Stuart Mill
Keynes
"Ele há liberalismo e liberalismo; aqui.
Dizendo não saber o que é o neoliberalismo relembram os novos liberais (editorial do Público) que Keynes era um liberal da cepa anglo-saxónica de Adam Smith ou Stuart Mill. O curioso é que desta forma fica mais claro o que o ‘neo’ está a fazer em neoliberal. Serve exactamente para vincar que existe um liberalismo contemporâneo que nada tem a ver nem com Keynes, nem com Smith, e muito menos com Mill e tudo tem a dever a Mises, Hayek e Friedman. Um liberalismo (neo) que só se incomoda com o poder quando é político (e apesar de tudo sujeito a escrutínio democrático) e fecha os olhos a poderes privados hoje por vezes mais poderosos do que os primeiros (que se eximem de prestar contas a quem quer que seja).
Uma excelente definição de neoliberalismo. Provavelmente melhor que a minha, que considera o neoliberalismo uma ética do egoismo resultante da decadência do liberalismo da esfera descritiva para a prescritiva.
ResponderEliminarVou ter que pensar se as duas definições são reciprocamente exclusivas ou não.
Tenho dúvidas que se possa enfileirar e amalgamar Adam Smith ao lado de Suart Mill e de Keynes. Suspeito que os "neo" são os herdeiros directos de Adam Smith, pela sua recusa absoluta de intervenção do Estado economia.
ResponderEliminarEstarei errado?
Adam Smith era um homem razoável e pouco dado a fundamentalismos. Não recusava absolutamente a intervenção do Estado na economia. Defendia a não intervenção como regra geral, mas não só admitia excepções, como lhes era favorável em certas circunstâncias - por exemplo, quando se tratava da posse, gestão, produção e/ou distribuição dos chamados "bens de mérito" (como as vias de comunicação ou o ensino).
ResponderEliminarPor outro lado, é duvidoso que a noção de Estado no tempo de Adam Smith fosse exactamente igual à nossa. No tempo em que escrevia, o Estado ainda não era universalmente considerado a entidade abstracta que é hoje. Ao condenar as restrições à actividade económica, teria provavelmente em mente não só as restrições impostas pela autoridade pública, mas também as que eram impostas pelos poderes tradicionais.
O mesmo quanto à noção de agente económico. O famoso padeiro e o famoso carniceiro de Adam Smith eram pessoas concretas, de carne e osso, que exerciam directamente a gestão da sua padaria e do seu talho e respondiam pessoalmente pelos actos que cometessem no exercício da sua actividade.
Pergunto a mim mesmo o que diria Adam Smith se voltasse ao Mundo e visse as corporações sem rosto que são as grandes empresas modernas. Talvez visse nelas a maior ameaça à liberdade económica...
A noção smithiana de "bens de mérito" ou bens preferentes é o reconhecimento de que o mercado não é o melhor, do ponto de vista justiça social (pois a sua lógica é geradora de desigualdades sociais inaceitáveis), e de que os particulares nem sempre actuam no seu próprio interesse, devendo o Estado, por razões éticas, intervir no mercado de modo a contrariar as suas preferências de aquisição.
ResponderEliminarO facto relevante que se conclui desta noção de "bens de mérito" é que a política se encontra subordinada à economia, na medida em que a sua acção se esgota na criação de um mercado livre eficiente e com sustentabilidade humana.
Convocando para a análise a relação que se deve fazer entre o conteúdo da Teoria Moral dos Sentimentos Morais (1759) - onde se analise o conceito de justiça e de benevolência - e o da Riqueza das Nações (1776), nada legitima a tese de que a preocupação com os bens de mérito tem um fundamento na teoria ética, como o pensa Jonathan Wight: a justiça para Smith visa a prevenção da sociedade contra o roubo e o assassinio (logo, proclama os direitos à vida e à propriedade), nada tendo a ver com a justiça social, mas com com a sustentabilidade e funcionalidade do mercado.
A noção smithiana de "bens de mérito" ou bens preferentes é o reconhecimento de que o mercado não é o melhor, do ponto de vista justiça social (pois a sua lógica é geradora de desigualdades sociais inaceitáveis), e de que os particulares nem sempre actuam no seu próprio interesse, devendo o Estado, por razões éticas, intervir no mercado de modo a contrariar as suas preferências de aquisição.
ResponderEliminarO facto relevante que se conclui desta noção de "bens de mérito" é que a política se encontra subordinada à economia, na medida em que a sua acção se esgota na criação de um mercado livre eficiente e com sustentabilidade humana.
Convocando para a análise a relação que se deve fazer entre o conteúdo da Teoria Moral dos Sentimentos Morais (1759) - onde se analise o conceito de justiça e de benevolência - e o da Riqueza das Nações (1776), nada legitima a tese de que a preocupação com os bens de mérito tem um fundamento na teoria ética, como o pensa Jonathan Wight: a justiça para Smith visa a prevenção da sociedade contra o roubo e o assassinio (logo, proclama os direitos à vida e à propriedade), nada tendo a ver com a justiça social, mas com com a sustentabilidade e funcionalidade do mercado.