Era natural que o processo parque-escolar-sa, uma epifania achada em plena crise financeira e que se achou que salvaria a economia, tivesse o trágico episódio em curso. O desmiolo é um bom exemplo do nosso desastre. Sabia-se, está mais do que comprovado, que o Governo que iniciou a empreitada não estava convicto na defesa da rede escolar pública. Para além disso, os interesses-do-betão-e-de-outras-coisas-mais capturaram o financiamento.
Já há dias fiquei com a sensação que os dirigentes da Fenprof defendiam a megalomania; parece que não. Desta vez é um cronista de esquerda que escreve o seguinte: "(...)Para além dos efeitos económicos e descentralizados deste tipo de obra (mais de 9.000 postos de trabalho, mais de 2.700 empresas envolvidas), a boa qualidade das instalações trava a degradação do ambiente nas escolas, melhora o desempenho de docentes e alunos, devolve a autoestima a toda a comunidade escolar e, mais importante, segura a classe média no ensino público, condição fundamental para garantir a qualidade de ensino e impedir a criação guetos sociais nas escolas.(...)"
O blairismo esvaziou a esquerda que aspira a governar porque cavalgou uma agenda neoliberal misturada com um populismo de esquerda que parecia engavetado no período anterior à modernidade. Dá ideia que actual PS está desorientado, a exemplo da restante esquerda mainstream, onde penso que se situa o citado cronista, e que se afirma aquém do Partido Comunista. Há quem tenha percebido o desastre das políticas educativas, mas o ADN desta esquerda sem esquerda continua agarrado à oportunidade como primeira arma de combate ideológico e ajuda-nos a perceber cada vez melhor as origens da nossa bancarrota. Sem uma clara assumpção da trágica herança e da sua condenação, não haverá espaço para a construção de caminhos alternativos.
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