sexta-feira, 14 de maio de 2010

qual clitemnestra para memória futura

 


 



Foi daqui.


 


 


 


 


Um leitor enviou-me o seguinte email que publico agora para memória futura (a ideia da Clitemnestra foi minha):


 



"A Ministra é uma novela de Miguel Real que retrata uma mulher “seca e autoritária” que ambiciona ser Ministra da Educação. Supostamente de ficção, é uma obra que de ficção só tem o epílogo: o Primeiro-Ministro acaba por nomear outra pessoa.



Na realidade, esta mulher foi mesmo nomeada Ministra da Educação por José Sócrates e fez da política educativa do PS uma obra em que a realidade ultrapassa a  ficção…



Aqui vai um excerto do livro:



“Há sete anos, na manhã de véspera de Natal, entreguei o meu primeiro relatório sobre o ensino secundário e a passagem dos alunos  à vida activa ao então Ministro da Educação… ; escrevera no relatório que o estado da educação exigia uma revolução radical, trinta anos depois da revolução popular do 25 de Abril faltava fazer o 25  de Abril na educação, acabar de vez com a reprodução de um ensino de elites para elites e fazer o povo entrar na escola, não o povo em si, que já lá estava (…), mas o espírito vulgar do povo, o espírito comum, banal; os programas e as matérias têm permanecido iluministas, visando fazer de cada aluno um pequeno sábio, (…) o ensino académico prevalece e esmaga o ensino técnico e tecnológico, originando uma alta taxa de reprovações (…), é forçoso inverter este estado de coisas;




…em primeiro lugar, escrevia no relatório, facilitar tudo, simplificar todos os procedimentos, elaborar programas minúsculos com o essencial – só o essencial - das matérias, apresentadas da forma mais ligeira possível (…);



…depois, testes e exames exclusivamente sobre as questões essenciais, previamente marteladas em aulas sobre aulas, até à exaustão e o  mais ingente dos alunos as compreender, passando de ano;



…em terceiro lugar, estabelecer como objectivo a passagem de 99% dos alunos, forçar os professores a eliminarem conceitos abstractos e explicações complexas, resumir, resumir, resumir, seria a palavra de ordem pedagógica, com a consequente eliminação de todo o conhecimento supérfluo:


- História de um conceito, eliminar;


- Questões filosóficas, eliminar;


- Raciocínios com mais do que três premissas, eliminar;


- Matérias que exigem memorização para além da memória de trabalho, eliminar;



… em quarto lugar, responsabilizar os professores pelos resultados dos alunos, “como se responsabiliza o mecânico pelo arranjo do nosso carro”…;



… em quinto lugar, introduzir maciçamente o ensino profissional, eliminando deste, totalmente, matérias históricas, filosóficas e estéticas, os alunos deviam aprender apenas o sumo dos sumos, nada mais…;



(…) Num “P.S.” esclarecedor, que registara num memorando confidencial para ser lido apenas pelo Primeiro-Ministro (…), considerara que esta revolução teria de ser feita contra os técnicos da educação das universidades e os professores das escolas públicas (…);  o ideal seria preparar desde já um conjunto restrito de leis, um novo grupo de professores exclusivamente técnicos, sem pretensões académicas, todos os anos devendo dar provas de que os seus alunos, não sendo os melhores, estando longe de ter adquirido alguma sabedoria, pelo menos não reprovavam, deveria legislar-se para estes novos professores, que encaravam a sua profissão com uma visão técnica e utilitária, (…) como o mecânico arranjando o carro, o canalizador compondo os canos rotos, e esquecer definitivamente a casta (por mim teria escrito a “cambada”…) de professores entre os 45 e 60 anos, corporação actualmente presente no topo da carreira (…);



Não fora totalmente sincera no meu relatório; se o fosse, teria registado que o regime político deveria caminhar, lei a lei, para uma concepção restrita de democracia, ou, de outro modo, para uma democracia autoritária de carácter securitário e informático, servir e obedecer deveriam constituir os dois novos lemas sociais…”



(Miguel Real, A Ministra, páginas, 40 a 43)

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