Há, desde logo, um aspecto que na luta dos professores deve ser ressalvado com veemência: o primeiro-ministro é o mesmo e foi um fervoroso defensor das políticas que nos últimos quatro anos devastaram o poder democrático das escolas; e isso não se apaga com um estalar de dedos.
Mas centremos a análise em três matérias: estatuto, avaliação e gestão. A sua associação foi explosiva e derrotou a escola pública, e a sua essencial autoridade, no sentido da afirmação do seu poder democrático. Neste momento, já quase ninguém duvida do que acabei de escrever.
Bem sabemos que um acordo implica, por norma, uma cedência nas posições iniciais dos opositores. Por isso, festejamos o fim da espúria divisão em titulares e sem título, registamos a evolução financeira na massa salarial dos professores e vemos que a prova de ingresso na carreira não passou de uma intenção não estudada. Mas também ficamos meio pasmados, quando vemos a manutenção dos tiques no monstro burocrático da avaliação - ciclos de dois anos, quotas, avaliação em dimensões imensuráveis (excluo deste leque, apenas a dimensão ensino, como se sabe) e avaliadores deslegitimados - e na gestão escolar a não eleição dos cargos intermédios e o caderno eleitoral para a escolha do director.
Falta saber se os sindicatos só inscrevem no seu caderno de encargos as questões puramente laborais e desprezam, por inerência de funções ou por insensibilidade institucional, as questões mais técnicas. Podemos até temer que haja na mesa de negociação uma inconsciente comunhão eduquesa.
Fico à espera do que vem a seguir. Com a certeza, porém, de que um período semelhante ao que ocorreu no pós-entendimento-de-2008 pode ser fatal para as organizações existentes e que estruturaram o voto e a filiação sindical dos portugueses nestes trinta e cinco anos de democracia.
Mas mais: não, não me comovo com o acordo. Não verto lágrimas enternecidas, nem com um primeiro-ministro que fica na história pelo quase ódio aos professores, nem com um conjunto de sindicatos que assinou o acordo de 2008 e que exigiu aos professores a maior batalha cívica da nossa história recente. No segundo caso, nem é sequer uma crítica, é uma constatação que se evidenciou no momento que se seguiu ao referido entendimento.
Foi, nesta fase, e digamos assim, um acordo assinado fora das salas de aula.
Nem eu. CONCORDO.
ResponderEliminarQuerem ver que voltámos ao mesmo?
ResponderEliminarExcelente argumentação Paulo.
ResponderEliminarSublinho isto: "Mas mais: não, não me comovo com o acordo. Não verto lágrimas enternecidas, nem com um primeiro-ministro que fica na história pelo quase ódio aos professores, nem com um conjunto de sindicatos que assinou o acordo de 2008 e que exigiu aos professores a maior batalha cívica da nossa história recente."
Não me comovo nada!
ResponderEliminarÉ um mau acordo na globalidade.
Vai exigir de nós a insanidade do modelo de avaliação de Maria de Lurdes Rodrigues, com toda a guerra que isso vai acarretar.
Viva Helena.
ResponderEliminarTb me parece. Espera-se que impere algum bom-senso.
Leiam no Público de hoje (Domingo), o inquérito feito a várias personalidades sobre: "o futuro do sistema educativo português após o conflito com os professores" .
ResponderEliminarQuestões a merecer respostas:
• O que vão fazer os novos directores de escola?
• Haverá maior eficácia na organização das escolas?
• Há condições para tornar as escolas mais eficazes?
• Foi um acordo aceitável mesmo com acertos?
• Um acordo com anos de atraso?
• Salvar a escola do inferno burocrático?
"Podemos até temer que haja na mesa de negociação uma inconsciente comunhão eduquesa." Claro, nenhuma das partes vive a escola, conhece a sala de aula. Isso fica para os profs.
ResponderEliminarTb não me comovo.
Salvar a escola do inferno burocrático.
ResponderEliminarEste acordo é histórico porque ele permite salvar da humilhação alguns milhares de professores e restabelecer um clima de paz num momento em que a escola pública portuguesa precisa de proceder a uma revolução nos métodos de trabalho. Ele permite salvar a escola dum inferno burocrático incompatível com uma boa convivência entre colegas e um ensino livre e feliz. Além disso, regressar a uma carreira única, mas em que se progrida por mérito, era indispensável e esse princípio manteve-se.
Mas é preciso ter em conta - e nem sempre a população está bem informada - que os professores e os médicos são as classes mais directamente escrutinadas da sociedade. Cada dia, em cada hora, o professor passa pelo escrutínio cerrado de dezenas de crianças e adolescentes. Basta imaginar uma sala de aula. Não é pouca coisa.
É por isso que este acordo histórico ainda não terminou. Ele só ficará selado quando Isabel Alçada verificar a que professores, durante estes dois anos, foram atribuídas as notas de excelente, e tirar daí as suas conclusões. Talvez resolva anular os seus efeitos. É que os professores duma escola constituem uma família. Experimentem criar um escalão de avaliação entre os membros duma mesma família que se autovigia. Sobre os métodos de avaliação desejo a Isabel Alçada e aos sindicatos muitas noites de boa maratona.
Lídia Jorge (escritora e ex-professora)
Para dançar o tango são presisas duas pessoas, mas se não souberem dançar há sempre uma que vai pisar o pé da outra, e quem ficar com o pé por baixo aleija-se, e depois...lá vem a lágrima!
ResponderEliminarNestas circunstâncias lembro-me sempre da resposta de um velho oficial da marinha portuguesa que ao chegar à Australia para uma visita de cortesia, lhe foi perguntado, para bordo, pelas autoridades marítimas australianas: "Where do you come from and why you are here"? E a resposta foi só a seguinte: "I come from SEA to SEE". E teve autorização para atracar o navio! Portanto...
Viva meu caro amigo.
ResponderEliminarÉ bom ler-te aqui.
Tb me parece acertado: "...sea to see".
Vamos ver.
Aquele forte abraço.
Excelente argumentação. Subscrevo
ResponderEliminarExcelente argumentação. Subscrevo.
ResponderEliminarAfinal senhores, os professores só querem uma escola a funcionar bem, a instruir formar cidadãos, não pedem melhores salários apenas querem poder fazer o seu papel, com dignidade e responsabilidade...Já não falam da avaliação que ai vem, pois a anterior era uma palhaçada...Qual é o vosso problema??? Não percebem??? Precisam de um desenho a cores....Afinal os professores só querem fazer por merecer o salário que ganham...Não querem melhores resultados nas nossas escolas??? Afinal a raiva contra os professores é paranóica…Nada tem a ver com o mau desempenho da escola…Pois agora que já há progressão e a avaliação está racionalizada…Não querem corrigir as aberrações no funcionamento interno das escolas que impedem a harmonia e o empenhamento de todos?Afinal os professores, para estes senhores, continuam a ser os bodes expiatórios.Olhem para o parlamento vejam os meninos filhos dos dirigentes políticos a ganharem em partime como se aquele órgão fosse coutada dos seus pais…Canalizem para aí as vossas frustrações, vão ver que os professores são anginhos. Questionem porque é que não há unidose nos medicamentos....E mil coisas mais...Vão poder dar largas a toda essa revolta que vos consome...
ResponderEliminar
ResponderEliminar"Foi, nesta fase, e digamos assim, um acordo assinado fora das salas de aula."