A avaliação do desempenho remete-me para um dilema. Estou numa posição profissional delicada: sou avaliador e, como já escrevi inúmeras vezes, detecto enormes fragilidades neste monstro burocrático que alguém resolveu construir. Estudei-o em profundidade e cheguei a algumas conclusões. Quaisquer que fossem as funções que estivesse a exercer no sistema, bater-me-ia, sem pejo, pelo que vou escrever a seguir.
Como ponto prévio, e sem qualquer demagogia e ao contrário de muita coisa que leio sobre o assunto, considero que os professores conseguiram abalar o carácter descomunal da coisa e trazê-la para o terreno com a racionalidade possível. Basta pensar em tudo o que se disse e não considerar apenas os desígnios da propaganda.
A escolha da imagem que acompanha esta publicação foi intencional e faço dela uma leitura que, todavia, pode ferir o seu rigor conceptual: onde se lê tempo pode ler-se "ensino e aprendizagem"; é o único vector que tem só um sentido, o que, digamos, faz todo o sentido e desculpem a propositada redundância, e que vai até ao infinito.
Isto dito assim não lava a nada. Mas se vos disser que associei os 4 vectores da imagem às 4 dimensões consideradas na avaliação do desempenho, a coisa começa a ter alguma inteligibilidade.
Depois de relembrar as dimensões consideradas,
- Dimensão social e ética (pode ser o vector 1 da imagem);
- Dimensão de participação na escola e relação com a comunidade (pode ser o vector 2 da imagem);
- Dimensão de desenvolvimento profissional (pode ser o vector 3 da imagem);
- Dimensão do desenvolvimento do ensino e da aprendizagem ( é o vector 4 da imagem, o único que realmente deveria interessar).
reafirmo, para que fique bem claro, o seguinte: o modelo deveria ser reduzido a uma dimensão (a do desenvolvimento do ensino e da aprendizagem) e as restantes 3 deveriam obedecer a um caracter residual como mais à frente explicarei.
Para uma boa comunicação à volta da avaliação do desempenho dos professores, importa precisar, ao contrário de quem construiu o modelo, uma só taxonomia na definição e hierarquização de patamares:
proponho a seguinte:
- as 4 dimensões dividem-se, cada uma delas, em 4 ou 5 elementos;
- os elementos dividem-se, cada um deles, em 4 ou 5 indicadores;
- os indicadores que, e entretanto, são, cada um deles, descritos em dois tipos de escalas:
- por descritores (4 ou 5);
- ou por listas de verificação com dois níveis (cumpre ou não cumpre o respectivo indicador).
Sabe-se, pela voz de um dos secretários de estado e como se os mais avisados não tivessem logo percebido, que a coisa relaciona-se exclusivamente com economia de custos. A ser assim, importa que cada professor no final do ciclo em que é avaliado obtenha uma pontuação de 1 a 10 pontos que será transposta para uma escala qualitativa com as tais categorias de bom, muito bom e por aí adiante como refere o diploma respectivo.
Como se chega lá, à pontuação, claro, ficará ao critério de cada escola, desde que não se afaste assim muito da monstruosidade.
Vamos então à pontuação. Proponho que se use mais a média aritmética do que os somatórios na obtenção, patamar a patamar, da necessária classificação.
A pontuação final na avaliação de cada um dos professores, de 1 a 10 pontos, será a média aritmética do conjunto das dimensões;
A pontuação nas dimensões será, de 1 a 10 pontos, obtida pela média aritmética do conjunto dos seus elementos;
A pontuação em cada um dos elementos será de 1 a 10 pontos e resultará da média aritmética dos respectivos indicadores onde o professor obterá uma pontuação de 1 a 10 em cada um deles;
A pontuação nos indicadores, de 1 a 10 pontos, é que pode não ser tão linear. Pode optar-se por descritores ou por listas de verificação. Se a opção for a primeira, importa atribuir uma pontuação hierarquizada a cada descritor numa escala de 1 a 10 pontos; se a opção for a segunda, é suficiente atribuir dois valores de amplitude máxima para os dois patamares da escala.
Ufa!! que mesmo tentando reduzir a coisa repete-se.
Escrito isto, importa o essencial. Considero, a exemplo do que acontece, e mesmo que não acontecesse, nos mais diversos sistemas conhecidos, que a avaliação do desempenho se centre na ideia de melhorar o exercício profissional dos professores e que, por via disso, procure na actividade lectiva as variáveis que o podem ajudar. É isso que interessa e tudo o resto deve ficar ao bloco da organização escolar e às respectivas auditorias internas e externas.
A ser assim, defendo que se opte por listas de verificação nos indicadores dos elementos das 3 dimensões mais monstruosas (que indiquei por 1, 2 e 3) e, mesmo assim, que se eliminem todos os elementos susceptíveis de provocar as maiores arbitrariedades - desde logo os que se referem aos resultados dos alunos e ao estabelecimento de objectivos individuais nessa dimensão -.
Na dimensão mais significativa, a do ensino e da aprendizagem, deve estabelecer-se, à partida, descritores para todos os indicadores. Sabemos que esta dimensão engloba 5 elementos e 20 a 25 indicadores. Depois desta tarefa, cada um dos departamentos curriculares selecciona 4 a 5 indicadores para o uso de descritores, sendo os restantes avaliados por listas de verificação.
Dos 4 ou 5 descritores seleccionados, e considerando que a observação das 3 aulas por ciclo deve ser focada e contribuir para a melhoria do desempenho do professor, este estabelece com o avaliador 2 ou 3 indicadores onde a observação focada se exerce.
Chega-se assim a uma pontuação que, nesta dimensão, tem condições para ser diferenciada.
Nas restantes três, e para além do que já escrevi, há dados, como os da frequência de acções de formação e da assiduidade, que podem, de algum modo, também possibilitar critérios de diferenciação.
O resto aprender-se-á com o tempo se a vontade for a de avaliar e de mudar o que não está bem.
De uma coisa podemos estar seguros: teria sido mais avisado o governo ter retirado o diploma e construir outro onde ficasse bem preciso a latitude da simplificação tão propalada. Estamos, ainda, a tempo de fazer essa exigência. É o mínimo que se exige. A arrogância e o desrespeito não merecem nenhuma consideração. Depois sim: partir-se-ia para alguma forma de entendimento.
Escuso-me a fazer alguma referência à normalização de portefólios, de planificações, de estruturas de plano de aula e dos afins. Isso deve ficar ao critério de mais de uma centena de milhar de avaliados, aos respectivos avaliadores e aos departamentos curriculares. É completamente insensato e desprovido de racionalidade estabelecer o que quer que seja nesse domínio.
(Reedição. 1ª edição em 21 de Setembro de 2008)
A postura de análise parece-me pertinente e sensata. Bom trabalho.
ResponderEliminarNa simcult quem não for rápido morre. Ainda agora acabei de publicar isto e tu já leste e já sentenciaste. Ufa. Gostei de saber que achas a ideia pertinente e sensata. Obrigado e um abraço.
ResponderEliminarReduzir o todo a uma infinidade de partes é um exercício admirável se as partes observadas fora do todo não perderem coerência. Observar as diversas dimensões do ensino e aprendizagem fora dos contextos onde se geram, para catalogar procedimentos e posteriormente avaliar desempenhos, pode parecer um exercício sério e objectivo mas muito exíguo de rigor porque a reconstituição do acto educativo não abarca a lógica das emoções que lhe subjazem.
ResponderEliminarOnde está e quem define o referencial que baliza o estilo de ensino, as crenças e os valores dos professores, a assertividade nas relações,...?
Reclamamos um modelo de avaliação rigoroso e objectivo porque cremos que é possível reduzir sem empobrecer, mesmo que para atingir a pretensa objectividade sejamos obrigados a desviar o olhar do que importa para nos fixarmos nos instrumentos que julgamos captar a realidade.
Espero, no final desta luta cada vez mais política e menos pedagógica, que não nos deixemos derrotar pela doença que contaminou a função docente: a avaliatite.
Parabéns pela entrada, Paulo.
Concordo muito contigo Miguel. Vou fazer mais entradas sobre o assunto, sobre os meus dilemas e sobre as minhas angústias. Estão escritas, mas só as publicarei nos dias seguintes: não quero "morrer" com isto: como diria o Sarmento, não me quero afastar da minha profissão. Tenho de ter vida para além disto. Tenho de ler e de escrever sobre outras coisas.
ResponderEliminarMas sabes: no teu blogue, uma das últimas entradas é sobre o modo de operacionalizar isto e pedes que se escreva sobre o assunto. Também por isso anui.
Por outro lado, tenho lido noutros sítios autenticas monstruosidades sobre o tema que a seu tempo também farei referência.
Registei com toda a atenção esta tua passagem: "Reclamamos um modelo de avaliação rigoroso e objectivo porque cremos que é possível reduzir sem empobrecer, mesmo que para atingir a pretensa objectividade sejamos obrigados a desviar o olhar do que importa para nos fixarmos nos instrumentos que julgamos captar a realidade.
Espero, no final desta luta cada vez mais política e menos pedagógica, que não nos deixemos derrotar pela doença que contaminou a função docente: a avaliatite."
Nem imaginas como isto me é caro. Se me conhecesses bem, talvez percebes porque é que os meus colegas me elegeram para avaliador: não me deixarei contaminar, podes crer. Mas, e tirando as minhas circunstâncias, corremos esse risco. Tenho um post escrito a que dei o nome de cotas que reza assim - sai no 5 de Outubro -: é uma conversa com uma amigo da minha escola que chega à sala de professores e me diz que a aula lhe correu m
O meu comentário anterior é uma crítica velada às minhas contradições, Paulo. Por um lado, a escola situada convoca-me a participar nas operacionalizações disto e daquilo; por outro, o sentido mais profundo da minha profissionalidade apela-me a um distanciamento...
ResponderEliminarEnfim, isto não está fácil, de facto ;)
Isso. Exacto. Abraço.
ResponderEliminar:)
ResponderEliminar"... Com efeito, a tecnologia que foi introduzida para viabilizar a estruturação interna do mundo, ao mesmo tempo que a tornava indispensável
(a introdução da técnica para resolver problemas políticos, de justiça, económicos e outros, acabou por fazer da técnica algo incontornável, levando-nos a um ponto de não retorno. Hoje já não é possível voltar atrás, ilusão ainda forte dos "neoludditas" actuais.),
alterou profundamente as condições da experiência.
Como dizem Taylor e Saarinen, criou-se uma mediatrix por uma espécie de revolução despercebida
(dizem os autores de Media Philosophy: "Velocidade, velocidade e mais velocidade. Seria possível uma revolução ter lugar tão rapidamente que ninguém desse por ela?"),
cuja regra seria: "Na simcult, quem não for rápido está morto".
José Bragança de Miranda,
Queda sem fim,
seguido de Descida ao Maelstrom de Edgar Allan Poe .
Bom dia! Post muito interessante. Linkei o seu blog no ProfAvaliação.
ResponderEliminarOlá, bom dia. Obrigado. Abraço.
ResponderEliminarEstou inteiramente de acordo contigo. Temos que nos bater por isso
ResponderEliminarObrigado Maria João. Um abraço.
ResponderEliminarOlá, Paulo!
ResponderEliminarEstou contigo nesta luta, concordo 100% com o que escreveste.
Bj
Mena
Obrigado.
ResponderEliminarForça aí.
Beijo.
Desculpar-me-ás mas não te sigo no pressuposto pelo qual "Como ponto prévio, e sem qualquer demagogia e ao contrário de muita coisa que leio sobre o assunto, considero que os professores conseguiram abalar o carácter descomunal da coisa e trazê-la para o terreno com a racionalidade possível. ". Aquilo que vejo é que a maioria se prepara para seguir as pisadas do Fausto. As principais objecções que muitos de nós colocam a este Polifemo zarolho são tão essenciais e tão desviadas do curso actual e mundano de discussão que ninguém já perde tempo a pensar nelas, de tão conduzidos pelas circunstâncias. Anda tudo a apagar fogos, a inventar significados novos para palavras insignificantes e vazias (descritores, indicadores, dimensões, elementos). Isto chegou ao ponto de, por exaustão, já muitos se terem deixado de "filosofias" ou "docimologias" para se dedicarem às "cirurgias" (que grelhas? quantos descritores? que horas atribuídas? que delegações?). Ou muito me engano, ou já nem lá se vai com demagogia, Paulo. Vives um dilema, sim. Evidentemente, compreenderás que uma avaliação assente nos teus pressupostos serviria claramente o propósito de tornar a avaliação algo que serve para apoiar os professores na sua prática de aprendizagem e nunca - daí a inoperacionalidade real do que propões - para aquilo que se pretende que venha a servir: limitar as progressões de carreira. Mas isto já sou eu a dirigir-me à sala de operações. Não estou suficientemente descontaminado e asséptico para isso. fujo a sete pés de anestesias.
ResponderEliminarEis um post! Quero vida para além disto e não quero morrer de avaliatite. Vou voltar.
ResponderEliminar"Como ponto prévio, e sem qualquer demagogia e ao contrário de muita coisa que leio sobre o assunto, considero que os professores conseguiram abalar o carácter descomunal da coisa e trazê-la para o terreno com a racionalidade possível. " :) Escrevi isso e mais: " Basta pensar em tudo o que se disse e não considerar apenas os desígnios da propaganda. ". Certo? Lembras-te? "É para já". Ou seja, em Janeiro do ano passado já andava tudo aos pinotes e só ficaram os contratados. Tirando essa obscenidade, está tudo em aberto. Vamos ver.
ResponderEliminarTens razão. Só falo em tentar ajudar os professores que é o sempre tentei fazer, é o que faço, e é o que gostei que fizessem comigo: com ou sem este monstro. Vagas e cotas navegam noutros posts.
Meus amigos: eu limitei-me a escrever um post sobre a coisa. Racionalidade e inteligibilidade foram o mote. Estou aí. Estou na luta. Não me quero afastar de vez da minha profissão.
Vou publicar, nos próximos dias, mais umas coisitas.
Aquele abraço.
Ainda hoje disse isto publicamente: esta taxonomia, em vez de 3 patamares (dimensões, elementos e indicadores) poderia, por exemplo, ter apenas uma: indicadores.
ResponderEliminarMas sobre isso já escrevi o post: a partir de agora e fora do âmbito restrito da profissão, remeto os interlocutores para o correntes. Ufa!! Era o que mais me faltava :) :)
Abraço.
Como te compreendo, cara Manuela. É bom que as pessoas conheçam muito BEM o monstro. Derrubá-lo, só assim. Beijo.
ResponderEliminarBela, bela, Já tinha visto no postal. Abraço.
ResponderEliminarContinua a ser muiiiito confuso.
ResponderEliminarÉ de um anónimo mas vale na mesma. E fez-me rir, obrigado. E tem toda a razão: senão vejamos: bastaria reduzir a taxonomia a 1 patamar, o dos indicadores, e valia na mesma.
ResponderEliminarAbraço.
Paulo,
ResponderEliminarTenho lido muitas das tuas posições sobre o tema da avaliação.
Sei que é um assunto que te preocupa e incomoda. Como também sei que é um assunto sobre o qual tens reflectido muito nos últimos meses.
Sobre a pertinência do que coloquei no meu post penso que em algumas (eventualmente muitas) escolas tem havido o cuidado de disponibilizar a informação sobre os resultados por disciplina e ano de escolaridade.
Infelizmente, em muitas mais, a tendência para a simplificação leva a que toda a gente aceite como boa a prática de confundir metas organizacionais de redução de insucesso com objectivos individuais de promoção das aprendizagens. É contra isso que reclamo.
Um abraço
Francisco
"Infelizmente, em muitas mais, a tendência para a simplificação leva a que toda a gente aceite como boa a prática de confundir metas organizacionais de redução de insucesso com objectivos individuais de promoção das aprendizagens. É contra isso que reclamo."
ResponderEliminarPerfeito. Esta frase, que subscrevo em absoluto, é lapidar naquilo que defendo.
Obrigado e um abraço.
Paulo Prudêncio.