Primeira parte.
Escrever um texto para quem nos conhece é uma tarefa que pode atalhar muita tecla, e como estamos em tempos de alucinantes combates ao despesismo...
Só resolvi voltar a abordar estes assuntos - quais assuntos? diz o leitor; continue a ler que já percebe do que se trata - depois de se aproximar a irrevogável verdade do calendário gregoriano: estamos a uma hora do dia 23 de Novembro de 2005 (não se surpreenda, sei que estamos em 2008, mas este texto é um reedição, pode continuar). Volta a não entender? Meu caro leitor, sou professor e o subsídio de natal entra a 23. Não vá alguém que não me conheça, inspirar-se e decidir-se a seguir a politica alemã. Vou editar este texto apenas cinco minutos antes da meia-noite. Mas voltemos ao início. Quem me conhece imagina a vontade que tenho em escrever sobre o tema actual da vida das nossas escolas: as aulas de substituição. Apesar de tudo, vi ontem um esperado programa televisivo de prós e contras - 21 de Novembro de 2005 - sobre o tema da actualidade mediática.
Fiquei enjoado, desculpem-me a franqueza. Fala-se de ilhas, de despachos, de nivelamento por baixo e das necessidades de socialização dos jovens; aplaude-se aqui e acolá de modo clubista e pouco olímpico. Fala-se, fala-se, fala-se, fala-se... Tem de falar-se e ainda bem, com todas as reservas que se possa ter dos benefícios desta democracia tão mediatizada.
Fiquei enternecido com o professor David Justino, ex-ministro da educação. O seu primeiro e principal alvo foi a gestão escolar. Advogou a ideia do gestor profissional. Lembro-me bem de uma sua confissão, enquanto ministro:
"só não contrato gestores profissionais porque não tenho dinheiro para lhes pagar.".
Agora diz:
"não são os homens que estão em causa, mas sim os procedimentos profissionais de gestão. Os professores podem e fazem isso muito bem."
Corrigiu o alvo enquanto ex-ministro. Demasiado tarde. Os alvos estudam-se antes e devem orientar-se por princípios autênticos e genuínos. A "chico espertice" e os oportunismos compulsivos só não são visíveis para os próprios. Das aulas de substituição fico com a mesma ideia: alvo desejável desde que bem estudado e por isso muito simplificado. E o que vem por aí. Não se augura nada de bom.
Mas resisto à tentação. Poupo-me, se me permitem, a ousadia. Lembrei-me da ideia de acertar no alvo. Tirei logo as minhas conclusões. Mas, meu caro leitor, desafio-o a tirar as suas depois de ler a história que lhe vou contar. Ora leia.
Segunda parte.
É um desejo que se repete na efemeridade da vida humana: acertar no alvo. Sempre que um ser qualquer perscruta na memória os momentos da necessidade de uma exímia pontaria, emergem imensos quadros onde os desafios de acertar no alvo se sobrepõem; nem que apenas umas pequenas pedras tenham sido o instrumento e o desafio.
Lembro-me de uma história arrepiante, feita da mais completa persistência e finalizada com um raro exercício de lucidez: a história de um pistoleiro olímpico: lusitano, português, atleta de alta competição na modalidade de tiro com pistola de ar comprimido.
Foram anos e mais anos de um treino intensivo: quatro a seis horas diárias de tiros ao alvo. Sacrifícios na vida com os mais próximos e despesas nem sempre devidamente apoiadas.
A imposição do desígnio assume um carácter colectivo e verdadeiramente idiossincrático: a medalha olímpica dissimula a fusão, diz-se, com o equilíbrio sábio da natureza.
O nosso atirador alimentava sérias e fundadas expectativas. Partiu rumo ao sonho. Não sei se o leitor já viu o espectáculo olímpico de uma prova destas: num salão muito sofisticado, os atiradores tapam os ouvidos com uns aparelhos que os isolam de todos os ruídos da natureza e usam umas pistolas que nem parecem deste mundo. Aos leigos, como eu, dá ideia de que a bala já decorou o seu caminho e o seu destino.
Dá a sensação que a haver falha ela nunca será do homem. Nas provas, alinham-se atletas carregados de práticas e de esperanças e os alvos devidamente numerados - são os seus únicos espelhos. Ganhar ou perder fica na mão da mais mínima das falhas. Sem desperdício que se veja.
O nosso atirador excluiu-se do modo mais inacreditável. Depois de ter passado as primeiras eliminatórias, encarou, cheio de ambições certas e renovadas, uma das fases mais adiantadas da competição. Depois de mais um conjunto de tiros exímios eis que o seu alvo fica em branco. A impossibilidade exaltou os seus olhos: os tiros tinham desaparecido. Desfeito o equívoco, concluiu-se que tinha conseguido um feito inédito e de falida generosidade: acertou todos os seus disparos no alvo do atirador do lado. Enganou-se. Ouvi-o dizer que desiste. Nunca mais voltará a ser um atleta olímpico. Não sei se mantém a firme certeza, mas pareceu-me perfeitamente convicto.
Só resolvi voltar a abordar estes assuntos - quais assuntos? diz o leitor; continue a ler que já percebe do que se trata - depois de se aproximar a irrevogável verdade do calendário gregoriano: estamos a uma hora do dia 23 de Novembro de 2005 (não se surpreenda, sei que estamos em 2008, mas este texto é um reedição, pode continuar). Volta a não entender? Meu caro leitor, sou professor e o subsídio de natal entra a 23. Não vá alguém que não me conheça, inspirar-se e decidir-se a seguir a politica alemã. Vou editar este texto apenas cinco minutos antes da meia-noite. Mas voltemos ao início. Quem me conhece imagina a vontade que tenho em escrever sobre o tema actual da vida das nossas escolas: as aulas de substituição. Apesar de tudo, vi ontem um esperado programa televisivo de prós e contras - 21 de Novembro de 2005 - sobre o tema da actualidade mediática.
Fiquei enjoado, desculpem-me a franqueza. Fala-se de ilhas, de despachos, de nivelamento por baixo e das necessidades de socialização dos jovens; aplaude-se aqui e acolá de modo clubista e pouco olímpico. Fala-se, fala-se, fala-se, fala-se... Tem de falar-se e ainda bem, com todas as reservas que se possa ter dos benefícios desta democracia tão mediatizada.
Fiquei enternecido com o professor David Justino, ex-ministro da educação. O seu primeiro e principal alvo foi a gestão escolar. Advogou a ideia do gestor profissional. Lembro-me bem de uma sua confissão, enquanto ministro:
"só não contrato gestores profissionais porque não tenho dinheiro para lhes pagar.".
Agora diz:
"não são os homens que estão em causa, mas sim os procedimentos profissionais de gestão. Os professores podem e fazem isso muito bem."
Corrigiu o alvo enquanto ex-ministro. Demasiado tarde. Os alvos estudam-se antes e devem orientar-se por princípios autênticos e genuínos. A "chico espertice" e os oportunismos compulsivos só não são visíveis para os próprios. Das aulas de substituição fico com a mesma ideia: alvo desejável desde que bem estudado e por isso muito simplificado. E o que vem por aí. Não se augura nada de bom.
Mas resisto à tentação. Poupo-me, se me permitem, a ousadia. Lembrei-me da ideia de acertar no alvo. Tirei logo as minhas conclusões. Mas, meu caro leitor, desafio-o a tirar as suas depois de ler a história que lhe vou contar. Ora leia.
Segunda parte.
É um desejo que se repete na efemeridade da vida humana: acertar no alvo. Sempre que um ser qualquer perscruta na memória os momentos da necessidade de uma exímia pontaria, emergem imensos quadros onde os desafios de acertar no alvo se sobrepõem; nem que apenas umas pequenas pedras tenham sido o instrumento e o desafio.
Lembro-me de uma história arrepiante, feita da mais completa persistência e finalizada com um raro exercício de lucidez: a história de um pistoleiro olímpico: lusitano, português, atleta de alta competição na modalidade de tiro com pistola de ar comprimido.
Foram anos e mais anos de um treino intensivo: quatro a seis horas diárias de tiros ao alvo. Sacrifícios na vida com os mais próximos e despesas nem sempre devidamente apoiadas.
A imposição do desígnio assume um carácter colectivo e verdadeiramente idiossincrático: a medalha olímpica dissimula a fusão, diz-se, com o equilíbrio sábio da natureza.
O nosso atirador alimentava sérias e fundadas expectativas. Partiu rumo ao sonho. Não sei se o leitor já viu o espectáculo olímpico de uma prova destas: num salão muito sofisticado, os atiradores tapam os ouvidos com uns aparelhos que os isolam de todos os ruídos da natureza e usam umas pistolas que nem parecem deste mundo. Aos leigos, como eu, dá ideia de que a bala já decorou o seu caminho e o seu destino.
Dá a sensação que a haver falha ela nunca será do homem. Nas provas, alinham-se atletas carregados de práticas e de esperanças e os alvos devidamente numerados - são os seus únicos espelhos. Ganhar ou perder fica na mão da mais mínima das falhas. Sem desperdício que se veja.
O nosso atirador excluiu-se do modo mais inacreditável. Depois de ter passado as primeiras eliminatórias, encarou, cheio de ambições certas e renovadas, uma das fases mais adiantadas da competição. Depois de mais um conjunto de tiros exímios eis que o seu alvo fica em branco. A impossibilidade exaltou os seus olhos: os tiros tinham desaparecido. Desfeito o equívoco, concluiu-se que tinha conseguido um feito inédito e de falida generosidade: acertou todos os seus disparos no alvo do atirador do lado. Enganou-se. Ouvi-o dizer que desiste. Nunca mais voltará a ser um atleta olímpico. Não sei se mantém a firme certeza, mas pareceu-me perfeitamente convicto.
(Reedição. 1ª publicação em 23 de Novembro de 2005. Reescrito
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Ufa Luís, levantas uma série de questões muito interessantes. O costume :)
ResponderEliminarConcordo que a ideia das substituições é, na maioria das vezes, uma boa ideia. Mas é difícil de aplicar, principalmente se obedecer a critérios como aqueles que referes ou a outros do mesmo género. É fácil encontrar um modelo para substituir doenças prolongadas e "coisas" desse género ou para faltas que tenham um aviso prévio de 24 horas. Agora para faltas imprevistas... bem, não há bolsa :) que resista se quiseres ser nivelar por cima.
Aceito que um professor "gestor" sofra alguma pressão dos eleitores. Mas a democracia não é isso? O que não acredito é num "gestor" que não seja professor e, principalmente, que não seja eleito. Levaria muitas teclas a falar disso. Quicá um dia destes... Acredito acima de tudo numa coisa: o fundamental é profissionalizar os métodos e associá-los a uma filosofia assente nas ideias de autonomia e de responsabilidade, coisas que não se decretam mas que exigem uma enorme dose de coragem, principalmente em países como o nosso - joga tudo a meio-campo, como diz o Professor Sobrinho Simões :). Paulo G. Trilho Prudencio
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(mailto:pgtrilho@netvisao.pt)
Não sei, não estou muito certo disso... Já fui defensor do modelo da gestão democrática.
ResponderEliminarMas numa organização que presta um serviço público é duvidoso que haja uma democracia interna dos empregados. A organização no seu todo teria que prestar contas ao poder democrático que representa o público que ela serve - esse sim, tem que ser eleito.
Esse poder é ou o governo central ou a autarquia, ou, ainda, uma entidade que represente as próprias famílias dos alunos que andam na escola.
Admito que há decisões de ordem pedagógica de que só os professores percebem e, nesse âmbito, pode haver decisões feitas por votação em organismos internos da escola.
O resultado é este: faz-se uma lista de professores que vão fazendo substituições em função de uma hierarquia que tem a ver com a quantidade de substituições que já foram feitas.
Nós temos muitas valências. Eu, por exemplo, sou professor de História e Geografia de Portugal e de Língua Portuguesa. Alguns são de Ciências da Natureza e de Matemática. É claro que não faz grande sentido que um professor de EDF substitua um de LPO. Se tivéssemos apenas em consideração o horário que o professor tem para fazer substituições e não as que já fez durante a semana, não estou certo que não seja possível uma bolsa de substituições satisfatória. Isso criaria grandes problemas: "está a faltar uma professora de Língua Portuguesa e eu é que faço todas as substituições, enquanto os outros safam-se!"
Se os professores estão ao serviço, estão ao serviço, os que têm substituições para fazer, fazem-nas; os outros fazem outras coisas. Ninguém devia estar a esgrimir o número de substituições que já fez com os outros.
Eh, pá, não digas a ninguém que eu disse isto!
Como empregado que procura o máximo benefício possível, com o menor custo, isto prejudica-me. Como cidadão que reflecte sobre a organização da escola, é assim que penso.LuÃs Filipe Redes
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(mailto:luis.filipe.redes@netvisao.pt)
Ficando pelo primeiro parágrafo, devo dizer-te - e de modo muito sucinto - que é sempre fundamental a possibilidade de mudarmos por eleição. Só isso já é suficiente. Como sabes, pugno pela avaliação das escolas. Sei que existem os que defendem que por aí mudariamos, ou não, os "gestores profissionais". Mas conhecendo nós a forma como estas "coisas" decorrem, prefiro as eleições.Paulo G. Trilho Prudencio
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Oh Luís, tentei escrever sobre isto na sala de professores. Não foi fácil, claro. Por isso fui tão sucinto. Mas já reli e o essencial está por lá. Mas ri a bom rir com o último parágrafo.Paulo G. Trilho Prudencio
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Esta história do Paulo é o máximo. Já lha ouvira e piquei-o a partilhá-la. Adoro a ideia da bala já ter decorado o seu caminho. Com tanto treino, pensei que já era tempo. Mas não neste pobre país bonito que habito.Rui Correia
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(mailto:ruicorreia@iol.pt)
É claro que já tinha esta história escrita e que resolvi associá-la às aulas de substituição quando vi o tal programa. Só isso. Tenho vontade de manter o blog mas tenho pouco tempo para isso. A sério. Aliás, a ideia mestre deste blog é: ideias que resolvam o enigma do tempo.
ResponderEliminarAqui vai um desafio: todos aqueles e aquelas que generosamente me enviam comentários para o email - coisa que agradeço, sem nenhuma ironia - deviam colá-los aqui no blog. Era uma forma de abrirmos um bom espaço para a discussão.Paulo G. Trilho Prudencio
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As actuais alterações na gestão do quotidiano das escolas têm gerado situações estranhas, de alguma forma resultam do modo como foram impostas. À semelhança do mau alinhavo, sem grande ponderação, parecendo querer "calar" a fatia eleitoral e social dos E.E. e pouco mais.
ResponderEliminarPoucos gostam do barulho que a escola tem no decorrer das aulas por uma ou duas turmas terem "furo", todos reclamavam, todos protestavam, era imperioso fazer algo. E eis que implementam as aulas de substituição, tudo estará resolvido e democraticamente apanham todos por tabela. Quando se propõe a apresentação de actividades alternativas que ocupem os alunos em que o tempo livre seja efectivamente aproveitado, poucas sugestões surgem naturalmente devido ao tempo curto para reflectir e decidir a sua aplicação.
Não sei como se pode fazer, mas sei que não se pode fazer assim.
Quanto à gestão, esta deve ser feita por professores e tem de ser eleita democraticamente, arcando com as óbvias antipatias daqueles que nos elegem e que esperam a manutenção dos habituais procedimentos, mantidos corporativamente. A tentação de mudar no sentido da gestão profissional, deve ser combatida pela eficiente gestão democrática, mesmo rompendo com anos de práticas administrativas, pedagógicas... correndo os riscos inerentes a qualquer processo de ruptura.
Isto não é obviamente uma resposta a nenhum dos "bloguistas" (qual será o neologismo?, é apenas uma tentativa de organizar algumas ideias.
Bom fim-de-semana. Como vês, Paulo enchi-me de coragem e aqui estou :)
M. Cristina Meneses Freitas
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(mailto:cristinafr8tas@hotmail.com)
Olá Cristina.
ResponderEliminarSó agora normalizei a minha ligação à internet. Tive uns problemas com a netvisão. Houve umas avarias num cabo exterior e eles tiveram grandes dificuldades em descobrir o problema.
Já falámos um pouco sobre isto. Mas vamos continuar a conversar, embora, e para te ser sincero, tenho de ter um bocado de cuidado com a minha actual situação de pós-executivo. Devo respirar e deixar que os outros respirem. Gosto muito da escola e de pensar sobre a sua organização, mas devo fazer um esforço de "procura da descrição". Tenho um amigo com muita experiência destas coisas que me disse o seguinte: "vais sair do CE por limitação de mandatos depois do trabalho que fizeste? Devias sair da escola por uns anos".
Não imaginas como sou constantemente solicitado a dar opiniões. E depois, sabes como é: gosto de opinar depois de pensar muito; como não ando a pensar muito nestas coisas, calo-me; se me calo, pode ser interpretado como falta de consideração; bem, o melhor é procurar mesmo a total descrição.
Mas lá vou aprendendo a lidar com esta minha nova condição.
Um beijo grande para ti.
Paulo G. Trilho Prudencio
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(mailto:pgtrilho@netvisao.pt)
Bem, Cristina, não tarda muito e tens um bolg :) Beijo grande.Paulo G. Trilho Prudencio
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