porta-garrafas
de Marcel Duchamp)
de Marcel Duchamp)
Impressiona-me o estado a que chegou o sistema escolar em Portugal: considero-o em estado de sítio.
O governo decreta um modelo de avaliação do desempenho de professores e ninguém o consegue cumprir: inacreditável ou nem tanto assim. Tenho escrito sobre as causas que parecem-me mais evidentes e continuo convencido da bondade dos argumentos que tenho aduzido e não vou voltar, neste post, à sua exposição.
Vi ontem mais um programa televisivo de "prós e contras", no canal público, sobre Educação. Penso, uma vez que estive uns dias desconectado com o metabolismo do país, que teve origem num vídeo feito numa sala de aula e publicado num sítio, muito popular, na internet. Estive atento ao debate e não me surpreendi por aí além. Registei com agrado as excelentes intervenções de dois professores: Paulo Guinote e Isabel Fevereiro. Percebi a radicalização, na discussão acalorada e ideológica, das intervenções mais políticas; quase todas.
Mas a caricatura mais evidente do estado de sítio em que nos encontramos esteve a cargo do emérito professor, e filósofo, José Gil. Devo confessar que respeito muito o autor do "medo de existir". Tem uma obra, publicada em 1996, intitulada "a imagem-nua e as pequenas percepções", sobre estética, que ensinou-me de modo significativo e que estudei com todo o detalhe: um dos aspectos que mais me fascinou, na época, foi a discussão à volta dos efeitos teóricos e práticos da invenção dos readymade e nomeadamente a obra de Marcel Duchamp (onde se inclui o objecto que pode ver-se na foto que acompanha a presente publicação: o célebre porta-garrafas).
O governo decreta um modelo de avaliação do desempenho de professores e ninguém o consegue cumprir: inacreditável ou nem tanto assim. Tenho escrito sobre as causas que parecem-me mais evidentes e continuo convencido da bondade dos argumentos que tenho aduzido e não vou voltar, neste post, à sua exposição.
Vi ontem mais um programa televisivo de "prós e contras", no canal público, sobre Educação. Penso, uma vez que estive uns dias desconectado com o metabolismo do país, que teve origem num vídeo feito numa sala de aula e publicado num sítio, muito popular, na internet. Estive atento ao debate e não me surpreendi por aí além. Registei com agrado as excelentes intervenções de dois professores: Paulo Guinote e Isabel Fevereiro. Percebi a radicalização, na discussão acalorada e ideológica, das intervenções mais políticas; quase todas.
Mas a caricatura mais evidente do estado de sítio em que nos encontramos esteve a cargo do emérito professor, e filósofo, José Gil. Devo confessar que respeito muito o autor do "medo de existir". Tem uma obra, publicada em 1996, intitulada "a imagem-nua e as pequenas percepções", sobre estética, que ensinou-me de modo significativo e que estudei com todo o detalhe: um dos aspectos que mais me fascinou, na época, foi a discussão à volta dos efeitos teóricos e práticos da invenção dos readymade e nomeadamente a obra de Marcel Duchamp (onde se inclui o objecto que pode ver-se na foto que acompanha a presente publicação: o célebre porta-garrafas).
O professor fez duas intervenções. Estava sentado na plateia e na primeira intercessão elevou o debate: foi ainda na primeira parte do programa. Do que conheço de José Gil, é uma pessoa muito sabedora, sensata e estudiosa, e que mantém, nas suas conversas, uma postura muito calma e muito profunda. E assim foi.
Depois, ficou por lá a ouvir; julgo eu. Pelo menos estava presente.
Uma hora depois, a moderadora pede-lhe uma nova lição (palavras de Fátima Campos Ferreira, a coordenadora). Nesta fase, em que até eu já estava cansado com o turbilhão em presença, o professor pareceu-me meio perdido. É verdade. A sério. Pode parecer inverosímil, mas foi a sensação que me transmitiu. E dei com uma cena impensável: a certa altura, José Gil, que falava de pé e que tinha um conjunto de papéis nas mãos, começou a bater com a papelada na própria cabeça com uma veemência meio descontrolada. Impensável. Por momentos, nem se percebia bem o que dizia. A papelada tapava-lhe a face e o seu discurso não tinha a eloquência habitual. Parecia uma busca desesperada da substância que garantiria a necessária assertividade: em vão. O estado de sítio surpreendeu um dos pensadores mais lúcidos que conheço e levou-o a bater na própria cabeça como quem se interroga: mas onde é que estou? O que é isto? Como é que posso racionalizar o discurso e dar um sentido inteligível a este vórtice sem fim?
O programa acabou a desoras e tive alguma dificuldade em adormecer: lembrava-me dos gestos surpreendentes do professor e não conseguia aceitar a sonolência: até ele.
Depois, ficou por lá a ouvir; julgo eu. Pelo menos estava presente.
Uma hora depois, a moderadora pede-lhe uma nova lição (palavras de Fátima Campos Ferreira, a coordenadora). Nesta fase, em que até eu já estava cansado com o turbilhão em presença, o professor pareceu-me meio perdido. É verdade. A sério. Pode parecer inverosímil, mas foi a sensação que me transmitiu. E dei com uma cena impensável: a certa altura, José Gil, que falava de pé e que tinha um conjunto de papéis nas mãos, começou a bater com a papelada na própria cabeça com uma veemência meio descontrolada. Impensável. Por momentos, nem se percebia bem o que dizia. A papelada tapava-lhe a face e o seu discurso não tinha a eloquência habitual. Parecia uma busca desesperada da substância que garantiria a necessária assertividade: em vão. O estado de sítio surpreendeu um dos pensadores mais lúcidos que conheço e levou-o a bater na própria cabeça como quem se interroga: mas onde é que estou? O que é isto? Como é que posso racionalizar o discurso e dar um sentido inteligível a este vórtice sem fim?
O programa acabou a desoras e tive alguma dificuldade em adormecer: lembrava-me dos gestos surpreendentes do professor e não conseguia aceitar a sonolência: até ele.
(Reedição. 1ª edição em 1 de Abril de 2008.
Interessante Paulo, este seu segundo olhar sobre a realidade. Captou com muita limpidez a impossibilidade da existência do tempo em televisão. A voracidade da máquina destrói a reflexão séria e profunda que urge fazer sobre a escola, também ela a ficar sem tempo. Confirma-se que o essencial é mesmo invisível aos olhos principalmente quando está embaciado pelo nevoeiro.
ResponderEliminarGostei muito.
Obrigado, muito obrigado. Devo dizer-lhe: o seu comentário revela uma lucidez muito apurada. Escreve: "...também ela a ficar sem tempo..". Será? Preocupante, muito preocupante, se assim for. Abraço.
ResponderEliminarTambém vi e questionei-me sobre a razão que levava José Gil a bater com os papéis na cabeça! Pensei: será que ele está com vontade de dar com os papéis na cabeça de alguém? É que a mim deu-me uma terrível vontade de dar com qualquer coisa (mais dura que papel, claro!) na cabeça de alguns, mas muito mesmo na cabeça daquela Joana Amaral Dias. Fazendo minhas as palavras de alguém que escreveu no blog do Guinote - Ela é mesmo loira? Ou é só tonta?
ResponderEliminarAcho que José gil devia estar na mesa. Tinha muito a dizer concerteza.
Bjo
Ainda sobre o debate"prós e contras" e sobre a "não-inscrição" de José Gil e de Paulo Guinot no mesmo: a Filosofia, embora filha do seu tempo, está sempre aquém ou além deste, talvez como o próprio Ensino /Educação, mas nunca no tempo. Sempre foi difícil a vida do Pensamento e sempre será árdua a sua transmissão pela palavra: a palavra transmite verdadeiramente o que existe?Não será ela mesma uma outra realidade? A linguagem transmite o pensamento, o ser das coisas? Tanto ficou por dizer, ontem...
ResponderEliminarRealmente. Nem imagino o que terá pensado o José Gil de tudo aquilo. Obrigado e um beijo.
ResponderEliminar"Não será ela mesma uma outra realidade?" Só a ideia de realidade já me assusta. Muito obrigado pelo comentário. Abraço.
ResponderEliminarAinda sobre o debate"prós e contras" e sobre a "não-inscrição" de José Gil e de Paulo Guinote no mesmo: a Filosofia, embora filha do seu tempo, está sempre aquém ou além deste, talvez como o próprio Ensino /Educação, mas nunca no tempo. Sempre foi difícil a vida do Pensamento e sempre será árdua a sua transmissão pela palavra: a palavra transmite verdadeiramente o que existe?Não será ela mesma uma outra realidade? A linguagem transmite o pensamento, o ser das coisas? Tanto ficou por dizer, ontem...
ResponderEliminarAinda sobre o debate"prós e contras" e sobre a "não-inscrição" de José Gil e de Paulo Guinote no mesmo: a Filosofia, embora filha do seu tempo, está sempre aquém ou além deste, talvez como o próprio Ensino /Educação, mas nunca no tempo. Não é isto re-flectir? Sempre foi difícil a vida do Pensamento e sempre será árdua a sua transmissão pela palavra: a palavra transmite verdadeiramente o que existe?Não será ela mesma uma outra realidade? A linguagem transmite o pensamento, o ser das coisas? Tanto ficou por dizer, ontem...
ResponderEliminare não tenho nada a acrescentar :) Abraço.
ResponderEliminarE a isso nada acrescento :). Abraço.
ResponderEliminarLi com interesse este post. Convido-o/a a fazer uma visita ao meu blog
ResponderEliminarObrigado. Passarei por lá. Abraço.
ResponderEliminarOlá Paulo,
ResponderEliminarSou a sobrinha da Manuela Saturnino! :)
Já trabalhei ai na EBI Onofre.
Saudades
Olá Daniela.
ResponderEliminarLembro-me bem de ti e gosto de te ver por aqui.
Um grande abraço.