domingo, 22 de junho de 2025

Breve história do falhanço do digital na educação

Captura de ecrã 2025-06-22, às 16.22.29.png


 


 

Breve história do falhanço do digital na educação


As tecnologias estão na educação desde o lápis de carvão. Em síntese, a pergunta a fazer é equivalente à das guitarras: não me digas a marca da tua guitarra, diz-me antes o que fazes com ela.


Na verdade, a educação, que vai muito para além da escola, é a arte do equilíbrio e da sensatez; mas não só. Exige humildade e a aplicação diária do mito de Sísifo.


As chamadas novas tecnologias estão na educação em duas redes: a de recursos administrativos, mais no universo escolar, e a de recursos educativos, na sociedade e no universo escolar.


A primeira é muito mais exigente na construção de software e muito menos lucrativa para as gigantes tecnológicas. Por isso, o caos no Ocidente na gestão de dados da educação. O investimento em software não tem retorno nos curto e médio prazos, apesar de ser crucial para a consolidação da democracia. Mas os tecnocratas desprezam esse objectivo. Aliás, foge-se a ser professor também por causa desse inferno. Não há, em resumo, algo que se assemelhe à rede multibanco, que inclui os homebanking, ou até, no nosso caso, ao portal das finanças.


A rede de recursos educativos é muito lucrativa para as gigantes tecnológicas; mais do que os drones, o comércio electrónico, o 5G ou a tele-medicina. Recorde-se as mais conhecidas componentes do negócio: um smartphone por aluno e por professor, redes sociais através de apps com software elementar e milhões de portáteis e de tabletes nas escolas para alimentar a indústria das escolas digitais e antecipar o ensino à distância. Os olhos dos neoliberais até brilham (como sempre, os nórdicos metem pedras na engrenagem).


Claro que o "reconhecimento de padrões" - mais divulgado como Inteligência Artificial (IA) - exige um outro debate. Estamos numa fase em que o pêndulo da condição humana oscila entre o pânico e a apreensão, porque as crianças e jovens das democracias ocidentais estão entregues à selva digital e com falta de professores. Mas sempre se alertou, há mais de uma década, para duas graves consequências do digital na rede de recursos educativos: conteúdos pornográficos e redes sociais. No segundo caso, foram usadas, e para além do ciberbullying, por organizações da extrema-direita com conteúdos xenófobos, racistas, misóginos e violentos e que fidelizaram eleitores logo que os jovens chegaram aos 18 anos.


E se qualquer das crises, selva digital e falta de professores, compromete o crescimento como pessoas livres respeitadas nos direitos fundamentais, a simultaneidade acentua preocupações com quatro dimensões bem identificadas: internet, recursos digitais para o ensino, "Reconhecimento de Padrões" - mais divulgado como Inteligência Artificial (IA) - e desinvestimento na Educação.


Por outro lado, já se percebeu que o que aí vem informatizará tudo o que for para informatizar, automatizará tudo o que for para automatizar e que as aplicações digitais usadas para controle e vigilância serão usadas para controle e vigilância. É o nível 4 da transição digital. O nível 5, que será longo e incerto, inclui a inteligência artificial e a robotização. Por exemplo, Luc Julia, um dos criadores da Siri da Apple, diz que não tem a certeza que queira falar com o seu frigorífico. No universo escolar, também não se terá a certeza que se queira falar com um robô como se fosse um professor que ensina e ajuda a formar a personalidade.


Como se percebe, os nórdicos estão a ser sensatos com o digital na educação. Até já regressaram fundamentadamente ao papel. Ou seja, voltam a passar ao lado de uma vaga neoliberal; a vigente; a segunda. Como referiram os prémios Nobel da economia em 2024, Acemoglu e Robinson, em "Porque falham as nações", os nórdicos passaram ao lado da primeira vaga neoliberal começada por Thatcher e Reagan e que Clinton, Blair, e Schröder continuaram.


No digital, preocupam-se com as crianças e jovens e têm há muito uma educação a tempo inteiro que mitiga a tragédia da escola a tempo inteiro. Nós estamos perdidos e completamente condicionados pelos interesses da indústria das gigantes tecnológicas que se alastrou às políticas educativas, às leis laborais, ao inverno demográfico, aos fluxos migratórios e, repita-se, à proliferação de movimentos racistas, misóginos, xenófobos e violentos.


Nota: este texto é também uma síntese de textos anteriores, aonde fui buscar algumas passagens.

11 comentários:

  1. Isto escrito pela clarividência do Paulo Prudêncio fica mais fácil de entender, mas mais difícil de aceitar.

    ResponderEliminar
  2. Falhanço magistralmente explicado. Que se leia!

    ResponderEliminar
  3. Excelente artigo, caro Paulo Prudêncio! Já agora, e para não se tomar em conta só o caso dos países nórdicos (só dos países como maior IDH do planeta!) atente-se no que se está a passar na Catalunha (uma região do sul da Europa!).

    ResponderEliminar