sexta-feira, 10 de outubro de 2025

É a humilhação, estúpido!


Captura de ecrã 2025-06-09, às 16.44.11.jpeg


Pelo Público em 9 de Junho de 2025. O texto tem 4 ligações. A leitura na edição do Público é de acesso gratuito. Como acordado, o texto está publicado no blogue.


Título: É a humilhação, estúpido!


Texto:


- Irrita-me que os melhores lugares nas filas da frente estejam quase sempre vazios, porque estão reservados para vips que não pagam nem aparecem - dizia-me um amigo preocupado com o crepúsculo da democracia na sociedade dos zangados. Se bem me recordo, houve, pela década de 1990, um movimento para civilizar as bilheteiras. Mas perdeu-se essa decência, como se perdeu o espírito do "dia inicial inteiro e limpo". Os tempos são de tratamento vip para vips, usufruído na primeira oportunidade até pelos demagogos mais críticos e vocais.


De facto, os inúmeros avisos da decadência foram sugados pelo triângulo das vaidades, dos interesses instalados e dos chico-espertismos; e o mal está feito. Resta buscar o tempo perdido, na linha da magistral descrição de Marcel Proust sobre o declínio da sociedade francesa do final do século XIX e início do século XX. Com efeito, as elites exibiam-se, com aquela superioridade de quem habita a vida dos príncipes e dos seus salões e num ir e voltar entre os lados de Méséglise (da mundana burguesia) e de Guermantes (da decrépita aristocracia), convencidas da sua invisibilidade e de uma exclusiva imunidade às tragédias (vã, como se devia saber).


Agora, não adianta discutir se os eleitores têm razão. Até porque a história tem exemplos para todas as correntes, incluindo protestos que correram mal: desde eleitores que votaram em quem historicamente mais contribuiu para atrasos e pobreza, até aos que, fatigados com a imperfeição da democracia, pareceram possuídos pela síndrome de Estocolmo ou por uma obsessão pelo abismo. Atente-se é nas suas razões. Assuma-se que a memória cedeu demasiado terreno à desinformação (foi fatal a subvalorização do ensino das humanidades e das artes nos currículos escolares), e aja-se.


Acima de tudo, os extremismos alimentaram-se em classes médias espremidas e esquecidas - e com ricos cada vez mais ricos - e na crise da representatividade. Aliás, foi no século XIX e com receio da democracia directa exercida pelas massas, que se criou a representatividade e um sistema de classe - a dos políticos profissionais - que não é realmente democrático nem representativo. É uma oligarquia de especialistas no poder. É, em regra, desconsiderada como elite, mesmo que se exiba à sombra de sábios. Efectivamente, aumentou-se o desconhecimento entre representantes e representados e gerou-se oposições extremadas guiadas pelo ressentimento.


Por outro lado, o desencanto dos eleitores estrutura-se no humilhante aumento brutal das desigualdades educativas. E por mais que se ignore a educação nas campanhas eleitorais, o vexame emerge em três níveis:


1. Ressentimento causado pela "impossibilidade" meritocrática de promoção material e social sem uma certificação do ensino superior;


2. Jovens - certificados com curso superior e que ainda não emigraram - desanimados com as saídas profissionais não adequadas às expectativas, com baixos salários e sem acesso a habitação;


3. Jovens eleitores que cresceram sem informação histórica e humanista que filtrasse os algoritmos do ódio, da misoginia, da violência e das notícias falsas, e com encarregados de educação igualmente fascinados com o smartphone e incapazes de impor regras (o que o mercado gulosamente agradece).


A função nuclear da educação fragilizou-se, em simultâneo com a diminuição do papel emancipador da escola. Por este caminho, só os ricos a terão com qualidade. É que para além dos cortes curriculares, os professores foram alvo de uma humilhação social e profissional - com a cumplicidade da bolha político-mediática - patente na sua gravíssima falta estrutural. Durante duas décadas apontaram as causas burocráticas de tanta desconfiança e desautorização. Acima de tudo, foram vítimas da avaliação Kafkiana e de uma gestão autocrática das escolas que aboliu o voto directo e criou um universo de parcialidades familiar da crise de representatividade. E se a imagem do poder local melhorou, desde 2005, por via da limitação inequívoca de mandatos que aproximou eleitos de eleitores, as escolas continuaram expostas a caudilhos e dinossauros. 


Se não se trava este capítulo da história universal da humilhação, não adianta proclamar que a esperança vergará ventos ou marés. Esta tempestade perfeita ensombra o futuro e, de facto, é um conjunto vazio anunciar que o mundo mudou. Na verdade, um apagão da democracia não será inédito e é espantoso que se relativize ou se ignore. Mas o mais inaceitável, é saber-se que os que o sabem não mudam sequer o que ainda está nas suas mãos, porque adoecerem de ganância e de falta de empatia.

6 comentários:

  1. Que texto extraordinário!!!! Nunca me canso de o ler. Não vou sublinhar nada, porque teria de sublinhar tudo.

    ResponderEliminar
  2. Tudo o que diz, como muitos professores, que de forma lapidar, também deram o seu último testemunho de protesto, antes de seguir na procissão para a reforma, é absolutamente verdadeiro. O que vou dizer, para variar, não é politicamente correto, mas tem de ser dito, alguém tem de reparar. São três as fontes de socialização: a família, a escola, e a comunicação social. Há várias gerações atrás, as mulheres eram donas de casa, a responsabilidade de educar e cuidar dos filhos estava a seu cargo, elas é que eram julgadas na praça pública pelo desempenho dos seus descendentes, entretanto, as mulheres entraram em massa no mercado de trabalho, não têm tempo, nem energia para educar os filhos e muito pior, para os saber ler, especialidade muito feminina, desconhecem com frequência quem são os seus filhos. Consequência: a família deixou de socializar os mais jovens, eles entram em estado natural na escola, já as avós dos atuais alunos, não socializaram os seus filhos porque já trabalhavam fora de casa, o modelo parental está em suspenso. A comunicação social, passou a pautar-se pelo lucro, a cultura, a verdade, o jornalismo, a moralidade, a estética, foram as primeiras vítimas, os mais vulneráveis, sem grelhas de leitura e bússola moral, ficam capturados nas malhas da distorção intelectual, moral e estética. A escola, a desautorização dos professores por todas as estruturas sociais, internas e externas à escola, a sua desvalorização social e económica, a falta de meios para enfrentar o estado em que os jovens chegam à escola fez o resto. Os professores, os políticos, todos os profissionais são formados na escola, a incubadora social está avariada, já não é só o elevador social. A sociedade falhou estrondosamente e ainda não vimos o fim da História, espero que não seja o fim da civilização ocidental por ter optado, de forma acrítica, por um modelo puerocêntrico. Quanto às redes sociais, só sobrevivem da forma que o fazem porque há uma população incauta à solta. Nas redes sociais desagua tudo o que há de mau e de bom na sociedade, o cidadão competente sabe selecionar e o algoritmo acompanha. As ferramentas nunca têm a culpa, o seu uso é que tem. Não esqueçamos, a Palestina não esquece, que o genocídio está provisoriamente suspenso, graças às redes sociais.

    ResponderEliminar
  3. Obrigado pelo comentário. Só um detalhe em relação ao início: se os pais partilharem a educação das crianças e as tarefas domésticas, as mães podem trabalhar que a educação das crianças fica assegurada como se comprova nas democracias mais avançadas.

    ResponderEliminar
  4. É uma pescadinha de rabo na boca. Se as pessoas forem educadas nesse sentido, sim, mas se a família falha na educação, a escola falha na educação e a comunicação social falha na educação, como se rompe este circulo vicioso?
    Nem sequer uma Educação Sexual light foi possível implementar, num país com taxas altíssimas de violência doméstica.
    Há países onde na escola, todos os alunos são ensinados a costurar, passar a ferro, cozinhar, mudar o óleo do carro, mudar o pneu do carro, consertar aparelhos, preencher o IRS, etc.

    ResponderEliminar
  5. A igualdade entre homens e mulheres é inquestionável. Francamente.

    ResponderEliminar