sexta-feira, 15 de outubro de 2010

ao fundo

 


 


 



 


 


 


O conselho de ministros de ontem procedeu à eliminação da área de projecto (área curricular não disciplinar). Uma decisão destas, nesta altura, pode ter várias leituras: era para ser aplicada no ano lectivo em curso mas atrasou-se o processo; é uma decisão muito prospectiva, obedece a rigor profissional e antecipa o ano lectivo 2011/2012; a área de projecto é uma das três causas principais (as outras duas são a actividade bancária no sector imobiliário e as parcerias público-privado) para a desgraça das contas públicas e a decisão teve de ser tomada por exigência do banco central europeu. A decisão do conselho de ministros também inova noutro aspecto: as escolas passam a organizar os tempos lectivos em 45 ou 90 minutos, coisa nunca vista no cosmos nosso conhecido.


 


 


"6. Decreto-Lei que permite a organização dos tempos lectivos dos 2.º e 3.º ciclos do ensino básico em períodos de 45 ou 90 minutos e elimina a área de projecto do elenco das áreas curriculares não disciplinares, procedendo à segunda alteração ao Decreto-Lei n.º 6/2001, de 18 de Janeiro


Este Decreto-lei, aprovado na generalidade, estabelece os princípios orientadores da organização e da gestão curricular do ensino básico, bem como da avaliação das aprendizagens e do processo de desenvolvimento do currículo nacional.


No âmbito da melhoria e aperfeiçoamento na organização do currículo e das aprendizagens, e do desenvolvimento da autonomia das escolas, possibilita-se que, no âmbito da respectiva autonomia, expressa no seu projecto curricular de turma, estas possam organizar a carga horária semanal em períodos de 45 ou 90 minutos.


O diploma procede, ainda, à eliminação da área de projecto do elenco das áreas curriculares não disciplinares, decorrente, quer da experiência da sua aplicação, quer das opiniões expressas pela comunidade educativa que o consideram ineficaz.


As opções de organização que agora são conferidas às escolas pressupõem, dada a sua repercussão na vida da escola mas também dos seus alunos e encarregados de educação, que seja plenamente partilhada entre todos os agentes educativos, para o que se exige, na sua aplicação, a audição do Conselho Geral e do Conselho Pedagógico."

6 comentários:

  1. A meu ver, assim desaparece uma das mais importantes, se não mesmo a mais, disciplina do currículo, ficando em seu lugar destroços curriculares de uma ineficácia constrangedora como Estudo Acompanhado e Formação Cívica. Grande parte do envolvimento que tenho conseguido com os meus alunos na vida da escola e da comunidade resultaram do dinamismo imposto nesta disciplina ao longo do anos. Foi com a área de projecto que muitos dos meus alunos souberam - e saber é construir, participar, intervir imediatamente, sem mediações - o que é ópera, voluntariado, arte contemporânea, política, teatro, desporto, consumismo, património, tecnologia e humanismo. Reconheço que esta é uma decisão que a poucos afectará. A mim, constitui um prejuízo pedagógico substantivo e para os meus alunos, mais uma porta vedada à vida lá fora, vista e estudada com olhos mais educados, mais cultos, mais penetrantes, tudo coisas que não estão na moda, pelo trabalho que dão. Que decisão tão empobrecedora.

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  2. Viva Rui.

    Concordo com as tuas preocupações, sou testemunha dos teus relatos e sei da excelência das actividades que referes.

    Tenho leccionado área de projecto nos últimos anos. Este ano a turma tem 20 alunos. 2 com necessidades educativas, vários com muitas reprovações e 2 com o percurso sem reprovações. Na última aula, contei-lhes que na Inglaterra discutiu-se o ano passado a inclusão de blogues nos currículos dos miúdos das idades deles como uma coisa imperativa e avançada.

    Pois é. Os que vêm do ano passado têm blogues que se recomendam e os que entraram este ano (vamos em Outubro) já têm alguns posts inseridos. Na última aula a tarefa incluía um post com um texto da disciplina de inglês previamente corrigido pela minha parceira na leccionação (professora de inglês) e com a introdução de links e a inserção de um vídeo. Tarefa realizada com sucesso. Ou seja: aqueles miúdos, portugueses e cheios de handicaps, são tão bons como ingleses em apenas 30 dias

    Não tarda passará a transversal e mais tarde recomeçará com projecto para a área curricular por decisão de um qualquer conselho de ministros e para as escolas todas do continente e das ilhas.

    Ah: e pela primeira vez no história do sistema com aulas de 50 minutos.

    Arre

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  3. É claro que se as horas não forem redistribuídas vai aumentar o desemprego docente. Mas também é um facto que os alunos têm um currículo muito sobrecarregado, sempre em aulas e sem tempo para o trabalho extra-aula , para o estudo e para actividades que lhes interessem. Na minha opinião, ou cortam nas disciplinas curriculares ou nas ACND . Caso contrário os alunos estão condenados a passarem a vida em aulas e não desenvolvem a autonomia nem adquirem os saberes considerados básicos.

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  4. Viva Maria Fernanda.

    Concordo com as suas preocupações.

    Os alunos têm um currículo sobrecarregado (então no terceiro ciclo) e a escola tem um caderno de encargos insuportável. O problema é que a opção portuguesa tem sido a da escola a tempo inteiro e com uma aumento brutal do currículo logo a partir dos 6 anos de idade. Nesse sentido, esta medida tomada a nível central, torna-se caricata e demonstra desnorte.

    Para além do mais, impede que algumas escolas mais autónomas escolham algum do seu caminho. Escolher, por exemplo, em que ACND cortar e assumir a responsabilidade.

    Assim, com medidas avulsas e centralizadas é que me parece muito circular.


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  5. Sim ,Paulo, agora sou eu a concordar consigo. Acredito que haja experiências que tenham sido uma mais -valia para os alunos, mas na maior parte dos casos isso não me parece. Há certamente professores que se dedicaram e de quem os alunos não se vão esquecer. Mas também em muitas situações as ACND foram uma chatice e uma sobrecarga para os alunos e olhe que eu sou prof e tenho três filhos que passaram por isso e que estão na universidade, portanto devo ter alguma ideia do que se passa. É difícil discutirmos cortes nos currículos, até porque somos partes interessadas... Também sou contra medidas avulsas.

    E apenas mais um comentário,não quero precipitar-me , mas neste momento estou convencida de que as ACND também permitiram a certos Directores manter nas escolas certos professores, prejudicando outros nos seus horários.

    Enfim, tudo isto e mais o modelo de gestão e a ADD criaram nas escolas uma insanidade mental, mais ou menos evidente, à qual não sei como poderemos escapar

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  6. Obrigada Paulo. Vou ler. Gosto de conhecer as suas opiniões, tem um blogue equilibrado e penso que os comentadores também o são,embora eu ande por aqui há pouco tempo. Também gostei de o ouvir na Tv. Continue,sff!

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