terça-feira, 23 de outubro de 2007

silêncio dos inocentes

 












Ouvi falar numa docente que continuava a leccionar em condições de saúde muito precárias, mas estava longe de imaginar o que viria a passar-se a seguir. A "incómoda" comunicação social pegou no caso e "obrigou" a Ministra da Educação a resolver o problema da infeliz professora. Concluiu-se que a Ministra de nada sabia, como é evidente, e que os diversos serviços - junta médica da caixa geral de aposentações, inspecção-geral da educação, delegação regional do ministério da educação e responsáveis escolares - "apenas" cumpriam de modo zeloso a lei.



Mais um tópico a acrescentar ao importante debate sobre o papel do quarto poder numa democracia mediatizada.



Não concordo com a conclusão de que "os diversos serviços apenas cumpriam zelosamente a lei": conhecemos casos e mais casos em que as questões são outras: vemos o inadaptado temor dos responsáveis onde deveríamos ver o exercício corajoso de uma autonomia responsável e nunca decretada; vemos mesquinhez e incompetência em vez de descrição e profissionalismo; vemos pequenos poderes preenchidos por tiranos inúteis e pouco esclarecidos em vez de termos de lidar com lideranças civilizadas e competentes; vemos centralismo acéfalo e castrador em vez de nos confrontarmos com decisões assentes no exercício de uma cidadania esclarecida, limpa e assumida; enfim.



Mas ainda pior, embora estas matérias não possam nem devam ser quantificadas, do que a situação que relatei, é a dos "inocentes" que, não tendo voz, se vêem alvo de processos silenciosos que destroem as suas vidas no universo menos "visível" dos seus corpos: o da personalidade e da condição psicológica. Os processos semelhantes aos que de modo tão genial Franz Kafka nos relatou, continuam presentes na nossa sociedade. Envergonham-nos e remetem-nos para níveis que tipificam as sociedades não democráticas. Sabemos muito sobre a condição humana, é certo, mas também é seguro que a democracia nasceu para servir os homens todos. Sabemos que o difícil e exigente exercício democrático obriga à leitura atenta de Amos Oz e à contenção que, tantas vezes objecto de incompreensão precoce, tem de substituir a vontade de prepotência que espreita a cada esquina: "nada que é humano nos deve ser estranho".

 

Estes casos merecem uma atenta reflexão e uma pronta denuncia: o exercício da democracia tem de ser diário e na área de intervenção de cada um de nós, mesmo considerando que "a condição soberana do saber é o silêncio", Ibn Almuqaffa, Pérsia, 721-757, em Kalila e Dimna.

10 comentários:

  1. Vivemos uma época de terror, terror da inspecção, terror do fiscal, terror do colega do lado.
    Há de facto pequenos ditadores a pôr-se em bicos de pés, ansiosos pelos pequenos poderes que inevitavelmente lhes serão atribuídos.
    Se for o caso de falta de competência, de negligência grave, que o terror faça os seus efeitos!
    Mas há outra coisa mais insidiosa que é desejar que o outro falhe, esperar que caia na esparrela, para assim melhor realçar a minha excelência!

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  2. Realmente. Nem sei o que é pior. Mas quer num caso quer noutro, a natureza é a mesma. Achas mesmo que vivemos num clima de terror como o que descreves? Abraço e obrigado pelo comentário.

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  3. Sinto-me consecutivamente bem sempre que testemunho a tua disponibilidade para, desarvoradamente, afirmares o que realmente sempre me vai parecendo que vais sentindo. Já há muito tempo que não lia um texto assim neste teu excelente blog. Tinha saudades, confesso. Que bom ver-te em forma.

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  4. É a primeira vez que nos hierarquizam, vamos começar a mandar efectivamente uns nos outros. Acho que há gente quase aterrorizada e há desconfianças e medos relativamente aos que detém o poder.
    Mas acho que, como tu dizes, devemos ser funcionários exactos, corajosos, tolerantes e colaborantes e ter sempre presente que "nada que é humano nos deve ser estranho".
    A questão é: quantos o serão?

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  5. É Luís, meu caro amigo. Acreditemos na democracia e lutemos por ela. Devemos estar atentos e vigilantes. Não sei responder-te: realmente, quantos o serão? Abraço. Obrigado pelo comentário.

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  6. ora caro amigo aqui vemos um claro atentado aquela carta que supostamente seria para ser cumprida
    "carta dos direitos humanos" tenho pena fico triste e espantado que num pais que se diz democrático existam pessoas que são obrigadas a trabalhar nestas condições desumanas, mais parece um documentário retrato da vida num qualquer país do terceiro mundo em África , e o que mais me espanta é a tão espelhada incompetência de quem manda, ou será que até sabia mas não convinha mexer muito no assunto?

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  7. Obrigado amigo Prudêncio, espero em breve visitar-vos
    abraço

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