sexta-feira, 20 de maio de 2011

uma certa esquerda

 


 


 


 


 


 


Tens tido o cuidado de precisar que te estás a referir a este PS, disseram-me noutro dia. É. Tem sido assim. Este PS, ou uma certa esquerda, é uma crença. É uma apreciação que parte do pressuposto que há um PS que não concorda com as políticas da Educação deste governo. Se a Educação é uma das prioridades de um país, depreende-se que no resto não será diferente.


 


Sabendo-se que este PS se afirma do centro e que teve uma agenda que agradou à direita, reforça-se a ilusão de que sobra um PS de esquerda que não se revê no desastre a que assistimos.


 


Quem quiser ir em busca dessa preciosidade, deve centrar a pesquisa no discurso à volta de alguns aspectos nucleares: escola a tempo inteiro, plano tecnológico para a Educação, novas oportunidades, parque escolar, gestão escolar e autonomia das escolas, estatuto do aluno, estatuto da carreira dos professores e avaliação de professores.


 


Vem isto também a propósito de um debate que vi ontem entre Ferro Rodrigues e Fernando Nobre. Quando o apanhei discutiam sobre Educação. Fiquei estarrecido com os argumentos eduqueses e de péssima burocracia aduzidos pelo antigo líder do PS. Tenho ideia que faz parte do grupo do ISCTE, com, entre outros, Vieira da Silva e Lurdes Rodrigues. Defendeu o desastre de modo convicto e sem dúvidas.


 


Bem sei que o candidato não tem estado por cá. Só se referiu à escola a tempo inteiro, ao plano tecnológico para a Educação, às novas oportunidades e à parque escolar; imaginei o resto e arrepiei-me.


 


Na escola a tempo inteiro desconhece a escola armazém e a consequente fuga trágica da sociedade na Educação dos petizes. No PTE datou o discurso para uma época em que se concebiam as culturas organizacionais sem contar com as pessoas, uma vez que do milhar de palavras usadas, mil eram sobre hardware. Nas novas oportunidades e na parque escolar não saiu da propaganda oficial, mostrou-se insensível ao pato-bravismo-em-modo-plural e às exigências da modernidade.


 


Fernando Nobre safou-se, apesar de se ter espalhado no regresso ao back to basics, naquela versão bacoca da minha-quarta-classe-é-que-era, e no desconhecimento dos nossos números muito generosos, e escandalosos, para a privatização de lucros na Educação.


 


Onde está então a esquerda do PS? Não a encontro mesmo. Talvez até se compreenda a enésima irritação do chefe do governo de gestão com a questão.


 


Sublinhe-se que não se encontra, no painel partidário com assento no parlamento, um discurso coerente e convicto que assuma a defesa do poder democrático da escola no seu mais amplo significado. Talvez o que acabei de escrever seja uma das explicações para o elevado número de indecisos que as sondagens registam; se é assim na Educação, no resto não será diferente.

4 comentários:

  1. Viva Paulo,
    não, não é marcação individual nem pressão alta, mas ultimamente tenho-te visto a esquecer, de forma sistemática, um partido que tem um discurso coerente e convicto em defesa do poder democrático da escola, no seu mais amplo significado.
    É que no parlamento não há apenas quatro forças partidárias, sendo que o PCP tem grupo parlamentar e os seus deputados têm trabalho feito nessa e noutras matérias.
    Quanto ao problema etéreo da "esquerda do PS", se ouvisses o que costumo dizer há muito saberias que só existe um PS, como ficou claramente demonstrado no congresso de Matosinhos, onde também foi cooptado e consagrado Ferro Rodrigues e tutti quanti "a benefício" da manutenção de Sócrates.

    Abraço
    Francisco

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  2. Viva Francisco.

    Não tens que te justificar; francamente.

    Tenho estado fora da rede.

    Não me tenho esquecido do PCP. Basta leres tudo o que tenho escrito. Até és capaz de ter alguma razão, embora saibas bem as críticas que faço a alguns dos aspectos "em defesa do poder democrático da escola, no seu mais amplo significado."

    Abraço.

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  3. Antes de mais nada, dizer 'este PS' é ter a nostalgia do outro. Procurá-lo com uma lupa é um exercício sofismático. Como em qualquer outro partido, duas coisas acontecem com partidária naturalidade: em contexto de eleições não se morde o líder que disputa as eleições. Ponto final. Ninguém aparece, nem deve aparecer. Era o que mais faltava. Em tempo de guerra não se limpam armas. Nenhum coelho, pois, nenhuma cartola. Até um político educadíssimamente incauto como Passos Coelho vive um estado de graça num partido que se esgatanha todo em surdina, sempre que abre a boca. Por outro lado, interrogo-me: quando se diz 'este PS' sugere-se que exista outro. Mas qual outro? Há dois? Há mais? Toda a organização que aceite humanos no seu seio tem de saber como enquadrar a inexorável divergência que separará (e unirá também) uns aos outros. Dentro de um partido, cada um deve conhecer com clareza o lugar e a oportunidade da afirmação da sua dissonância. Só assim ela terá eco. Só assim se consegue trabalhar.

    Por outro lado, o 'outro PS' não é, com toda a certeza, uma infalível soma de virtudes. Um partido é um enclave contraditório de interesses - mais explicitamente confessados do que se julga. E como enclave que é, impõe disciplina e gravidades várias. São centros de gravidade. Talvez por isso nunca me tenha constituído militante daquele que com evidência é o meu partido. E no qual sempre votei. Se este PS não é o PS que fez pela democracia em Portugal mais do que qualquer outro? Talvez não seja. Por isso mesmo é preciso repensá-lo. Como independente, beneficio de uma alforria que não é, nem deve ser, permitida a um militante. Não sou um militante socialista. Sou um socialista miltante. E devo ao PS, qualquer que ele seja, muita da minha liberdade. Sobretudo a que me permite discordar do que faz este ou aquele PS. Sei o que os outros propõem e  o que propõem é, em matéria educativa, inqualificávelmente pior do que aquilo que 'este PS' tem feito.
    Não esqueço que foi o PS, (um deles? escolha o freguês), que me convidou para integrar as suas listas, depois de eu ter despedaçado a sua política educativa num discurso em plena convenção autárquica socialista. Esse é o PS em que me revejo. O da divergência livre e comprometida numa única coisa: tentar fazer melhor.

    Nunca compreenderei no argumentário parcialíssimo e incendiário do Paulo que se estenda a absolutamente toda a acção do governo a calamidade monstruosa que vivemos desde há anos em matéria educativa. Atribuir a este governo os males da saúde, da justiça, da economia ou das finanças é ignorar o país, os governos, que temos tido a pachorra de aturar. Ignorar o seu reformador papel no domínio do ambiente, no domínio - continuadamente ignorado - do ministério dos negócios estrangeiros - com a presença no conselho de segurança, altos comissariados, participação militar em operações de manutenção de paz em todo o mundo - é pura terraplanagem; converter a questão da educação no epítome de todo um mandato é uma excentricidade. Nem teria nada contra as excentricidades, se ao menos elas não nos adiassem a todos esse atrevimento a que  chamamos futuro.

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  4. Têm sido raros os que construíram um discurso convicto e consistente contra estas comprovadamente nefastas políticas educativas: no PS tem sido um deserto.

    Porquê? Talvez porque não saibam? Fico com a ideia que concordavam com o que se fez e é imperdoável.

    Denunciar isso é ser parcial, subversivo ou revolucionário (dizes incendiário)? O estado do país não deixa muitas margens para dúvidas e o do sistema escolar tb não.

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