sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Quando a criança-rei tem escola a tempo inteiro


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Pelo Público em 6 Novembro de 2024. Como tudo se liga, o texto relaciona-se com o triunfo do capitalismo selvagem, com o que se passou ontem nos EUA e, de resto, com o que se passa na Europa e, principalmente e obviamente, por cá. O texto tem 8 ligações. Como acordado, o texto está publicado no blogue.


Título: Quando a criança-rei tem escola a tempo inteiro


Texto:


Qualquer que seja o ângulo de análise, conclui-se que a sociedade adoeceu quando se lê que mais de metade dos professores já foi vítima de "agressões físicas ou verbais por parte dos alunos”. Mas não se generalize: cada aluno não é um potencial agressor, nem cada professor um provável agredido. Se as generalizações são injustas, em educação acrescenta-se a dificuldade em realizar estudos empíricos. Por isso, não se explique. Descreva-se tendências, com consciência das intemporalidades do conflito de gerações e da desconfiança dos adultos na capacidade dos jovens em assegurar o futuro - há registos desde a Grécia Antiga.


Dito isto, descreva-se que esta indisciplina dos estudantes relaciona-se com um "estatuto" que fez do encarregado de educação um cliente que tem sempre razão em ambiente escolar - espelhado na burocracia, na gestão das escolas e na avaliação dos professores -, com a frequente alegação que os miúdos captam desde cedo: "se a professora não se portou bem, diz que eu vou à escola".


Aliás e consultando opiniões ou outros estudos recentes, o psiquiatra Daniel Sampaio concluiu, em 2011, que o ambiente em muitas salas de aula dos ensinos básico e secundário "exige medidas urgentes", e a OCDE, "poucos anos depois”, constatou que em Portugal reina a pequena indisciplina nas salas de aula.


Se associarmos o descrito à desvalorização a que o poder político sujeitou o estatuto dos professores, enfrentamos o fenómeno e a "fuga" desses profissionais.


Há duas tendências descritivas do desequilíbrio: escola a tempo inteiro e pedagogia da criança-rei. Não se aconselham desde meados do século passado e são mais nefastas se aplicadas em simultâneo.


A ideia de escola a tempo inteiro desresponsabiliza a sociedade na educação, porque dilui os limites educativos entre a sociedade, a família e a escola. Adoece a democracia, como se verificou na ascensão do nazismo. O imperativo democrático exige que a educação seja uma responsabilidade das famílias e da sociedade, tendo a escola um papel complementar essencial a par da gestão do território, da segurança social, da saúde ou da cultura.


Por outro lado, a pedagogia da criança-rei nasceu em oposição a outro desequilíbrio: o professor "todo poderoso". Mas criou - como se observou no nazismo, mas também com os jovens eleitores na actualidade -, gerações de invencíveis, de ressentidos e de egoístas, com baixa valoração dos sentimentos de justiça, de razão e de responsabilidade.


Um exemplo dos efeitos da simultaneidade das duas categorias foi o tempo que se demorou a iniciar a discussão sobre o uso do smartphone por crianças e jovens, quando a adicção tecnológica e a exposição à selva digital - dominada pelos discursos de ódio, violência e misoginia e até por conteúdos pornográficos - eram indisfarçáveis há mais de uma década. Ficou-se à espera da escola. Só que a fantástica invenção do smartphone ultrapassa as suas fronteiras, com as gigantes tecnológicas interessadas no seu uso por todos num negócio que controla a decisão política.


Apesar de a escola usar o smartphone como material didáctico "indispensável", contribuindo para a desigualdade de oportunidades e dificultando a difícil tarefa dos encarregados de educação que sabem que a negação é essencial à formação da personalidade, a proibição em debate para as escolas é, além do mais, insuficiente: o tempo semanal é de 118 a 128 horas fora da escola e de 40 ou 50 horas no seu interior. Nesse sentido e como exemplo, as confederações de encarregados de educação financiadas pelo estado discutem as tecnicidades da gestão escolar - servindo de extensão partidária de quem governa e "sufragando" o cerne da crise vigente -, mas não existem no debate sobre tanto que há fazer nas desigualdades educativas.


Em suma, se o ensino usa conhecimentos, atitudes e valores como mediadores que equilibram a relação contraditória entre o professor e os alunos, o desrespeito pelas salas de aula, como preciosos reinos da sensatez, traduz-se em governantes que acreditam, ingloriamente, que mudam o seu interior por decreto. Aliás, prescrever a criança-rei nas sociedades da escola a tempo inteiro influencia mais as famílias do que quem ensina, e usar a aula semanal de Cidadania e Desenvolvimento como marketing partidário tem o mesmo efeito; e ainda desprestigia o professor. Seria semelhante se se repetisse a torrente mediática porque uma professora de Educação Moral e Religiosa afirmou, supostamente, que a terra é plana ou que Charles Darwin foi enviado por Satanás.


Durou demasiado tempo a distopia que associou as ideias de escola a tempo inteiro e criança-rei à desautorização do professor. O pêndulo da condição humana não pode oscilar nestes desequilíbrios. Afasta-se do humanismo que ergue a democracia. As tensões da indisciplina eliminam a poesia da perfeição imperfeita que é uma sala de aula - numa fase em que se contratam milhares de professores sem formação em ensino (já são mais de 3500) e se exaurem os existentes com horas extraordinárias a eito. A sugestão do sonho material, como remedeio meritocrático para pobres e remediados, concretiza-se numa minoria. Somos todos - alunos e professores de todas as condições - compostos pelas mesmas moléculas que constituem os sonhos diários.

7 comentários:

  1. Já li e reli este texto não sei quantas vezes. Prudêncio, prémio Nobel da fotografia da escola pública portuguesa.
    Deixo duas notas.
    Primeira. A criança rei e o estatuto do encarregado de educação. Esta semana, uma professora recebe um extensissimo email de uma encarregada de educação. E o que dizia? O email era uma descrição completa e pormenorizada da aula que a professora tinha acabado de dar há menos de uma hora. Dizia a enc de ed no email que tinha instalado uma aplicação no telemóvel do seu filho que lhe permitia seguir todas as aulas dos professores mesmo com o telemóvel dentro da mochila. A colega, obviamente, estava incrédula, como todos nós ficámos. Os telemóveis são proibidos, mas os alunos continuam a usa-los e tê-los ligados durante as aulas. E o que é que acontece? NADA. É uma escola portuga com certeza.

    Segunda. A escola a tempo inteiro.
    Desconfio que se alguém ler isto... não sei se vai acreditar. Há turmas de crianças do primeiro ciclo nas escolas públicas portuguesas que passam 11 horas na escola. Entram às 8h da manhã e saem às 19h da noite. É assim, tal e qual. Outras passam 9 horas na escola. Entram às 8h da manhã e saem às 17h da tarde. Cenas de indisciplina com estas crianças são constantes.

    Felizes e contentes, assim vamos andando neste portugalito surrealista.

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  2. Muito obrigado. Impressionante o teu testemunho, Agostinho. O encarregado de educação pode estar a mentir.

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  3. A mentir, como? Eu vi o mail e foi no intervalo seguinte depois da primeira aula. A senhora descreveu tudo o que a professora tinha dito e o que tinha feito. Como é que pode estar a mentir? Alguma coisa me deve estar a escapar. A colega estava espantada com a descrição minuciosa de toda a aula.

    No entanto, na minha opinião, eu diria que isto nem seria o mais grave. Afinal, asneiras todos podemos fazer na vida, mesmo sem querer. A gravidade que eu vejo maior é que não acredito que seja feita alguma coisa para que cenas destas não se repitam. Por exemplo, os alunos não usarem mesmo os telemóveis, tal como está na lei. Já só não acredito no cumprimento da lei. Por que razão não é feito um controle na entrada da escola com telemóveis ou por que razão os encarregados de educação não são responsabilizados? Porquê?

    E mais não digo para não correr o risco de poder ofender alguém talvez até injustamente.

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  4. Ok. Percebi que era um vídeo. Ok. Um áudio. Muito mau, em qualquer das circunstâncias. Pensei que pudesse estar a mentir e transcrever o que o aluno lhe disse. Muito mau mesmo. Força aí. Aquele abraço,

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  5. Isto só confirma o que tenho dito: as consequências trágicas da implosão simultânea, da família, da escola e da comunicação social. Há já várias gerações que os portugueses são vítimas disto, portanto, avós e pais dos nossos alunos são já produto do declínio dos meios de socialização, se somarmos a isto, a tragédia da maior taxa de analfabetismo da Europa do século XX, com a massificação do ensino, o facilitismo e uma cegueira total perante este fenómeno, temos a explicação para o estado em que estamos. Esta encarregada de educação, com total falta de noção, não sabe que o que fez é ilegal e ainda por cima alardeia, sugerindo um poder e uma coação velada sobre os professores. Além da lei geral, os professores estão sujeitos ao Estatuto Profissional, todos os profissionais têm o seu código deontológico. Qual é o Estatuto dos Encarregados de Educação? onde está o seu código deontológico? indivíduos cuja única conexão com a escola é terem gerado filhos e serem eleitores, têm assento no Conselho Pedagógico, têm assento em Conselhos de Turma e até no Conselho Geral, exercendo mais poder na escola do que os professores, seja qual for o seu perfil moral e o seu perfil de cidadania, porque, ao contrário dos professores, não passam por nenhum filtro e ufanam-se de uma capacidade de intervenção sem limites e com impunidade. Ainda bem que esta encarregada de educação é camarada do seu filho, como muitos outros, pouco encarregada da educação de quem quer que seja e teve a falta de noção de divulgar o que faz, assim os professores já sabem com o que lidam, eu já sabia do colaboracionismo dos pais-adolescentes com os filhos-crianças e do recurso a dois telemóveis, um para entregar, outro para usar, não há qualquer surpresa, só no assumir, e ainda bem que fica claro o estado a que chegamos.

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  6. É um importante ângulo de análise. Obrigado.

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  7. Reli. Isto é gravíssimo. Claro que é gravíssimo. Que doença.

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