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domingo, 5 de outubro de 2025

"Nascer nas colónias é nascer desenraizado", em "A ultima lição de José Gil" por Marta Pais Oliveira (2025)

 


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Pelo blogue em 5 de Outubro de 2025, dia da Implantação da República e dia do professor.


Título: "Nascer nas colónias é nascer desenraizado", em "A ultima lição de José Gil" por Marta Pais Oliveira (2025)


Texto:


É muito interessante "A ultima lição de José Gil", de Marta Pais Oliveira (2025). Além de tudo, foi um reencontro com as minhas matrizes. O filósofo também nasceu em Moçambique, em Quelimane, frequentou, apesar de vinte anos antes, o mesmo Liceu Salazar (na então Lourenço Marques, onde nasci e cresci) e tem circunstâncias curiosas. Resumo algumas passagens num dia de feriado nacional da implantação da República e de dia do professor:


Lê-se na página 16: "o meu pai emigrou(...)nós resultámos dessa espécie de duplicação de um desenraizamento. Nascer nas colónias é nascer desenraizado, primeira coisa. E isto é um duplo desenraizamento." E na página 22: "não pude suportar aqueles gritos, abri a porta e os meus pais gritaram para não sair. Corro e vejo um negro deitado no chão, amarrado pelos punhos, de braços e pernas abertas, a ser batido com uma palmatória nas mãos e nos pés por um administrador sádico. Isso pôs definitivamente uma parte de mim do lado da justiça. Quer dizer, não suportar a violência da injustiça. É um primeiro momento de tomada de consciência do regime colonial". E na página 33: "como aceitar isso sem pôr questões(...)as fraturas - mandar em criados velhos negros, ter o direito de mandar -, é uma coisa que a criança não pode admitir, a menos que seja levada a fazê-lo por uma espécie de interiorização da norma(...)e não se fala disso". E na página 36: "se eu pensar nessa matriz do que vivi em Moçambique: o sentimento da injustiça(...)uma inclinação imediata para estar do lado dos oprimidos. Para ter horror à arrogância e à estupidez dos que têm poder. Insuportável, para mim. Hoje, sempre. Nunca deixei de ser assim. E a importância da literatura, da escrita. Foi isso que retirei de Quelimane. Um sentimento da terrível impossibilidade de existir como colono a viver estas forças contraditórias."


No meu caso, só percebi verdadeiramente o desenraizamento ao viver na Europa depois da descolonização e da independência de Moçambique. A partir daí, senti-me ainda mais um cidadão do mundo, com uma rejeição absoluta da injustiça, que pauta a cidadania e a profissionalidade por esses valores. Acima de tudo, gosto de pessoas e nunca abdico das políticas de inclusão. Apesar de naturalmente gostar de territórios e das suas especificidades, o que gosto, e no sentido que mais importa, é de humanos; e não me surpreendem as críticas veementes às declamações políticas de paixão pelo "nosso" espaço, pelas "nossas" pessoas ou pelos do "nosso" partido (a história comprova a sua génese demagógica). De facto, não há humanos proprietários do bem comum. O espaço é universal, os humanos são finitos e rejeita-se absolutamente o ódio aos mais fracos e a prevalência do mal.


E a propósito de tudo isto, do feriado e do dia do professor, lembrei-me deste pequeno texto que escrevi para o blogue em 26.10.2012


"Tinha uns 12 anos e viajava com o meu pai numa estrada moçambicana fora dos centros urbanos. Estava um dia muito quente. Parámos numa "cantina" - áreas de serviço que eram, em regra, propriedade de comerciantes portugueses imbuídos do espírito colonial (os metrópoles) - e deparámos com uma dezena de homens negros, bem suados e em tronco nu, à volta de uma mesa com uma bazuca - cerveja de litro e meio - no centro. O filho do comerciante, com uma idade igual à minha, atirava-lhes pão e repetia: "hoje é dia de festa".


O meu pai esteve em silêncio e à saída não se conteve: "serão os primeiros". Lá me explicou o que é que queria dizer com o desabafo. Anos depois, a revolta "legitimou" a tragédia. As áreas de serviço arderam, e, em muitos casos, com os comerciantes lá dentro. Foi também assim noutros capítulos dessa revolução. A cor da pele era o primeiro critério implosivo para humilhações acumuladas durante séculos.


As sociedades actuais não se devem considerar livres da ontogénese da humilhação. O bodo aos pobres deixa marcas. Os pobres não têm vergonha (a condição não o permite, sequer) de se socorrem do que existe para afagarem a fomeÉ certo que o fazem, como também é de saber filogenético que um dia manifestarão em implosão social as sucessivas humilhações."

domingo, 25 de agosto de 2024

Soltas (1)


"Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem."


José Saramago


Ensaio sobre a Cegueira


página 31


a última página do romance.


quarta-feira, 6 de março de 2024

É a história de um velho e pobre pescador

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É a história de um velho e pobre pescador que tinha uma forte amizade com um rapaz. Há muito que não conseguia pescar. Certo dia, pescou o maior peixe da sua vida. Mas como não conseguiu impedir o furioso ataque de esfomeados tubarões, voltou a terra apenas com o esqueleto do enorme espadarte. 



"- Que tens para comer? – perguntou o rapaz. 
- Um tacho de arroz de peixe. Queres? – perguntou o velho.
- Não. Como em casa. Queres que eu acenda o lume? 
- Não. Acendo-o eu depois. Ou como o arroz frio.
- Posso levar a rede? 
- Claro que podes.


Não havia rede, o rapaz lembrava-se de quando a tinham vendido, mas todos os dias representavam esta cena. Também não havia tacho de arroz, o que o rapaz também sabia."



Nota: do romance "O Velho e o Mar"” (The old man and the sea), de Ernest Hemingway (1952). Li-o pela primeira vez na adolescência, na época do "Moby Dick", de Herman Melville - o autor do também fascinante “Bartleby” -.

sexta-feira, 1 de março de 2024

Viaje


 



"Viaje segundo um seu projecto, dê mínimos ouvidos à facilidade dos itinerários cómodos e de rasto pisado, aceite enganar-se na estrada e voltar atrás, ou pelo contrário, persevere até inventar saídas desacostumadas para o mundo"


José Saramago,


Viagem a Portugal (Apresentação)


Imagem: Cervo.



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terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

Como esvaziar os Ku Klux Klan´s desta vida (2)

Steven Levitt é muito considerado no âmbito das ciências económicas norte-americanas. O seu livro Freakonomics (2006) faz perguntas pouco“académicas e obtém resultados surpreendentes. Achei muito interessante a história que motivou o descrédito da organização Ku Klux Klan.


Stetson Kennedy, um lutador pelos direitos cívicos, infiltrou-se, a meio da década de 1940, no Ku Klux Klan para o estudar. Nessa época, "todas" as crianças viam na televisão, antes do jantar, o Super-homem a combater Hitler e Mussolini. Stetson Kennedy convenceu os responsáveis pelo programa a centrar o combate no Ku Klux Klan. E como tinha atingido a assembleia suprema da organização, passou aos programadores a terminologia da sociedade secreta incluindo as senhas e as contra-senhas. Foi a desmobilização acelerada. Imagina-se o efeito sobre os membros da organização que chegavam a casa e viam as crianças a brincar aos polícias e ladrões com a utilização da verdadeira nomenclatura dos Klan. E para além do óbvio, recorde-se que eram organizações masculinas em que os membros aproveitavam as reuniões para passarem umas noites fora de casa.


Steven Levitt agarra nesta história a propósito dos efeitos da sociedade da informação na economia. Tem outras histórias curiosas e bem fundamentadas. Até se imagina a necessidade de receitas semelhantes para a desintoxicação das sociedades actuais.


Publiquei este post pela primeira vez em 5 de Outubro de 2006.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

Do homem médio (2)

Contactei a primeira vez com a formulação em título nos conselhos, sensatos para aquele contexto, diga-se, para sobreviver nos comandos: não te distingas, sê discreto e passa o mais possível despercebido. Vem isto a propósito dos especialistas que aconselham a enésima reforma de sentido único do estado social e para a conversão à absolutização da estatística.

A sugestão para o tempo militar não subscreveu os modelos do tipo BPN ou BES. Nem as instâncias internacionais de supervisão detectaram milhares de milhões em fuga porque só tiveram olhos para a média; para o homem médio.

Para Quételet "(...)o homem médio é para a nação o que o centro gravidade é para um corpo(...)". Há quem entenda que se deve levar muito a sério esta metáfora. O homem médio pode resumir todas as forças vivas de um país, coligando-as numa espécie de massa única.

Os modelos assentes na obstinação estatística, e que socorreram a troika, advogam uma excelência da média como tal, seja na ordem do bem ou do belo: "(...)O mais belo dos rostos é aquele que se obtém ao tomar a média dos traços da totalidade de uma população, do mesmo modo que a conduta mais sábia é aquela que melhor se aproxima do conjunto de comportamentos do homem médio(...)", disse ainda Quételet quando reflectia sobre a génese dos totalitarismos. Ou seja, é fundamental que as políticas olhem mesmo para além da média antes que esta se desloque para o extremo de mais baixos rendimentos.

terça-feira, 30 de janeiro de 2024

Pessoas não são alfinetes

 


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A propósito da seguinte passagem no meu último texto no Público, - "eliminação da valoração de escolas e professores baseada no absurdo dos resultados dos grupos de alunos deverem melhorar todos os anos" -, um comentador interessado discordou e pediu-me uma explicação.


Disse-lhe mais ou menos isto: imagine um professor que tem uma turma de 9º ano. Por que razão é que essa turma tem que ter uma média de resultados superior a outra do mesmo ano que leccionou no ano anterior e assim sucessivamente? Pense um bocado. E isso aplica-se à valoração de escolas e por aí fora. Imagino que deve ser difícil perceber, com um raciocínio simples, os equívocos dos fundamentos de toda uma tragédia.


Acrescentei: as turmas são todas diferentes, até do mesmo ano de escolaridade; e há tantas variáveis a influenciar climas, aprendizagens e resultados, que é por isso que é tão difícil e complexo avaliar o desempenho dos professores. O que existe em Portugal é uma aberração só possível na caricatura de uma social-democracia. A média das classificações que um professor atribui a uma turma, ou a várias do mesmo ano de escolaridade, não tem que subir todos os anos. Até pode descer. A lógica da avaliação na economia e na gestão empresarial (subidas do crescimento económico e dos lucros) foi aplicada tragicamente à educação. Até o pai do liberalismo, Adam Smith (2010:80), em Riqueza das Nações, F. C. Gulbenkian, alertou "que pessoas não são alfinetes".


E lembrei-me de Jorge de Sena e da frase que colei na imagem.