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sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Um bom estudo da Missão Escola Pública

Um professor pode trabalhar até aos 70 anos. Ou seja, pode continuar a trabalhar depois de atingir a idade da reforma. A decisão pode ser incompreensível numa classe tão desgastada, mas é legítima. Não tem a culpa é que o Governo pague por isso e que a sua decisão se torne um entrave ao rejuvenescimento do grupo de professores se prolongar a carreira numa zona não carenciada de professores e leccionar uma disciplina que formou professores em excesso e tem uma longa lista de não colocados.



"Professores: adiamento da reforma pode revelar-se medida “economicamente danosa”"



 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

O caricato tema dos sumários sintetiza o que os estudos dizem há mais de uma década: "há uma organização do trabalho que adoece os professores".

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O caricato tema dos sumários sintetiza o que os estudos dizem há mais de uma década: "há uma organização do trabalho que adoece os professores". E se estão mais do que identificadas as causas organizacionais e relacionais que colocaram Portugal no topo dessa patologia, os governantes espantosamente ignoram-nas ou não sabem o que fazer. Mas o mais grave é que as acentuam com estas decisões, quando a fuga dos professores ao ensino já é declarada até pela maioria dos mais jovens com 5 ou menos anos de serviço.


E o leitor menos versado nestas questões interrogar-se-á: mas os professores não preenchem os sumários e não devem receber o salário se não o fizerem? E se se sabe a quem pagar horas extraordinárias - e quantas -, são precisos os sumários para se conhecer o número de horários sem professor? A resposta às questões é simples: esta decisão é caricata e não são necessários os sumários para se saber quantos horários estão sem professor.


De facto, os professores faziam os sumários analógicos desde que há escolas e era um registo mais simbólico do que outra coisa qualquer. Aliás, desde que há escolas que os professores sabem que prestam duas contas, desde que legalmente convocados, a qualquer momento: como gerem o programa que leccionam e como avaliam os alunos. Estes sumários digitais são um picar do ponto e uma síntese da aula associada à marcação das faltas aos alunos. Nem sequer permitem que o professor consulte os seus históricos. Os professores usam o conceito de sumário para informar os alunos, mas têm outros modos de controlar o planeamento. E nem sequer as escolas consultam os sumários para saber se um professor faltou - como também não o faziam no tempo dos livros de ponto.


Mas com a inserção dos horários dos professores em plataformas digitais, os sumários seguiram o mesmo caminho. Passaram a ter um limite temporal - a falha exige justificação - para o preenchimento em ambientes de exasperante lentidão, ou de interrupção de servidores e de sinal de internet. Em regra, o sumário tornou-se mais um trabalho de casa.


Interrogar-se-á ainda o leitor: mas como é que se marcam as faltas dos professores? As faltas são, e bem, sinalizadas por assistentes administrativos e operacionais. Mal seria se numa escola não se conhecesse em tempo real, e sem o digital, a falta de um professor.


Claro que o fenómeno tem vários e importantes ângulos de análise. Fiquemos por três.


1. O conhecido ambiente de caos informacional nas escolas, que incluiu a decisão de digitalizar sumários, sumaria-se assim: o MECI licencia o software de empresas privadas que os agrupamentos e as escolas usam, e pagam, para a gestão de dados (e o tragicómico, é que o MECI começou, em 1998, o seu portal - denominou-o depois E360, já que ia englobar tudo - e abandonou-o em 2024 por incapacidade). E como os Governantes não indicam às empresas a informação a obter, a relacionar e a automatizar, instala-se uma balburdia informacional. As escolas mergulham num inferno de emails, onde anexam grelhas em excel ou word, e de plataformas digitais para obter dados repetidos ou inúteis em reuniões inúteis. Por precaução, os registos são ainda impressos e arquivados em infindáveis prateleiras.


2. Agravou-se porque a fatal desconfiança nos professores até saliva com o picar do ponto e com o controlo. Portugal é tristemente campeão nessa doença. Nas escolas, e ao contrário do Multibanco ou do Banco Online, a transição digital não significou eliminar procedimentos. Por exemplo, seria lógico que dos livros de ponto analógicos só transitasse o lançamento das faltas dos alunos. Mas não. Transitou tudo e o Governo carimbou os sumários digitais com um argumento tecnicamente surreal: só assim se apurará, finalmente e em 2026, quantos horários de professores estão por preencher e quantos alunos estão sem aulas; e entregou a trapalhada à KPMG (que parece que sugeriu a epifania controladora com os  sumários).


3. Por fim, a história das revoluções tecnológicas demonstra que a esperança em encurtar e frutificar o trabalho humano também levou ao seu excesso, a muita violência e ao aumento das desigualdades. Na presente revolução tecnológica correm-se riscos ainda maiores. O poder absoluto das gigantes tecnológicas, e da IA-GEN, estende-se à educação e é notório o perigo da imposição destes procedimentos.


Nota: já usei, naturalmente, muita desta argumentação ao longo dos anos.

sábado, 4 de outubro de 2025

Não são as profissões que fazem as pessoas; são as pessoas que fazem as profissões

 


Não são as profissões que fazem as pessoas; são as pessoas que fazem as profissões. Esta conclusão poética devia ser atendida por quem desvaloriza uma profissão a partir de um preconceito ou de uma experiência infeliz ou desagradável. Eleve-se um movimento inovador, como o cubismo no início do século passado, que coloque os elementos da cena em todos os ângulos possíveis (a ideia em título é minha; a parte do poema que está na imagem cubista tem outra ideia).


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terça-feira, 25 de junho de 2024

Fechei este ciclo profissional. A aposentação será a partir de 1 de Julho de 2024.

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A aposentação será a partir de 1 de Julho de 2024. Optei por uma antecipação voluntária. 


Ser professor tem, na minha perspectiva, duas dimensões inalienáveis que muitas vezes se cruzam: a profissional, na escola e no sistema escolar, e a cívica, na sociedade. Fechei um ciclo profissional de cerca de quatro décadas.


Fui professor em Lisboa, Porto, Amadora (Regimento de Comandos, em Serviço Militar Obrigatório), S. João da Madeira, Chaves (onde fiz uma inesquecível profissionalização em exercício no biénio 1983/85), Vila Real (onde, em 1986, entrei pela 1ª vez no quadro de uma escola), Viana do Castelo, Beja, Torres Vedras, Lourinhã (com momentos também inesquecíveis na coordenação do Desporto Escolar) e Caldas da Rainha (cerca de três décadas intensas), e sempre com uma relação elevada com alunos, profissionais da educação, encarregados de educação e representantes das organizações mais diversas.


Foi uma experiência inigualável ter alunos e desafiar a sua curiosidade e emancipação e um privilégio dirigir uma escola pública concretizando "impossíveis". Deste longo percurso de experiências profissionais tão presentes na memória, o mais importante é saber que a minha filha se orgulhará do exercício do homem e do profissional, que a minha mulher o testemunhou com efectiva cumplicidade, e que familiares, amigos, colegas e outros profissionais da educação souberam sempre com o que podiam contar.


Continuarei por aqui e pela restante actividade cívica, agora com outra relação com o tempo. Muito obrigado pela atenção.


 

quarta-feira, 19 de junho de 2024

Parecer da ANDE sobre o estudo da UTAO, com um detalhe óbvio e fundamental

Como é óbvio (e sem o devaneio do MECI de considerar que os professores leccionam até aos 70 anos):"(...) 8. Em conclusão, no fim de 2027, o desvio líquido provocado pela RITS (recuperação integral do tempo de serviço) é contrariado pelo fluxo positivo do sistema: são 170M€ consumidos pela RITS e 242M€ poupados pelo efeito da aposentação, ou seja, em relação ao Orçamento de 2024, há um ganho de 52M€. Como a ANDE defendeu, o Orçamento acomoda, até mais cedo do que se pensava, a RITS. 9. Face a estes dados matemáticos incontestáveis (...):"


apontamentos-sobre-o-estudo-da-utao (1).pdf


 


 

segunda-feira, 17 de junho de 2024

"46 mil professores efetivos concorrem a mudar de escola"

Pesquise por "professores do quadro que querem mudar de escola" e encontra notícias como a que vai ler e números como os que estão em título. E como se podia comprovar num estudo mais detalhado, há milhares que concorrem para "fugir" da insanidade organizacional e da autocracia na tomada de decisões; alimentam uma intenção que muitas vezes não passa de uma ilusão tal o estado a que se chegou.



"Este ano há 46 088 professores dos quadros a concorrerem ao concurso interno, para tentarem mudar de escola e ficarem colocados mais perto da residência. No último concurso, realizado em 2022, tinha havido 33 700 candidatos, pelo que estamos perante um aumento de 37% no número de docentes que procura uma transferência de estabelecimento de ensino."


segunda-feira, 3 de junho de 2024

Estudo da UTAO sobre reposição do tempo de serviço na função pública pronto em Junho


"Estudo da UTAO sobre reposição do tempo de serviço na função pública pronto em Junho. Coordenador da Unidade Técnica de Apoio Orçamental (UTAO) conta que estudo que avalia impacto orçamental do descongelamento de carreiras da função pública esteja pronto no próximo mês."



Mas, nas outras carreiras, trata-se de recuperar o tempo de serviço ou de melhorar as condições remuneratórias?



"(...)Há várias profissões a aguardar a melhoria das suas condições remuneratórias. Além dos professores ― que entretanto estão a ver que as suas reivindicações têm resposta ―,​ também os agentes das forças de segurança, os oficiais de justiça e os profissionais de saúde esperam ver as suas carreiras revistas. Era, aliás, justamente para valorizar estas carreiras que Pedro Nuno Santos, secretário-geral do PS, admitia ter disponibilidade para aprovar um orçamento rectificativo.(...)"



sexta-feira, 24 de maio de 2024

Da recuperação do tempo de serviço dos professores e dos concursos

É óbvio que é justo e fundamental que o poder político recupere o tempo de serviço dos professores, e cumpra uma promessa eleitoral. Mas para se ser justo, é crucial respeitar a História, criar massa crítica e conhecer bem os inúmeros detalhes brutalmente injustos. Por isso, e por serem tantos e labirínticos, é que se defende uma refundação assente na simplificação de colocar cada professor no escalão correspondente ao tempo de serviço prestado. Aliás, tal objectivo tem que nortear igualmente os concursos de professores: um, anual, e sempre com as vagas de quadro de escola; para o que se segue aos quadros de escola, há meios humanos e técnicos para que seja um não-assunto (o que não há é professores devidamente formados).


Bem sabemos que os tempos são velozes e que há diversos calendários, nomeadamente os eleitorais. Mas a justiça não deve ser apenas célere; deve ser também eficaz.

quinta-feira, 23 de maio de 2024

A ideia é fazer mesmo uma justiça histórica na carreira dos professores? Coloque-se cada um no escalão correspondente ao tempo de serviço que prestou

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Antes do mais, o tratamento político da carreira dos professores foi indecente. Permitiu contas certas e nunca se assumiu nem agradeceu o facto. Foi, de 2011 a 2024, o grupo profissional que mais contribuiu para esse objectivo orçamental. Sublinhe-se que a ideia vigente de recuperação do tempo de serviço é uma vitória notável dos professores.


Mas se a ideia é mesmo fazer uma justiça histórica na destruída carreira dos professores, só colocando cada professor no escalão correspondente ao tempo de serviço prestado. Ninguém será prejudicado e dar-se-á um passo histórico e efectivo numa encruzilhada administrativa calamitosa, em que cada professor é um caso com histórias de injustiças, ultrapassagens, esquecimentos e sonegações. De facto, a destruída carreira dos professores é um labirinto que desespera por uma simplificação.


Além disso, com esta decisão dar-se-ia um primeiro passo para alguma justiça numa luta de duas décadas contra os 4 eixos da proletarização: carreira, avaliação Kafkiana, gestão autocrática e inferno da burocracia. Estas duas décadas são, incontestavelmente, uma longa história de indignidades, brutais injustiças, parcialidades, arbitrariedades, oportunismos e autocracias.


Aliás, na mudança de milénio já existia conhecimento suficiente para não se impor a ideia de que se conseguiria pontuar com justiça o desempenho dos professores; e aplicando quotas. Tristemente, milhares de professores navegaram nessas águas. Consideravam-se os mais excelentes e aplicaram a efectivação da tragédia com burocracia e autocracia.


Duas notas:


1. vejo, lamentavelmente, sinais de que a história dos mais excelentes se pode repetir, acrescentando ainda mais autocracia;


2. também para o tema deste post e para quem está no 10º escalão, estudar-se-ia uma solução inspirada na ideia da Fenprof: "Os professores que já não tenham a possibilidade de recuperar, na totalidade ou em parte, o tempo de serviço que esteve congelado, poderão utilizar o período em falta para efeitos de despenalização da antecipação da aposentação (1 ano por cada ano não recuperado até ao limite de 6) ou (re)constituição do valor da pensão, sendo considerados, para efeitos de cálculo, os descontos efetuados nos 6 últimos anos."

sexta-feira, 3 de maio de 2024

Não será desta vez

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Não será desta vez que a destruída carreira dos professores do ensino não superior sairá do estado de injustiças, ultrapassagens, sonegações e por aí fora. Aliás, tudo indica que se acrescentarão mais injustiças e mais situações que desprezam a democracia.


Há uma espécie de desnorte governamental que atravessou quase todo o tempo que levamos de milénio. Quem entra a governar centra-se no corte do produto orçamental e na obtenção de dados, e cria mais entropia numa carreira que exige um corte no processo que simplifique procedimentos e reponha um ambiente inequivocamente democrático e justo (há inúmeras situações brutalmente injustas já irreparáveis). Sem isso, a falta estrutural de professores agravar-se-á.


Nota: para quem não domina estas coisas perceber melhor: é como com as alterações climáticas: não basta obter muitos dados, é crucial aplicar políticas quer vão à raiz do problema.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

Não são as profissões que fazem as pessoas; são as pessoas que fazem as profissões.

Não são as profissões que fazem as pessoas; são as pessoas que fazem as profissões. Esta conclusão poética devia ser atendida por quem desvaloriza uma profissão a partir de um preconceito ou de uma experiência infeliz ou desagradável. Eleve-se um movimento inovador, como o cubismo no início do século passado, que coloque os elementos da cena em todos os ângulos possíveis (a ideia em título é minha; a parte do poema que está na imagem cubista tem outra ideia).


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domingo, 1 de outubro de 2023

Alguém que informe o PSD

Alguém que informe o PSD que os professores reformados não podem recuperar tempo de serviço. A proposta de recuperação em 5 anos (20% em cada um) é tão surpreendente como querer recuperar a brutalmente injusta avaliação do desempenho como factor para concursos. Se chegarem ao poder em 2026, a recuperação do tempo terminará em 2031. Além de tudo, a não recuperação já originou perdas irreparáveis no valor das reformas (muitos professores nem terão pensão capaz de pagar um lar de idosos). Por outro lado, não estavam cá em Novembro de 2022 quando os professores explodiram de indignação por se querer passar o concurso para a autocracia escolar e com a avaliação Kafkiana como factor de seriação?

sexta-feira, 15 de setembro de 2023

São as políticas, e não o absentismo ou as aposentações, que causam a falta de professores

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São as políticas, e não o absentismo ou as aposentações, que causam a falta de professores


Pelo Público em 13 Setembro de 2022. Como acordado, o texto está publicado no blogue.


Título: São as políticas, e não o absentismo ou as aposentações, que causam a falta de professores


Milhares de alunos meses a fio sem professor a pelo menos uma disciplina, ou com constantes substituições dos precários que os ensinam, são sinais preocupantes para as democracias; por cá, tornaram-se indisfarçáveis desde 2017. Como se regista nos EUA, no RU e em vários países europeus (os nórdicos resistiram porque têm classes médias maioritárias e consistentes), é nos territórios com mais problemas sociais ou isolados, ou atingidos pela especulação imobiliária, que cresce a falta de professores.


Aliás, ser professor já só motiva uma minoria interessada na formação em educação básica. É o resultado das reformas neoliberais, sintonizadas com a OCDE, que visaram a sustentabilidade económica dos estados. A forte redução dos orçamentos da educação exigiu políticas de engenharia social que incluíram a descredibilização da escola pública e dos seus professores. Em regra, os governos seleccionaram uma forma de manipulação para popularizar as decisões: destaques mediáticos especulativos das estatísticas do absentismo dos professores e da sua massa salarial.


A bem dizer, Portugal chegou tarde a este processo. Mas acelerou-o a meio da década de 2000. Aplicou a eito, com pouca consistência teórica e sem estudos empíricos, um conjunto de políticas extremistas na carreira dos professores, e na sua avaliação, sustentadas por um modelo autocrático de gestão das escolas. As históricas contestações dos professores (2008 e 2013) - reconhecidas pelas oposições nas campanhas eleitorais, mas "esquecidas" logo que tomaram o poder -, anteciparam a crise vigente.


Acima de tudo, a inacção dos sucessivos governos desconvocou a esperança, instalou o desalento e eliminou a capacidade de contestação dos professores. Mas criou uma casta que se acomodou e que usa um argumentário que suaviza a consciência dos governos.


Para além disso, o marketing partidário manipulou os dados dos resultados dos alunos para certificar o caminho certo. A melhoria no PISA (OCDE), ou a "natural redução do abandono escolar" numa sociedade que se desenvolveu e escolarizou, serviu para discursos oportunistas nivelados pelas contendas sobre os rankings nacionais.


No essencial, as finanças passaram a supervisionar a educação. Como confessou Alexandra Leitão (teve pastas na AP e na Educação) ao Expresso de 19 de Agosto de 2022, "o sistema de avaliação da AP é injusto. Tentei modificá-lo e não consegui. Não houve abertura do Ministério das Finanças. Não vale a pena dizer outra coisa."


De resto, estabeleceu-se um silêncio estrutural sobre uma organização que "adoecia os professores" e os mergulhava num tríptico bem documentado: exaustão, amargura e indignação. Até quem experimentou o exercício, identificou de imediato os procedimentos parciais e arbitrários.


Tudo isto foi fatal. Não só promoveu a fuga dos professores, como transformou as escolas em laboratórios de controlo social e favoráveis ao caciquismo local. Aliás, é já só neste universo que encontramos "dinossauros" a dirigir a mesma escola durante cerca de duas décadas, ou até três ou mais, e que ainda são aplaudidos pela corte do sistema que faz assim tábua rasa da mais elementar ética republicana. 


Por isso, a comparação da actualidade com 2010, como fez o actual ministro da Educação, regista a subida do absentismo e da mobilidade por doença sem a necessidade de inundar os leitores com números. Há causas transversais à AP (exaustão, envelhecimento e milhares de aposentações na década de 2020 que os governos ignoraram) e é igualmente consensual o efeito devastador das políticas.


Em suma, as democracias estão numa encruzilhada e aumenta a apreensão com o crescimento das desigualdades educativas e das escolas para ricos.


E antes do mais, sublinhe-se que a aceleração do digital na pandemia demonstrou a imponderabilidade da substituição de professores por máquinas (ou por qualquer modelo de tele-escola) tão desejada pelos ministérios das finanças, pela OCDE e pelas gigantes tecnológicas.


Mas um sinal sonoro da aflição europeia foi dado por Macron: "nenhum professor receberá menos do que 2000 euros líquidos mensais". Por cá, é matéria indiscutível. O debate não abre, nem com as ameaças frequentes de Bruxelas de levar Portugal a "tribunal se não acabar a “discriminação” dos professores contratados" que "auferem sempre o salário mínimo da carreira independentemente do número de anos de serviço" (que pode chegar às duas dezenas). E recorde-se: a carreira em Portugal é a que tem mais travões na AP e os professores são os únicos que não recuperaram a totalidade do tempo de serviço. Aliás, tornou-se agora mais evidente como eram parciais as contas das finanças.


"Uma mudança de políticas" permitiria, no mínimo, sonhar. Desde logo, tentar que o problema não se agrave e eternize. Recuperaria professores profissionalizados desistentes, revigoraria os que existem e oxigenaria a atractividade do exercício. Mas não há sinais nesse sentido; pelo contrário.


Nesta fase, a acção do Governo centra-se num recuo da lei das habilitações para algo semelhante ao que acontecia no início do milénio. Essa decisão provocou o tradicional debate sobre a melhor formação. Concorda-se com quem defende que a habilitação própria seja equivalente à que permite aceder ao mestrado profissionalizante essencial para a entrada nos quadros das escolas.


Resumidamente, não se ensina violino, basquetebol, gramática ou álgebra, sem se saber violino, basquetebol, gramática ou álgebra. Ajuda muito se se estudar Piaget, Freud, Hannoun, Erikson, Bruner, Ausubel, Sandel, Markovits e por aí fora. É também fundamental que a profissionalização seja em exercício nas escolas (plurianual de preferência) e não num apressado ensino à distância. Estes domínios são mais determinantes do que os debates que diminuem as pessoas porque se formaram depois de Bolonha, ao mesmo tempo que se omite a descida ocorrida com o absolutismo das Ciências da Educação.


E nunca é excessivo repetir que ensinar é difícil. Necessita de um clima de confiança e de boas condições de leccionação. Requer preparação e energia, e exige a desafiante adaptação da personalidade aos estilos de ensino. Inscreve estudo para a vida e convoca a esperança e o optimismo. 


Acima de tudo, urge o regresso de aquilo que as políticas vigentes anularam: professores satisfeitos com uma escolha profissional digna que não os esgota em burocracia e em procedimentos digitais repetidos e inúteis, livres para ensinar e aprender e com tempo para a cidadania.

domingo, 10 de setembro de 2023

Um retrato de um país com os professores à beira de outro ataque de nervos

Um retrato de um país com os professores à beira de outro ataque de nervos. "Sujeitei-me a muita coisa porque sempre acreditei que um dia teria alguma compensação, mas o tempo passa e eu ponho-me a olhar para trás e a questionar: Quando é que isto vai acabar?", desabafou. "Ana Rita vive sozinha num quarto alugado na Buraca, na Amadora, a 300 quilómetros de casa. Elisabete Rodrigues desistiu este ano e abandonou a profissão."



"Com 50 anos, professora vive num quarto para poder dar aulas. Ana Rita já é avó e vive sozinha num quarto alugado na Buraca, na Amadora, a 300 quilómetros de casa. Elisabete Rodrigues desistiu este ano e abandonou a profissão."


sexta-feira, 14 de julho de 2023

Década e meia perdida na Educação

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A História não se repete exactamente, mas o que estamos a viver na Educação era previsível e parece plasmado de 2008. Confirma-se o que os professores disseram nessa altura: as políticas na carreira e avaliação dos professores, e na gestão das escolas, são desastrosas. Se em 2008 os professores resistiram, mas os poderes instalados anestesiaram a contestação, em 2023 a onda de saturação é ainda, e naturalmente, mais forte e informada.


É importante reforçar que a saturação dos professores é transversal e fundamenta-se em três condições: "fuga" para quem tem outra saída profissional, ou só olha para o que falta para a aposentação; revolta contida para quem ainda tem anos de serviço a percorrer; e sobrevivência visível para quem se sujeita à avaliação injusta e kafkiana. Os próximos tempos serão importantes e os professores não estão livres dos tais poderes anestesiadores até dentro da classe profissional. Como alguém dizia ontem, e a pensar, desde logo, no parlamento, no ME, nas ramificações e nos sindicatos, "há professores que deviam ter vergonha de estar nesta manifestação".


Em suma, o mundo mudou e década e meia perdida na Educação é imperdoável.


Segunda edição deste texto.

sábado, 8 de julho de 2023

17 anos De Uma Tragédia Anunciada Que Só Os Professores Viam

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Avaliar um professor por um relatório de três páginas (que mencionará, ou não, mais duas farsas próprias do estado a que isto chegou: aulas observadas e horas de formação) pontuando-o até às décimas numa escala de 1 a 10 pontos, é uma farsa burocrática que só existe nas caricaturas de uma social-democracia. O SIADAP (avaliação na nossa administração pública) só funciona em clima de faz de conta. Quando se aplica com cotas em universos de grandes escalas, como na Educação, há uma fuga de profissionais que se arrasta à formação inicial. Se às cotas ainda se acrescenta vagas e cortes a eito nas carreiras, a explosão social, que mistura exaustão com indignação, é uma questão de tempo; agravou-se, porque se impôs um modelo de gestão de escolas com portas abertas à autocracia e a parcialidades (no mundo mediático já se fala de "clima pidesco, de pequenos tiranetes e de professores deseducados); e o impensado modelo de mega-agrupamentos ampliou tudo o que foi dito.


Em suma, nenhuma profissão pode ser avaliada no modelo aplicado aos professores.


De resto, estabeleceu-se um silêncio fatal sobre uma organização que "adoeceu os professores" e que os mergulhou num tríptico de "fuga", cansaço e revolta contida. Até quem experimentou o exercício, identificou de imediato o clima arbitrário e o monstro burocrático. E repita-se: desde que há escolas que os professores devem estar sempre preparados para a prestação de duas contas: como gerem o programa da disciplina que leccionam e como avaliam os alunos. Contudo, e por influência dos graduados em desconfiança, aplicou-se aos professores uma espécie de inversão do ónus da prova que explica a insanidade burocrática através do registo, infernal e inútil, de todos os passos em actas, relatórios, notas, pareceres ou plataformas digitais. Os resultados trágicos de tudo isto estão, finalmente e naturalmente, bem visíveis. Só surpreendem a tal casta governativa, ramificada pelo território, que criou uma bolha ilusória, alimentada nas escolas da situação, que assegurava que o bom seria governar sem os incompreensíveis professores.


1ª edição em 21.Janeiro.2023