sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

A emergência de um novo ciclo numa Educação ligada à máquina

 


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Pelo Público em 25 de Janeiro de 2024. Como acordado, o texto está publicado no blogue.


Título: A emergência de um novo ciclo numa Educação ligada à máquina


A Educação está ligada à máquina. É obrigatório assumi-lo; sem amarras de grupos, nem temor do contraditório. Qualquer que seja o próximo Governo, é imperativo um novo ciclo. Esgotou-se o prazo de validade do estado de negação nos temas mais críticos e integrados: queda nas aprendizagens, descrédito dos modelos de avaliação, falta estrutural de professores e degradação do clima escolar. Apesar dos contínuos avisos dos professores desde a manifestação de 8 de Março de 2008, o país político despertou 15 anos depois. Só agora a Educação entrou nas campanhas eleitorais.


De facto, a degradação atingiu as democracias ocidentais. Recorde-se que foi a crise petrolífera de 1973 que inaugurou o período de incertezas no elevado nível educativo do Ocidente ao inspirar o desinvestimento público no ensino. Portugal estava muito atrasado. Saía de uma ditadura de 48 anos, de guerras coloniais e de uma profunda crise económica e social. Implementou, depois, a massificação escolar. Só conheceu o clima de incertezas na primeira década deste século; também com prevalência das políticas ultraliberais. Como explicou ao Expresso Samuel Moyn, investigador de Yale, “o sistema político está a virar à direita desde que os partidos socialistas se tornaram neoliberais”; partidos socialistas, sociais-democratas e de todo o centro-direita, acrescentamos nós. 


Aliás, o nosso desinvestimento na Educação neste milénio (de 6,3 % do PIB para 4,6%) inspirou-se no modelo das escolas particulares e cooperativas geridas por empresas privadas da órbita dos partidos mainstream. Prometia-se a receita ultraliberal: liberdade de escolha, igualdade de oportunidades, fazer mais com menos, prémios por desempenho e mais oportunidades de negócio. Os resultados falam por si: privatização de lucros com a precarização de professores, aumento das desigualdades educativas, climas de todos contra todos, fuga de profissionais e eleitores empurrados para guetos de radicalização. Que não se repita. A propósito, a Suécia, que foi o único país nórdico a perder o juízo na Educação na década de 1990, reverteu o "colossal fracasso das empresas privadas da Educação".


Mas o mais dramático é a "espécie de limite" das democracias liberais. Urge reinventar e não apenas conservar. Na Educação, enfrente-se a queda no PISA 2022. É óbvio que é insuficiente monitorizar apenas com estes instrumentos; cada país deve acrescentar dados, principalmente por amostra, e reinventar respostas, como "a Escócia, a Finlândia, a França ou a Suécia.”.


Portugal tem dificuldades. As provas de avaliação dos alunos não são, sequer, levadas a sério, com excepção no acesso ao superior ou quando se inscrevem fantasmas do passado. Mudaram, com excessos ideológicos à direita e à esquerda, em cada ciclo governativo da mirabolante década de 2010.


Requer-se, como nos países nórdicos imunes ao ultraliberalismo, tecnicidades estáveis e exigentes e dois princípios: confiança nos professores (a vigilância de provas, até de crianças, foi o cúmulo da desautorização e do desperdício que causou pesadelos logísticos); eliminação da valoração de escolas e professores baseada no absurdo dos resultados dos grupos de alunos deverem melhorar todos os anos.


A propósito, na avaliação de professores e escolas encontramos a aplicação de mais dois infernos do universo da desacreditação: aos primeiros, modelos de gestão opacos e kafkianos; às segundas, antíteses das auditorias que estimulam os sistemas de informação para entradas de dados não repetidas ou inúteis.


A reinvenção enfrentará desafios ainda mais decisivos na falta estrutural de professores. A profissão perdeu atractividade. Está desautorizada. Desprezou-se os profissionais em exercício. A situação é gravíssima. Faltam professores aos diversos níveis, incluindo nas universidades formadoras. Procuram-se candidatos, como em 1980, que necessitam de formação científica, pedagógica e profissional.


Havendo candidatos, faltará recuperar a escola da atmosfera doentia e "zombie". O clima de arbitrariedade, parcialidade, desconfiança e venialidade, é captado por quem experimenta e que também foge na primeira oportunidade. Além disso, há muito que se eliminou os sufrágios directos e universais e a preocupação com a legitimidade democrática.


Agrava-se, porque a organização emaranhou-se numa torre de Babel: o Ministério da Educação desconcentrou poderes no modelo autocrático de mega-agrupamentos de escolas e competências nos descentralizados municípios.


Por isso, analise-se a seguinte reinvenção orientada para a clarificação, a sustentabilidade financeira, a oxigenação do clima e a essencial gestão de proximidade:


1. apenas um conselho geral por concelho (e não um por agrupamento ou escola), com adaptações nas áreas metropolitanas, e uma agência municipal dos assuntos administrativos da educação, com terminais nas escolas;


2. um conselho directivo - eleito de modo semelhante aos executivos até 2009 e com a composição aberta aos professores do concelho - e um conselho pedagógico em cada escola dos 2º e 3º ciclos e ensino secundário;


3. um delegado escolar concelhio - eleito pelas escolas do pré-escolar e do 1º ciclo -, um coordenador eleito em cada uma e um conselho pedagógico concelhio destes níveis de ensino.


Em suma, a fragilidade das democracias liberais também se relaciona com os erros no ensino público e com o menosprezo por valores superiores da cultura helénica. É crucial que a escola, que já enfrenta os desafios da inteligência artificial, da transição digital e dos fluxos migratórios, eduque para uma sociedade livre do autoritarismo e do "taylorismo" (poucos pensam, muitos executam). Recupere-se o contraditório e o espaço livre das ideias, da liberdade de opinião e da liberdade de expressão; e, no limite, da liberdade elementar dos humanos. Na verdade, esse foi um dos cancelamentos decisivos que ligaram a Educação à máquina.


 

8 comentários:

  1. Há tempos vi um documentário sobre uma escola japonesa. Têm exames de dois em dois meses. Todos são avaliados às primeiras horas da manhã. A avaliação é imediata. Quem for aprovado tem o resto do dia livre. Quem reprovou recebe aulas de recuperação e faz novo exame. O esquema é repetido até que todos tenham sido aprovados. Ninguém fica para trás sem saber as matérias.

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  2. Rui Manuel Fernandes Ferreira26 de janeiro de 2024 às 22:12

    Magnífico!

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  3. A teoria pedagógica 'arianica' e 'domingueira' considera que esses exames são muito limitados a avaliar uma pessoa (tal como a teoria pedagógica 'pachequiana'). Até se aceita essa argumentação mas 'cai por terra' enquanto o ME os continuar a usar como ferramenta para decidir sobre as escolhas dos estudantes no seu percurso académico.

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  4. Os exames bem elaborados fazem parte da aprendizagem. Regulam-na tal como o termómetro ou as análises clínicas regulam a saúde. Os facilitistas Ariana, Domingues e Pacheco ao serviço de grupos político- partidários repudiam os exames porque expõem o quão nefastos são as práticas que impõem para desenvolver literacia. Ou seja, o modelo escola moderna, que não é tido na comunidade científica internacional como pedagógico, não prepara os alunos para resolver os problemas do quotidiano de vida, como tanto insistem em fazer crer. Contribui antes para formar iliterados fáceis de manipular por populistas. Os políticos que protegem esses facilitistas em Portugal desde a década de sessenta do século XX. Com destaque para os governos de António Costa, desde 2015.

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  5. Tenho abordado essa discussão noutros textos. Este centrou-se neste ângulo de análise. Se clicar nos links “os meus textos no Público” encontra vários. Obrigado por comentar.

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