Iniciava o exercício, e o privilégio, de gestão de uma escola portuguesa. O estabelecimento de ensino integrava um território educativo de intervenção prioritária: ou seja, a escola estava rodeada por problemas sociais graves e isso inundava o seu projecto educativo. Havia que arregaçar as mangas e consumir as energias no essencial.
Certo dia, recebo uma assistente social que, e ao que a memória me diz, representava os serviços sociais do ministério da justiça. Vinha com a firme determinação de ajudar a resolver um problema relacionado com uma família com as características da zona envolvente: a uma pobreza chocante, associava-se uma habitação degradada e só com um quarto; tinham sete filhos, salvo erro.
As minhas tarefas exigiam um alucinante desdobramento. Para ganharmos tempo, propus que os visitássemos: fomos a pé, a distância era curta, e conversámos sobre as soluções.
Estávamos em plena segunda-feira. Aproximámo-nos da habitação, e quando nos preparávamos para bater à porta demos com um papel com a seguinte inscrição: "só recebemos assistentes sociais às 5ª feiras das 13.00 às 14.00".
Ficámos estarrecidos e sem palavras. Lá nos recompusemos, sorrimos, trocámos algumas opiniões sobre o futuro e partimos.
Mas não me esqueci da intrigante determinação. Tempos depois, encontro o pai da família e interrogo-o: "fui a sua casa com uma assistente social, mas o senhor não estava. Mas por que é que só recebe os assistentes sociais naquele dia?"
Respondeu-me prontamente: "sabe: passo a vida a receber assistentes sociais que vêm das mais variadas instituições; fazem-me inquéritos e mais inquéritos, querem saber tudo, devassam a minha vida e depois nada acontece. E já lá vão uns anos nisto. Também tenho direito à minha privacidade. Sou pobre, eu sei, mas mereço algum respeito".
Teve, em mim, um efeito simultâneo: uma lição de vida e um redobrar de energias.
Certo dia, recebo uma assistente social que, e ao que a memória me diz, representava os serviços sociais do ministério da justiça. Vinha com a firme determinação de ajudar a resolver um problema relacionado com uma família com as características da zona envolvente: a uma pobreza chocante, associava-se uma habitação degradada e só com um quarto; tinham sete filhos, salvo erro.
As minhas tarefas exigiam um alucinante desdobramento. Para ganharmos tempo, propus que os visitássemos: fomos a pé, a distância era curta, e conversámos sobre as soluções.
Estávamos em plena segunda-feira. Aproximámo-nos da habitação, e quando nos preparávamos para bater à porta demos com um papel com a seguinte inscrição: "só recebemos assistentes sociais às 5ª feiras das 13.00 às 14.00".
Ficámos estarrecidos e sem palavras. Lá nos recompusemos, sorrimos, trocámos algumas opiniões sobre o futuro e partimos.
Mas não me esqueci da intrigante determinação. Tempos depois, encontro o pai da família e interrogo-o: "fui a sua casa com uma assistente social, mas o senhor não estava. Mas por que é que só recebe os assistentes sociais naquele dia?"
Respondeu-me prontamente: "sabe: passo a vida a receber assistentes sociais que vêm das mais variadas instituições; fazem-me inquéritos e mais inquéritos, querem saber tudo, devassam a minha vida e depois nada acontece. E já lá vão uns anos nisto. Também tenho direito à minha privacidade. Sou pobre, eu sei, mas mereço algum respeito".
Teve, em mim, um efeito simultâneo: uma lição de vida e um redobrar de energias.
(Este texto é de 10 de Junho de 2007)
impressionante, uma coisa que a um primeiro olhar nu parece completamente descabida e demonstrava desinteresse total , de um momento para o outro passa a fazer todo o sentido, é lógico que o respeito não se pode medir pela classe social de cada um , e também seria lógico que depois de autênticos interrogatórios esse homem visse algo a mudar para melhor, mas infelizmente o estado português à muitos anos que sofre de dois síndromes bem graves o da coscuvilhice " e o da indiferença total pelas pessoas que mais presisam.
ResponderEliminarinfelizmente à muito tempo que neste pais que o estado mede o respeito em função da condição social
Quem é que tem escrito bem? O portuga? De certeza? Há quanto tempo?
ResponderEliminarOlá Edite. O portuga é um jovem aluno da minha escola. Tem um blogue e escreve, prosa e poesia, com muito sentimento. Desejo-lhe as maiores felicidades e a si também. Obrigado por passar por aqui.
ResponderEliminar[] Paulo.
Está giro o início "acabava de iniciar"... : )
ResponderEliminarObrigado Pedro.
ResponderEliminarOlá Rosa e obrigado por passar por aqui. A ideia era: concluía o início, a primeira etapa, ou seja, até já estava disponível para umas saídas. Mas sabe como é: escrever dá trabalho e estes textos nem sempre têm o tempo que mereciam. Mas corrigi: iniciava e ponto final :) Ri a bom rir com a sua sugestão.
ResponderEliminar[] Paulo
Boa! Parece-me que já tinha lido.
ResponderEliminarEsta faz-me lembrar um sketch do Gato Fedorento que é um consultório de médicos ao contrário: um doente no consultório e médicos na sala de espera!
Enfim! Parece que os pobres não chegam para tantas assistentes sociais.
Olá.
ResponderEliminarOlá Luís. É a primeira vez que escrevo isto. Já te ouvi dizer que há mais instituições do que pobres :) [] Paulo.
ResponderEliminarO teu blogue é uma must... visita o meu.
ResponderEliminarOlá Nelson. Obrigado. Visitarei o teu de seguida. Um abraço do Paulo.
ResponderEliminarMan adoro o teu blogue, principalmente a tua escrita, continua com o excelente trabalho
ResponderEliminarObrigado. Abraço.
ResponderEliminarÉ só para dizer que "há muitos anos" e "há muito tempo" escreve-se com"h"! (Verbo haver, ok?)
ResponderEliminarObrigado. Mas onde é que encontrou o erro? Abraço.
ResponderEliminarOk, já percebi. No comentátio do jovem portuga. Vá Nuno, percebe lá isso. Abraço aos dois.
ResponderEliminarAgora me lembro: não li. Ouvi-te, literalmente a dizer isto.
ResponderEliminarÀs vezes também se escreve quando se fala.
Olá Luís. É isso mesmo. Tem piada que tenho este post num rascunho há mais dois anos, salvo erro. Nem sei o "porquê", mas deixava sempre a publicação para outra altura. É uma das histórias que mais me ensinou e é seguro que a terei partilhado contigo. Abraço do Paulo.
ResponderEliminarA postura deste pai de sete filhos echeu-me de esperança, pois enquanto houver pessoas assim, haverá sempre esperança.
ResponderEliminarOlá. Obrigado pela visita. Estou de acordo consigo. Abraço.
ResponderEliminarNão quero generalizar (e abençoadas excepções!), mas a institucionalização cria os "pobrezinhos". São formulários para isto, patamares para aquilo, comprovativos para aqueloutro...
ResponderEliminarAlguém alguma vez viu qualquer instituição, organismo,etc., resolver verdadeiramente algum caso de pobreza ou "degradação" familiar? Eu não... Vejo cada vez mais famílias dependentes.... Esses são os "pobrezinhos" pois estão presos a um sistema que os asfixia, sempre dependentes do tal rendimento ou subsidio, sob tal condição, sob tal obrigatoriedade...Até quando?...Até que deixem de ser pobres? E quando o subsidio acaba?
De facto, haja dignidade...
Obrigado pelo comentário. Abraço.
ResponderEliminarDa mesma maneira que em Kafka o filho justifica um Deus desconhecido, os miseráveis justificam um Estado que tudo conhece, muito manda e pouco se justifica.
ResponderEliminarBelo, muito belo mesmo. Abraço e obrigado por comentar.
ResponderEliminarJulgo ter percebido ser da Comissão Executiva duma Escola. Admiro o seu trabalho: é dos mais complexos, difíceis e ignorados do mundo. Mas dos mais importantes. Um abraço e força. E viva a democracia na Escola!
ResponderEliminar
ResponderEliminarJulgo ter percebido ser da Comissão Executiva duma Escola. Admiro o seu trabalho: é dos mais complexos, difíceis e ignorados do mundo. Mas dos mais importantes. Um abraço e força. E viva a democracia na Escola!
Já fui. Fui presidente do Conselho Executivo de um escola durante três mandatos consecutivos. Estava muito entusiasmado e as coisas, e desculpe-me a imodéstia, até corriam muito bem. Mas quis dar um pequeno exemplo: auto-limitei os mandatos, disse-o logo de início, aspecto não contemplado na lei. Um imperativo democrático. Tem razão Hermes: feito com responsabilidade, com sentido de autonomia, com coragem, com compaixão, com dedicação aos detalhes é, mais do que difícil: é violento. Portugal é um país muito centralizado e a sociedade portuguesa é aquilo que se sabe.
ResponderEliminarAbraço e obrigado por comentares. E viva democracia na escola :)
Não conhecia este texto. Comovente. Muito obrigado Paulo.
ResponderEliminarTambém não conhecia.
ResponderEliminarQue lição.
Estava a ler e surpreendi-me com este final.
"Mas não me esqueci da intrigante determinação. Tempos depois, encontro o pai da familia e interrogo-o: "fui a sua casa com uma assistente social mas o senhor não estava. Mas porque é que só recebe os assistentes sociais naquele dia?"
Respondeu-me prontamente:"sabe, o problema é o seguinte: passo a vida a receber assistentes sociais que vêm das mais variadas instituições; fazem-me inquéritos e mais inquéritos, querem saber tudo, devassam a minha vida toda e depois nunca acontece nada. E já lá vão uns anos nisto. Também tenho direito à minha privacidade. Sou pobre, eu sei, mas mereço algum respeito".
Teve, em mim, um efeito simultâneo: uma lição de vida e um redobrar de energias."
Divinal.
ResponderEliminarSoberbo Paulo.
ResponderEliminarExcelente MESMO.
ResponderEliminarNão é mas já foi. E é pena...
ResponderEliminarDivinal
ResponderEliminarTambém achei. Parabéns ao autor.
ResponderEliminarPesquisava por Kafka e correntes e caí neste texto. Não me arrependi nada. Brilhante de escrita e de sensibilidade.
ResponderEliminarEste texto encheu-me as medidas: sensibilidade e bom-senso.
ResponderEliminarTambém cheguei nas pesquisas na net. Que coisa mais deliciosa. Que sensibilidade. Muito bem.
ResponderEliminarMuito bem, mesmo.
ResponderEliminarVim ter a este texto da mesma maneira e deixo a minha sensação: sensibilidade e inteligência. Escolas dirigidas por pessoas assim...
ResponderEliminarLINDO!!!
ResponderEliminarSoberbo e intemporal. INFELIZMENTE:
ResponderEliminarDei com este texto numas pesquisas sobre Kafka. Uma prosa surpreendente e muito boa. Muita dignidade nisto tudo. Parabéns.
ResponderEliminarGenial, concordo.
ResponderEliminarQue história!!!! Mundo meio louco.
ResponderEliminarTopei mesmo. Lindo.
ResponderEliminarO critério foi Kafka e a Escola Portuguesa. Acertei aqui. Uma História cortante contada numa escrita de tirar o chapéu. Muitos parabéns.
ResponderEliminarFilho mais velho de Herrmann Kafka, um abastado comerciante judeu, e de sua esposa Julie, nascida Löwy. Nascem depois dele dois meninos, que irão morrer pouco tempo após o nascimento, fato que segundo alguns psicólogos especialistas na obra de Kafka, será um factor determinante para o sentimento de culpa presente nos seus livros; e três meninas, sendo Ottilie a sua irmã favorita, com quem ele chega a morar algumas vezes.
ResponderEliminarAconteceu-me exactamente o mesmo. Excelente. Parabéns.
ResponderEliminarFez-me lembrar várias coisas:
ResponderEliminar- os Gato Fedorento naquela peça em que temos uma sala de espera cheia de médicos e um doente no consultório.
- Milton Friedmann a falar contra o monstro burocrático e financeiro da segurança social americana.
- personagens de Harold Robins a fugir à assistente social.
- o artigo de Rui Ramos, hoje, no Expresso, a criticar as enormes bichas para verificar o direito a subsídios.
Como ter segurança social sem burocracia?
Viva Luís.
ResponderEliminarTb te ouvi dizer que havia mais instituições de combate à pobreza do que pobres. Racionalizar a ajuda para chegar a quem precisa.
Como alguém disse, mas para se receber as mais altas pensões em acumulação não tem de se fazer prova da ausência de qualquer outro rendimento. Se entrarmos pela demagogia e populismo não paramos
Texto maravilhoso. Parabéns.
ResponderEliminarMuito bom.
ResponderEliminarDelicioso.
ResponderEliminarParabéns pelo blogue. O texto é premonitório. Soube bem.
ResponderEliminarNem mais...
ResponderEliminarObrigado aos dois
ResponderEliminarTudo bem professor? Seu aluno nos Pimpões, já lá vão mais de dez anos. Vi-o numa entrevista na SIC/N e sigo-o no seu blog. Por aí a agitação é grande. Abração para si e para os seus.
ResponderEliminarViva Ricardo.
ResponderEliminarTudo bem. Pode escrever para o email que está no topo do blogue.
Abraço tb
Nada que o PEPT2000 não resolva.
ResponderEliminarBom fim de semana
Interessantíssimo o caso contado neste post. Impressionante a inteligência do protagonista que só recebe assistentes sociais em horário limitado.
ResponderEliminarDá muito que pensar.
Bem se costuma dizer que a realidade ultrapassa muitas vezes a ficção.
Se imaginássemos um caso assim para uma qualquer novela ou texto dramatúrgico, dir-nos-iam que não tinha verosimilhança.
- Isabel X -
tempo da arca das pérolas?... obrigado...
ResponderEliminarImpressionante Isabel X, Como estaremos quase 15 anos depois?
ResponderEliminarQue história soberba.
ResponderEliminarSinceramente, não estava à espera deste desfecho.
ResponderEliminarGostei.
Boas férias e bom descanso, Paulo!
Srº Professor Paulo Prudêncio, quase todos os dias leio os seus blogues pois aprendo muito com eles e como sempre aprendi consigo, pois foi o único Presidente do Conselho Executivo que passou pela E.B.I. Stº Onofre que trabalhou sempre a pensar no bem estar dos alunos e da escola. Parabéns.
ResponderEliminar..... sim Senhor... gostei do texto e principalmente da sua atitude solidária... vemos que do estado (com letra minúscula) pouco ou nada se pode esperar... se não fosse pessoas como você e instituições de solidariedade social (na sua maioria católicas) a desgraça seria ainda maior!!!!!!!!!!!
ResponderEliminarObrigado.
ResponderEliminarFabuloso. Lucidez, sensibilidade e Parabéns.
ResponderEliminarObrigado.
ResponderEliminarObrigado.
ResponderEliminarMuitos anos depois, eis-me a comentar... e logo um comentário :)
ResponderEliminarDeclaro morte à literalidade! Por que diabo não poderá ser "acabar de iniciar"? Muito mais descritivo do que "iniciar", devo dizer. Aos textos em blogues permitem-se liberdades poéticas que aos textos profissionais e institucionais não são aconselháveis, e há que fazer a distinção, exigir a distinção.
Porque quem acaba de iniciar por desconhecimento tropeçará ao longo do texto em erros vários, já quem acaba de iniciar por opção deslizará na fluída gramática.
E pronto, era isto :)
Uma dignidade, uma determinação e uma resolução exemplares, principalmente num país onde se suporta tanto por tão pouco. Se se cruzar com o senhor, aplauda-o em meu nome, por favor. Oxalá esteja bem.
Obrigada pela partilha.
Concordo :) 13 anos depois; sim; o correr das teclas. Voltei a gostar do comentário. Obrigado por voltar a comentar :)
ResponderEliminaras cada vez mais vezes que não comento são fruto da falta de tempo, não da falta de vontade ;)
ResponderEliminarque lhe não falte a inspiração. até breve.
Obrigado. Até breve.
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