Nem tenho por aqui um acelerador de partículas, nem me parece curial advogar uma imersão numa aparente teoria do big bang que ajude a explicar o que se passa com os professores em Portugal.
Desta vez não me vou centrar na insuportável e estafada má burocracia que asfixia a realização do ensino nas nossas escolas. Já escrevi muito sobre isso, que pode ser consultado neste espaço, e voltarei ao assunto em breve e noutra entrada.
Por agora, o que quero é participar na discussão à volta da avaliação do desempenho dos professores. Considero, para além da atmosfera monstruosa que o modelo encerra, que o primeiro constrangimento desloca-se para a alteração no estatuto da carreira docente que conduziu à divisão dos professores em titulares e não titulares.
Há quem se refugie na contenção de custos para abençoar essa polémica decisão, remetendo para o primeiro patamar da sua argumentação a necessidade de se estabelecer cotas e vagas na progressão da carreira de professores. Pode não ser assim. Vagas e cotas podem ser estabelecidas sem a necessidade de fracturar a carreira em duas. Mais: nem sequer a ideia descomunal de credibilizar, por método concursal, os avaliadores para o processo de avaliação do desempenho joga a favor da divisão: há outras formas de o fazer.
Correndo o risco de me tornar um pouco selvagem na minha argumentação, uma vez que num registo destes a ideia de se ser sucinto é imperativa, aconselho, todavia, os leitores mais assíduos (e os outros, claro) deste blogue para outras entradas onde os assuntos que vou focar têm sido abordados. Terei o cuidado de linkar, e já o fiz nos parágrafos anteriores, alguns conceitos para esses registos de modo a simplificar a vida de quem sinta vontade de o fazer.
A formação contínua de professores é um fenómeno que conhece em Portugal o desnorte mais absoluto. Não existe a mais ténue ligação das universidades, e dos seus centros de investigação, ao que se faz todos os dias na escola. E pode conhecer-se aí a origem de todos os males que flagelam o estado actual do estatuto dos professores, quer o decretado quer o conhecido.
Por outro lado, a formação em exercício tem contornos que ajudam a acentuar a desorientação e a permitir os desmandos conhecidos. Desvalorizámos, desde quase sempre e em quase todas as situações, o exercício de funções nas escolas. Lembro-me de, ainda jovem e a título de exemplo, ser colocado numa escola e ser o delegado do grupo disciplinar: tinham deixado o cargo para o último horário. Ou seja: ao contrário de todos os outros, era o único que não era do quadro; mas antes de ter dado a primeira aula já tinha estado no conselho pedagógico a discutir sabe-se lá o quê.
A tudo isto, misturou-se ainda a aquisição dos mais variados graus académicos sem rumo e sem critério.
Resultado: o exercício de funções e a aquisição de graus académicos está, na maioria dos casos, descredibilizado: há gente que preencheu muitos cargos que ninguém considera e há outros, cheios de formações acrescidas, que se entretiveram a receber o salário e a dar péssimos exemplos de profissionalismo, que também são desconsiderados.
Resultado: há milhares de vozes que contestam os critérios que levaram alguns ao cargo de titular e não se ouve uma única voz em defesa das pontuações do concurso: têm razão e era inevitável.
Como ultrapassar isto? Desde logo com uma ideia que as democracias procuram estabelecer: rotatividade no exercício de cargos de acordo com o seguinte princípio: escolha por eleição directa e limitação de mandatos - e sem querer distrair o nosso raciocínio, lembro o facto de o novo modelo de gestão escolar prever a nomeação dos avaliadores sem qualquer sufrágio directo e universal prévio -.
Claro que tem de ser repensado todo o processo de formação académica e contínua dos professores.
Quanto à carreira bastaria o seguinte: sempre que um professor cumpre o módulo relativo ao escalão em que está, solicita uma avaliação (por um par ou por um elemento exterior à escola), com a observação de duas ou três aulas no último ano, no caso de pretender mudar de escalão.
De mais realismo não sou capaz. Estarei a fazer política? Mas fazer política não é pensar a situação em que vivemos? Não é pensar o mundo?
(Reedição. 1ª edição em 29 de Setembro de 2008)
Focas 4 pontos vitais: titulares, formação, avaliação e gestão.
ResponderEliminarTodos eles são polémicos e tudo o mais que já falámos, mas para mim, o pior de tudo é a morte da gestão democrática. E em breve veremos... Fim da gestão democrática juntamente com divisão de carreira e uma avaliação para a qual não tenho já adjectivos, provavelmente só será comparável a Hiroshima.
PS: Ainda há poucos dias arrumava uns papéis (muitos!) e encontrei
vários comprovativos de participação em formações. E questionei-
me: de que me serviu isto?
Bjo
PS: Ainda há poucos dias arrumava uns papéis (muitos!) e encontrei
ResponderEliminarvários comprovativos de participação em formações. E questionei-
me: de que me serviu isto?
Pois é. Como alguém disse: uma industria que moveu e move milhões. Mais sub-prime da educação.
Beijo.
Paulo,
ResponderEliminarsó podes ser verdadeiramente professor de fores capaz de "fazer política".
Ensinar sem transmitir valores talvez esteja ao alcance de um qualquer "magalhães", nunca de um pedagogo.
Quanto ao meu email, está disponível num link do blogue com o título "correio electrónico".
Abraço
Quando é que vai chegar a necessária "paz" para, simplesmente, podermos dar aulas, para nos preocuparmos com o desenvolvimento dos nossos alunos e com as nossas tarefas pedagógicas? BJs
ResponderEliminarAvaliação é um mal necessário para quem faz pouco e acha que avaliando vai ser melhor. Sentido de Responsabilidade, gosto por ensinar são pressupostos que não existem quem propoêm tal modelo. A divisão do Professor em titular e não titular é o caminho para chegar onde pretendem -Mau estar entre professores. De consciêmcia e sentido de responsabilidade não irei alterar a minha forma de estar na Escola- os alunos Têm-me avaliado com Excelente e isso é que me deixa feliz e que tenho cumprido o meu dever. Não vou compactuar com o que não concordo
ResponderEliminarObrigado.
ResponderEliminarAquela frase final é apenas para dar um pouco de poesia a um texto tão árido. Claro que concordo contigo.
Já lá vou tirar o teu email.
Abraço.
Gosto muito de te ver por aqui. Obrigado. Tens toda a razão. Beijo.
ResponderEliminarOlá Júlio. Gosto muito de te ver por aqui. Concordo contigo. O teu comentário parece-me que não ficou gravado na totalidade.
ResponderEliminarAbraço.
A carreira de professor está a decair gravemente, temo que esteja a entrar num buraco sem saída.
ResponderEliminarMais uma vez, concordo plenamente com o que escreveste: parece tudo tão óbvio e até, de certo modo, fácil... Mas o (des)governo não entende, tem dificuldade em entender ou não quer entender? Claro que nós sabemos bem a resposta, infelizmente.
Bj
Obrigado. Força aí minha amiga. Beijo.
ResponderEliminarNo próximo dia 8 vamos ser agraciados com uma proposta "alternativa" do sindicato. No entanto, o processo de negociação com a tutela só e iniciará no próximo ano lectivo, o que significa que o ministério, o sindicato e os professores estarão um ano em lume brando; um ano em que um atiça o fogo, o outro olha de longe e os últimos saírão chamuscados.
ResponderEliminarHá muito poucos dias revi a marcha de judeus magros e cabisbaixos para a morte. Saíam de suas casas com quase nada, talvez fngindo que não sabiam para onde marchavam. Caminhavam em filas largas e compridas pelas ruas que já não eram suas, obedientes a medo ante as armas dos soldados alemães.
A comparação é grosseira,bem sei, espero não ofender ninguém, mas é a imagem que tenho dos professores: cheios não sei bem de que medo, marchando afanadamente para uma avaliação fictícia, desonesta, injusta. Na luta, que pressinto, por migalhas, esquecem-se valores. Como me dizia ontem uma amiga, "que péssimo exemplo de cidadania estamos a dar!"
Não entendo por que alinhamos nesta farsa.
Comentário(s)?... Para quê?... Ainda assim, "a talho de foice", só qualquer coisita sobre a "divisão" - quem não leu Maquiavel?... Pois é... "Dividir para reinar"... Juntem-se o "medo" (já referido em comentário anterior) de uns com o oportunismo de outros, misture-se bem com uma pitada de "deixa andar, que logo se vê", levar a lume brando (também já referido por alguém) = tempo a (es)correr e já está... UMA REFORMA (dizem eles...)
ResponderEliminarAbraço
Pois é... no final, tudo não passa de um monte de papéis, muito "ouro" chegado foi derretido em planos de formação que não chegaram a lado nenhum! Não foi só o "magnânimo" que o fez há 250 anos...
ResponderEliminarNa educação, os alunos são quem verdadeiramente interessa, a investigação e o estudo são desafios de sempre, mas nem uns nem outros estão na mira das decisões. Estas têm sido meramente contabilísticas!
Inté.
A montanha pariu uma cordilheira de montanhas.Ainda a procissão vai no adro e já se começam a vislumbrar as ciladas e as calçadas...culpa de quem reforma sem testar, impõe sem simular, legisla sem negociar.
ResponderEliminarO diagnóstico está feito há muito.....o sistema cairá, necessariamente, daqui por 12 meses.....claro.
Quanto à formação, concordo com o paradigma da formação centrada na Escola, com a contratualização dessa formação com entidades externas(Associações de Profissionais; IP´s; Universidades; Fundações, Associações de Defesa do consumidor, do Património, etc...), parecendo-me que de momento o essensial é o "back to basic", ou seja o regresso à Sala de Aula......
Abraço amigo
Mas nem temos de alinhar nem me parece que devamos dar a causa como perdida. Mas compreendo o desencanto. Força aí. Abraço.
ResponderEliminarIsto está mesmo muito difícil. Muito difícil. Abraço.
ResponderEliminarFizeste-me rir, obrigado. Então: inté.
ResponderEliminarOlá Nicolau. Que raio de coisa esta. Quem diria que íamos chegar aqui.
ResponderEliminarA atmosfera está a ficar insuportável. O balão vai voltar a encher.
Abraço.
Não, não dou a causa como perdida. Só quando não hopuver absolutamente mais nada a fazer, isto é, quando estiver morta. Mas desencantada, sim. O Paulo diz que não temos de alinhar, mas já estamos a marchar! está tudo a correr como planeado pelo Ministério, talvez em algumas escolas até melhor do que o planeado. Marchámos contra este sistema e agora avançamos para ele e não entendo porquê. Ou talvez sim. A verdade é que somos professores, estamos bem na vida, temos os nossos carros, as nossas casas, as nossas roupas de marca, as nossas férias no estrangeiro. Temos e não queremos abdicar disso, nem que seja em favor de uma causa, de um princípio. Quem mais tem, mais teme e penso que é esse o medo que temos: de perder bens materiais.
ResponderEliminarAcho, não, tenho a certeza que... bom, estou zangada, não vou continuar. Estou apenas desiludida connosco.
Este interessante comentário dava para um bela discussão. Compreendo os seus argumentos. Todavia, não me parece que todos os professores usufruam do que diz e também me parece que os que usufruem têm ainda mais responsabilidade na reflexão e na acção que tudo isto suscita. Numa classe de professores, com cerca de 130 mil, haverá, naturalmente, pessoas para os mais diversos gostos. O que importa é agir de acordo com a nossa consciência.
ResponderEliminarVê-se que está zangada e desiludida. Mas lembra-se do dia 8 de março de 2007? Não acha que ao pensar nisso tem motivos para renovar a esperança?
Força aí e obrigado por passar e por comentar. Abraço.
“Quanto à carreira bastaria o seguinte: sempre que um professor cumpre o módulo relativo ao escalão em que está, solicita uma avaliação externa (por um par ou por um elemento exterior à escola), com a observação de duas ou três aulas no último ano, no caso de pretender mudar de escalão. Deve ser discutida a possibilidade de se realizar provas públicas para o acesso aos escalões de topo e as vagas para os outros patamares devem ser conhecidas anualmente: para todas as escolas e para todos os departamentos curriculares (ou grupos disciplinares).”
ResponderEliminarSe a ideia é separar a progressão da carreira da avaliação do desempenho, para quê exigir uma avaliação externa, com ou sem provas públicas de acesso? Mas não foi esta questão que me trouxe ao comentário. Foi o significado de carreira docente
Se a carreira dos professores deixou de única, ela continua a ser horizontal. O que significa que entre patamares/escalões da mesma carreira não há exigências superlativas. Vejo neste negócio uma espécie de pagamento faseado de um contrato entre o professor e o Estado. Ora, quando o Estado decide quebrar esse contrato (com a divisão da carreira) devia ressarcir os professores se o novo contrato lhes fosse prejudicial. Se estivéssemos num Estado de direito as coisas seriam assim. O que aconteceu foi que o governo decidiu quebrar unilateralmente os contratos acordados livremente com os professores e agora pretende não pagar retroactivos.
Se está por esclarecer a questão da dívida do Estado para com os professores, importava esclarecer o significado da carreira artificial de titular. Mas fica para outra oportunidade...
Obrigado.
ResponderEliminarLevantas questões muito interessantes.
A minha ideia foi desconstruir o que alguém quer que exista e fazê-lo num registo a que chamaria de realismo significativo. Só por isso é que inclui a ideia da avaliação externa para o garantir um exercício de liberdade de escolha por parte do avaliado. Com as provas públicas acontece mais ou menos o mesmo.
Quanto à pertinente questão dos deveres do estado, bem... isso está a esfumar-se dia após dia. Onde vai parar? Não sei.
Abraço.
Só mais uma coisa.
ResponderEliminarO diagnóstico está feito há muito.....o sistema cairá, necessariamente, daqui por 12 meses.....claro.
Sei que também partilhas do seguinte: sacrifica-se a paciência, e tudo o mais, claro, de milhares de pessoas a calendários eleitorais. É por causa de coisas assim que o mundo vai como vai.
Abraço.
É muita coisa inútil, sem dúvida! Estou de acordo com a inutilidade da divisão em titulares e não titulares.
ResponderEliminarNão sei o que pensar da avaliação por pares.
Acho a parte métrica da coisa abominável.
Por outro lado, receio que a avaliação, para não ser desse tipo, necessitasse de mais poder nas mãos dos avaliadores.
Ainda não consigo ter uma opinião clara sobre o chamado modelo da gestão democrática.
Não sei se a gestão democrática alguma vez conduziu à afirmação de critérios pedagógicos ou se não levou antes à defesa dos interesses de alguns ou de muitos dos professores no que respeita a facilidades horárias, acumulações, etc. em detrimento do serviço. Também não sei se foi eficaz na gestão financeira das escolas.
Há uma produção imensa das universidades, publicada. Alguns dos mestres em Ciências da Educação têm escrito coisas risíveis. Mas no meio dessa bibliografia há coisas úteis, como estudos de caso e propostas de mudança.
A questão é a seguinte: quantos professores é que se decidem a ler material que não seja de uso imediato (como manuais escolares?) Acho que são poucos.
Olá Luís.
ResponderEliminarJá conversamos tanto sobre estas coisas.
Escreves o seguinte: Ainda não consigo ter uma opinião clara sobre o chamado modelo da gestão democrática.
Não sei se a gestão democrática alguma vez conduziu à afirmação de critérios pedagógicos ou se não levou antes à defesa dos interesses de alguns ou de muitos dos professores no que respeita a facilidades horárias, acumulações, etc. em detrimento do serviço. Também não sei se foi eficaz na gestão financeira das escolas.
É uma questão interessante. Mas mais do que os modelos de gestão contam as pessoas. Todavia, os modelos não devem ser desprezados de modo nenhum: estou seguro de uma coisa: nivelar por baixo não leva a bons resultados. Nos exemplos que conheço e dos estudos que leio, uma organização, seja ela pública ou privada, seja ela uma escola ou outra coisa qualquer, cresce se a liderança seguir caminhos de reforço da autonomia e da responsabilidade dos seus quadros. E isso dá muito trabalho a exemplo da democracia. E claro que tem riscos com os desvios dos oportunismos vários que sempre existem. A isso chama-se nivelar por cima e os "experts" apontam a confiança nos quadros como factor determinante: confiar não é dizer-te que confio em ti; é dizer-te quais os métodos que utilizo para obter a tua informação.
A gestão democrática leva-nos a uma discussão muito longa. Desde logo, porque já existiram diversos modelos. De uma coisa estou seguro: a gestão financeira tem sido milagrosa, considerando os orçamentos muito reduzidos de que as escolas têm beneficiado. E depois existe a balbúrdia organizativa do estado português: 38 quadros de divisão administrativa em vez de 1 como seria moderno e razoável.
Mas aponto um modelo em que me revejo: conselhos directivos eleitos por docentes e não docentes (também podem existir eleitores escolhidos pelos encarregados de educação) e aquilo a que se convencionou chamar de assembleia de escola ser um órgão consultivo.
Voltarei a estes assuntos.
Aquele abraço.