(da ontogénese da humilhação à filogénese da implosão)
Teria uns 12 anos e viajava com o meu pai numa estrada moçambicana fora dos centros urbanos. Estava, como quase sempre, um dia muito quente. Parámos numa "cantina" - espécie de áreas de serviço que eram, em regra, propriedade de comerciantes portugueses (os conhecidos metrôpoles) imbuídos do pior espírito colonial e que, talvez por isso, foram as primeiras vítimas da ira do povo moçambicano - e deparámos com uma dezena de homens, em tronco nu, de pele negra e bem suada e à volta de uma mesa que tinha uma bazuca - uma cerveja de litro e meio - no centro. Enquanto esperavam por uma qualquer refeição, o filho do comerciante, com uma idade igual à minha, atirava pão para os homens e repetia em tom jocoso: "hoje é dia de festa".
O meu pai esteve em silêncio e à saída disse-me qualquer coisa assim: "serão os primeiros a sofrer no dia da revolução". Lá me explicou o que é que queria dizer com o desabafo. Anos depois, a revolta "legitimou" a tragédia e as áreas de serviço arderam, e em muitos casos, com os comerciantes lá dentro. Foi também assim noutros capítulos dessa revolução. A cor da pele era o primeiro critério implosivo para humilhações acumuladas durante séculos.
As sociedades actuais não se devem considerar livres da ontogénese da humilhação. O bodo aos pobres deixa marcas. Os pobres não têm vergonha (a condição não o permite, sequer) e invadem os grandes espaços de gatas para afagarem a fome. É certo que o fazem, como também é de saber filogenético que um dia manifestarão em implosão social as sucessivas humilhações.
Caro Paulo
ResponderEliminar1. Permita-me, também, uma estória edificante:
Teria eu uns 13 anos de idade e passava uns dias em casa de uma família amiga numa pequena freguesia do concelho de Abrantes. Aconteceu celebrar-se a festa da padroeira da paróquia, sendo ainda feriado religioso. Foi o bom e o bonito: os dirigentes do clube de futebol lá da terra - uma corja de jacobinos, já se vê - decidiu fazer coincidir o jogo amigável entre a equipa local e uma outra convidada e recheada de gente apelativa com a hora da principal cerimónia da celebração religiosa. Alegavam estes que o povo era livre de escolher entre "passear a santa aos ombros pelas ruas da terra" e o nunca visto jogo que se adivinhava; argumentava o padre, acolitado pela fábrica da igreja e por parte significativa dos paroquianos, que a afronta era maior porque o feriado apenas se justificava enquanto religioso. E nisto se ficou, com amúos prolongados e armadilhados para posteriores zaragatas.
Consegue estabelecer alguma analogia? Consegue identificar as novas, intolerantes e paternalistas sotainas em fenómeno mas recente?
2. Permita-me, também, um presunção - tão firmada como a sua:
O golpe comercial do sr. Alexandre das mercearias verdes talvez tenha sido apenas isso: uma jogada comercial (legítima no quadro económico e político que elegemos há gerações) e não um bodo aos pobres. De resto, aceitemos que o povão é pobre; evitemos, porém, presumir que é sobretudo desgraçadinho, boçal e carente de iluminados tutores.