terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Outra vez a praga do “não podem existir empregos para a vida”?!

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Título: Outra vez a praga do “não podem existir empregos para a vida”?!


Texto: A praga do “não podem existir empregos para a vida" reaparece ciclicamente nesta eterna batalha entre a ganância e a redistribuição da riqueza. Aliás, Portugal, que mantém há décadas 2 milhões de pobres (seriam 4 milhões sem os vilipendiados subsídios), é o segundo país da OCDE com a taxa mais elevada de precários. Além disso, quando há crescimento económico os ricos ficam ainda mais ricos e os pobres, e as classes médias, estacionam numa condição que se agrava, na actualidade, com a crise da habitação e com a degradação dos serviços públicos. É habitual apontar os funcionários públicos como o exemplo da necessidade da praga, mas os números também o desmentem taxativamente: o número de efectivos (dos quadros, portanto) em 2005 era de 747.880 e em 2025 é de 557.190.


Para consumar a praga nas leis do trabalho, argumenta-se, em regra, com o aumento da produtividade e da inovação. Mas a realidade está muito longe de o confirmar; bem pelo contrário. Sumariando, a praga dá sinal de vida quando o capitalismo selvagem consegue capturar o capitalismo democrático, e atenua-se depois do primeiro se saciar, ou da sociedade entrar em convulsão, com a "transferência de recursos financeiros das classes média e baixa para a alta".


Indo apenas à história recente, as intenções democráticas de Thatcher e Reagan, argumentando com a melhor gestão dos impostos associada à saga, à meritocracia para as massas e à responsabilidade social, tornaram-se desastrosas nas décadas de 1980 e 1990 e as de Clinton, Blair, e Schröder tiveram o mesmo resultado na década seguinte. A crise das dividas soberanas (2007) foi outro momento alto para a teoria da saga, e a austeridade selvagem marcou a década de 2010 ("em Portugal, essa década foi devastadora para a falta estrutural de professores, apesar das várias intimações da Comissão Europeia, e com ameaças de envio para o Tribunal Europeu de Justiça, a propósito do inominável desprezo profissional por milhares de professores contratados com décadas de precarização"). A precariedade com baixos salários, e associada à selva do mercado imobiliário, originou a emigração em massa de jovens e a queda dos serviços públicos.


Mas nem as democracias mais robustas parecem resistir às sucessões da praga. Desta vez, a teorização refugia-se na transição digital sem sequer esclarecer os desafios laborais da quarta revolução industrial.


Por fim, renasce alguma esperança com a percepção de queda da lança do capitalismo selvagem, a extrema-direita, que governa em países europeus e nos EUA. Saliente-se um dado importante: esta lança cresceu eleitoralmente com a anti-imigração. Omitiu a descomunal crise económica originada pela pandemia da covid-19, que provocou intensos fluxos migratórios que se tornaram economicamente salvíficos para muitas democracias ocidentais. A Itália, por exemplo, governada por Giorgia Meloni - coligada com os Irmãos de Itália (partido pós-fascista), a Liga (extrema-direita) e a Força Itália (direita) -, vê a bandeira anti-imigração começar a cair.


Diz o Expresso que "emitirá 500 mil novos vistos de trabalho para cidadãos de países não pertencentes à União Europeia, e o Observatório de Contas Públicas de Itália estimou que, para combater o atual processo de despovoamento e manter os níveis atuais de população, o país precisaria de receber pelo menos 10 milhões de imigrantes nos próximos 25 anos, e que o envelhecimento da população italiana, a queda a pique da taxa de natalidade e a crescente emigração de jovens italianos, três fenómenos que se têm reforçado ao longo dos últimos anos, estão a criar uma grave crise demográfica em Itália". Esta realidade deve merecer toda a atenção em Portugal. De facto, é um péssimo legado, e uma irresponsabilidade histórica perante os desafios que se enfrenta, recuperar a praga do “não podem existir empregos para a vida” apenas porque a ganância está a dominar os pratos da balança.

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