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Da série: não faltaram avisos e do dever de repetição.
Pelo Público em 28 de Dezembro de 2023. Como acordado, o texto está publicado no blogue.
Título com a ligação ao Público: E eis que se apresentam os novos eleitores
Texto:
Antes do mais, recorde-se que o voto se estrutura nas primeiras vezes em que se vota. Depois, as opiniões e os valores consolidam-se com o que se vive. Tem-se consciência e algum controlo, mas há um universo de imagens "nuas" (não as "vemos", mas estão por todo o lado) que o influenciam. E como há novidades inquietantes, procure-se respostas para a seguinte interrogação: o que é que mudou nos últimos vinte anos nas democracias do Ocidente, para que a extrema-direita obtenha tão bons resultados nos novos eleitores?
Partamos de dois factos recentes: nos Países Baixos e antes das últimas legislativas, a extrema-direita venceu as eleições numa simulação com alunos de 17 anos; em Portugal, o sentido do voto dos jovens com o ensino secundário tem números elevados na extrema-direita.
Se esta tendência se mantiver, terminará o prazo de validade da antiga forma de olhar o mundo. Como disse ao Expresso Walter Russel Mead, "talvez o nacionalismo seja a forma primordial de democracia"; ou do fim dela, reflictamos nós, e da ideia de um mundo pacífico, fraterno e sem fronteiras.
Dito isto, discuta-se o contributo das políticas da Educação; e vinte anos é tempo suficiente para extrapolarmos e inferirmos.
Previamente, olhe-se, sem preconceitos ideológicos, para a queda da média das democracias do Ocidente no PISA 2022. Deu sinais antes da pandemia e desaconselha as recomendações da própria OCDE. E, a propósito de dogmatismos, Singapura aboliu, em 2018, rankings de escolas e seriações públicas sobre alunos e turmas, porque "aprender não é uma competição". Continua consistente no PISA e a usar provas para avaliar alunos. Saberão duas coisas: a Educação é a arte do equilíbrio e da sensatez, e a validade dos instrumentos científicos é independente do que se faz politicamente com eles.
Mas a queda do Ocidente no PISA 2022 e a influência nos novos eleitores, relacionam-se principalmente com dois factores: aumento brutal das desigualdades educativas e falta estrutural de professores, com a consequente contratação, apressada e desesperada, de milhares de guardadores de salas de aula.
E apesar da incerteza das comparações com outros momentos históricos, levante-se hipóteses, discuta-se e actue-se.
Recue-se duas décadas. Portugal construiu, até aí, as bases para o avanço notável nas qualificações e na frequência escolar no período entre 2000 e 2022. Mas pouco depois do início do milénio, o país aplicou as seguintes políticas que configuram a tendência dos novos eleitores:
1. Organização dos horários de trabalho suportada na escola a tempo inteiro e na supressão do espaço público na Educação;
2. Cortes curriculares na História, na Literatura, na Filosofia e nas Artes;
3. Ambiente de burocratização infernal nos processos disciplinares dos alunos;
4. Clima de eliminação das reprovações, sem respostas consistentes para quem "não queria aprender" (desde 1995 que a União Europeia sublinha este erro grave);
5. Desconfiança nos professores, desautorização do seu exercício e desvalorização sócio-económica do seu estatuto social.
Encontramos, na História da Educação, políticas semelhantes veementemente desaconselhadas. Leia-se Hannah Arendt, a filósofa que melhor "psicanalizou" a essência do fascismo (e do nazismo). Repare-se nos seus conceitos educativos essenciais à democracia:
1. Assegurar o tríptico responsável pela Educação: "à escola o que é da escola, à sociedade o que é da sociedade, à família o que é da família";
2. Contrariar as pedagogias da criança-rei que contribuem para gerações de invencíveis, ressentidos e egoístas (a propósito, recentemente concluiu-se por cá que a "violência dos jovens sobre os pais está a crescer");
3. Contrariar a dimensão do "fazer" sobre o “saber”, e da técnica sobre o conhecimento, e dos excessos nas metodologias de gamificação das aprendizagens;
4. Não secundarizar o papel dos professores, do ensino e da avaliação dos alunos, porque os jovens perdem o sentido de justiça, razão, responsabilidade, virtude e glória.
Chegados aqui, recorde-se que os novos eleitores portugueses não cresceram apenas num clima escolar autocrático e extractivo. A própria sociedade viveu tragédias bélicas, climáticas e migratórias e crises políticas, económicas, pandémicas e inflaccionárias. E enquanto o mundo do trabalho associava à instabilidade profissional e financeira a sociedade do cansaço, a política mainstream tudo fazia para se descredibilizar.
Por outro lado, os jovens habitam um ambiente digital com as categorias integradas - socialização, informação, entretenimento, politização e influenciadores - expostas à falta de esperança, que é, depois, usada na gramática eleitoral. O voto dos jovens na extrema-direita será também um protesto, mas com o risco de se entranhar como uma convicção.
Em suma, vive-se uma encruzilhada dramática devido a anos de interrupção da pedagogia democrática; e teima-se nos erros. Do ponto de vista educativo, recupere-se a escola da democracia, da razão e da ciência.
A propósito, no último filme de Nanni Moretti, e não se advogando o mesmo ideal, clama-se por dois ou três princípios inalienáveis para que haja "sol no futuro". E a bem dizer, a escola portuguesa também adoeceu num ambiente Kafkiano e distópico. Excluiu profissionais e bloqueou o elevador social, porque suprimiu três imperativos: simplificação organizacional, confiança democrática nos professores e triângulo intemporal decisivo: alunos, professores e conhecimentos. Reinicie-se. O futuro com sol encoberto, projectado na apresentação dos novos eleitores, pode não demorar tanto tempo assim.
Copio um comentário a este texto no blogue do Paulo Guinote:
ResponderEliminar"O artigo de Paulo Prudêncio é para ler e reler
DEZEMBRO 28, 2023 ÀS 7:57 PM
Os Paulo’s de nome, Guinote e Prudêncio de apelidos, escrevem autênticos artigos-documentos-monumentos.
Prestam há anos, serviços públicos de “Primeira Qualidade”.
Atentemos na fluidez argumentiva e factual do texto do Dr Paulo Prudêncio.
Um hino à factologia, alicerçada em citações, referências e realidades vividas e experienciadas.
Desautorização e desconsideração pelos professores.
A atual gestão das escolas, que não agrada à esmagadora maioria dis docentes.
Burocratizações.
Complicações.
Atrapalhações.
Etc.
Fala da(s) democracia(s) – O Sol.
Entretanto, entre o Sol e a Terra, interpuseram-se “nuvens cinzentas”.
Ideias extremistas.
Jovens aderem a essas ideias radicais.
Porquê?
O Paulo Prudêncio explica.
Extra:
– A democracia é o melhor dos regimes.
– Se os partidos mais radicais crescem, a culpa vai para os líderes democráticos, que foram perdendo capital de confiança, junto da maioria.
Restaure-se e reforce-se a democracia plena, justa, radiosa e, preventiva."
Obrigado. Já lá vou.
ResponderEliminarTive de vir aqui para te dar os meus parabéns pelo notável artigo.
ResponderEliminarPedro Castro
Sublime!
ResponderEliminarMuito bom. Claro, sintético, essencial. Obrigado, Paulo.
ResponderEliminarBrutal, Paulo
ResponderEliminarExcelente, Paulo Prudêncio!
ResponderEliminarBoas entradas e que em 2024 se vislumbre a luz ao fundo do túnel! 🤗
Viva, Pedro. Há quanto tempo. Muito obrigado. Grande abraço.
ResponderEliminarMuito obrigado, Rui.
ResponderEliminarMuito obrigado, João. Aquele 2024 para os dois,
ResponderEliminarMuito obrigado, José Júlio.
ResponderEliminarMuito obrigado, AC. Isso: esperança. Aquele 2024.
ResponderEliminarO país é que tem de agradecer a reflexões tão lúcidas. Bom Ano
ResponderEliminarMuito obrigado, José Lúcio. Bom ano também.
ResponderEliminarA esta muito excelente resenha falta, creio, a contextualização do sistema, já que nada disto acontece por acaso ou apenas pelo perfil psicológico malévolo de uma certa casta de incompetentes (tb mas não só).
ResponderEliminarÉ forçoso equacionarmos o percurso suicidário do monstro (sistema capitalista-imperialista-selvagem) que nos oprime e conduz ao abismo. Tendo consciência do esgotamento das receitas habituais para manter as taxas de lucro, as elites passaram a apostar todas as fichas na financeirização de tudo e todos, sem se importar com as terríveis consequências. As sociedades desmoronam-se por todos os lados, a sede do lucro imediato a qq preço domina tudo e, claro, a educação é o parente pobre, pois as elites já não precisam de muita mão de obra qualificada e sim de exércitos de desqualificados que desempenhem as tarefas elementares de que precisam, como entregar pizzas, conduzir carros ou camiões e atender chamadas em call-centers. Felizmente que a aposta na IA para substituir condutores caíu num fracasso quase total. Caso contrário, veríamos todos esses milhares a mendigar à porta das catedrais de super-consumo.
Procuro que os textos não passem muito os 4000 caracteres e este tem 4722.
ResponderEliminarO texto é maravilhoso. E já adivinhavas o que aí vinha
ResponderEliminar"Em suma, vive-se uma encruzilhada dramática devido a anos de interrupção da pedagogia democrática; e teima-se nos erros. Do ponto de vista educativo, recupere-se a escola da democracia, da razão e da ciência."
Entre tanta coisa lúcida, importante e inteligente que disseste, retirei esse parágrafo. Diz tanto, meu deus....
Obrigado. Abraço, Agostinho.
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