sábado, 21 de novembro de 2009

luta de classes e corrupção

 


 


 


 


Foi daqui


 


 


Leia que vale mesmo a pena.


 



 

Actual crise resulta da "corrupção ao estilo americano", diz Stiglitz

 


 



09.05.2009, Sérgio Aníbal


Crise é o resultado da "luta de classes contra os mais pobres" realizada pelo sistema financeiro norte-americano com a cumplicidade do poder político

 


Antes da crise, Joseph Stiglitz já era um dos grandes críticos das políticas económicas seguidas pelas administrações norte-americanas e pelas instituições de Bretton Woods e, agora que as suas previsões mais pessimistas se confirmaram, não está disposto a poupar nos adjectivos.

De visita a Portugal para participar nas Conferências do Estoril, o prémio Nobel de 2001 culpou o sector financeiro e a cumplicidade do sistema político pelo facto de a economia mundial estar agora a atravessar a maior crise das últimas décadas, sem uma melhoria rápida à vista. "Corrupção ao estilo americano", "luta de classes contra os mais pobres" e "depravação moral" foram algumas das expressões utilizadas para descrever o que se passou nos anos anteriores ao eclodir da crise.

Stiglitz descreveu a sequência de acontecimentos que nos trouxeram à actual situação. Começou por lembrar a forma como as instituições financeiras conseguiram convencer os políticos a desregular os mercados. Foi a "corrupção ao estilo americano", feita através de "contribuições milionárias para campanhas, de forma menos directa do que nos países em desenvolvimento e envolvendo montantes muito mais elevados". "Os bancos falharam muitos investimentos nos últimos anos, mas foram muito bons no investimento político. Apostaram nos dois partidos, à espera de retornos e conseguiram-nos", disse o economista norte-americano. Curiosamente, esta semana foram tornados públicos os apoios dados ao longo dos últimos anos pelas empresas responsáveis pelo subprime a vários candidatos a cargos políticos nos EUA.

Depois, acusou o sector financeiro norte-americano de, apoiado nas falhas de regulação, ter sido apenas inovador na forma como "retirou os lucros a outros sectores" e apostou numa "luta de classe contra os mais pobres". "Eles viam que havia dinheiro na base da pirâmide e decidiram tirá-lo de lá e trazê-lo para o topo, visando especialmente os mais pobres entre os pobres", disse, lembrando o funcionamento do mercado de crédito subprime.

Um comportamento deste tipo é, defende o economista, o resultado da combinação de "incentivos errados" com a "divulgação de informação errada", falando igualmente de "depravação moral" nas instituições financeiras norte-americanas.

E quanto à ideia de que os mercados devem ser deixados livres de regulação para serem mais eficientes, considerou-a como acabada. "A doutrina de direita sobre a forma como funciona a economia de mercado falhou completamente. Aliás, para mim, como economista, isso sempre foi apenas uma ideologia, não um produto da ciência económica", disse.



Crise económica para durar

Agora que a crise está instalada, Joseph Stiglitz continua pessimista e muito crítico de algumas das opções políticas que têm vindo a ser tomadas.

O economista norte-americano minimizou a importância da recente melhoria de alguns indicadores económicos e das declarações de confiança dos responsáveis políticos, afirmando que "estamos apenas a passar de uma queda abrupta para uma recessão profunda". E traçou dois cenários para os próximos tempos, nenhum deles positivo. Um, que classificou de "optimista", é a entrada "numa doença ao estilo japonês", com bancos zombies e crescimento económico estagnado durante um período longo do tempo. A outra, "mais pessimista", é a eclosão de novas crises (relacionadas, por exemplo, com segmentos do mercado de crédito em dificuldades), que levem a economia a "regressar a uma queda livre".

O prémio Nobel diz que a melhor estratégia contra a crise passa por realizar mais investimento público, reforçar os apoios ao mercado hipotecário e deixar cair alguns bancos, para evitar que os contribuintes estejam a servir para premiar os excessos cometidos. Por isso, criticou a Administração Obama de estar a investir lentamente e em montantes insuficientes, ao mesmo tempo que cria bancos zombies, ainda maiores do que os que já existiam, agravando o problema de serem "demasiado grandes para falirem".

Stiglitz não gostou também de ver o Fundo Monetário Internacional, que sempre criticou pelas estratégias que impunha aos países em dificuldades, a ter os seus poderes reforçados. "Estamos a pôr a resolver a crise as mesmas pessoas que a ajudaram a criar, passando muitas das características do sector privado para o sector público", afirmou. Mesmo com o sistema financeiro que critica quase de joelhos, Joseph Stiglitz continua pessimista.
Fonte: jornal Público.


 


 


E que efeitos teve tudo isto em Portugal? Muito advogam, e há muito tempo, que a situação é semelhante até em relação às nefastas políticas educativas dos últimos anos.


É certo que muitos dos que afirmam esse tipo de conclusões não têm a voz de Joseph Stiglitz. Li alguns estudos que apontaram no sentido de se ter realizado a maior transferência de recursos financeiros da classe média para a classe alta; e intitularam essa acção como um assalto.


O que assistimos por cá, e no que à Educação diz respeito, foi a uma tentativa de precarização da profissão docente através de várias políticas que se tornaram também exclusivas das responsabilidades individuais e um grande retrocesso na afirmação do poder democrático das escolas:



  • divisão da carreira de professores em duas categorias com o único objectivo de impedir as progressões;

  • burocratização infernal da actividade docente;

  • capitulação da tímida autonomia das escolas transformando-as em repartições do estado numa lógica hierárquica de obediência rígida ao iluminado poder central (o único que pensa, que é moralmente irrepreensível e que sabe o que faz);

  • contratação de docentes a recibo verde e com baixas remunerações;

  • afunilamento da progressão nas carreiras (mais propriamente, e neste caso, cancelamento por tempo indeterminado das progressões);

  • precarização dos vínculos.


 


E tudo pela mão do partido político que suporta o actual governo. Se elas existirem, e quero crer que sim, que raio, ai como devem estar algumas consciências. É o que dá cavalgar apressadamente as modernices.


 


 


(reedição - 1ª edição em 10 de maio de 2009)

7 comentários:

  1. pronúncia do norte10 de maio de 2009 às 21:42


    A precarização da profissão docente só agora está a começar. No que à educação diz respeito, o liberalismo ainda anda tímido. Até vamos pasmar no futuro...E no meio de tanta insegurança, a capacidade de reivindicar vai diminuindo. Constatamos já este facto nas escolas: os profs mais jovens preferem não se comprometer muito, pois... pois, mas não tarda vão ter de acordar. Brecht pode ajudar.

    Nada é impossível de mudar
    "Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
    E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
    Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar."



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  2. Um professor resistente21 de novembro de 2009 às 23:12

    LER, RELER, MEDITAR MAS CONTINUAR A LUTAR E A RESISTIR.

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  3. "Crítico severo e contundente dos "fundamentalistas de livre-mercado", Stiglitz tem permanentemente questionado o que chama de "bases ideológicas" que regem a maior parte das decisões econômicas mundiais. Isto torna-se mais evidente na sua polêmica com o Fundo Monetário Internacional - FMI, a quem acusa de "empurrar" os países subdesenvolvidos a abrir seus mercados à competição externa antes que possuam instituições estáveis e democráticas para proteger seus cidadãos. A teoria que desenvolveu, e pela qual recebeu o prêmio Nobel, contesta frontalmente Adam Smith: " O conjunto de idéias que eu vou apresentar aqui solapou as teorias de Smith e a visão de governo que nela se apoiava. Elas sugeriram que a razão pela qual a mão invisível é invisível é por que ela não existe ou, quando existe, está paralítica" [3] Joseph E. Stglits, introdução à sua Aula Magna, por ocasião do recebimento do Prêmio Nobel (Estocolmo, 8/12/2001)."

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  4. "Até há relativamente pouco tempo, só alguns economistas heterodoxos, com conhecimento de história económica e das dinâmicas do capitalismo realmente existente, defendiam que os processos de liberalização financeira tendem a gerar um acréscimo da turbulência, desigualdades e miséria.
    No final dos anos noventa, o Banco Mundial, com Joseph Stiglitz como economista-chefe (antes de ser alvo de uma purga), começou a publicar estudos onde se podia ler: «as crises financeiras tornaram-se mais frequentes desde o início dos anos oitenta» e isto «tem sido associado ao aumento dos fluxos internacionais de capitais - especialmente fluxos privados - para os países em desenvolvimento e à crescente integração desses países nos mercados financeiros internacionais».
    «Os países que adoptaram políticas neoliberais são os grandes derrotados; não souberam tirar partido do crescimento, e quando cresceram de facto, os benefícios ficaram nas mãos dos que ocupam o topo da pirâmide»

    Parece que foi escrito a pensar em Portugal.

    Saúdo a sua ideia de que o «capitalismo purificado» não tem como sair espontaneamente da crise, resultado dos seus desenvolvimentos internos, sem causar devastação económica e sofrimento social evitáveis e assimetricamente distribuídos."

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