Ouvi falar numa docente que continuava a leccionar em condições de saúde muito precárias, mas estava longe de imaginar o que viria a passar-se a seguir. A "incómoda" comunicação social pegou no caso e "obrigou" a Ministra da Educação a resolver o problema da infeliz professora. Concluiu-se que a Ministra de nada sabia, como é evidente, e que os diversos serviços - junta médica da caixa geral de aposentações, inspecção-geral da educação, delegação regional do ministério da educação e responsáveis escolares - "apenas" cumpriam de modo zeloso a lei.
Mais um tópico a acrescentar ao importante debate sobre o papel do quarto poder numa democracia mediatizada.
Não concordo com a conclusão de que "os diversos serviços apenas cumpriam zelosamente a lei": conhecemos casos e mais casos em que as questões são outras: vemos o inadaptado temor dos responsáveis onde deveríamos ver o exercício corajoso de uma autonomia responsável e nunca decretada; vemos mesquinhez e incompetência em vez de descrição e profissionalismo; vemos pequenos poderes preenchidos por tiranos inúteis e pouco esclarecidos em vez de termos de lidar com lideranças civilizadas e competentes; vemos centralismo acéfalo e castrador em vez de nos confrontarmos com decisões assentes no exercício de uma cidadania esclarecida, limpa e assumida; enfim.
Mas ainda pior, embora estas matérias não possam nem devam ser quantificadas, do que a situação que relatei, é a dos "inocentes" que, não tendo voz, se vêem alvo de processos silenciosos que destroem as suas vidas no universo menos "visível" dos seus corpos: o da personalidade e da condição psicológica. Os processos semelhantes aos que de modo tão genial Franz Kafka nos relatou, continuam presentes na nossa sociedade. Envergonham-nos e remetem-nos para níveis que tipificam as sociedades não democráticas. Sabemos muito sobre a condição humana, é certo, mas também é seguro que a democracia nasceu para servir os homens todos. Sabemos que o difícil e exigente exercício democrático obriga à leitura atenta de Amos Oz e à contenção que, tantas vezes objecto de incompreensão precoce, tem de substituir a vontade de prepotência que espreita a cada esquina: "nada que é humano nos deve ser estranho".
Estes casos merecem uma atenta reflexão e uma pronta denuncia: o exercício da democracia tem de ser diário e na área de intervenção de cada um de nós, mesmo considerando que "a condição soberana do saber é o silêncio", Ibn Almuqaffa, Pérsia, 721-757, em Kalila e Dimna.
Mais um tópico a acrescentar ao importante debate sobre o papel do quarto poder numa democracia mediatizada.
Não concordo com a conclusão de que "os diversos serviços apenas cumpriam zelosamente a lei": conhecemos casos e mais casos em que as questões são outras: vemos o inadaptado temor dos responsáveis onde deveríamos ver o exercício corajoso de uma autonomia responsável e nunca decretada; vemos mesquinhez e incompetência em vez de descrição e profissionalismo; vemos pequenos poderes preenchidos por tiranos inúteis e pouco esclarecidos em vez de termos de lidar com lideranças civilizadas e competentes; vemos centralismo acéfalo e castrador em vez de nos confrontarmos com decisões assentes no exercício de uma cidadania esclarecida, limpa e assumida; enfim.
Mas ainda pior, embora estas matérias não possam nem devam ser quantificadas, do que a situação que relatei, é a dos "inocentes" que, não tendo voz, se vêem alvo de processos silenciosos que destroem as suas vidas no universo menos "visível" dos seus corpos: o da personalidade e da condição psicológica. Os processos semelhantes aos que de modo tão genial Franz Kafka nos relatou, continuam presentes na nossa sociedade. Envergonham-nos e remetem-nos para níveis que tipificam as sociedades não democráticas. Sabemos muito sobre a condição humana, é certo, mas também é seguro que a democracia nasceu para servir os homens todos. Sabemos que o difícil e exigente exercício democrático obriga à leitura atenta de Amos Oz e à contenção que, tantas vezes objecto de incompreensão precoce, tem de substituir a vontade de prepotência que espreita a cada esquina: "nada que é humano nos deve ser estranho".
Estes casos merecem uma atenta reflexão e uma pronta denuncia: o exercício da democracia tem de ser diário e na área de intervenção de cada um de nós, mesmo considerando que "a condição soberana do saber é o silêncio", Ibn Almuqaffa, Pérsia, 721-757, em Kalila e Dimna.
Vivemos uma época de terror, terror da inspecção, terror do fiscal, terror do colega do lado.
ResponderEliminarHá de facto pequenos ditadores a pôr-se em bicos de pés, ansiosos pelos pequenos poderes que inevitavelmente lhes serão atribuídos.
Se for o caso de falta de competência, de negligência grave, que o terror faça os seus efeitos!
Mas há outra coisa mais insidiosa que é desejar que o outro falhe, esperar que caia na esparrela, para assim melhor realçar a minha excelência!
Realmente. Nem sei o que é pior. Mas quer num caso quer noutro, a natureza é a mesma. Achas mesmo que vivemos num clima de terror como o que descreves? Abraço e obrigado pelo comentário.
ResponderEliminarSinto-me consecutivamente bem sempre que testemunho a tua disponibilidade para, desarvoradamente, afirmares o que realmente sempre me vai parecendo que vais sentindo. Já há muito tempo que não lia um texto assim neste teu excelente blog. Tinha saudades, confesso. Que bom ver-te em forma.
ResponderEliminarObrigado. Abraço ao anónimo :)
ResponderEliminarÉ a primeira vez que nos hierarquizam, vamos começar a mandar efectivamente uns nos outros. Acho que há gente quase aterrorizada e há desconfianças e medos relativamente aos que detém o poder.
ResponderEliminarMas acho que, como tu dizes, devemos ser funcionários exactos, corajosos, tolerantes e colaborantes e ter sempre presente que "nada que é humano nos deve ser estranho".
A questão é: quantos o serão?
É Luís, meu caro amigo. Acreditemos na democracia e lutemos por ela. Devemos estar atentos e vigilantes. Não sei responder-te: realmente, quantos o serão? Abraço. Obrigado pelo comentário.
ResponderEliminarora caro amigo aqui vemos um claro atentado aquela carta que supostamente seria para ser cumprida
ResponderEliminar"carta dos direitos humanos" tenho pena fico triste e espantado que num pais que se diz democrático existam pessoas que são obrigadas a trabalhar nestas condições desumanas, mais parece um documentário retrato da vida num qualquer país do terceiro mundo em África , e o que mais me espanta é a tão espelhada incompetência de quem manda, ou será que até sabia mas não convinha mexer muito no assunto?
Olá Nuno. Força ái. Fazes falta. Abraço.
ResponderEliminarObrigado amigo Prudêncio, espero em breve visitar-vos
ResponderEliminarabraço
Cá te esperamos. Abraço.
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