Tudo indica que o dia 7 de Junho de 2009 (eleições europeias) vai ficar marcado, para os professores portugueses, por mais um momento de catarse e de grito. Lutarão sem tibiezas até que haja uma mudança significativa de políticas. Mas gritaram também contra a inexequiblidade de um modelo de avaliação de desempenho que, por ser demasiado incompetente (e também despesista, veja-se lá), cria brutais injustiças. Entre tantas linhas que já escrevi sobre o assunto, quero reforçar a ideia que levou à reforma antecipada de milhares de professores com penalizações até aqui impensáveis; não poderão voltar atrás e ficam, de modo irreversível, julgo eu, com a sua conta do famigerado "accountability".
Pois é: este palavrão - responsabilização ou prestação de contas -, gastou-se num ápice.
- Quem não se lembra dos inúmeros momentos mediáticos em que os especialistas mais variados repisavam a palavra-chave?
- Quem não se lembra da ideia esmagadora que conferia aos professores portugueses o privilégio de vida em roda livre e sem "accountability"?
- Quem não se lembra dos arautos do modelo de avaliação do desempenho que, e no meio de tanta prosápia, e para convenceram os ignores, já tinham baptizado o monstro com um valor até aí desconhecido: "accountability"?
Assistimos nos últimos anos a uma transferência brutal de recursos financeiros das classes média e baixa para os altos negócios. Associada a essa panaceia de controle das despesas, introduziram-se mecanismos de má, asfixiante e férrea, burocracia sobre grandes grupos profissionais (em Portugal, os professores portugueses foram o grupo eleito). Ou seja, sem o "accountability" desses profissionais não haveria paz na terra e felicidade para todos.
- E agora?
Podemos inverter o sentido do "accountability", devolvendo-o aos que nos deram tantas "lições" na matéria.
- Onde está o "accountability" de quem promoveu e apoiou o monstruoso modelo de avaliação de desempenho dos professores portugueses?
- Onde está o "accountability" dos lucros privados?
Não aceitamos que sejam os grandes grupos profissionais da classe média que terão o "accountability" de contribuir para a próxima nacionalização dos prejuízos.
Os professores portugueses iniciaram a sua verdadeira prestação de contas, sem nunca esquecerem o seguinte:
em rede com a sua avaliação está um sem número de ideias congéneres que se iniciaram noutro desígnio: por mais que os governantes portugueses teimem em afirmar o contrário, instituiu-se, passo a passo, degrau a degrau, a ideia de derrube do poder democrático das escolas, tentando fundar a prazo um ensino privado para os ricos - privatização dos lucros - e uma escola estatal massificada para os pobres - nacionalização dos prejuízos -. E quando o "homem novo", o actual chefe do governo, classifica o actual modelo de avaliação como exigente, complexo e burocrático está a ser sibilino e demonstra um péssimo perder. Ao dizer exigente, quer passar uma mensagem: os professores não tinham competência para uma coisa tão avançada. Ora isso é monstruoso e falso; e imperdoável.
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