terça-feira, 28 de outubro de 2025

O digital é como uma guitarra: não me digas a marca, diz-me antes o que fazes com ela

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Pelo Público em 28 de Outubro de 2025. O texto tem 3 ligações. A leitura na edição do Público é de acesso gratuito. Como acordado, o texto está publicado no blogue.


Título: O digital é como uma guitarra: não me digas a marca, diz-me antes o que fazes com ela 


Texto:


Se a escola e as tecnologias são historicamente indissociáveis, a pedagogia - como a arte que faz a quadratura do círculo de conjugar a inclusão com a exigência - introduziu a inovação tecnológica com a pergunta que se deve fazer a quem tem uma guitarra: não me digas a marca, diz-me antes o que fazes com ela. 


Com efeito, a vigente revolução informacional iniciou-se, na década de 1970, com as novas tecnologias da informação e comunicação integradas na escola. Desenvolveu-se, na década seguinte, com os computadores pessoais e com o início da internet. Na década de 1990, e através da "World Wide Web", a revolução globalizou-se e a inovação tecnológica tornou-se nuclear no crescimento económico.


Mas o caminho, quase sempre eufórico até ao desenvolvimento do inevitável e ubíquo "Reconhecimento de Padrões" - mais divulgado como Inteligência Artificial -, entrou numa fase em que o pêndulo humano balança entre o medo e a angústia.


No epicentro do drama estão as gigantes tecnológicas (GT) e os seus smartphones, tabletes e dispositivos inteligentes. Donas do mercado digital e da criação de algoritmos cada vez mais desenvolvidos, têm, há mais de uma década, inúmeros engenheiros a optimizar a viciação humana em redes abertas e em aplicações de relações sociais, jogos para smartphone e navegadores da internet (um conjunto que requer proibições ou limitações de acesso até aos 16 anos de idade). Como a natureza humana é o que é, a desinformação e o ódio minaram as democracias e expuseram as crianças e os adolescentes a uma selva adictiva que entrou pelas salas de aula.


E se é neste ambiente distópico que se tem que decidir sobre o digital na educação, é, e antes do mais, crucial perceber que, desde o início, as novas tecnologias estão na educação em duas redes de recursos: educativos e administrativos.


De facto, a primeira não se circunscreve ao universo escolar e é a rede lucrativa para as GT. A prazo, pode ultrapassar os drones, o comércio electrónico, o 5G ou a tele-medicina. Conhecem-se as componentes do negócio: um smartphone por cidadão, redes sociais - que estabelecem perfis de consumidores - e computadores pessoais e tabletes que alimentem o ensino personalizado, as escolas virtuais e a tentação da telescola 3.0 (depois da incipiente telescola 2.0 da covid-19). É um universo que exige regulação, orientação e controlo, com a consciência de que os conhecimentos informáticos dos alunos estão em regressão.


A rede de recursos administrativos é ainda mais decisiva. É uma antecâmara. Sem uma escola em ambiente digital decente, não haverá clima educativo responsável e inovador. Mas como este software é incomparavelmente menos lucrativo para as GT, o Ocidente caiu num caos na gestão de dados da educação.


Mas não é conhecedor responsabilizar apenas as GT. Há uma figura escolar que lamentavelmente destaca Portugal em todos os estudos sobre crescimento da burocracia, com efeitos iniludíveis na fuga a ser professor, na queda das aprendizagens e na indisciplina nas salas de aula: o neoludita escolar. Na etimologia, o neoludita - uma evolução do ludismo do século XIX - é o que se opõe ao uso de novas tecnologias, com argumentos de ordem social, ambiental e moral. Mas a nossa versão escolar é idiossincrática. É o atávico, o mangas de alpaca, o chefe que se cola ao lugar, o que avalia a pensar nos amigos, o que foge a leccionar, o fotocopiador, o avaliador externo exclusivamente analógico e o que não estuda nem inova; é, digamos assim, o avesso ao mais leve sinal de uma guitarra.


Agravou-se porque o neoludita escolar ganhou mais uma vida ao ouvir duas pérolas da fatal desconfiança nos professores: picar o ponto; e proibir o uso de smartphones. Explica-se assim: nas escolas, e ao contrário do Multibanco ou do Banco Online, a transição digital não significou eliminar procedimentos. Por exemplo, seria elementar que dos livros de ponto analógicos (para picar o ponto) só transitasse o lançamento das faltas dos alunos. Mas não. O neoludita escolar transitou todo o analógico e fez escola. Os informacionalmente inúteis sumários das aulas registam-se, com um limite temporal, em ambientes lentos, de interrupção de servidores ou de sinal de internet (e, invariavelmente, só se cumprem em casa ou com o uso desesperado do smartphone), e o Governo carimba o procedimento com um argumento tecnicamente surreal: só assim se apurará, finalmente e em 2026, quantos professores faltam.


Em suma, o clima é de desorientação. Não se queira "parar o vento com as mãos", nem se fuja em frente enchendo as escolas com hardware. O que urge é saber o que fazer com as novas tecnologias e com o "Reconhecimento de Padrões". Desde logo, descontinue-se o neoludismo escolar. Analise-se e programe-se sistemas de informação confiando nos professores e na liberdade de ensinar e aprender. Contrarie-se dois desastrosos legados: adicção tecnológica das crianças e dos adolescentes e fuga dos professores, até já dos mais novos como se conclui no recente TALIS 2024 (OCDE), provocada por duas ausências contributivas para os infernos burocrático e disciplinar: “ambientes escolares colaborativos e autonomia curricular e pedagógica dos professores".


 

29 comentários:

  1. Soberbo. Magistral. Brilhante!!

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  2. Maravilhoso, como sempre. Já li duas vezes.

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  3. Parece impossível, mas os teus textos seguintes parece que ficam sempre ainda melhores.

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  4. Grande texto. Magnífico. Obrigado.

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  5. Há muito que não lia uma síntese tão contundente e esclarecedora. Brutal.

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  6. Leiam, leiam, leiam este magnífico serviço público. Numa pagina têm o que um ministério tem que fazer.

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  7. Tudo verdade e assunto muito lamentável.

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  8. está de morte este bocado: "Agravou-se porque o neoludita escolar ganhou mais uma vida ao ouvir duas pérolas da fatal desconfiança nos professores: picar o ponto; e proibir o uso de smartphones. Explica-se assim: nas escolas, e ao contrário do Multibanco ou do Banco Online, a transição digital não significou eliminar procedimentos. Por exemplo, seria elementar que dos livros de ponto analógicos (para picar o ponto) só transitasse o lançamento das faltas dos alunos. Mas não. O neoludita escolar transitou todo o analógico e fez escola. Os informacionalmente inúteis sumários das aulas registam-se, com um limite temporal, em ambientes lentos, de interrupção de servidores ou de sinal de internet (e, invariavelmente, só se cumprem em casa ou com o uso desesperado do smartphone), e o Governo carimba o procedimento com um argumento tecnicamente surreal: só assim se apurará, finalmente e em 2026, quantos professores faltam."

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  9. Rui Manuel Fernandes Ferreira28 de outubro de 2025 às 22:37

    Clarividência + Boa Escrita = MAGNÍFICO

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  10. Parabéns pelo aniversário, Joana. Muitas felicidades.

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  11. O texto está sublime e muitissimo bem escrito, aliás uma característica que te identifica.
    Não sendo da area , preocupa-me e sou sensível a estas questões. Oxalá tivessem em conta, estas e outras avaliações que tens feito e sugestões. Criam-se tantos grupos de trabalho, que…. Porque não ouvir quem sabe e dialogar? Abraço e parabéns.

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  12. Não sou anónimo:) Acabo de publicar o meu comentário. Mario Grilo é o meu nome… Não devo ter preenchido…mariojlgrilo@gmail.com.

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  13. Amo a terra onde nasci e o chão que me viu sorrir. Mais do que o meu país. Aldeia onde a tecnologia mais evoluida era um carro de bois e uma bicicleta. Não defendo de modo nenhum o regresso ao passado. Mas detesto este presente e o que consigo vislumbrar no futuro deste nosso país.

    Prudêncio, estás sempre no lugar certo com as palavras certas. Se houver Deus, que esteja sempre contigo.

    Estamos condenados a estar e permanecer na cauda da europa. Acho que em tudo, até já no racismo.
    Aprendi a trabalhar no smartboard inícios dos anos dois mil. Regressei a Portugal no inicio da segunda década de dois mil. E o que vejo eu? Um investimento louco em smartboards em muitas salas de muitas escolas. Ainda lá estão. Quem é que sabe trabalhar com eles? Acho que ninguém. Quem é que os usa? NINGUÉM.

    Tentei usá-los eu. Consegui? NÃO. porquê? Porque nunca me fizeram um horário onde pudesse usar as salas com esses quadros inteligentes. Quantas horas de formação foram gastas e usadas e pagas para aprender a trabalhar com aquilo? Dezenas, centenas de milhar. Só à minha conta foram 50 horas. Alguém aprendeu alguma coisa? Que eu tenha conhecimento, NÃO. porquê? Ou porque não havia internet, ou porque era tão lenta que no quadro nada mexia nem andava ou porque havia sempre, sempre, sempre qualquer razão para aquilo não funcionar. Foram 50 horas de formação sem ver um segundo que fosse a mais pequena funcionalidade daqueles quadros. Nantive-me sempre calado. Eu já sabia trabalhar com eles. Então porque fui aprender? Queria ver como era em Portugal.

    Hoje, estou numa escola onde não há um computador em sala de aula que trabalhe decentemente. Pese embora o esforço louco dos professores responsáveis pela informática. Pior do que o primeiro computador que comprei em 1990. Muito pior. Invomparavelmente pior. Já passaram 35 anos.

    Não preciso explicar mais. E, mais que explicasse, pior seria a tragédia. Há sempre qualquer coisa que faz com que nada funcione neste país. SEMPRE. Nas escolas, SEMPRE.

    Não, não falo da estupidez burocrática que desenvolvemos nas escolas. Os meus sumários, quase todos, tenho de os escrever em casa ou fora de horas na escola. Ando sempre com o meu, MEU, portátil na minha mochila. Meu, que eu comprei com o meu dinheiro. O que a escola me ofereceu, é LIXO.

    Obrigado, Prudêncio.

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  14. Acho que não necessitas se meter o e-mail. Mas vou ver isso. Abraço, Mário.

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  15. Muito obrigado pela atenção, Agostinho. Mas que belo e significativo testemunho. Força aí. Forte abraço.

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  16. Excelente texto. Parabéns!

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