terça-feira, 9 de junho de 2009

notas sobre um debate

 


 


O blogue "As minhas leituras" de José Luiz Sarmento tem uma entrada, aqui, que li com toda atenção.


 


Diz assim:


 


"Depois de a RTP e a Sic fecharem a emissão dedicada às eleições, fiquei na SICNotícias a ver o debate. Fez-me sorrir a afirmação de António Barreto de que José Sócrates não tinha entendido as causas da sua derrota. Não porque isto não fosse verdade, mas porque ele também não as entendeu, assim como não as entendeu nenhum dos outros participantes do debate.



Nenhum deles pareceu entender que há uma sociedade civil em Portugal; que esta sociedade civil tem adquirido, nos anos mais recentes, meios de expressão e de acção que não tinha antes; e que a classe política e o comentariado perderam o monopólio da intervenção política.



É por ser assim que as sondagens falham, e hão-de falhar cada vez mais. O "vocês não existem" de que José Gil falou a propósito da relação entre a Ministra da Educação e os professores repercute-se no âmbito mais vasto das relações entre o poder e os cidadãos. E os didadãos respondem, nas urnas, "tenham lá cuidado, porque quem se arrisca a não existir são vocês."



They just don't get it. Pacheco Pereira andou lá perto, mas faltou-lhe dar o último pequeno passo. Olha para a Europa e intui, correctamente, que o problema da governabilidade está indissoluvelmente ligado ao da legitimidade; mas no momento em que vira os olhos para Portugal perde este resquício de lucidez. Alinha no coro dos políticos medíocres e dos comentadores banais e tenta passar a ideia que o problema da governabilidade é, em Portugal, uma mera questão de geometria parlamentar. Esta ideia, dum simplismo atroz, vai estar na base da campanha do PS e do PSD; compete aos segmentos letrados da sociedade civil, particularmente aos que se exprimem através da blogosfera, desmontar esta propaganda.



Finalmente, Lopo Xavier. Achei graça à sua afirmação que os jovens votantes do BE não se consideram de extrema esquerda, ou melhor, achei graça àquilo que esta afirmação subentende: que os nossos jovens são tão ingénuos e estúpidos que se deixam enganar por um lobo com pele de cordeiro. Não lhe ocorre, aparentemente, a possibilidade de os jovens portugueses terem uma ideia mais clara do que ele, menos fundada em preconceitos ideológicos, sobre a "verdadeira natureza" do BE. Nem lhe ocorre a possibilidade de haver muitos jovens (pense nos precários) que não são de extrema-esquerda mas também não se assustam com ela, e votam pragmáticamente naquilo que ela tiver para lhes propor.



A convocação repetida do fantasma de Estaline é chão que deu uvas. Ainda pode resultar com os eleitores com mais de quarenta anos (e mesmo assim não com todos); mas com os mais jovens não funciona de todo.



Se querem entender o que se está a passar politicamente em Portugal, metam os professores na equação. E não só os professores, como a sociedade civil em geral. Tentem perceber porque é que as pessoas estão, não apenas zangadas, mas furiosas. Aprendam que dizer a alguém que não existe é um erro que se paga muito caro. Não se esqueçam de ter em conta as novas tecnologias de informação e comunicação. Para a Europa, façam, mutatis mutandis, o mesmo exercício. Sem negligenciarem a necessária atenção a indícios tão subtis, e aparentemente tão insignificantes, como o resultado do Partido Pirata na Suécia."

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