada.


Têm sido inúmeros os modismos: a interdisciplinaridade, a flexibilidade, a formação pessoal e social, a formação integral, a cidadania, a sociometria, os objectivos mínimos, as metas curriculares, as aprendizagens essenciais e por aí fora. Enfim, um rol de conceitos - alguns com compreensível oportunidade histórica na fantástica massificação dos sistemas escolares - que remetem a burocracia escolar para o lugar que ninguém deveria desejar: inundação de procedimentos que travam a emancipação da escola; como alguém que, e depois de mil passos, tem a sensação exaustiva que não saiu do lugar ou regrediu.


Quando se espreme os arautos do articular, o que sobra é pouco mais do que a socialização dos professores.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

"Professores contra carreira de director e escolha de elementos externos à escola"


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"Professores contra carreira de director e escolha de elementos externos à escola" "Inquérito da Fenprof respondido por 7168 docentes revela que os professores são contra a criação da carreira de director e de membros externos à escola integrarem a direcção.(...)Mais de nove em cada dez professores (93%) defendem que o órgão de gestão deve ser eleito por um colégio eleitoral alargado composto por todos os professores e funcionários assim como representantes dos encarregados de educação e alunos. Por outro lado, 93% reprovam a ideia de existir um director que pode escolher "a sua equipa toda com elementos externos à escola.(...)Há vários anos que a Fenprof tem defendido uma alteração do regime de gestão, apontando como problemas o modelo de elegibilidade dos órgãos, a colegialidade do seu funcionamento e a participação na tomada de decisão.(...)"



quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

A parte II da extinção do Conselho das Escolas

 


Imagine-se o que seria se:


1. os estudos internacionais certificassem a inequívoca melhoria das aprendizagens dos alunos - e dos adultos nas literacias elementares - e as avaliações externas nacionais fossem estáveis e certificassem a mesma melhoria;


2. tivéssemos uma gestão de dados na Educação em que à distância de um clique se sabia quantos profissionais existiam, quantos alunos estavam sem professor, quanto se pagaria em salários porque os dados curriculares dos profissionais eram lançados desde meados da primeira década do milénio numa só plataforma digital e actualizados historicamente e em tempo real;


3. os programas de atractividade da carreira dos professores tivessem sido planeados desde 2010 - antecipando a falta estrutural e eliminando a precarização única na Europa e alvo de ameaças, com o Tribunal Europeu, pela Comissão Europeia;


4. em Portugal, a indisciplina nas salas de aula não ocupasse o primeiro lugar destacado da OCDE; bem pelo contrário.


Se fosse assim, os ministros da Educação desde meados da primeira década de milénio reuniriam em sessão aberta à comunicação social (como, pasme-se, se fez por causa de uns resultados PISA) e reivindicariam os louros, com laudos ao pacto de gestão com os serviços centrais do ministério e com o Conselho das Escolas (o representante dos directores escolares, considerados os legítimos braços direitos do poder político e das políticas de choque de gestão, de prestação de contas e de desconfiança no exercício de professor decretadas nessa primeira década do milénio).


Como os resultados são o oposto do descrito, não há responsáveis nem sessões para a comunicação social; e nem mudança de políticas.


Mas voltando ao ponto de partida que justifica o acto simbólico de extinção do Conselho das Escolas - a recomendação nº 01/2024, de 3 de Dezembro, em que se "prescreve que os directores sejam dispensados da limitação de mandatos, que seleccionem professores (ideia que provocou a explosão de indignação em 2022) e que nomeiem - sem qualquer eleição - todas as lideranças intermédias" - deve reflectir-se sobre outra recomendação:


o Conselho das Escolas considera e bem (é algo, e desculpe-se a pessoalização, que defendo "desde sempre"), que para se ser director escolar não deve ser exigível a certificação em administração escolar. E como é que se chega aqui? Desde logo, porque, em regra, essa certificação está muito desacreditada e em 20 anos desse exercício não se vislumbra qualquer vantagem; bem pelo contrário. E o assunto é grave e muito sério. Em vez das escolas serem dirigidas por professores legitimados por cadernos eleitorais alargados e com base no conhecimento das características pessoais e profissionais, as escolas podem ser dirigidas por pessoas desconhecidas, ou que jamais seriam eleitas, mas apenas porque possuem essa certificação e que, em muitos casos, tudo fazem para que o cargo seja uma carreira para a vida. É também isto que parece espelhado na referida recomendação nº 01/2024, de 3 de Dezembro.


Não se percebe a dificuldade em mudar. Um passo crucial será limitar os mandatos a dois de três anos, mudar a forma de eleger para um caderno eleitoral alargado - os Conselhos Gerais actuais, reconheça-se, não devem exercer essa função - que também escolherá em referendo a natureza colegial ou unipessoal do órgão de gestão. Já escrevi mais detalhadamente sobre este tema nesta ligação.

terça-feira, 8 de outubro de 2024

A gestão das escolas entre o passado e o futuro - por Paulo Prudêncio

Há algum tempo que movimentos e sindicatos de professores me solicitaram um pequeno vídeo sobre a gestão das escolas. Prometi-o para esta semana. Há petições em curso e haverá, naturalmente, outras e tempo e espaço para discussões informadas. Designei-o por "A gestão das escolas entre o passado e o futuro". É um contributo para o debate neste momento em que, finalmente, se alterará o que existe.


domingo, 7 de julho de 2024

Da série o caos no tratamento de dados no Ministério da Educação

No que levamos de milénio, o PS e o PSD falharam na Educação; mais o PS, obviamente, até porque esteve muito mais tempo no poder. Acima de tudo, um ministro é mais uma espécie de CEO do que um presidente de uma associação de estudantes. Nos 50 anos de democracia, o ministro com mais anos no cargo foi o inexistente Tiago Rodrigues; e quem o antecedeu e lhe sucedeu não fez diferente. Basta ter como referência a gestão de dados da administração educativa.

quarta-feira, 19 de junho de 2024

"A decadência do ensino público" - post de 24.06.2018

 






  1. "A decadência do ensino público" é o título da "Carta de Semana" do 1º caderno do Expresso de 23 de Junho de 2018. Mesmo que a carta contenha pequenas imprecisões, é surpreendente que não exista um partido representado na Assembleia de República preocupado com o assunto. Mas o melhor é ler.


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sábado, 15 de junho de 2024

Articular (2)

 



 


 


 


 


 


 


Articular, o verbo, é um modismo na linguagem do sistema escolar. Conjuga-se nas situações de maior embaraço. Por exemplo, quando nada mais resta para justificar a terraplanagem de escolas, as três pessoas do plural entram em acção; embora a terceira, e no futuro do indicativo (para dar alguma folga ao bem-pensante devaneio), seja a mais requisitada.


Têm sido inúmeros os modismos: a interdisciplinaridade, a flexibilidade, a formação pessoal e social, a formação integral, a cidadania, a sociometria, os objectivos mínimos, as metas curriculares, as aprendizagens essenciais e por aí fora. Enfim, um rol de conceitos - alguns com compreensível oportunidade histórica na fantástica massificação dos sistemas escolares - que remetem a burocracia escolar para o lugar que ninguém deveria desejar: inundação de procedimentos insanos que travam a emancipação da escola; como alguém que, e depois de mil passos, tem a sensação exaustiva que não saiu do lugar ou regrediu.


Quando se espreme os arautos do articular, o que sobra é pouco mais do que a socialização dos professores.

quinta-feira, 13 de junho de 2024

A escola e a dança dos homens (3)

 



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"Se houvesse um povo de deuses, ele governar-se-ia democraticamente. Um governo tão perfeito não convém a homens" (1). Esta conclusão explica o Ministério da Educação das últimas duas décadas, em que houve homens acima dos deuses e da democracia.


Se a entropia social evidenciada em 2008 expôs a "lei de bronze da oligarquia" (ideia de Robert Michels) que condicionou os governos, na escola portuguesa a dependência ficou a cargo de uma dança de homens que descolou o discurso oficial de qualquer realidade. Quando se denuncia a tormenta burocrática de um centralismo distante das salas de aula e com forte tendência para sofisticar à exaustão a administração de inutilidades que excluem o conhecimento das disciplinas, não se pensa em funcionários. A sofisticação é obra de grupos de missão bem avençados; sem tabela de remuneração, sem escrutínio e sem avaliação. Está para além de ser ministro ou secretário de estado, embora estes incluam a função de correia de transmissão. É um bailado que infernizou qualquer ideia de modernidade e sustentou quatro pilares da proletarização dos professores: destruição da carreira, avaliação Kakfiana, gestão autocrática e monstro da burocracia. 






O Grupo de Missão, que estimula o conceito de Grupo Fechado, resulta desse triunfo que fez escola no sistema escolar. Corre patamares bloqueando canais participativos e mecanismos mobilizadores. Impacienta-se com o contraditório. Pugna pela pirâmide da organização militar. Omite que um professor do 1º escalão pode leccionar a mesma turma que um do 10º e que a tarefa cimeira da escola é a sala de aula.


Outro sinal negativo para a escola pública, é a publicidade dos Grupos de Missão. Visitam escolas e recomendam o modo organizacional, como exemplo de cooperação, sem sequer vislumbrarem a contradição. Invariavelmente, argumentam: mas os resultados escolares na escola pública não melhoraram nos últimos 45 anos? Claro que melhoraram. O essencial é sempre a evolução da sociedade, como demonstra a história mundial dos sistemas escolares, e basta comparar o Portugal de 60 e 70 do século passado com o actual. E se ainda temos 2 milhões de pobres, é natural que 50 mil crianças reprovem logo nos primeiros ciclos. É uma realidade que está a montante da escola, por muito que esta atenue desigualdades. 


Os Grupos de Missão estão completamente ultrapassados numa sociedade em rede, porque estão estritamente ligados a uma linha centralista e hierarquizada. Só persistem como um fatalismo histórico porque, e como alguém também disse, "as nossas elites são historicamente viciadas em viver à custa do trabalho dos outros; foi assim durante três séculos com a escravatura, também com o ouro e as especiarias e até com o colonialismo."


Escolhi uma imagem de "danças de deuses" na esperança de que um dia se cumpra o desejo de Rousseau e a lembrar-me como é cada vez mais difícil regressar a George Steiner (2): "Quem não estiver doente de esperança não tem a mais pequena hipótese de ser professor".






(1) Jean-Jacques Rousseau, Contrat Social ou Príncipes ãu Droit Politique, Paris, Garnier, s/à, p 281.


(2), George Steiner (2005:148) "A Lição dos Mestres", Gradiva, Lisboa.


Encontrei a imagem do post na internet sem referência ao autor.