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O caricato tema dos sumários sintetiza o que os estudos dizem há mais de uma década: "há uma organização do trabalho que adoece os professores". E se estão mais do que identificadas as causas organizacionais e relacionais que colocaram Portugal no topo dessa patologia, os governantes espantosamente ignoram-nas ou não sabem o que fazer. Mas o mais grave é que as acentuam com estas decisões, quando a fuga dos professores ao ensino já é declarada até pela maioria dos mais jovens com 5 ou menos anos de serviço.
E o leitor menos versado nestas questões interrogar-se-á: mas os professores não preenchem os sumários e não devem receber o salário se não o fizerem? E se se sabe a quem pagar horas extraordinárias - e quantas -, são precisos os sumários para se conhecer o número de horários sem professor? A resposta às questões é simples: esta decisão é caricata e não são necessários os sumários para se saber quantos horários estão sem professor.
De facto, os professores faziam os sumários analógicos desde que há escolas e era um registo mais simbólico do que outra coisa qualquer. Aliás, desde que há escolas que os professores sabem que prestam duas contas, desde que legalmente convocados, a qualquer momento: como gerem o programa que leccionam e como avaliam os alunos. Estes sumários digitais são um picar do ponto e uma síntese da aula associada à marcação das faltas aos alunos. Nem sequer permitem que o professor consulte os seus históricos. Os professores usam o conceito de sumário para informar os alunos, mas têm outros modos de controlar o planeamento. E nem sequer as escolas consultam os sumários para saber se um professor faltou - como também não o faziam no tempo dos livros de ponto.
Mas com a inserção dos horários dos professores em plataformas digitais, os sumários seguiram o mesmo caminho. Passaram a ter um limite temporal - a falha exige justificação - para o preenchimento em ambientes de exasperante lentidão, ou de interrupção de servidores e de sinal de internet. Em regra, o sumário tornou-se mais um trabalho de casa.
Interrogar-se-á ainda o leitor: mas como é que se marcam as faltas dos professores? As faltas são, e bem, sinalizadas por assistentes administrativos e operacionais. Mal seria se numa escola não se conhecesse em tempo real, e sem o digital, a falta de um professor.
Claro que o fenómeno tem vários e importantes ângulos de análise. Fiquemos por três.
1. O conhecido ambiente de caos informacional nas escolas, que incluiu a decisão de digitalizar sumários, sumaria-se assim: o MECI licencia o software de empresas privadas que os agrupamentos e as escolas usam, e pagam, para a gestão de dados (e o tragicómico, é que o MECI começou, em 1998, o seu portal - denominou-o depois E360, já que ia englobar tudo - e abandonou-o em 2024 por incapacidade). E como os Governantes não indicam às empresas a informação a obter, a relacionar e a automatizar, instala-se uma balburdia informacional. As escolas mergulham num inferno de emails, onde anexam grelhas em excel ou word, e de plataformas digitais para obter dados repetidos ou inúteis em reuniões inúteis. Por precaução, os registos são ainda impressos e arquivados em infindáveis prateleiras.
2. Agravou-se porque a fatal desconfiança nos professores até saliva com o picar do ponto e com o controlo. Portugal é tristemente campeão nessa doença. Nas escolas, e ao contrário do Multibanco ou do Banco Online, a transição digital não significou eliminar procedimentos. Por exemplo, seria lógico que dos livros de ponto analógicos só transitasse o lançamento das faltas dos alunos. Mas não. Transitou tudo e o Governo carimbou os sumários digitais com um argumento tecnicamente surreal: só assim se apurará, finalmente e em 2026, quantos horários de professores estão por preencher e quantos alunos estão sem aulas; e entregou a trapalhada à KPMG (que parece que sugeriu a epifania controladora com os sumários).
3. Por fim, a história das revoluções tecnológicas demonstra que a esperança em encurtar e frutificar o trabalho humano também levou ao seu excesso, a muita violência e ao aumento das desigualdades. Na presente revolução tecnológica correm-se riscos ainda maiores. O poder absoluto das gigantes tecnológicas, e da IA-GEN, estende-se à educação e é notório o perigo da imposição destes procedimentos.
Nota: já usei, naturalmente, muita desta argumentação ao longo dos anos.





