(1ª edição em 21 de Janeiro de 2009)
Situemos a argumentação e façamos a caracterização dos três blocos.
O bloco do ensino é o lugar que determina a actvidade que cada um dos professores faz dentro da sala de aula; neste imenso universo deve centrar-se a sua avaliação do desempenho, onde é indiscutível que cada professor deve estar sempre preparado para fundamentar as suas opções científicas e didácticas e os critérios que escolheu para avaliar os seu alunos.
O bloco da organização escolar é o espaço que cria as melhores condições para que cada uma das aulas se realize: é a sua primeira finalidade. Solicita aos professores duas informações: a classificação de cada um dos alunos e a respectiva assiduidade. Deve seleccionar a informação que pretende obter para a fornecer em tempo real e com a exigência da produção de conhecimento. Este bloco deve ser dirigido por um professor e tenho ideia que será melhor conduzido por aqueles que revelem um desempenho muito profissional no bloco do ensino.
O bloco da precaução caracteriza-se por um universo informativo que é obtido apenas para arquivo e que existe porque está determinado de modo central através das invenções técnico-pedagógicas do MEC. E é aqui que encontramos um elenco de má burocracia: inúmeras actas e relatórios sem parâmetros indicadores de informação estruturante, projectos educativos impossíveis de avaliar, projectos curriculares de turma e de escola, definição de objectivos com variadas designações, e por aí fora numa lista interminável.
A institucionalização do bloco da precaução, e a sua aparente autoridade, parte dos serviços centrais do MEC e alastra-se à organização de muitas das escolas.
As invenções burocráticas devidamente preenchidas, são, por precaução, a única consciência profissional de muitas organizações escolares. E isso retira sentido de autonomia e de responsabilidade e gera fenómenos de subserviência e de medo.
Este bloco, que foi construído paulatinamente ao longo de anos e que criou um muro de burocracia na gestão da informação escolar, é difícil de derrubar.
O porvir de um muro é tão diverso quanto o propósito da sua edificação. Quando a liberdade dos homens esbarra num qualquer aglomerado, de tijolos ou de verdades incontestáveis, o obstáculo acaba por ceder e cai. O que mais impressiona nas quedas é a incredulidade dos que estiveram anos a fio do lado errado: começaram por crer nas virtudes dos dogmas, sustentarm as suas vidas na acomodação aos cinzentos privilégios dos funcionários dessas sociedades e acabaram como defensores acérrimos de burocracia monstruosa e desprovida de qualquer sentido libertador da condição humana.
A situação dos professores portugueses pode explicar-se deste modo: imersos num tentacular assombro burocrático da cinco de Outubro e da restante máquina administrativa, os professores, indignados e saturados, e sem liberdade para ensinar, ecoam os seus protestos dos lugares mais recônditos do país até ao histórico Terreiro do Paço. Incrédulos, os funcionários do chamado "eduquês" ("uma industria que move milhões") ficam atónitos, surpresos, mas ainda esperançosos: têm, em quem governa o MEC, um último e desesperado bastião. Não é fácil assistir a uma queda sem fim e presenciar a ruína das convicções mais profundas.
Contudo, foi possível identificar um conjunto denominado de boas práticas que tornava "exequível" aquilo que depois se provava ser inaplicável: é essa uma parte crucial da história recente da avaliação do desempenho dos professores e do seu arrastamento insuportável. Quando se tentou perceber as boas práticas das escolas ditas de referência, o ridículo eliminou rapidamente a visibilidade mediática que se quis impor.
Também por precaução se deixou de falar nisso.
Olá!
ResponderEliminarConcordo em absoluto com o que escreveste. É realmente um texto longuito, mas vale bem a pena ler.
Bj
Mena
"tão difícil de derrubar que essa tarefa só é comparável à queda do muro de Berlim, salvo as devidas proporções, claro."
ResponderEliminar(Sim que o muro de Berlim tinha apenas 150 kms de extensão.)
ResponderEliminarGostei de ler. Um pouco longo, mas não tanto como o "bloco" de que falas.
Muro de Berlim? Esse ainda caiu! Este bloco mais parece a Muralha da China, que segundo alguns, até se vê da lua!
Será que o Pinóquio quer este "bloco" candidato a umas das maravilhas do mundo?
Bjo
Muito boa a comparação do" bloco da precaução" com a Muralha da China e candidata a maravilha de Portugal.:)
ResponderEliminarQuanto ao texto, revela lucidez e conhecimento profundo da "escola".
A reflexão séria sobre os problemas da escola nestes 3 blocos interessa a tão poucos professores...
Voltei a ler. Merece segunda leitura. Que pena que o trio Maravilha não passe por aqui. Talvez aprendessem alguma coisa. Mas cuidado... "eles comem tudo e não deixam nada".
ResponderEliminarObrigado.
ResponderEliminarBeijo.
Fizeste-me rir. O entre parêntesis ficava bem no texto :) Abraço.
ResponderEliminarAh claro Isabel, parece que estamos na lua, realmente. Beijo.
ResponderEliminarObrigado, Abraço.
ResponderEliminarÉ com alegria que se lê um texto assim, porque o espírito vai visitando progressivamente o interior de um edifício - a escola - onde se movem, colaborando e conflituando, os que o vão habitando.
ResponderEliminarA metáfora da escola como edifício com os seus "blocos", subjacente ao texto, é sugestiva pois ela "põe ante os olhos" a ideia de que só há boa arquitectura quando o edifício serve os verdadeiros desígnios para que foi criado.
Se a escola não cumpre estes desígnios, como se sabe, logo é porque o traçado arquitectónico do edifício, o "bloco da precaução", fracassou.
Que fazer, então? Esperar a "sua queda sem fim" ou acelerá-la pela nossa acção? Aqui, a exaltação revolucionária em que o texto cai, para além do seu alcance mobilizador, pode não ser a melhor conselheira. É talvez preferível proceder à imagem do "bricolleur" : coligir, analisar e seleccionar os "restos" e dar-lhes uma nova utilização, mais conforme às necessidades reais do sistema. A reciclagem é também aqui uma exigência de sustentabilidade do ambiente educacional.
Caro Vasco Tomás
ResponderEliminar"Aqui, a exaltação revolucionária em que o texto cai, para além do seu alcance mobilizador, pode não ser a melhor conselheira. É talvez preferível proceder à imagem do "bricolleur" : coligir, analisar e seleccionar os "restos" e dar-lhes uma nova utilização, mais conforme às necessidades reais do sistema. A reciclagem é também aqui uma exigência de sustentabilidade do ambiente educacional."
Não sei se é professor, mas pelo que escreve não me parece. Só deve haver reciclagem quando os "materiais" o merecerem.
E neste momento a poluição é tão profunda que é preciso deitar fora o lixo, antes de prosseguirmos a edificação do edifício.
Caro Vasco, o que é a SINGULARIDADE? Acontecimento irrepetível provocado pela acção.
A história das ideias faz-se com as respostas que o HOMEM dá às experiências do seu quotidiano e também, pelas metáforas de um discurso arquitectónico que permita a transcendência do real mas que provoquem rupturas e não só continuidades labirínticas que nos deixam sempre no mesmo lugar. É o que se tem verificado nos últimos 30 anos, na área da educação e do ensino.
Não caro Vasco: A HORA não é de "bricolleur". A sustentabilidade do ambiente educacional desta vez, terá de ser construída em patamares de Verdade e de Justiça educacionais.
Em jeito de resposta à "pronúncia do norte" vou tentar explicitar melhor e fundamentar o meu argumento. Afirmo no meu comentário ao texto do Paulo Trilho que, concordando com ele, o sistema educacional, tal como o temos, fracassou, sobretudo porque as políticas educativas foram construindo uma superestrura de pautas, orientações e constrangimentos que condicionam, limitam e subvertem o gesto de ensinar e a sua eficácia.
ResponderEliminarDiscordo do pensamento que o informa no tocante ao modo como se deve fazer a passagem para outro estado de coisas: Paulo Trilho pensa esta passagem de acordo com o modelo de que inaugurar no presente requer desacreditar e pôr de parte o passado. A essência deste modelo marcou todo o pensamento político do Ocidente, sendo protótipo de todas as ideologias progressistas e revolucionárias. Foi chão que já deu uvas, perniciosas, e até há quem diga que foi S. Paulo quem o soletrou originalmente na teoria e na prática.
Neste sequência, uso a imagem do "bricolleur", de Lévi-Stauss, para dar conta da necessária passagem para uma outra margem. Posso citar G. Agamben, que diz isto nestes termos: "o mundo por vir (...) lá tudo será precisamente como é aqui (...) só que um pouco diferente. Novo é o pequeno deslocamento (...) [que] não diz respeito ao estado de coisas, mas ao seu sentido e aos seus limites." (cf. Agamben, A comunidade que vem, pp. 44-5).
Esclareço que sou professor e desconfio de todas as formas de "pensamento único".
Paulo,
ResponderEliminareu estou aqui do outro lado, do lado de lá do "muro".
Aqui iniciou-se um processo estranho (qualquer coisa a que chamam avaliação...).
E porque é que ele se iniciou tão rapidamente?
As razões são várias. Uma delas, e vou citar aquele texto maravilhoso que escreveste, é o facto de "as invenções burocráticas devidamente preenchidas, serem, por precaução, a única consciência profissional de muitas das escolas. E isso retira sentido de autonomia e de responsabilidade e gera fenómenos de subserviência e de medo."
É outra a lista onde está a minha escola.
beijo
ResponderEliminarPara o Vásco Tomás
O seu último comentário lembrou-me um livro de Niklas Luhmann, A improbabilidade da comunicação.
Os tempos que vivemos na Educação estão contidos neste título.
A passagem para outros tempos não tem de ser feita da forma como tem acontecido. Uma vez que também é professor vou omitir os detalhes.
Não penso que o Paulo queira esquecer o passado, até porque quanto mais o tentamos esquecer, mais ele se mostra. Não vale a pena esconder a evidência. A Tradição estará, ainda, e por muito tempo, entre nós. Eu reconheço-a.
Mas, e cito S. MILL
“(…) O valor de um Estado, a longo prazo, é o valor dos indivíduos que o compõem; e um Estado que adie os interesses do desenvolvimento e elevação mental (…), em detrimento de um pouco mais de competência administrativa, ou aquela aparência de competência nos pormenores do negócio que se adquire através da prática; um Estado que inferiorize as suas pessoas, de modo a que sejam instrumentos mais dóceis nas suas mãos, até com fins benéficos, descobrirá que com pessoas pequenas nada de grande se poderia alguma vez realmente alcançar; e que a perfeição da máquina, pela qual sacrificou tudo, no fim de contas de nada servirá, por falta do poder vital que preferiu erradicar, para que a máquina trabalhasse mais suavemente.”
" Novo é o pequeno deslocamento", pois é isso que os professores estão a fazer: deslocar para construir o "novo".
Ah, Agamben, também gosto!
A associação que é feita entre o que se vive no mundo da educação e a teoria da comunicação de Luhmann parece pertinente.
ResponderEliminarMas então o recurso a Stuart Mill, cujo ponto de vista também perfilho, como pode servir de cobertura ideológica para o combate que opõe os professores à política governamental na educação, se acaso, deste lado - com quer a teoria de Luhmann - o ensimesmamento operacional impede qualquer mudança determinada a partir da exterioridade do sistema?
A perspectiva de combate perfilhada pelo meu inomado contendor ficaria talvez melhor justificada recorrendo à teoria da comunicação de Habermas, que, como sabe, com Luhmann conflituou.
A este respeito, e para acicatar a reflexão, deixo um excerto de um artigo on-line: "A discussão entre Habermas e Luhmann revela uma discrepância fundamental na caracterização da nova sociedade comunicacional e tecnológica. Habermas apoia-se na intersubjetividade como estratégia para recuperar a democracia nos contextos ocidentais; já Luhmann despreza essa possibilidade, excluindo dos homens qualquer intervenção mais activa no processo social. O primeiro parece ainda preso aos modelos clássicos de participação, nos quais os homens, a partir dos diálogos directos, realizavam a comunicação propriamente dita; o segundo, mais próximo do pensamento cibernético, parte
para outra configuração social, em que são os sistemas que funcionam, restando aos
homens participação periférica. Grosso modo poder-se-ia dizer que Luhmann é mais actual, mas isso é enganoso, pois o seu esquema tampouco dá conta do quadro tecnológico contemporâneo." (cf. Comunicação e ação política no contínuo mediático. Luhmann contra Habermas. E nós contra todos).
Muitas questões, onde semânticas diferentes nos remetem para o nosso problema: a compreensão do "nosso" presente.
ResponderEliminarLuhmann e no seguimento da Teoria da Informação apresenta um modelo onde os elementos humanos estão excluídos.
Neste contexto entra bem a estratégia comunicacional do ministério da educação: vontade de substituir professores por máquinas de ensinar que controlam as respostas dos alunos. Ah, e é só vantagens - não pensam nem recusam este modelo de avaliação.
No excerto que apresenta de Habermas, o mesmo remete para a compreensão da reformulação do modelo da razão instrumental clássica, através de relações intersubjectivas, que leva à criação de um espaço crítico, aberto e plural. Novos modelos de racionalidade. Lembrei-me de M. Castels, A sociedade em rede. E Habermas pode continuar presente na discussão( e na ética)
Espero que venha a interessar a mais.
ResponderEliminarAbraço.
Obrigado Vasco.
ResponderEliminarAbraço.
Bela a intervenção de pronúncia do norte "A história das ideias faz-se com as respostas que o HOMEM dá às experiências do seu quotidiano e também, pelas metáforas de um discurso arquitectónico que permita a transcendência do real mas que provoquem rupturas e não só continuidades labirínticas que nos deixam sempre no mesmo lugar. É o que se tem verificado nos últimos 30 anos, na área da educação e do ensino" clara, precisa e certeira.
ResponderEliminarAbraço.
Caro Vasco. Quando dizes: "Paulo Trilho pensa esta passagem de acordo com o modelo de que inaugurar no presente requer desacreditar e pôr de parte o passado. A essência deste modelo marcou todo o pensamento político do Ocidente, sendo protótipo de todas as ideologias progressistas e revolucionárias. Foi chão que já deu uvas, perniciosas, e até há quem diga que foi S. Paulo quem o soletrou originalmente na teoria e na prática. "
ResponderEliminarNão encontras no meu texto essa intenção, desacreditar o passado: é apenas uma leitura tua, que respeito. Centro a minha intervenção na ideia de contrariar o que existe, a actualidade digamos assim, projectando-o para o possível e para a liberdade.
E interessa-me pouco questionar se isso é revolucionário e muito menos considero possível engavetar o meu texto. Escrevo sobre o tratamento da informação na organização escolar: e o que desenho não só existe como é factual; logo, possível.
Espero que continuem a vossa discussão.
Abraço.
Sei disso Manuela.
ResponderEliminarVamos a isso. Força aí.
Abraço.
Adorei o blog, conteúdo muito bem escrito, layout bacana com cores amigáveis. Vou aproveitar e adicionar o blog nos meu favoritos. bjs! Maria Cecilia
ResponderEliminarNovamente oportuno, Paulo.
ResponderEliminarSe me permites, para não me repetir, remeto para o comentário que deixei no post "Escolas sem oxigénio"...
Ok Carlos :)
ResponderEliminar