segunda-feira, 21 de setembro de 2009

lugar ermo (não o da memória) (reedição)

 


 



 


 


 


Não me canso de associar a situação actual dos professores portugueses à condição que Rainer Rilke submeteu a condição humana: "estamos irremediavelmente sós".


 


Bem sei que têm aparecido vozes de encosto: umas mais tardias do que outras, é certo. Mas têm surgido. Nunca me emociono muito com esses arrimos: sei que - e muito naturalmente, diga-se - quem não conhece verdadeiramente as questões técnicas do problema dificilmente pode assumir uma posição consistente de apoio.


 


Os apoiantes do governo é que não se regem pelos mesmo parâmetros: mesmo com o mais completo desconhecimento da realidade, são activos e raramente desistem. Percebe-se as razões.


 


Ontem vi o actual presidente da câmara do Porto, militante do PSD, afirmar o seguinte: "os professores têm toda a razão, mas agora começam a ser um bocado intransigentes". Não se referiu aos motivos que o levou a mudar de opinião. Talvez nem ele saiba muito bem a razão, mas o que é certo é que mudou de opinião.


 


Depois, ouço Manuel Alegre dizer que já não vota de modo favorável à suspensão do modelo de avaliação na Assembleia da República. Argumenta assim: "não quero ser instrumentalizado por quem apresenta a proposta". Não percebi. Antes votou favoravelmente um projecto do CDS (e a tal de instrumentalização? Não existia nessa altura?) mas agora já não o pode fazer. Pelos vistos vai ser seguido pelos restantes deputados do partido socialista. Entretanto, o actual primeiro-ministro convida militantes do partido socialista da "linha" de Manuel Alegre para o restrito grupo dos onze que vai redigir a sua moção a secretário-geral do partido socialista. E mais: anuncia que vai convidar o ex-candidato a presidente para as listas de deputados.


 


Já se sabe: a luta política obedece a alinhamentos vários. Os problemas concretos esboroam-se nesse ajustamento de posições.


 


Nós cá continuaremos para dizermos de nossa justiça. Sós, é certo, mas iluminados pela força dos argumentos e com a memória disponível para os mais diversos registos.


 


 


(Reedição. Primeira edição em 6 de Janeiro de 2009)

16 comentários:

  1. Grande tiro. Belo título, conteúdo muito pertinente, imagem sugestiva e esclarecedora. V de Vingança? Bom filme com mau título.
    Neste momento a dignidade de toda uma classe está em jogo. Saibamos estar à altura: não entregar os OI. E ponto final.

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  2. “A solidão é uma coisa boa, mas precisamos de alguém para nos dizer isso…”
    Honoré de Balzac , escritor francês (1799 – 1850).
    Amigo Paulo,
    não tenhas ilusões, há um grande défice de democracia na sociedade portuguesa e quando assim é, o oportunismo move-se e instala-se. Não vamos baixar os braços o tempo é de luta!...
    Um abraço,
    Art

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  3. Também fiquei desiludida com a posição de Manuel Alegre. Muito mesmo. A política é assim e enquanto assim for...
    Estamos irremediavelmente sós. Sem dúvida. O PM e o ME tudo têm feito para que transpareça para a opinião pública o que não é verdade. E cada vez estamos mais sós.
    Eu cá vou fazendo o que posso no sentido de ilucidar quem não percebe as razões da nossa luta. Hoje tive uma reunião com EE para falar sobre os progressos dos seus educandos meus alunos e imagina, veio à baila a ADD. Falei,falei, falei, eles ouviram atentamente, questionaram, e, ao fim, saí com a certeza de que, os pais dos meus alunos perceberam o que nos move. Fiquei contente.
    Temo que a união trema. Mas tenho esperança na vitória.
    Bjo

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  4. A linguagem bélica é consequência da imagem?

    Mas que pronuncia mais atenta, como sempre.

    Abraço.

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  5. Isso meu amigo.

    Nem ilusões nem nenhuma intenção de baixar os braço. Temos de sublinhar o óbvio.

    Vamos á luta, só isso.

    Abraço.

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  6. Belo Isabel.

    Isso, isso mesmo. Se todos os ee dos teus alunos ficaram convencidos, minha amiga... nem sei que te diga. Nunca me desiludes :) (esta piada é privada e só a Isabel é que entende).

    Não, a união não vai tremer. Já há uns 13, e mesmo que sejam 130 ou 13000, ainda sobram mais de 100 mil: a nossa opinião pública.

    Beijo.

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  7. Olá!
    Mais um texto bem pertinente e olha "Mais vale sós que mal acompanhados".
    Ah, este Alegre é um triste!
    Bj
    Mena

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  8. Olá.

    Obrigado por comentares.

    Vamos esperar pelos desenvolvimentos.

    Beijo.

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  9. Paulo,
    como ambos aprendemos em tempo e lugar já remoto, no combate conta mais a qualidade do que o número, para fazer uma EQUIPA VENCEDORA.
    E neste combate, meu caro,
    A VITÓRIA É CERTA!

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  10. Fizeste-me rir. Assim de repente, e ao ler o teu comentário, pensei: um.... só se justifica em combate.

    Tens toda a razão.

    Vamos a isso.

    Abraço.

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  11. Olá Paulo!

    O Manuel Alegre já não vota a favor da suspensão do modelo, outros talvez também não o voltem a fazer; o Pedreira ameaça e os sindicatos não sei bem onde estão (nem se estão).
    Mas não são eles que me fazem sentir só. Não são eles que me estão a faltar.... Faltam-me as consciências, a coragem e a coerência dos meus colegas, dos que estavam comigo (?) nas manifestações, dos que fizeram greve, dos que subscreveram documentos, pronunciando-se contra este modelo de avaliação, e que, agora, perante despachos inconsistentes e extemporâneos, (fixação de prazos para entrega de O I a 30 de Dezembro, depois a 5 de Janeiro) foram imediatamente entregar esses objectivos ! Cerca de 90 professores, até hoje, já os tinham entregue. Percebes porque, em algumas escolas, há professores que se sentem "irremediavelmente sós"? Irremediavelmente sós porque o corpo docente a que pertencem é um "lugar ermo".

    Beijos
    Manuela

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  12. Deve ser realmente muito duro minha cara amiga.

    Que raio de gente, realmente.

    Mas é como já escrevi noutro comentário: de 13 podem passar a 130 ou a 1300 ou mesmo a 13000. Não, não estás só, Manuela. Acredita nisso.

    Um grande beijo e força aí.

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  13. Meu caro:
    1 - Permite-me (e perdoa-me) o atrevimento de te contrariar na afirmação "Já se sabe: a luta política obedece a...". Política, isto? Não o creio!... Pelo menos, não no âmbito do que julgo saber que seja POLÍTICA (letra maiúscula intencional, claro!)... Esta não se exerce submetida a interesses miudinhos, privados, individuais ou colectivos... Não é ameaçada pelo "perder de tachos", lugares ou posições mais ou menos confortáveis, menos ou mais interessantes... POLÍTICA (esta) é sempre a resultante de maduras, intensas, esgotantes por vezes, reflexões inteligentes que visam a "polis" - seja, todos os outros e nós mesmos... Quando "alinhamentos", e particularmente do género dos que se adivinham no caso corrente, inquinam o raciocínio, a dita reflexão, então, creio que já não estamos a falar de POLÍTICA, mas antes do que parodialmente se tem chamado politiquice, politiqueirice ou outra qualquer coisa parecida, numa sugestiva expressão crítica depreciadora ou depreciativa... É disso que se trata, no que temos vindo a assitir, nos últimos tempos, neste "jardim à beira-mar plantado".
    2 - Li algures neste teu espaço, uma referência à pirâmide da hierarquia legislativa. Foi também o que aprendi e que, durante quarenta e alguns anos vi (ou me pareceu ver) aplicar aos quadros normativos neste país... Com acentuada incidência, tenho assistido incrédulo, a que muitas das últimas inetrvenções legislativas (e o caso dos professores é apenas um exemplo entre vários) pervertem, melhor, chegam a inverter, aquele pressuposto da organização racional (porque se trata de razão-racionalidade) dos quadros legislativos. Como pode um DecRegulamentar modificar o contexto, alterar as condições e os condicionalismos, preconizados por um DecLei? Não devia poder, de acordo com a tal pressuposta pirâmide, pois não?... Pois, mas é mesmo isso que tem vindo a acontecer, ou não é? Se tenho uma "leitura" correcta dos factos, se o que acima questiono tem resposta afirmativa, então, só se pode concluir que não nos podemos enquadrar nesse preceito essencial da referida pirâmide. Seja, o jogo tem umas regras, mas o(s) chefe(s) podem alterar essas regras quando queiram e muito bem entendam... Ora, assim (e tu, meu caro, que profissionalmente, até lidas de mais perto com especificidades regradas/regulamentadas - jogos/desportos) estarás decerto de acordo comigo que não há jogo que resista como tal... Faz apenas lembrar uma brincadeira que o irmão mais velho com, digamos 10/11 anitos desenvolve com o mais novito, 5/6 anitos e que, quando as coisas já não correm de feição, o mais velho (por isso mesmo, por ser mais velho e naturalmente mais forte) altera a seu bel-prazer - "Oh! Mano, mas não foi isso que dissete que valia!?... - Pois não! Mas como quem manda sou eu, agora passa a ser assim"... Okey!... Aí está!... É o país de brincadeira em que andamos a (sobre)viver...
    [] :))

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  14. A política real é feita destas coisas, já se sabe.

    Essa do irmão mais velho deixa qualquer um desarmado: faz lembrar a ideia do dono da bola :)

    Enfim.

    Vamos a isso meu caro. É difícil, é certo. Mas quem é que disse que o belo não é difícil?

    Abraço.

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  15. Caro Paulo,
    Pelo comentário da Manela terás já uma perspectiva do cenário lá na escola... Nunca pensei, nunca!, estar a viver a escola, os colegas, o meu trabalho desta maneira...e sinto-me (também eu) só. Até que ponto irá a minha consciência, até onde este Carnaval fora de época se arrastará, até onde a minha consciência se confunde com puro orgulho (para uns)? ... e em que dia terei finalmente que engolir o maior sapo da minha carreira? Ontem falaram-me numa reunião disso mesmo: deixar o orgulho (?) de lado - como se tudo isto fosse um capricho - e ter cuidado com as penalizações.
    (e já agora, para além da solidão, falta falar do imenso cansaço...talvez num outro post...)

    **********
    Tiveram um bom Natal?
    Desejo aos 3 um Bom Ano!...

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  16. Olá minha cara Cibele.

    Compreendo o teu desanimo. Imagino a vossa tristeza.

    Mas não percam a esperança.

    Força aí, ok?

    O natal foi bom, obrigado.

    Beijo grande.

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