"Uma sociedade pós-heróica necessita de uma política que se exerça para lá da alternativa enfática entre o poder e a impotência. Tanto o discurso ideologicamente voluntarista como o derrotismo neoliberal ressoam de tempos heróicos em que mandar era entendido como mandar absolutamente com uma disposição soberana, sem verdadeiros interlocutores, sem respeito pela complexidade social. Mas há vida política no poder limitado e na impotência política bem gerida. A falência da política, que uns festejam e outros lamentam, é uma tese que não pode confirmar-se historicamente nem medir-se empiricamente. A política é por vezes desacreditada partindo do modelo de uma competência inalterável, como se os problemas sociais estivessem condenados à alternativa de receberem solução por meio de uma política soberana ou de ficarem abandonados à sua sorte. (...)"
Daniel Innerarity (2011, p:135).
"O futuro e os seus inimigos". Lisboa: Teorema.
Não sei se era velho. Sei, isso sei, que estávamos cansados dele e do que para nós representou de fome, de desemprego, de miséria, de desespero sem fim, de mentiras e de embustes. Se não houver alterações substanciais, este, que chegou, será mais e pior do mesmo. Portugal parece alheado: andou numa fona de gastos, e a correria às compras deu a ideia de que a normalidade era a regra. A alegoria segundo a qual os bárbaros estão às portas de Bizâncio e os bizantinos discutem o sexo dos anjos, reformula, uma vez mais, a imperdoável e sempre repetida negligência dos caracteres.
ResponderEliminar2013 foi o que foi porque o permitimos. 2014 adivinha-se o que será e nós andamos às compras. Informam graves estudos de que, a partir de agora, desempregados com 40/45 anos nunca mais encontrarão ocupações. Os celtas antigos atiravam os velhos das falésias, por inúteis; os modernos matam-nos de modo mais sofisticado, lentamente, com o fogo da mais cruel das decisões: "desocupam-nos." Os "desocupados" formam legiões sem destino e sem esperança.
Não preciso de discutir a situação emergente para chegar à conclusão de que a nova ordem económica internacional tem causado um desespero tão atroz e imundo que só a indiferença dos mandantes torna mais sórdida. "Vamos no bom caminho", diz, com treinada voz de tenor melífluo, o extraordinário dr. Passos Coelho. E o dr. Cavaco, a maior tragédia que nos calhou, nos últimos quarenta anos, aplaude, sustenta e concorda.
Ninguém diz a ninguém que o custo desta aventura é um peso inominável e arrasta consigo a própria noção de pátria. Um milhão e meio de desempregados; 140 mil jovens que deixaram o País por impossibilidade de viver; redução drástica de estudantes no secundário e no superior; despovoamento acentuadíssimo do interior; riqueza obscena de meia dúzia de senhoritos; lucros faraónicos de empresas e depredação, cada vez maior, das possibilidades naturais do país. A acumulação de funções e de cargos multiplica-se. Apenas um exemplo: corre pela internet, uma informação pormenorizada das incumbências desempenhada pelo ministro Aguiar-Branco, aquele do imbróglio dos Estaleiros de Viana do Castelo. É uma lista vergonhosa e de certa forma ilustrativa da imoralidade que grassa pelo País. O caso não é único: mas é exemplar.
Quando Passos e o dr. Cavaco decidiram discretear, em funestas exortações de fim-de-ano, a desvergonha atingiu, pelas omissões deliberadas e pelas contorções à realidade circundante, uma dimensão de nojo. O Papa Francisco, que parece ser o último arrimo de uma humanidade desesperada, tem dado a entender que a luta contra a agressão do dinheiro e a perversidade do lucro põem em causa a própria religião como expressão de identidade. Infelizmente, a Igreja portuguesa arredou-se das exortações papais e do exemplo que, notoriamente, o Sumo Pontífice está a dar. A última homilia e as declarações posteriores de patriarca de Lisboa, Manuel Clemente, vão em direcção de uma esquivada ambiguidade. Digo-o com pesar: conheço o antigo bispo do Porto, carteei-me electronicamente com ele, estive num debate promovido pelo Montepio sobre exclusão social, e lamento que o espírito de abertura intelectual, política e social que manifestou esteja, agora, silenciado e evasivo. A voz de um homem como Manuel Clemente, culto e lido, é imperiosa; porém, neste momento, está a baralhar, singularmente, a relação de esperança que poderíamos ter com a Igreja de Francisco.
Os tempos não parecem propícios às grandes fraternidades, agora, que a invasão dos bárbaros avança com inclemente vigor. Mas não podemos desistir, não podemos capitular, não podemos abandonar o terreno onde se dirimem as questões centrais da civilização. Nem tudo está perdido, porque nos resta a força da nossa razão e o poder imparável daquilo que queremos.
B.Bastos
Interessante. Obrigado.
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