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quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

Dos eleitos, dos aeroportos e das bagagens

Estive, por dever cívico e num honroso convite de uns elevadíssimos peticionários, umas horas a assistir a um plenário da Assembleia da República nesta legislatura. Impressionei-me com a deseducação de vários deputados da bancada do partido do homem das bagagens. À barulheira infernal que impedia a audição, associavam-se impropérios. Dei comigo a pensar o que agora se reforça: sabemos de todas as circunstâncias históricas das democracias ocidentais e do estado do mundo, mas o poder mainstream tem que ter cometido muitos erros para que sejam eleitos deputados deste calibre.

sexta-feira, 28 de abril de 2023

Estará a democracia a morrer?



«O que faz aumentar este número, são as crises económicas, as crises de imigração, grandes mudanças demográficas nas populações», explica o especialista em democracias, Daniel Ziblatt.





Os eleitores «votam a favor do que é real». Em vez de «tentarem agir de forma demasiado populista, para apelar a estes eleitores», os partidos políticos «têm de encontrar soluções reais para problemas reais».

 





sexta-feira, 17 de março de 2023

"A decadência do ensino público" - post de 24.06.2018




  1. "A decadência do ensino público" é o título da "Carta de Semana" do 1º caderno do Expresso de 23 de Junho de 2018. Mesmo que a carta contenha pequenas imprecisões, é surpreendente que não exista um partido representado na Assembleia de República preocupado com o assunto. Mas o melhor é ler.


     


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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

Escola Para Todos

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O que pode ler a seguir não é um exercício de demagogia. Foi maduramente reflectido: nenhum professor do quadro, e estando noutras funções no parlamento, governo, ME, autarquias, sindicatos, escolas e por aí fora, deveria estar mais do que 2 anos sem turmas; leccionar uma turma que fosse durante 2 anos (ciclos de 2 com e sem) e o estado da educação respiraria de modo muito mais saudável; e, obviamente, com adaptações no caso do primeiro ciclo: podia leccionar uma das áreas disciplinares ou, para não quebrar a gestão holística do currículo, uma actividade de enriquececimento curricular; nos 2º e 3ª ciclos e no ensino secundário, e como o horário teria menos de 16 horas lectivas, não tinha que fazer como os precários professores contratados e pagar à segurança social do mísero vencimento os dias que faltam para serem contabilizados 30 por mês a pensar no valor da reforma.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

Indignação Não É Extremismo; pelo contrário

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Percebe-se a preocupação com a possível presença de valores da ditadura infiltrados nos movimentos de professores. Mas essa preocupação deve estender-se ao estado da democracia nas escolas. Como esse estado é comprovadamente péssimo e nem sequer debatido, é natural que a indignação se confunda com extremismo.

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Que Escola, e em Que Democracia, Na Sociedade que Aí Vem

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É importante pensar para lá da pandemia, até porque se prevê a sobreposição do isolamento físico sobre o gregário na sociedade que aí vem; e dito assim para simplificar. E se no espaço do isolamento físico estão os que acreditam no absolutamente digital, no gregário não encontramos os que o rejeitam nem sequer os neoluditas. É um debate centrado num "enxame digital" e nos "gigantes da web - os GAFAM (Google, Apple, Facebook, Amazon e Microsoft) - que nos querem controlar" (Naomi Klein) e que hierarquizam prioridades: "ensino à distância, 5G, telemedicina, drones e comércio online generalizado". Acima de tudo, há uma estratégia à procura da melhor posição global no "monopólio da inteligência artificial que governará o mundo" (Vladimir Putin). A escola não escapará ao vórtice. Os milhões que se prevêem para o digital escolar em Portugal talvez melhorem o que existe, mas abrirão mais espaço ao isolamento físico que se impõe também por obra de países e organizações não democráticas.


Portanto, quando se pensa no futuro da democracia, e do bem público e comum numa sociedade mais justa e igualitária, defende-se o espaço gregário onde é imperativa a escola como instituição nuclear e estruturante dos princípios fundadores que consolidam a razão e a ciência. Digamos que é um espaço de segurança democrática dependente da nossa vontade. E como a escola portuguesa está consensualmente asfixiada num doentio emaranhado depois de quase duas décadas de políticas comuns de contracção, e radicalmente antagónicas nos conceitos, urge um reinício assente, desde logo, na simplificação organizacional.


Para além da essencial redução de alunos por turma e por escola ou organização, há quem use a ideia de escola como abrangente sala de estudo (ou biblioteca: A. Nóvoa) em clima de conectivismo (tese de George Siemens que seria preciosa na pandemia) e currículo completo. Um espaço gregário onde os alunos estudam, pesquisam, socializam e aprendem, com os professores e com os pares, num ambiente em que os conteúdos digitais são construídos no interior da escola de modo a contrariar os massificados e homogeneizados.


Essa ideia de escola necessita de educar para detalhes decisivos e já testados: horários escolares sem campainhas e que instituam intervalos descentrados no tempo, e decididos pelos professores, de acordo com as exigências das diversas disciplinas e das idades dos alunos. Esses horários escolares, em escolas bem dimensionadas, permitirão diversas soluções de co-ensino. Uma vez que a combinação interdisciplinar permite todas as possibilidades, é necessário tempo e previsibilidade para a construção de projectos que considerem o perfil dos professores, as instalações e os respectivos horários; e essas variáveis não só não se definem por decreto, como oxigenam a inovação, a autonomia e a responsabilidade.


Estando aqui, importa precisar estilos de ensino sem engavetar teorias. O triângulo decisivo - alunos, professores e conhecimentos - é intemporal "como percebeu Hubert Hannoun". A ultrapassagem dos conflitos e contradições da educação, e da tensão da relação pedagógica (professor-aluno), tem os conhecimentos como mediadores e data e reequilibra três propostas: pedocentrismo, magistercentrismo e rogerianismo.


Finalmente, se também urge, como a pandemia revelou, uma escola que não substitua a sociedade e que integre no currículo as sessões realizadas fora da escola desde que reconhecidas pelos professores, então estamos no domínio da consolidação democrática. Mas para tudo isto, é essencial que o Professor volte a liderar a ideia de escola. Aliás, "um dos motivos pelos quais é tão difícil prever qual será o final da nossa história com a Inteligência Artificial prende-se com o facto desta história não ser apenas sobre máquinas. Também é uma história sobre seres humanos" (Kai-Fu Lee em "as superpotências da inteligência artificial - a china, silicon valley e a nova ordem mundial").


Nota: neoluditas são aqueles que se opõem às novas tecnologias e/ou às novas relações laborais que delas decorrem.


Este texto foi publicado pelo Público em 7 de Setembro de 2020. De acordo com o combinado, agendei a sua publicação aberta no blogue para o dia 8 de Setembro de 2020.

sábado, 1 de maio de 2021

Trabalhador Como Conceito

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"Por que será que se riem quando digo que trabalho muito?", interrogou-se o humorista. Compreendi-o. Fazer rir, como de resto acontecia com a maioria das actividades culturais, ficava aquém do conceito que considerava um banqueiro ou um facilitador de contactos o grau elevado do exercício profissional. O valor do trabalho restante media-se pela "possibilidade" de sobrevivência para baixo; era disso que riam.


Já não é assim. Algo mudou no conceito, mas tardam as reversões. 


Os professores, por exemplo, gozam de boa reputação nos inquéritos junto das populações, mas "irritam" o poder da última década e meia em Portugal. A mediatização bem se esforça pela sua descredibilização. Os professores incomodam e foram escolhidos; e não apenas por serem muitos. Tudo começou uns anos antes da chegada do tríptico de credores. Não é especulativo afirmar que estamos há anos a fio a registar quase diariamente essa degradação sem um qualquer sinal de reversão.


Imagem: Chicago, 1 de Maio de 1886


 

terça-feira, 8 de setembro de 2020

Que Escola, e em Que Democracia, Na Sociedade que Aí Vem

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É importante pensar para lá da pandemia, até porque se prevê a sobreposição do isolamento físico sobre o gregário na sociedade que aí vem; e dito assim para simplificar. E se no espaço do isolamento físico estão os que acreditam no absolutamente digital, no gregário não encontramos os que o rejeitam nem sequer os neoluditas. É um debate centrado num "enxame digital" e nos "gigantes da web - os GAFAM (Google, Apple, Facebook, Amazon e Microsoft) - que nos querem controlar" (Naomi Klein) e que hierarquizam prioridades: "ensino à distância, 5G, telemedicina, drones e comércio online generalizado". Acima de tudo, há uma estratégia à procura da melhor posição global no "monopólio da inteligência artificial que governará o mundo" (Vladimir Putin). A escola não escapará ao vórtice. Os milhões que se prevêem para o digital escolar em Portugal talvez melhorem o que existe, mas abrirão mais espaço ao isolamento físico que se impõe também por obra de países e organizações não democráticas.


Portanto, quando se pensa no futuro da democracia, e do bem público e comum numa sociedade mais justa e igualitária, defende-se o espaço gregário onde é imperativa a escola como instituição nuclear e estruturante dos princípios fundadores que consolidam a razão e a ciência. Digamos que é um espaço de segurança democrática dependente da nossa vontade. E como a escola portuguesa está consensualmente asfixiada num doentio emaranhado depois de quase duas décadas de políticas comuns de contracção, e radicalmente antagónicas nos conceitos, urge um reinício assente, desde logo, na simplificação organizacional.


Para além da essencial redução de alunos por turma e por escola ou organização, há quem use a ideia de escola como abrangente sala de estudo (ou biblioteca: A. Nóvoa) em clima de conectivismo (tese de George Siemens que seria preciosa na pandemia) e currículo completo. Um espaço gregário onde os alunos estudam, pesquisam, socializam e aprendem, com os professores e com os pares, num ambiente em que os conteúdos digitais são construídos no interior da escola de modo a contrariar os massificados e homogeneizados.


Essa ideia de escola necessita de educar para detalhes decisivos e já testados: horários escolares sem campainhas e que instituam intervalos descentrados no tempo, e decididos pelos professores, de acordo com as exigências das diversas disciplinas e das idades dos alunos. Esses horários escolares, em escolas bem dimensionadas, permitirão diversas soluções de co-ensino. Uma vez que a combinação interdisciplinar permite todas as possibilidades, é necessário tempo e previsibilidade para a construção de projectos que considerem o perfil dos professores, as instalações e os respectivos horários; e essas variáveis não só não se definem por decreto, como oxigenam a inovação, a autonomia e a responsabilidade.


Estando aqui, importa precisar estilos de ensino sem engavetar teorias. O triângulo decisivo - alunos, professores e conhecimentos - é intemporal "como percebeu Hubert Hannoun". A ultrapassagem dos conflitos e contradições da educação, e da tensão da relação pedagógica (professor-aluno), tem os conhecimentos como mediadores e data e reequilibra três propostas: pedocentrismo, magistercentrismo e rogerianismo.


Finalmente, se também urge, como a pandemia revelou, uma escola que não substitua a sociedade e que integre no currículo as sessões realizadas fora da escola desde que reconhecidas pelos professores, então estamos no domínio da consolidação democrática. Mas para tudo isto, é essencial que o Professor volte a liderar a ideia de escola. Aliás, "um dos motivos pelos quais é tão difícil prever qual será o final da nossa história com a Inteligência Artificial prende-se com o facto desta história não ser apenas sobre máquinas. Também é uma história sobre seres humanos" (Kai-Fu Lee em "as superpotências da inteligência artificial - a china, silicon valley e a nova ordem mundial").


Nota: neoluditas são aqueles que se opõem às novas tecnologias e/ou às novas relações laborais que delas decorrem.


Este texto foi publicado pelo Público em 7 de Setembro de 2020. De acordo com o combinado, agendei a sua publicação aberta no blogue para o dia 8 de Setembro de 2020.

quarta-feira, 22 de julho de 2020

Do Óbvio na Liderança de Organizações

Quem lidera uma organização de forma intensa tem que auto-limitar mandatos se isso não estiver na lei; e deve estar e ser cumprido. É interessante a entrevista de António Horta-Osório à BBC: “Não se pode estar permanentemente no pico da performance laboral”. O Expresso desenvolve-a:



"(...)O presidente do Lloyds Bank, que se tornou uma voz importante na defesa de melhores condições para assegurar a saúde mental no local de trabalho, recordou à BBC o seu próprio caso de ‘burnout’ e deixou um conselho: “Os períodos de alta performance laboral devem ser conciliados com períodos significativos de descanso”. "Obviamente não podia falar disso, porque afetaria a confiança no banco”, lembra Horta-Osório. “Era um problema constante na minha cabeça, o que me levou a dormir cada vez menos. E dormir cada vez menos levou-me à exaustão, até deixar de vez de dormir”. O presidente executivo do Lloyds, António Horta Osório, anunciou a saída do banco inglês em junho do próximo ano, ao fim de 10 anos na instituição. Numa nota de imprensa, o Lloyds Banking Group realça que Horta Osório entende que “as pessoas não se devem perpetuar nos cargos, para benefício das instituições e dos próprios”.(...)"


quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Estado de Excepção

 



"(...)Estado de excepção é um conceito utilizado pelo filósofo italiano Giorgio Agamben e inicialmente definido por Carl Schmitt. Preocupado com as derivações das nossas democracias, que legitimam ideias e práticas típicas das ditaduras, Giorgio Agamben recusou participar numa conferência nos USA para não ter de se sujeitar a passar pelo crivo securitário dos aeroportos. "Está em causa a minha liberdade" - afirmou. Forte crítico do que se passou em Guantânamo, Giorgio Agamben alerta-nos para um conjunto de fenómenos que podem corroer os alicerces das democracias ocidentais.(...)É bom recordar que foi sempre assim: de perda em perda até à ausência objectiva e subjectiva de direitos e com as justificações monetaristas e do equilíbrio das contas." 


domingo, 24 de junho de 2018

"A decadência do ensino público"

 


 


 


"A decadência do ensino público" é o título da "Carta de Semana" do 1º caderno do Expresso de 23 de Junho de 2018. Mesmo que a carta contenha pequenas imprecisões, é surpreendente que não exista um partido representado na Assembleia de República preocupado com o assunto. Mas o melhor é ler.


 


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quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

do financiamento da democracia

 


 


 


Falemos de coisas óbvias: as organizações políticas, como os partidos, são imprescindíveis à democracia que as deve financiar com transparência; qualquer desvio nos métodos alimenta os inimigos da democracia e indigna os seus defensores. O que foi dito sobre a indignação exclui os arrependidos em modo depois da hora difícil de escrutinar.


 


democracia


 


 

sábado, 2 de dezembro de 2017

do tempo de humanidade(s); e de artes

 


 


 


O sistema escolar desespera por um tempo de humanidade(s) - e de artes -: nos currículos, mas simultaneamente na ideia de escola. Se o Governo já cumpriu uma agenda e tenta a oxigenação do algoritmo de Costa&Centeno no sítio, quem diria, que o travou e desprezou, é tempo de olhar para o futuro do sistema escolar contrariando a absolutização do presente imposta recentemente. À desumanização da ideia de escola instituída por Sócrates&Rodrigues, seguiu-se a desumanização curricular de Passos&Crato. Esta última observação serve de memória para a primeira linha a inscrever no programa de afirmação do algoritmo.


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Imagem encontrada no blogue Dúvida Metódica

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Da cidadania numa espécie de Madeira

 


 


 


 


A localização é taxativa: a acção cívica prejudica-me e sou um alvo a abater pelo poder político local dominante. Há muito que me repetem a condição. São conhecidas as provas e dois conselhos gerais escolares acentuaram as certezas de quem conhece os corredores destas decisões.

É natural, portanto, que pense no assunto e que faça um qualquer balanço.

Assim de repente, já disputei, em quase três décadas, duas dezenas de eleições escolares na espécie de Madeira em que habito. Sempre como alguém que faz da acção cívica na defesa da escola pública um exercício de risco. Mas uma defesa com provas dadas, também em nome da ambição organizacional, da inovação e da qualidade e como primeiro numa equipa ou em modelo unipessoal. Em mais de trinta anos de exercício profissional, nunca fui nomeado pelo poder central ou local. Os cargos que exerci foram sempre por eleição em sufrágio directo e universal com cadernos eleitorais abrangentes.

Das duas dezenas disputadas (e nem sempre apresentei candidatura), venci, ou vencemos, umas quinze. Das cinco não vencidas, duas foram listas únicas que não obtiveram, por um voto (por incrível que possa parecer a coincidência e com um intervalo de cinco anos), os 50% exigidos pela lei, uma outra registou um empate em votação nominal (o poder da altura nomeou a outra pessoa) e conhecem-se duas derrotas em votação colegial (as únicas em que os representantes partidários, e afins, votaram) precedida de um simulacro de concurso, sempre o mais difícil para alguém com estas características e com a particularidade de uma delas ter registado um empate na primeira volta seguida de uma derrota por um voto (parece uma sina). Essas duas candidaturas foram também em nome dos profissionais da Educação e de defensores da escola pública que não esquecerei.

Para alvo a abater não me parece um currículo desprezível.

Não me acomodo na muito respeitável crítica pela crítica, aguento-me bem ao estatuto determinado e nunca sabemos o que é que o futuro nos reserva. Em 2009, publiquei um texto, "O golpe", como denúncia da promiscuidade no público-privado nos assuntos escolares. Parece que foi demasiado incómodo e que acentuou o tal alvo a abater (expressão que não gosto nem uso, mas que me tem sido repetida por pessoas autorizadas). Cada vez que o releio, vejo-o mais certeiro e isso explicará muita coisa.

domingo, 22 de junho de 2014

domingo, 23 de fevereiro de 2014

de 24 para 26

 


 


 


Quantas vezes lemos ou ouvimos uma ideia que parece que está a ler a nossa mente? Cruzei-me outra vez com o fenómeno, mesmo que naturalmente banal, quando ouvia na antena 2 uma reportagem sobre as "correntes d´escritas 2014". Escutei sensivelmente o seguinte: " houve, na nossa democracia, inúmeras pessoas que se sentiam cómodas, nos valores e nas convicções, na ditadura em 24 de Abril de 1974 e que a 26 eram revolucionárias. Isso criou um problema. Mantiveram as convicções e os valores pelo tempo fora e até fizeram uma espécie de escola".


 


Tinha 14 para 15 anos no 25 de Abril de 1974 e fiz nos anos que se seguiram alguma aprendizagem política: teórica e empírica, digamos assim, e não apenas através da passagem da ditadura para a democracia. Vivia em Moçambique, onde nasci, e participei em acesos debates a propósito do racismo, do colonialismo, do imperialismo e por aí fora. Depressa percebi as tais passagens de 24 para 26 com navegação sem alteração de valores ou convicções e foi exactamente o que fui encontrando em Portugal a partir de 1976. A confusa associação entre democracia e prosperidade ou entre democracia e oportunidade de negócio com desprezo pelo bem comum, atravessou os partidos políticos e beneficiou da mentalidade (associação de convicções e valores) de 24 que "legalizou" a corrupção que nos consome a democracia. A ideia de bem comum não prevaleceu.


 


Era evitável o fenómeno de 24 para 26? Como é que isso se tinha concretizado? Não foi exactamente essa passagem que garantiu a paz democrática durante 40 anos? São perguntas com resposta difícil.


 


Contudo, a ideia de arco da governação que uma determinada direita não se cansa de repetir mais parece um forma de exclusão dos valores e das convicções do 25 de Abril de 1974. Não milito em nenhuma organização de fora do arco (onde também há muito desse 24), mas intuo que a queda a que chegámos permite-nos afirmar que o estado vigente garante o 24 que está alojado nas organizações que compõe o tal arco e basta olharmos para os aparelhos partidários dos partidos que, à vez, governam.


 


 


 


 

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Os drones e a guerra higiénica

 


 


 


 


 



 


 


 


 


 


 


Os drones e a guerra higiénica


Pedro Xavier Mendonça

Sexta feira, 7 de fevereiro de 2014

 

"A guerra é uma questão de sangue. De muito e pouco. Muito, porque quer-se o sangue dos outros; pouco, porque procura-se poupar o próprio. A tecnologia surge precisamente neste duplo de destruição e proteção. Ao longo dos séculos, podemos ver nas armas a pretensão de destruir com mais precisão ou com maior massificação o inimigo, ao mesmo tempo que se tenta aumentar o nível de segurança do guerreiro. Umas armas tendem mais a um aspeto do que ao outro, mas têm-nos implicitamente no seu modo de ser. Uma espada é mais destruidora do que protetora e um escudo vice-versa. Uma bomba atómica destrói mais em massa do que um veneno, mas ambos, ao destruírem, protegem. As bombas atómicas lançadas pelos EUA no Japão na II Guerra Mundial foram um meio de destruição em massa que evitou que mais soldados americanos morressem. Diferentemente, na I Guerra Mundial, a inadaptação dos generais às novas máquinas de guerra lançou soldados para mortes estúpidas frente a um novo poder de fogo. Hoje, isto é cada vez menos provável.


 


A tendência para este binómio tem crescido. É visível o aumento da destruição ou da precisão da mesma e simultaneamente uma cada vez maior proteção do guerreiro. Os drones são o expoente máximo disto. São dispositivos robóticos que podem ser comandados à distância por terra ou ar. Destruindo com exatidão e por vezes em massa, protegem completamente o piloto, que fica no conforto do gabinete a conduzir o artefacto. Na lógica da segurança, atinge-se a despersonalização total do guerreiro. E uma desumanização ainda maior da guerra. Esta transforma-se numa espécie de jogo de computador, em que o sangue e a dor alheios são realidades tão distantes que se transformam em índices de ação em lugar de fatores de sentimento.


 


Ironicamente, a democracia favorece este tipo de guerra. Os soldados, em geral, neste regime, são mais preciosos do que numa ditadura. O comandante das forças armadas tem que responder perante os cidadãos. Veja-se o pudor que há nos EUA com os corpos dos militares mortos quando chegam a território americano. Explicar essas mortes não é fácil. Então passa a ser quase tão importante salvaguardar a vida do soldado como é destruir a do inimigo. É em democracia que o equilíbrio entre a necessidade de matar e a de proteger é maior. Por isso, ela favorece a dita despersonalização e uma perversão muito específica: apela-se aos direitos humanos na proteção do militar amigo ao mesmo tempo que esses direitos são desprezados no inimigo, por vezes de forma brutal. Basta ver como os atentados terroristas no Iraque são tratados como banalidades pelos media ocidentais comparando com a excecionalidade dos que ocorrem dentro das portas do ocidente. Por isso, para sair para a guerra há que ter a higiene da distância. A vitória mede-se nos ecrãs."