domingo, 19 de junho de 2022

Do Mal Tolerado


"(...)Há o bem e o mal, e há uma categoria intermédia que é o Mal tolerado. Há um cinismo inconsciente, que é necessário à vida. É o que eu chamaria o intolerável tolerado. Mas agora isso tornou-se num cinismo demasiado visível, que tomou conta do espaço público, é ubíquo. Essa transparência, visibilidade do intolerável, pode levar, a longo prazo, a que o sistema mude a partir do interior, por acção de uma outra categoria, que competiria com a da ganância: a vergonha. Agora já não é possível esconder a podridão moral da sociedade, por pura vergonha. Mas enquanto isso não acontece, os jovens não podem mais viver com esse Mal intermédio. Querem afirmar-se. Não é por ressentimento, ou impulso de destruição, castigo ou vingança. É uma indignação contra a intolerabilidade do Mal mediano.(...)"


José Gil, Pública,


4 de Março de 2012, pág. 24.


1 comentário:

  1. O autor deixa implicitamente a ideia de que o cinismo é pejorativo; aconselho a que se faça um estudo epistemológico da escola grega cinica, sendo Diógenes o seu representante, e certamente compreenderão que foi a ocidentalização cultural que perverteu essa filosofia. Se a população fosse culta no cinismo que Diógenes divulgou, não seria tão passiva e não viveria em modelo de manada, havendo um equilibrio de poder na sociedade hoje inexistente.

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