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domingo, 5 de outubro de 2025

"Nascer nas colónias é nascer desenraizado", em "A ultima lição de José Gil" por Marta Pais Oliveira (2025)

 


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Pelo blogue em 5 de Outubro de 2025, dia da Implantação da República e dia do professor.


Título: "Nascer nas colónias é nascer desenraizado", em "A ultima lição de José Gil" por Marta Pais Oliveira (2025)


Texto:


É muito interessante "A ultima lição de José Gil", de Marta Pais Oliveira (2025). Além de tudo, foi um reencontro com as minhas matrizes. O filósofo também nasceu em Moçambique, em Quelimane, frequentou, apesar de vinte anos antes, o mesmo Liceu Salazar (na então Lourenço Marques, onde nasci e cresci) e tem circunstâncias curiosas. Resumo algumas passagens num dia de feriado nacional da implantação da República e de dia do professor:


Lê-se na página 16: "o meu pai emigrou(...)nós resultámos dessa espécie de duplicação de um desenraizamento. Nascer nas colónias é nascer desenraizado, primeira coisa. E isto é um duplo desenraizamento." E na página 22: "não pude suportar aqueles gritos, abri a porta e os meus pais gritaram para não sair. Corro e vejo um negro deitado no chão, amarrado pelos punhos, de braços e pernas abertas, a ser batido com uma palmatória nas mãos e nos pés por um administrador sádico. Isso pôs definitivamente uma parte de mim do lado da justiça. Quer dizer, não suportar a violência da injustiça. É um primeiro momento de tomada de consciência do regime colonial". E na página 33: "como aceitar isso sem pôr questões(...)as fraturas - mandar em criados velhos negros, ter o direito de mandar -, é uma coisa que a criança não pode admitir, a menos que seja levada a fazê-lo por uma espécie de interiorização da norma(...)e não se fala disso". E na página 36: "se eu pensar nessa matriz do que vivi em Moçambique: o sentimento da injustiça(...)uma inclinação imediata para estar do lado dos oprimidos. Para ter horror à arrogância e à estupidez dos que têm poder. Insuportável, para mim. Hoje, sempre. Nunca deixei de ser assim. E a importância da literatura, da escrita. Foi isso que retirei de Quelimane. Um sentimento da terrível impossibilidade de existir como colono a viver estas forças contraditórias."


No meu caso, só percebi verdadeiramente o desenraizamento ao viver na Europa depois da descolonização e da independência de Moçambique. A partir daí, senti-me ainda mais um cidadão do mundo, com uma rejeição absoluta da injustiça, que pauta a cidadania e a profissionalidade por esses valores. Acima de tudo, gosto de pessoas e nunca abdico das políticas de inclusão. Apesar de naturalmente gostar de territórios e das suas especificidades, o que gosto, e no sentido que mais importa, é de humanos; e não me surpreendem as críticas veementes às declamações políticas de paixão pelo "nosso" espaço, pelas "nossas" pessoas ou pelos do "nosso" partido (a história comprova a sua génese demagógica). De facto, não há humanos proprietários do bem comum. O espaço é universal, os humanos são finitos e rejeita-se absolutamente o ódio aos mais fracos e a prevalência do mal.


E a propósito de tudo isto, do feriado e do dia do professor, lembrei-me deste pequeno texto que escrevi para o blogue em 26.10.2012


"Tinha uns 12 anos e viajava com o meu pai numa estrada moçambicana fora dos centros urbanos. Estava um dia muito quente. Parámos numa "cantina" - áreas de serviço que eram, em regra, propriedade de comerciantes portugueses imbuídos do espírito colonial (os metrópoles) - e deparámos com uma dezena de homens negros, bem suados e em tronco nu, à volta de uma mesa com uma bazuca - cerveja de litro e meio - no centro. O filho do comerciante, com uma idade igual à minha, atirava-lhes pão e repetia: "hoje é dia de festa".


O meu pai esteve em silêncio e à saída não se conteve: "serão os primeiros". Lá me explicou o que é que queria dizer com o desabafo. Anos depois, a revolta "legitimou" a tragédia. As áreas de serviço arderam, e, em muitos casos, com os comerciantes lá dentro. Foi também assim noutros capítulos dessa revolução. A cor da pele era o primeiro critério implosivo para humilhações acumuladas durante séculos.


As sociedades actuais não se devem considerar livres da ontogénese da humilhação. O bodo aos pobres deixa marcas. Os pobres não têm vergonha (a condição não o permite, sequer) de se socorrem do que existe para afagarem a fomeÉ certo que o fazem, como também é de saber filogenético que um dia manifestarão em implosão social as sucessivas humilhações."

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Por Proust e pelos espaços há muito imaginados

 


Quando regressei à cidade, hoje Maputo, onde nasci e cresci e pouco tempo depois da partida "definitiva", senti uma descida emocional; uma desilusão que inesquecivelmente se esbateu uns três dias depois. E a permanência por trinta dias provocou uma "dor de saudade", talvez por se tornar aguda a consciência da perda, ainda mais intensa do que no primeiro abandono. Ao ler "O essencial sobre Marcel Proust" (apenas digital do autor de uma das obras da minha vida), de Mega Ferreira, percebe-se, escrito como ninguém e com uma inigualável sensibilidade como era o caso de Marcel Proust, que isso não só acontece nos regressos como muitas vezes se repete nas deambulações pelos espaços há muito imaginados. A propósito, José Saramago tem um passagem muito boa na apresentação do seu "Viagem a Portugal": "Viaje segundo um seu projecto, dê mínimos ouvidos à facilidade dos itinerários cómodos e de rasto pisado, aceite enganar-se na estrada e voltar atrás, ou pelo contrário, persevere até inventar saídas desacostumadas para o mundo".


 


terça-feira, 15 de julho de 2025

Comiam tudo

 


 


 


 


É uma história aconselhável a pessoas sensíveis ao sofrimento alheio, embora contenha imagens chocantes. Se ligarem o título à imagem compenetram-se dos perigos que vão correr. Quero convocar seres deste universo e partilhar o destino de uma das minhas memórias. Só tive uma dúvida: se seria um abuso usar a imagem de um tubarão numa história tão violenta, porque sei, pela voz da ciência, que estes animais são normalmente inofensivos e que a sua ferocidade é a reacção natural de quem é habitado pelos medos do mundo; como os humanos, afinal.


Acredito que serei absolvido. Parece-me palpitante começar uma narrativa desta maneira e antes de vos subir o pano não resisto a fazer uma declaração de princípios. Sempre que assisto a um discurso ministeriável para uma plateia de professores - e aconteceu uma coisas dessas, recentemente, num congresso de professores de história - reforça-se a necessidade dos jovens treinarem a memória através dos exercícios de cálculo na matemática. Pergunto-me repetidamente: então e a história? Ficarão os jovens mais preparados para enfrentarem os domínios da razão com a tabuada na ponta da língua ou com o conhecimento da história? Se tivesse que optar, escolhia as duas. Para ilustrar esta excêntrica conclusão, vou vos dar a conhecer como os encantos da infância podem ser ensombrados pelos relatos da investigação histórica.


A história passa-se em duas praias. No Tohofinho, uma das belas praias de Inhambane, cidade moçambicana, e na Foz do Arelho, a praia das Caldas da Rainha, cidade portuguesa. Entre uma e outra, esboroou-se um encantamento com mais de 30 anos.


Decorria o ano de 1971, tinha 11 para 12 anos e vivia na cidade de Maputo. As férias grandes eram intermináveis. Uns vizinhos convidaram-me para passar um mês, dos três que essas férias nos abençoavam, na cidade de Inhambane. Era preciso percorrer cerca de mil quilómetros para se chegar à cidade suave. Uma catedral erguia a centralidade da terra da boa gente, por baptismo de Vasco da Gama, que acolhia muitos cidadãos indianos e paquistaneses. Aparentava uma pacífica coabitação entre culturas.


Bastava percorrer uma ou duas dezenas de quilómetros para sermos presenteados com uma das belas praias que rodeavam Inhambane. O Tohofo (lê-se tofo) era a nossa escolha. Praia quente, de águas imaculadas e impossível de descrever. Pouco habitada, com um hotel, uma estância balnear de ferroviários e pouco mais. Uns poucos quilómetros antes de se chegar ao Tohofo, aparecia uma picada para o Tohofinho.


É do segundo lugar que a minha memória guarda as imagens que me fizeram escrever este texto. Os jovens chegavam diariamente ao Tohofinho pela praia. Centenas de metros percorridos de modo pedonal e sempre com a mente desperta para o aviso dos perigos mortais. O Tohofinho tinha uma rebentação fortíssima e era um albergue de tubarões.


Na fronteira das duas praias, erguia-se um invulgar rendilhado rochoso. Na maré vazia, a natureza oferecia-nos belas piscinas naturais. Foi numa dessas piscinas que tive a sensação única de tocar num tubarão vivo; pequeno é certo, já que esta história não vos é contada por um caçador de leões ou elefantes.


Guardo dessas férias a ideia de ter estado no paraíso. Passados 33 anos, e imaginem como cenário uma esplanada da não menos bela Foz do Arelho, lia uma entrevista da historiadora portuguesa Dalila Mateus. Que arrepio. A tese da investigadora apresentava argumentos para se considerar como genocídio a presença portuguesa nos territórios coloniais. Entre outros relatos, Dalila Mateus contou algumas atrocidades cometidas pela PIDE. Salientou a prática comum de se lançarem aos tubarões do Tohofinho - em plena primeira metade da década de 70 do século XX - os presos políticos negros. Em que águas límpidas terei eu nadado?


(Texto reescrito. 1ª edição em Maio de 2004)


 

quarta-feira, 28 de agosto de 2024

A partir de uma caricatura

 


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Foi uma surpresa muito agradável a inclusão do basquetebol nesta caricatura do Rui Foles (com quem nunca falei sobre o assunto) da Missão Escola Pública.

A minha ligação ao basquetebol começou, na rua e na escola (joguei nas equipas da primária, preparatória e liceu), em Moçambique e em Maputo (na altura, Lourenço Marques), onde joguei nos escalões jovens: no mini-basquete: Leões da Polana, Nauticus e Águias da Polana - aqui como treinador-, e nos escalões seguintes: Real Sociedade, Sporting Clube de LM e Sport LM e Benfica - no Benfica, como jogador e como treinador -; mas também em clubes de Lisboa: CIF, Sporting Clube de Portugal e Sport Lisboa e Oriental (numa incrível saga de basquetebolistas oriundos de Moçambique); neste último também nos seniores.

A vida fez com que fosse para o Porto e que a assinatura pelo Futebol Clube do Porto me colocasse um dilema (e não cabe aqui uma análise sobre o desporto de alta competição): escola pública ou basquetebol. Percebi que Portugal era um país de futebol (e já com uma indústria em crescimento) e que não existia a cultura do basquetebol de rua, digamos assim, nem do próprio jogo; e não era só no basquetebol, como ainda hoje se observa na instrumentalização doentia do desporto e na ausência de um projecto nacional minimamente sustentado e perceptível de formação desportiva que envolva a escola e a construção de instalações desportivas. Além disso, as carreiras desportivas eram, e são, arriscadíssimas e sem qualquer rede. Os dois anos de serviço militar obrigatório, e os outros dois de profissionalização como professor, em Chaves, ajudaram-me a decidir pela escola pública.

Ainda joguei em Chaves (no Ginásio, também como treinador), Vila Real (no Bairro Latino e no Ginásio, neste também como treinador), Viana do Castelo (no Sport Clube) e Caldas da Rainha (no Sporting Clube das Caldas da Rainha). Claro que ensinei e divulguei o basquetebol no desporto escolar e em jogos 3x3 de rua (nas Caldas da Rainha, por exemplo, apareceram 2600 basquetebolistas num Sábado inesquecível). O fascínio pelo jogo sempre me acompanhou: nas aulas, nos jogos inter-turmas e nos raros jogos alunos versus professores (como no ano passado); e, claro, interesso-me pela NBA. No fundo, são dois dos interesses para a vida espelhados no desenho do Rui Foles.

domingo, 28 de julho de 2024

"A primeira vaga de emigração qualificada foi para as colónias"


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"A primeira vaga de emigração qualificada foi para as colónias"


"(...)José Fernandes gostou da ideia de ir receber o triplo do que ganhava e de ser praticamente o seu próprio patrão, porque era ele quem ia gerir os três bares do hotel. Na altura, já pai de uma menina e de um menino, viajou sozinho. Ficou a viver num quarto do hotel durante uns tempos. A família juntar-se-ia mais tarde. O seu dia-a-dia era servir portugueses, ingleses, sul-africanos, rodesianos — todos brancos.


Para as colónias não ia quem queria, a emigração era selectiva até aos anos 1960. Um pretendente a colono tinha de fazer um pedido ao Ministério das Colónias para se poder fixar, e não era aceite se não cumprisse determinados requisitos — como ter um nível de rendimentos e de escolaridade altos, além de fonte de rendimento garantida no destino. Havia a carta de chamada — que pressupunha que uma empresa, um patrão, alguém que já lá estava, se responsabilizava por quem chegava. “A livre circulação no espaço do Império Português só foi decretada em 1962”, contextualiza a historiadora especialista nesta área Cláudia Castelo.


“Há aquela ideia um pouco difundida e errada de que a colonização portuguesa em África durou 500 anos. Mas a colonização efectiva é relativamente recente”, afirma a historiadora.


Com uma percentagem de mais de 40% de analfabetos, havia grandes desigualdades em Portugal. Em aldeias semelhantes à de José Fernandes, as casas não tinham água canalizada, nem esgotos, nem electricidade, nem casas de banho. Passava-se fome e havia crianças descalças, sem roupa. O país tinha altos níveis de pobreza, o trabalho infantil era uma realidade para muitos, e nas zonas rurais ainda mais.


Em Moçambique, então visto como parte de Portugal, estava a ser construído o Grande Hotel da Beira, o “maior hotel de África”, segundo o Anuário de Turismo do Ultramar. Com uma piscina olímpica e um estilo art déco, ficava perto da praia, no Índico. A aposta no turismo estava nos planos governamentais, e a 16 de Julho de 1955 foi inaugurado este edifício desenhado pelo arquitecto José Porto (1883-1965).(...)"


 


 


domingo, 25 de junho de 2023

As Guardiãs dos Leões da Gorongosa



Reedição no dia da comemoração

do 48º aniversário da independência

da República Popular de Moçambique.

 




(1ª edição em 20 de Fevereiro de 2008)





Aproximava-se a independência de Moçambique quando fiz uma visita que guardo em lugar seguro.

 

Integrei uma selecção que representava a futura nação. Percorremos as principais cidades e realizámos jogos de basquetebol integrados nos festejos. O dia 25 de Junho de 1975 foi eleito para o momento mais esperado: descerrar a bandeira portuguesa e substitui-la pela moçambicana. A delegação era chefiada por um guerrilheiro da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique), o generoso Cariquirique.

 

O 25 de Junho coincidiu com o intervalo da digressão. Três dias de descanso e contemplação na Gorongosa, no centro do país: uma extensa e deslumbrante savana, onde se convivia com animais que povoavam os nossos imaginários.

 

Cariquirique estava preparado.

 

À meia-noite em ponto trocou os galhardetes, discursou - falou-nos num Moçambique livre e multirracial, usando como metáfora uma sopa de legumes -, e deu-nos a ouvir pela rádio, apenas a letra teve direito a conhecimento prévio, o hino da Nação. Cantámos e festejámos com habitantes da região, tocadores de tambor ao melhor ritmo moçambicano, numa cerimónia libertadora e em que fomos voluntários e felizes convidados. Estávamos ali de alma e coração. O sol nasceu para todos: nós vimos.

 

Em virtude da guerra civil que estalou no país, a Gorongosa foi palco dos desmandos guerreiros. Foi flagelada pela cobiça dos traficantes de peles e marfins, e de toda a espécie de adereços de animais selvagens que deliciavam alguns consumidores dos lados mais requintados que a inteligência humana conseguiu arquitectar.


A Gorongosa foi dizimada.

 

Recupera, agora, os seus habitantes naturais. Na savana também se combate para viver. Os animais são destituídos dos melhores atributos da nobre ciência, mas revelam uma qualidade nada desprezível: têm muita paciência.

 

Encontrei um vídeo espantoso que até nem é muito do meu género e apetite. Mas merece que o veja; suposição minha, claro. São quase oito minutos e só no final é que deve tirar conclusões. Pode dizer-se assim: 

 

Gorongosa, para uma teoria da paz restaurada.



 



 


 

sábado, 13 de fevereiro de 2021

A Propósito de Gaudi


 


(Este texto não é inédito e reescrevi-o. Publiquei-o numa revista de educação, algures em 2000, 2001 ou 2002. "Recuperei-o" a propósito de uma conversa com quem visitou recentemente Barcelona. É uma homenagem a Gaudi, cuja igreja da sagrada família continua envolta em polémica; deveria ter sido concluída?)


Sempre que o tema da minha ocupação cerebral se relaciona com o pé direito, dois conceitos condicionam de imediato as minhas opiniões:



do lado a que sou menos dado, o das religiosidades, condiciona-me a abençoada e eterna entrada com o pé direito; foram tantos os seguidores desta superstição na passagem de ano da mudança de milénio que se esgotou a possibilidade de refutar os mais crentes;


do lado que mais me entusiasma, o do pé direito dos edifícios erguidos pelo esforço dos menos favorecidos dos Homens, podem contar com opiniões mais ousadas.



Suponho que este pé direito foi o verdadeiro motor da minha consciência cívica. Sei que buscar a origem da consciência dos Homens é tarefa só ao alcance de uns quantos. Mas da minha é algo que pode ficar ao critério do meu imaginário. Atrevo-me mesmo a dizer que quem em criança nunca quis tocar no tecto do mundo não pode ter uma boa consciência social. Fui tentando tocar nos tectos das minhas casas, embora a altura dos pés direitos me exigisse a adolescência para obter saborosos sucessos.

 

Na atmosfera do lugar onde nasci e depois cresci, vivia-se num constante apelo a duas actividades desportivas: o futebol e o basquetebol. A primeira mais do lado das religiosidades e a segunda mais do lado das ousadias.

Era com um sentimento de verdadeira transcendência que, de mãos dadas com os pais, avós ou tios, as crianças assistiam a esses rituais de boa convivência. É certo que nem sempre as coisas corriam bem. Na ânsia humana de ser mais veloz, de ser mais forte ou de chegar mais alto, os convívios tinham momentos que azedavam e se travestiam de aspectos assustadores.

 

Desde cedo que as crianças iniciavam os exames exploratórios. A primeira e última experiência como jogador de futebol num clube a sério ocorreu por volta dos onze anos. Vacinei-me. Como o campo de jogo era em tudo igual ao dos adultos, “o fenómeno pé direito” aparentemente só se manifestava no tamanho das balizas. Nada mais enganador. As dimensões intermináveis do campo e o peso insuportável da bola não me deixaram alternativa. Via, com uma surpresa ingénua, como os adultos sentiam uma alegria esfuziante com as dificuldades das crianças. As gargalhadas eram ruidosas. A desfaçatez chegava ao ponto de equiparem “os miúdos” com calções enormes para o espectáculo ser mais completo.

 

Fiquei para sempre nos jogos de rua com os meus amigos, onde eram as crianças que escolhiam o tamanho do campo, das balizas, da bola ou dos calções. Mas havia algo que começava a despertar a tal consciência de direitos de que vos falei antes.

 

Para a divulgação do jogo de basquetebol, os seus responsáveis construíam campos só para crianças onde o “fenómeno pé direito” era o inimigo número um. As dimensões do espaço do jogo, dos cestos ou das bolas eram apropriadas. Ideias avançadas com a assinatura de alguém que não se acomodou ao facto dos tectos parecerem estar a uma altura fora do alcance do comum dos mortais.

 

Foi também nesta altura que entrei para o liceu. Estávamos em 1971, em plena era marcelista. O liceu era ao melhor estilo da época, o inevitável liceu Salazar. O edifício era monumental e cheio de mármores brancos. Reinavam os espaços de amplitude arrasadora. A construção obedecia a ângulos absolutamente rectos. A altura do pé direito era de tal dimensão, que parecia desenhada com a única intenção de impossibilitar veleidades, até ao mais reverente. Lembro-me, e a propósito desta nossa conversa, de uma das primeiras aulas de matemática.

 

Para fundamentar o facto de duas linhas paralelas nunca convergirem, o pedagogo pediu-nos que olhássemos para as "intermináveis" colunas da sala de aula e imaginássemos a possibilidade delas se encontrarem. Nunca. Uns tempos depois, um colega segredou-me que ouviu alguém também autorizado afirmar o encontro das rectas paralelas no infinito.

 

Antes disso, e convém lembrar, o arquitecto catalão Gaudi iniciou a construção da igreja da Sagrada Família, desrespeitando a tese das colunas que nunca se encontram. Obra inacabada. Morreu em 1917 e os catalães ainda não conseguiram pôr fim ao pesadelo.

 

Tenho pensado muito sobre esta esquisita maneira de considerar que as crianças, os idosos ou os inadaptados não têm direito a querer tocar nos tectos dos seus mundos e ainda não encontrei as razões. 

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Carlos do Carmo (1939-2021)

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Decorria o ano de 1972 ou 73, vivia na então Lourenço Marques (hoje, Maputo), e fui jantar à Pizzaria "La Bússola" que tinha uma lasagna única e música ambiente com sabor a liberdade. Foi aí que ouvi pela primeira vez "As canoas do Tejo" de Carlos do Carmo. Nunca mais me saiu do ouvido. E era uma época em que os jovens moçambicanos desprezavam, naturalmente, quase tudo o que vinha de Portugal e da metrópole, onde se incluía o fado. Zeca Afonso era a música portuguesa ouvida pelos jovens moçambicanos.


Mas mal eu sabia que por essa altura o meu querido e saudoso primo, António Marques Júnior, planeava o 25 de Abril. E foi a propósito da morte de Carlos do Carmo que li este texto:


"Abraço de Abril a Carlos do Carmo


Caros associados
Neste dealbar do ano de 2021, que esperamos nos traga a recuperação de uma vida normal, onde seja possível, em Liberdade, construir um Mundo melhor, fomos confrontados com a partida de um grande Homem de Abril, nosso companheiro na jornada iniciada há 46 anos, na procura da Paz, da Liberdade, da Justiça social.
Partiu o Carlos do Carmo, português e lisboeta de gema, humanista, grande divulgador e embaixador do Fado por todo o Mundo.
Activo militante dos valores de Abril, nunca descurando uma enorme actividade cívica, em prol de uma sociedade mais livre e mais justa, Carlos do Carmo respondeu sempre presente, quando solicitado pela Associação 25 de Abril.
No momento em que evocávamos a partida de um dos principais Capitães de Abril, o António Marques Júnior - que aqui lembramos, com a eterna saudade que dura já 8 anos - o Carlos do Carmo, também vítima de um aneurisma, foi juntar-se-lhe.
Estamos certos que, lá onde estiverem, continuarão a enviar-nos o alento necessário à continuação da luta pela consolidação dos valores porque se bateram!
Por nós, tudo faremos para atingir os objectivos das vidas comuns das Mulheres e dos Homens de Abril.
Os nossos sentidos pêsames aos familiares do Carlos, nomeadamente à Judite, sua companheira de toda a vida, e ao seu filho Gil.
Até sempre, caro Amigo Carlos do Carmo!
Um grande abraço de Abril
Vasco Lourenço"

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Encontrar uma Entrevista a um Amigo de Infância

Ontem, foi o dia da independência de Moçambique. Numas pesquisas sobre o tema, encontrei uma entrevista a um amigo de infância e adolescência. É um documento muito interessante para quem se interessa pela agricultura portuguesa.


Revista Portuguesa de Buiatria 1-2019 - Entrevista Dr. Fernando Vaz - 3ª PROVA (3).pdf


 

quinta-feira, 25 de junho de 2020

As Guardiãs dos Leões da Gorongosa

 


1ª edição em 12 de Agosto de 2016. Hoje, 25 de Junho, comemora-se a independência de Moçambique.


 


 






 





 


 



 



 

 

Encontrei um belo vídeo que nos conta a história de duas das suas guardiãs.


 


 



 


 

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Tasca do Cais

 


 



(Hipopótamo da Gorongosa :) como pode verificar aqui. 


Agradeço a correcção ao Vasco Galante,

director de comunicação do parque e editor do blogue linkado) 

 


Nasci virado para o mar e os "meus" rios ligavam-me ao desconforto do lodo, ao perigo dos pântanos e dos crocodilos e a passeios de barco onde se lançavam mangas para que a diversão incluísse as bocas abertas dos agradecidos hipopótamos (deixo uns links no fim do post para que não se pense que me estou a armar em caçador de elefantes ou leões. Sublinho que de pescaria tenho apenas, e por distracção, uma garoupa no currículo. Os relatos dos meus feitos circunscrevem-se a bolas de basquete ou de futebol e não tenho qualquer simpatia pela monarquia).


A competição entre águas, dos rios e dos mares, pendia de vez para o oceano onde as margens nunca eram opressoras apesar da presença, muitas vezes apenas espiritual, dos tubarões. Aprendi a olhar os rios de outro modo com o Tâmega em Chaves e com o Corgo em Vila Real. Ao primeiro, até umas boas horas de natação tenho de agradecer.


Estávamos a passear por Vila Nova de Cerveira e a escolher, no centro histórico, um sítio para jantar. A "Tasca do Cais", mesmo em cima do Rio Minho e com uma esplanada virada para a sua serenidade, é muito aconselhável. Tem um ano de existência e habita um espaço antigo e bem recuperado. Escolhemos uma mesa no 1º andar com vista para o rio e passámos uma horas inesquecíveis.


 



Pode ver aqui um vídeo, no excelente blogue sobre a Gorongosa, com os rios do primeiro parágrafo. Embora o Umbeluzi, o Incomati e o Maputo fossem os que mais frequentei, os que pode ver na fita de 1961 (voz de Fernando Pessa) retratam bem a atmosfera. Não se impressione com as imagens da selva e da savana. Pode crer que o mundo é muito pequeno e que as faunas ditas mais racionais não têm um comportamento que o confirme.


1ª edição em 29 de Abril de 2012.

domingo, 3 de fevereiro de 2019

Leões e Caçadores

 


 


 


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"Até que os leões inventem as suas próprias histórias, 


os caçadores serão sempre os heróis das narrativas de caça." 


 


 


 


Provérbio africano.


  


Mia Couto (2012:6). 


A confissão da leoa. 


Editorial Caminho. 


Versão amostra.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

segunda-feira, 23 de julho de 2018

até que inventem

 


 


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"Até que os leões inventem as suas próprias histórias, 


os caçadores serão sempre os heróis das narrativas de caça." 


 


 


 


Provérbio africano.


  


Mia Couto (2012:6). 


A confissão da leoa. 


Editorial Caminho. 


Versão amostra.


 

sexta-feira, 20 de julho de 2018

E Jaime Neves entregou-me o "crachá" de Comando (na imagem)

 


 


 


Reedição a propósito dos


desenvolvimentos


das recentes mortes 


de instruendos


dos Comandos. 


 


 


As praxes nos cursos de Comandos eram toleradas; os excessos nem tanto. Mas eram, e são, espaços incontroláveis. E é exactamente nesse domínio, na coacção constante, violenta e não programada, sobre os jovens instruendos, que tudo começa como é retratado na muito boa peça do Público que tem um título realista: "O instrutor dos Comandos avisou-nos: vou tornar-me num animal." É uma escalada em que "farei pior do que me fizeram".


 


Fui pedir uma autorização para sair do país e acabei incorporado obrigatoriamente nos Comandos dois meses depois. Foi tudo muito rápido. Seriam dois anos "desperdiçados" numa idade, e condição, que não permitia tempo perdido. A burocracia entre Moçambique e Portugal não funcionou e o meu pai ainda me tentou ajudar no adiamento com um sobrinho que era Conselheiro da Revolução e com o próprio Jaime Neves que era um seu velho conhecido de Moçambique. Não foi boa ideia :). Numa recruta, devemos passar o mais despercebidos possível. Ainda por cima, os instruendos dos cursos de oficiais respondiam a inquéritos políticos e marquei uma posição semelhante à actual. Os candidatos a oficias e sargentos eram exactamente isso numa organização verticalizada. Os "outros", eram a tal "carne para canhão" e talvez isso explique a clubite desinformada, e em muitos casos desumana, sempre que há um pico mediático sobre o assunto. Mas todos (oficiais, sargentos e praças) formam as imprescindíveis tropas de elite ao serviço de "elites" que não saem dos salões e dos que sabem tudo o que deve ser feito com os filhos dos outros.


 


Lembro-me do momento da imagem (o lenço preto saiu com o vento; o meu amigo Gomes, que se vê a meu lado cheio de brio, já não estava grande coisa :)). É interessante que se leia a legenda. O comandante Jaime Neves, como me confirmou depois, fez questão de me entregar o crachá de Comando. O ambiente no regimento era pluralista, suficientemente profissional e com os excessos decorrentes da "inacção" de militares especialistas em combate.


 


Já fiz, ao longo dos anos, vários posts sobre os Comandos. Encontra-os aquiFica ainda muito para escrever, naturalmente.


 


Fiz um resumo das passagens mais significativas:


 



Lembrei-me do serviço militar. Vinte e poucos anos, muito poucos mesmo, e zero tiros no currículo. De uma hora para a outra raparam-me os caracóis, encheram-me de fardas e de sei lá mais o quê e disseram-me: vais ser comando; a honra suprema de um jovem português. Chamavam-me de Prudêncio, o meu último nome, coisa que até aí me parecia exclusivo do meu pai. Fui obrigado a fazer uma tropa de voluntários com detalhes engraçados: perguntavam-me: - és voluntário?; respondia: - não. Mas nos papéis punham a cruz no sim e quando mais refilasse pior: aprendi rápido e sentenciei: - se tem de ser, vamos a isso.

Depois foi aquilo que se sabe. Mesmo com uma estrela aos ombros, já que ali éramos todos iguais, valha-lhes isso, a dureza e a brutalidade diárias sucederam-se até o horror se instalar. Lembro-me, entre tantas outras coisas tremendas, de saborear um naco de pão duro barrado com pelos da barba e sangue, de rebolar em tronco nu num escarpado cheio de silvas ou de me deitar em terrenos cravejados de balas acabadas de cair. Violência acumulada em meses e meses sem fim. Valeu-me a ausência da guerra. Não sei o que faria dos "inimigos".




Fui Comando. Por obrigação numa tropa para voluntários (começou nessa altura a objecção de consciência). Condicionado a dar o melhor para ser oficial e não ir parar a soldado sem graduação e sem especialidade. Éramos 87 no curso de oficiais e sobraram 7. Na prova mediatizada (prova de choque) éramos cerca de 500: ao segundo dia estavam cerca de 250 na enfermaria improvisada. Era tal a violência e alienação, que se traficavam tampinhas de cantil com água a 500 escudos a unidade (cerca de 100 euros com "equivalência" ao custo de vida actual). Um amigo de escola (o Jaime Naldinho), queria que lhe espetasse um prego da tenda na mão para ser evacuado. Como recusei (ele ficaria com mais uma lesão para a vida), correu atrás de mim acusando-me de estar feito com os inimigos (já não bastava o esforço daqueles dias loucos e infernais que me provocaram uma indigestão inédita por ter ingerido lama em quantidade imprudente; estive para desertar a meio do curso). Dei instrução e pertenci à companhia operacional 112. Foram 18 meses inesquecíveis. Aprendi muito em diversos domínios; também na "arte da guerra" que até aí me era completamente estranha. Havia muitos exageros. Nestes cursos morreram dois ou três instruendos e alguns ficaram com lesões para a vida. Era uma coisa estúpida derivada de mau planeamento, de praxes insanas ou de insuficiências no equipamento. Não havia a mediatização actual. Era uma revolta muda.


 



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Encontrei a imagem (é de um DN de Dezembro de 1980) ontem num baú de recordações.