- O bloco do ensino é o lugar que determina a actividade que cada um dos professores faz dentro da sala de aula; neste imenso universo deve centrar-se a sua avaliação do desempenho, onde é indiscutível que cada professor deve estar sempre preparado para fundamentar as suas opções científicas e didácticas e os critérios que escolheu para avaliar os seus alunos.
- O bloco da organização escolar é o espaço que cria as melhores condições para que cada uma das aulas se realize: é a sua primeira finalidade. Solicita aos professores duas informações: a classificação de cada um dos alunos e a respectiva assiduidade. Deve seleccionar a informação que pretende obter para a fornecer em tempo real e com a exigência da produção de conhecimento. Este bloco deve ser dirigido por um professor e tenho ideia que será melhor conduzido por aqueles que revelem um desempenho muito profissional no bloco do ensino.
- O bloco da precaução caracteriza-se por um universo informativo que é obtido apenas para arquivo e que existe porque está determinado de modo central através das invenções técnico-pedagógicas do MEC. E é aqui que encontramos um elenco de má burocracia: inúmeras actas e relatórios sem parâmetros indicadores de informação estruturante, projectos educativos impossíveis de avaliar, projectos curriculares de turma e de escola, definição de objectivos com variadas designações, e por aí fora numa lista interminável.
As invenções burocráticas devidamente preenchidas, são, por precaução, a única consciência profissional de muitas organizações escolares. E isso retira sentido de autonomia e de responsabilidade e gera fenómenos de subserviência e de medo.
Este bloco, que foi construído paulatinamente ao longo de anos e que criou um muro de burocracia na gestão da informação escolar, é difícil de derrubar.
O porvir de um muro é tão diverso quanto o propósito da sua edificação. Quando a liberdade dos homens esbarra num qualquer aglomerado, de tijolos ou de verdades incontestáveis, o obstáculo acaba por ceder e cai. O que mais impressiona nas quedas é a incredulidade dos que estiveram anos a fio do lado errado: começaram por crer nas virtudes dos dogmas, sustentaram as suas vidas na acomodação aos cinzentos privilégios dos funcionários dessas sociedades e acabaram como defensores acérrimos de burocracia monstruosa e desprovida de qualquer sentido libertador da condição humana.
A situação dos professores portugueses pode explicar-se deste modo: imersos num tentacular assombro burocrático da cinco de Outubro e da restante máquina administrativa, os professores, indignados e saturados, e sem liberdade para ensinar, ecoam os seus protestos dos lugares mais recônditos do país até ao histórico Terreiro do Paço. Incrédulos, os funcionários do chamado "eduquês" ("uma industria que move milhões") ficam atónitos, surpresos, mas ainda esperançosos: têm, em quem governa o MEC, um último e desesperado bastião. Não é fácil assistir a uma queda sem fim e presenciar a ruína das convicções mais profundas.
Contudo, foi possível identificar um conjunto denominado de boas práticas que tornava "exequível" aquilo que depois se provava ser inaplicável: é essa uma parte crucial da história recente da avaliação do desempenho dos professores e do seu arrastamento insuportável. Quando se tentou perceber as boas práticas das escolas ditas de referência, o ridículo eliminou rapidamente a visibilidade mediática que se quis impor.
A 1ª edição deste texto data de 01 de Janeiro de 2009.
A assertividade impressiona!
ResponderEliminar"Quando se tentou perceber as boas práticas das escolas ditas de referência, o ridículo eliminou rapidamente a visibilidade mediática que se quis impor."
Chamar “boas práticas” significa cortar com a análise sobre as práticas, porque já se disse que eram “boas”. Aniquila à partida qualquer tipo de contraditório. As "boas práticas" florescem em campos de nepotismo. Denominar de “Boas Práticas” a algo que não encontra paralelo com o método e/ou a lei é uma ignorância atrevida. Ignorância por chamar “boas” sem que exista a sua demonstração científica, atrevida porque, não se sabendo se são boas ou más, são de imediato promovidas a serem adotadas como exemplo. A consequência das ações necessárias à instauração das "boas práticas" é irresponsável. Muito para além da eleição os seus atores deveriam ser, exemplarmente, punidos.
Impressionou mesmo, Rui. Obrigado pelo comentário.
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