sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

A obsessão com a escolha dos professores

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Título: A obsessão com a escolha dos professores


Sub-título: A origem de um conflito insanável com quem governa.


Pelo Público em Janeiro de 2022. Como acordado, o texto está publicado no blogue.


Lide (lead):


Texto: 


A obsessão com a escolha dos professores provocou um insanável conflito com quem governa. Tudo começou (2005) com as mais do que debatidas políticas na carreira e na avaliação, sustentadas por um modelo de gestão (2009) que abriu portas à autocracia. A sua concepção centrou-se no preconceito de que a escolha providencial, ou por pequenos colégios eleitorais com os professores como grupo minoritário, é mais democrática do que concursos e progressões por lista graduada ou eleições com cadernos eleitorais alargados como aconteceu até à primeira década do milénio num processo invejado pelos parceiros europeus. As graves e indesmentíveis consequências, até na propalada desautorização dos professores, já entraram no universo dos conflitos insanáveis e o tempo tornou irrefutável o insucesso das políticas.


E se se percebeu, nos conflitos mais longos da história universal, o desejo de extremistas - que se passavam por generosas criaturas e grandes altruístas - que obrigavam os outros a mudar, neste caso português há, desde logo, duas inspirações: obsessão da escolha dos professores e teimosia na não recuperação de todo o seu tempo de serviço. 


Mas antes do mais, sublinhe-se que não se desconhece a responsabilidade da engenharia financeira e social, articulada com a OCDE, na redução dos orçamentos da educação através do descrédito mediático dos professores da escola pública. Os resultados são iniludíveis: ondas de contestação e falta grave de profissionais. Portugal atrasou-se, mas aplicou, desde 2005 e com débil teorização e ausência de estudos empíricos, obsessões que são especificamente portuguesas.


Portanto, é crucial debater a génese deste conflito e encontrar o fio da meada que ultrapasse o clima de desesperança e de fuga à profissão. A imposição providencial agravou-se porque a doença nacional da cunha, do amiguismo e do nepotismo, empurrou o ambiente para a escolha dos "nossos" desvalorizando-se até o primado da lei.


Aliás, a essência da democracia provou o que se sabia: a impossibilidade de um indivíduo escolher os "melhores" em dezenas de áreas científicas associadas a vários estilos de ensino. Se avaliá-los com pontuações até às décimas num processo de farsa burocrática já era uma especificidade nacional, o clima degradou-se com a aplicação de cotas e vagas numa atmosfera kafkiana e autocrática. O descolamento da realidade dos sucessivos governos, que se acomodou naturalmente numa casta de instalados, inscreveu o desalento e a saturação, mas não eliminou a cíclica capacidade de contestação dos professores.


E nunca é redundante proclamar que ensinar é difícil. Exige um clima de confiança e de boas condições de realização. Convoca preparação, estudo para a vida e optimismo. Trata-se de ensinar simultaneamente vinte ou trinta pessoas sem se saber como cada uma aprende e despertando entusiasmo pelo conhecimento. E se tantas vezes se repete que os professores não podem chegar todos ao topo da carreira, nunca se explica que esse cimo é o 57º lugar dos 115 índices remuneratórios da administração pública.


Além disso, a obsessão com a selecção providencial dos professores insistiu na tensão discursiva entre o profissional e a sua circunstância, como se fosse possível escolher o lado. Aliás, se numa regressão linear múltipla se optar pelos resultados dos alunos como variável dependente, a conclusão hierarquizar-á assim as variáveis independentes: sociedades, escolas e professores.


Por outro lado, muito se aponta os países do norte da Europa. O que se construiu em Portugal desde 2005, quando até nos estávamos a aproximar como comprova a geração mais qualificada de sempre e a perda de atractividade da carreira, é uma caricatura da social-democracia dessa zona do continente; e nem se evocará neste texto os jovens que emigram e o que acontece aos que ficam por cá.


Mas sublinhe-se, por exemplo, que o elogiado ensino finlandês consolidou há muito características determinantes que incluem a não avaliação do desempenho dos professores, sem que com isso não se exija responsabilidades. O resto da Europa tem semelhantes mecanismos de controlo e o que se passa em Portugal é único e brutalmente injusto. 


É óbvio que não há sector em que os profissionais tenham efectivamente o mesmo desempenho. Mas o que se comprova no ensino, é a impossibilidade de hierarquizar estilos. Não é que não se queira diferenciar; é apenas porque não se consegue. Aliás, a decência democrática recorre a mecanismos civilizados e inclusivos de requalificação para alunos e profissionais.


Acima de tudo, a discussão tem que passar pela natureza inclusiva e cooperativa do serviço público. A inclusão destina-se a todos, alunos e profissionais, e o Estado não pode ser uma empresa privada dos partidos políticos e das suas extensões formativas e sindicais. A inclusão é um dever educativo público e vai do professor a quem dirige uma escola. O professor deve incluir, e elevar, os alunos que lhe são atribuídos e quem dirige tem o mesmo dever em relação aos profissionais de uma escola. Ambos exercem uma função limitada no tempo e sem registo de propriedade. Profissionais e alunos devem ser colocados por concursos públicos e pelos critérios definidos na lei.


A bem dizer, devem ser os professores o grupo majoritário que legitima pelo voto quem lidera as escolas. Uma qualquer refundação da escola terá sempre diversos caminhos, mas todos passam pelos professores. Foi nesta profissão que se inventou a ideia de escola. Portanto, é crucial pensar a situação dos professores sem silenciar a indignação pelo presente porque o futuro demora sempre muito tempo.




Em suma, sem a remoção das políticas na carreira, na avaliação e na gestão da organização, as escolas serão espaços que adoecem os desautorizados professores e que os mantêm numa revolta contida com resultados imprevisíveis na contestação e previsíveis na sua falta estrutural.



10 comentários:

  1. Rui Manuel Fernandes Ferreira6 de janeiro de 2023 às 22:47

    Muito bom o texto.
    "Não é que não se queira diferenciar; é apenas porque não se consegue".
    Para além da impossibilidade de hierarquizar estilos de ensino, porque são para ser utilizados mediante o grau de maturidade (cognitiva, afetiva, emocional e social) da população alvo, existe, ainda, a impossibilidade de observação/avaliação de condutas de elevado grau molar (radical subjetivo). "Jamais de poderá medir o que não se pode definir" (Anguera, 1998).

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  2. Caro Paulo,
    Continuas, como sempre, a colocar as questões que bem sintetizas no último parágrafo, como as cruciais sem as quais as restantes dificilmente se resolverão.
    Partilho, como sabes, desse ponto de vista que tão bem expões no teu artigo.
    Um abraço

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  3. Viva, Caro Carlos.
    Muito obrigado.
    Sei que partilhas.
    Aquele abraço também.

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  4. "O resto da Europa tem semelhantes mecanismos de controlo e o que se passa em Portugal é único e brutalmente injusto."
    Sim,
    "o que se passa em Portugal é único e brutalmente injusto"
    Sim, o único país do mundo onde a carreira é única. Brutal injustiça!

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  5. Isso já é outra discussão. Refiro-me ao modelo de avaliação do desempenho dos professores e até à generalidade do SIADAP.

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  6. carreira horizontal seria o conceito mais adequado...

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  7. A classe dirigente é indiferente à desmoralização, desmotivação, revolta, desde que o objetivo principal seja cumprido: poupar nos salários, valor das aposentações e os jovens tenham alguém a guardá-los enquanto os pais trabalham.
    Essa classe sabe que só precisa de 20% da população com formação superior e especializada para manter o tecido económico funcional e governar o país, sendo até útil ter uma massa populacional amorfa, inculta, ignorante, facilmente manipulável pelas técnicas de comunicação (implementadas pelos spin-doctors pagos principescamente). Assim uma fração da classe docente a que se dá a cenoura de passar do 7º escalão, é suficiente para instruir esses 20% da população, sendo isto facilmente constatado pela manutenção do status quo ao longo dos anos.

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