domingo, 4 de outubro de 2009

vergonha e ponto final

 



 


 


(encontrei esta imagem aqui)


 


 


Levei pouco tempo até começar a detalhar o que pensava sobre o modelo de escola a tempo inteiro porque constatava, todos os dias, o tipo de sociedade que estávamos a edificar.


 


Tomei desde cedo uma posição contrária à ideia centralista de impor um mesmo modelo de escola total para situações diversas: desde o subúrbio duma área metropolitana até a uma pequena ou média cidade ou à mais pacata das vilas deste pequeno país - com tantos habitantes como quase órgãos de gestão para os diversos sectores e nos diversos patamares da organização do território -.


 


Mas hesito sempre em escrever sobre este assunto por pudor: também não gosto da mediatização dos problemas da disciplina escolar como me envergonho quando os professores põem a circular textos escritos pelos seus alunos onde os erros, gramaticais, por exemplo, abundam.


 


A situação actual no que à guarda dos nossos petizes diz respeito é vergonhosa e tem de ser denunciada. O opróbrio é de tal ordem que nos deveria envergonhar a todos. A questão tem uma simples formulação: não sabemos o que fazer com as nossas crianças.


 


As famílias têm os filhos e depois contam os minutos em que "têm de aturar os miúdos". Sabemos das excepções e de quem sofre com o facto de não dispor de mais tempo para a miudagem; mas são isso mesmo, excepções. A regra é a desresponsabilização: das famílias e da sociedade.


 


Alguém coloca como central a ideia de discutir a organização do trabalho de modo a que as famílias passem mais tempo com as suas crianças sem as "armazenar" das 08h00 às 20h00?


 


Não. Nem uma palavra.


 


Um silêncio conivente e ensurdecedor.

14 comentários:


  1. "Alguém coloca como central a ideia de discutir a organização do trabalho de modo a que as famílias passem mais tempo com as suas crianças sem as "armazenar" das 08h00 às 20h00?"

    Por acaso já te ocorreu se os pais querem isso?
    Passar mais tempo com as crianças?
    Se eu te disser que em Julho e em Setembro, no Jardim de S.Cristovão, há pais em férias que despejam lá as crianças e que ao fim do dia vão buscá-las de chinelo de praia e fato de banho, acreditas?
    Como posso acreditar que queiram mais horas para estar com os filhos?
    Há as excepções, claro.
    Tenho saudades das aldeias por onde passei, com crianças calminhas, que iam almoçar a casa e voltavam à escola, que tinham tempo para brincar e estudar...que eram felizes. E eu também.
    Hoje entristece-me muito vê-los stressados, desconcentrados, sem regras, difíceis de motivar. Não sabem saltar à corda, não sabem andar de bicicleta, alguns não sabem correr e nem sequer sabem cair. Não sabem brincar.Não são crianças felizes.
    Mas têm um Magalhães!




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  2. Belo relato Isabel.

    Também me parece que há muitos encarregados de educação que não o querem; mas quero crer que muitos outros desesperam com esta situação.

    O que não podemos é calar o assunto.

    A tua análise é muito pertinente, como sempre. Obrigado.

    Bj

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  3. Excelente post! Tal como o Paulo tenho algum pudor em comentar o assunto. No entanto é necessário pensarmos em alguns pontos: as mulheres portuguesas são as que mais trabalham fora de casa. Sabemos que a maioria o faz à custa de muito esforço físico constante (até porque há pouca tradição de distribuição de tarefas domésticas). E se bem que considere o acesso ao emprego uma das grandes conquistas femininas isso não impede que registe a total ausencia de políticas que apoiem as famílias. Aliás mulheres estrangeiras com as quais tenho tido contacto, ou portuguesas a viver fora, consideram-nos verdadeiras heroínas. Será que não é à custa da nossa saúde mental e da felicidade e direito à infância das nossas crianças?

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  4. "Olhando do Oriente"24 de agosto de 2009 às 18:32

    Não é ficção...

    Em Julho/Agosto de 2005 fui até à Holanda... cerca de 10 dias.
    Foi com surpresa que verifiquei que todo o comércio... desde lojas de chineses... a centro comerciais... fechavam rigorosamente às 18:00 ou 18:30h (não me recordo bem)... de 2ª a 5ª feira. Às 6ºs feiras fechavam às 20:30. No 1º Sábado da minha estadia... fui a um centro comercial por volta das 16:45h ... e para meu espanto... passado alguns minutos verifiquei que todas as lojas estavam a encerrar. Pensei que algo de anormal se estava a passar... perguntámos qual a razão. Era simples... informaram-nos que o comércio encerrava ao sábados às 17:00h e que no domingo estava encerrado... esclarecendo-nos que tinham sido medidas tomadas pelo governo holandês para protecção às famílias. Disseram-nos também que as empresas iniciavam o fim de semana à 6ª feira ao meio-dia... e se quisessem fazer mais 1:30h de 2ª a 5ª... não abririam à 6ª feira.
    Estranho não é? E não me lembro de os ouvir queixar de falta de produtividade...

    Realmente... há gente muito estranha...
    Ah... e já agora... são loucos por andar de bicicleta...
    Também me pareceu serem pessoas que estavam muito bem com a vida...
    Mas deixem lá... provavelmente foram só impressões minhas...

    Um abração para todos vós.

    Agostinho

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  5. Já agora, e concordando com tudo o que está a ser dito, acrescento que as mulheres portugueses não são umas heroínas como alguém aqui disse. Na minha opinião são umas verdadeiras escravas. Discutir os horários de trabalho em Portugal é, de facto, essencial, se queremos mudar algo relativamente às nossas crianças, mas não me parece que haja muita gente interessada....

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  6. Agostinho: o teu comentário vai dar um post.

    Aquele abraço.

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  7. "Olhando do Oriente"27 de agosto de 2009 às 06:35

    Obrigado Paulo.

    Mas já agora... convém emendar algumas... "gafes"...

    "... aos sábados..."
    "... ouvir queixarem-se..."

    ;-)

    Um abração nosso para vós.

    Agostinho

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  8. Já percebi que este texto não é novo. Gostei muito de o ler. E este comentário: "Já agora, e concordando com tudo o que está a ser dito, acrescento que as mulheres portugueses não são umas heroínas como alguém aqui disse. Na minha opinião são umas verdadeiras escravas".

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  9. É um assunto sério.

    Encontrei outros argumentos numa pesquisa.

    "Entre pontos de vista retrógrados e
    o medo de perder a carreira profissional

    Nunca foi fácil conjugar trabalho, casamento e filhos. Estudos recentes afirmam que a situação está cada vez mais difícil e, até o momento, exis-te pouco consenso na hora de enfrentar o problema. Nas últimas duas décadas houve um aumento significativo na idade média daqueles que se casam pela primeira vez, diz a Eurostat, órgão de estatística da União Européia (UE), num comunicado do dia 8 de outubro. O último estudo sobre o tema, realizado pela Eurostat, “A vida das mulheres e dos homens na Europa”, revela que nos então 15 países da União Européia a idade média dos homens que se casam pela primeira vez era de 30,3 anos em 1999, em comparação com os 26 anos de 1980. Para as mulheres, a idade subiu até os 28,1 em comparação com os 23,3 do mesmo período. O maior aumento aconteceu na França, mais de seis anos, tanto para homens como para mulheres. O menor aumento, mais ou menos 2 anos, ocorreu no Reino Unido, Portugal e Grécia. A maior idade, tanto para homens como para mulheres, está presente na Suécia (os homens, 32,9; as mulheres, 30,4) e na Dinamarca (os homens, 32,5; as mulheres, 30,1). A menor idade está em Portugal: os homens, 27,2; as mulheres, 25,5. A idade da primeira gravidez também aumentou. As mães de 58,7% dos recém-nascidos na Espanha são maiores de 30 anos. A Grã-Bretanha e a Espanha, seguidas pela Itália, são os países europeus onde as mulheres esperam mais tempo para ter o primeiro filho, com uma média de idade de 29 anos.

    Alguns fatores explicam esta tendência. As mulheres não só estão dedicando mais tempo aos estudos, mas também querem participar do mercado de trabalho, afirmava a autora do estudo, Margarita Delgado. O alto custo de vida e a dificuldade de conciliar trabalho e filhos também afetam a decisão de constituir uma família. A autora diz que muitas mulheres desejariam ter mais filhos, se não existissem essas dificuldades. De fato, mais de 25% das mulheres gostariam de ter mais filhos do que atualmente têm; é o que diz um estudo publicado no ano de 2000 pelo Instituto Nacional de Estatís-tica da Espanha. "

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  10. "Um silêncio conivente e ensurdecedor." e imperdoável.

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