Reparo no que me rodeia e fico cheio de dúvidas: não aprendemos ou somos mesmo assim?
Vem isto a propósito de uma conversa que tivemos aqui em casa à volta da desorganização da vida portuguesa: as nossas escolas, por exemplo, algumas com décadas de existência, são instituições dirigidas, em muitos casos, por comissões provisórias e estão em permanente estado de instalação; como é isto possível?
São inúmeros os exemplos que podem ilustrar esta minha afirmação.
Um atributo não essencial para o bom desempenho organizativo dos estabelecimentos de ensino, mas o mais conhecido para quem estuda estes assuntos, é a "centralização do poder".
Esta eterna forma de governação nacional atropela quase tudo o que seja antecipação e organização, passando a vida a despachar sobre variáveis fundamentais da administração e da gestão das instituições escolares; e fá-lo tarde, a más horas e a despropósito.
E o que é que move os responsáveis? Parece-me "apenas" negligência profissional, desconhecimento e incompetência: a organização não é, definitivamente, um valor precioso para os portugueses.
Lembro-me de uma situação que elucida bem o que quero dizer: estávamos em pleno 2002, no final de um período escolar, e tinhamos o nosso sistema de obtenção e fornecimento da informação em tempo real bem optimizado e a proporcionar um bem-estar organizativo sem paralelo; nestas alturas, e entre classificações, faltas, actas e relatórios, são lançados mais de 100 mil dados num processo final que decorre em cerca de três dias; a meio do segundo dia recebemos um fax, com o sinal de urgente, e assinado por um governante, que determina: "todas as pautas de classificações e faltas, devem obedecer ao modelo x da imprensa nacional e preenchidas em duplicado" (a dita imprensa nacional - em plena era da informação e do conhecimento, pasme-se - tinha sido objecto de um avultado investimento para a produção de impressos normalizados e poucos os adquiriam - pode parecer um história do outro mundo, mas não é -).
Está a imaginar meu caro leitor? Tudo informatizado, exportações para o sítio da internet garantidas, reuniões com os dados todos digitalizados (sem um único papel ou assinatura) e assalta-nos este dilema. Tinham sido meses de antecipação, de organização, de muito trabalho e de várias testagens por amostra. A circular foi imediatamente para o triturador e não cumprimos a determinação: até tivemos vergonha de afixar aquela coisa para conhecimento dos membros da nossa comunidade, a sério: sentido de estado.
Mas voltemos ao princípio: depois da dita conversa, e quando já estávamos a adormecer, ouvimos uma entrevista a um professor que tinha estado a leccionar noutro país e que agora o faz em Portugal; em ambos os países foi membro do conselho científico das respectivas faculdades, e afirmava: "a organização portuguesa é de doidos".
Na última reunião do conselho científico da escola portuguesa, tinham passado horas a construir o calendário escolar para o ano seguinte: sempre com uma grande tensão e num ambiente recheado de animosidades. Lembrava-se que, numa das últimas reuniões em que participou, na escola do outro país, a pessoa que conduzia o conselho científico já trazia o trabalho de casa bem feito e aprovaram, sem nenhuma tensão e em pouco tempo, o calendário escolar para os... dez anos seguintes.
Tivemos alguma dificuldade em adormecer.
ADOREI ESTE TEXTO. SOBRETUDO PORQUE RELEMBRA QUE É PRECISO TER CORAGEM, NÃO CUMPRIR COM OS DISPARATES COM CARACTER DE URGÊNCIA QUE OS NOSSOS SUPERIORES MANDAM, ARRISCAR E CLARO, QUANDO SE FAZ O TPC , TUDO FICA MAIS FACILITADO. SOBRETUDO A APRENDIZAGEM!QUANDO SE QUER APRENDER, CLARO!
ResponderEliminarOlá Isabel. É mesmo isso. Obrigado por passares por aqui e por deixares a tua impressão. [] Paulo.
ResponderEliminarTenho a secreta esperança que um dia as escolas venham a ter programas informáticos para, efectivamente, tornar mais produtivo* o papel do professor. É que confesso ter uma certa alergia ao já famoso "Programa Alunos". E parece que ele se colou às escolas...
ResponderEliminar*produtivo (que bela palavra...) bem que podia ser substituída por 'amigo'.
Compreendo-te muito bem. Abraço e obrigado.
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ResponderEliminarO que há em mim é sobretudo cansaço
O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...
Álvaro de Campos
Naturalmente...
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ResponderEliminarEscrevi um comentário a este post em 2007! E lembro-me bem deste episódio. Hoje escreveria exactamente a mesma coisa.
A organização portuguesa é de doidos porque há ainda muito boa gente que ainda complica mais as instruções que vêm "de cima". Além de adesivarem....ainda põem mais cola, "não vá o adesivo cair."
Reafirmo que aprecio muito deste blogue. Para além da crítica é muito construtivo e tem discurso fundamentado. Este texto cilindra em muitas áreas.
ResponderEliminarA escola do ps provoca insónias a qualquer um. Só quem lá não anda é que apoia as ideias desta gentinha.
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