Este PSD joga às claras em desfavor da função pública. O seu actual presidente segue as opiniões dos economistas que o rodeiam, com destaque para Nogueira Leite que, e como pode ler aqui, tem um particular ajuste de contas com os professores. Vá lá saber-se que raio de insecto é que mordeu em muitos dos nossos políticos do bloco central que não perdem uma oportunidade para atacar os professores e os restantes funcionários públicos. Leia a notícia que se segue e diga-me lá: quando não houver financiamento para os salários do funcionários públicos, o que é que será que aconteceu aos restantes portugueses?
Excelente texto!
ResponderEliminarPassos Coelho e o complexo bancário-construtor
O Dr. Pedro Passos Coelho foi eleito presidente do PSD em 27-3-2010. Estamos em 16-5-2010. Teve, por aqui, cinquenta dias de graça.
A minha opinião sobre a sua candidatura e o que representava foi clara no período anterior à sua eleição e no acto da sua vitória: entendia que representava alguns interesses muito prejudiciais ao País e ao PSD e que a sua eleição seria, por isso, muito desastrosa, ainda mais pela época crítica que se atravessava. Mas o facto da sua eleição devia ser respeitado, com a concessão de um tempo de graça, um tempo de prova em que ele pudesse contrariar a minha análise e enfileirar uma linha justa ou perder-se sem remédio na teia que já o envolvia.
Pedro Passos Coelho não contradisse a expectativa que eu tinha e expressei. Pelo contrário, agravou-a. Depois de um período inicial em que, distanciando-se da imagem de criado da profana eminência parda Ângelo Correia, mostrou prudência e sentido de Estado, nomeadamente na questão presidencial, e certa ousadia ideológica – em seguir a proposta de que, com excepção de doentes e inválidos, não deve haver prestação social sem trabalho social -, não demorou a ceder aos interesses económicos de bancos e construtoras. Não era uma inevitabilidade: após a eleição, Passos Coelho podia seguir um caminho próprio, passar a representar a vontade do PSD e a interpretar o desígnio nacional, renegando a imagem de testa di ferro* – de interesses económicos e que excedem, agora, muito o universo pardacento da Fomentinvest. A eminência parda é agora uma hidra com várias cabeças, muito mais poderosa.
Tenho para mim, e para os leitores, que o acudir de Pedro Passos Coelho a José Sócrates, na véspera da quarta-feira negra, de pânico na dívida soberana de Portugal e de queda das bolsas, que redundou no pré-acordo de 28 de Abril de 2010, foi um movimento ditado pelos interesses económicos em questão. A bancarrota do Estado português, em 7-5-2010, que aqui denunciei, e a submissão de Portugal a um regime de protectorado da UE-FMI, na cimeira europeia de 9-5-2010, consolidaram o entendimento. E foram esses mesmos interesses que se lhe impuseram no inédito pacto de governo da madrugada de 13-5-2010, em que, à parte os interesses que mamam, um partido chucha e o outro chora, e o obrigaram a «dar a mão» a José Sócrates. A maratona negocial entre os lugares-tenentes Fernando Teixeira dos Santos e António Nogueira Leite para um acordo que, segundo o Expresso (de 15-5-2010) foi concluído às 6:55 da manhã, que entretanto promete uma redução adicional do défice em 2011 para 4,6% do PIB, foi motivada pela necessidade de enterrar o pacote da austeridade (o tal segundo Programa de Estabilidade e Crescimento, para substituir a irresponsabilidade do primeiro), debaixo da ubiquidade noticiosa da celebração papal de Fátima, no 13 de Maio de 2010, esvanecendo a indignação imediata pela dureza das suas medidas. Com natureza de escorpião, o primeiro-ministro fez constar que era mais suave no plano fiscal, e mais preocupado com as pequenas e médias empresas, do que o PSD queria, quando, segundo o Expresso de 15-5-2010, subiu, nesse acordo, a isenção de aumento do IRC para as empresas até dois milhões de euros de lucro; e mandou criticar o parceiro de acordo pelo facto de Passos Coelho ter pedido desculpa aos portugueses pelo apoio à austeridade e aumento dos impostos do Governo Sócrates!…
A reunião de pré-acordo PS-PSD entre Sócrates e Passos Coelho, no fatídico 28-4-2010, quando o Estado se encontrava à beira da bancarrota (que aconteceu em 7-5-2010), decorreu na mesma manhã em em que o Governo socialista celebrou o contrato de concessão rodoviária do Pinhal Interior (variante do Troviscal e outras obras absolutamente urgentes e imprecindíveis) no valor de 1,244 mil milhões de euros (que fez crescer a dívida portuguesa em mais de cerca de 1% face ao Produto Interno Bruto-PIB) ao consórcio Mota-Engil/BES. Não acredito que essa concessão, que faz crescer a dívida portugue
má-fé negocial e denunciaria o pré-acordo logo nessa noite ou nos dias seguintes. Porém, nada li da indignação do líder do PSD com esse absurdo despesismo do Pinhal Interior na pré-eminência da bancarrota nacional, o que me leva a supor ter sido consentida essa concessão. Mais ainda, o Governo socialista celebrou o contrato de adjudicação do patético troço do TGV Caia-Poceirão em 8-5-2010, no valor de 1,494 mil milhões de euros ao consórcio liderado pela Brisa e Soares da Costa, que representa mais de 1% da dívida pública portuguesa face ao PIB, na mesma altura em que decorria em Bruxelas a reunião crítica em Bruxelas para impor a José Sócrates as medidas de austeridade a tomar por Portugal face à bancarrota do Estado português, que tinha ocorrido na véspera, medidas essas em contrapartida de uma linha caritativa de crédito adicional e do compromisso dos bancos centrais em comprar dívida portuguesa para evitar a subida exponencial dois juros… E também neste caso não vi o PSD a denunciar o acordo por má-fé socratina, o que me leva a crer que esta concessão tenha sido consentida, por mais que se disfarce. Como se vê, cerca de dois por cento de aumento de dívida face ao PIB consignados a obras públicas não urgentes e de escassa utilidade imediata, mais ou menos o que se pretende poupar no défice em dois anos à custa do bem-estar do povo, nos salários, pensões, subsídios e impostos – e não se diga que essa questão não se põe por causa da diluição dos encargos ao longo de dezenas de anos, pois a dívida aumenta, o serviço da dívida aumenta, os juros aumentam e a credibilidade financeira da República Portuguesa diminui. Em conclusão deste assunto, verifica-se também um pacto de grandes obras públicas entre Sócrates e Passos Coelho, em que metade desta despesa de cerca de 2% da dívida pública face ao PIB, é para a Mota-Engil/BES e outra metade para a Brisa, do Grupo José de Mello, e a Soares da Costa, da Investifino, que aumentam o endividamento do País e diminuem o bem-estar dos portugueses, sem que o povo se tranquilize quanto à solvência do Estado. E, estranhamente, Bloco de Esquerda e PC alinham nesse despesismo absurdo das grandes obras públicas, realizadas á custa do bem-estar do povo.
ResponderEliminarPara os interesses económicos predominantes no País, Pedro Passos Coelho significa uma emulação fresca de José Sócrates e mais defensável. Não, por acaso, as sondagens começam a fazer um caminho inverso, numa tentativa sistémica de reciclagem ambiental do primeiro-ministro que tem o consenso geral, mesmo no PS – com a excepção do próprio Sócrates… Sócrates, que veio da Cova da Beira para a capital ainda agarrado aos conhecimentos regionais, evoluíu, depois de chegar ao Governo, para um entendimento trinitário, sem perder a tutela profana omnipresente, que se junta nas alturas mais críticas quando teme que o poder possa cair… no povo. A mesma tutela, e os interesses do mesmo género, têm confiança de que Passos Coelho seguirá a mesma política promíscua e de submissão áquilo que posso chamar, na acepção do general Eisenhower, o complexo bancário-construtor. O desperdício do dinheiro do Estado em investimentos faraónicos absurdos tornou-se um problema tão grave quanto o ócio socialista da subsidio-dependência.
Nenhum líder da oposição ignora que a co-responsabilização por um programa de austeridade, de um governo mortalmente afectado pela corrupção, lhe é prejudicial e ao seu partido: o consolo dos eleitores socialistas pela atitude de Passos Coelho não traz um voto ao PSD. Pedro Passos Coelho poderia ter feito como Mariano Rajoy, que responsabilizou o Governo Zapatero pela situação dramática de Espanha e apresentou um plano alternativo ao plano de austeridade do Governo socialista, deixando ao Governo de José Sócrates a responsabilidade pela tragédia das finanças públicas e da economia nacional e pela decisão de um pacote de austeridade que aumenta a receita à custa do bem-estar do povo em vez de diminuir a despesa das obras públicas socraónicas. Não é do seu interesse eleitoral arrostar com a culpa e o contágio do socrati
Nem é do interesse do País a aliança com José Sócrates. A decisão de Passos Coelho apoiar o pacote de austeridade de José Sócrates não se pode justificar com o patriotismo. A linha patriótica não consente qualquer aliança com este PS ou co-responsabilização do PSD pelo pacote de austeridade do Governo Sócrates. Por dois motivos: porque a substituição do Governo socialista e a sua responsabilização é uma necessidade da recuperação nacional e porque o pacote de austeridade, mais o que tem escondido, é nefasto para as finanças e a economia do País. A constituição do novo bloco central de Sócrates-Coelho prolonga a agonia do povo e penhora ainda mais o Estado à satisfação dos interesses de grupos bancários e de obras públicas.
ResponderEliminarPor tudo isto, julgo que a liderança de Passos Coelho, e da sua direcção, está a ser um desastre para o PSD e o País. Portanto, deve ser criada no PSD uma alternativa justa, moderada, reformista e sem qualquer compromisso com o socratismo que se prepare, durante esta inevitável erosão do governo socialista e as elições presidenciais, para servir o País em representação do povo.
Pós-Texto (23:45 de 17-5-2010): Beijos de Judas e o tango de Sócrates com Passos Coelho
A alegada posição de Miguel Frasquilho, o economista do grupo Espírito Santo que faz parte da entourage de Passos Coelho, expressa no relatório «A Economia Portuguesa – Maio de 2010» da Espírito Santo Research, de elogio da «consolidação das contas públicas do Governo de José Sócrates» e onde, de acordo com o jornal, «assegura que Portugal não enfrenta riscos de liquidez, evoca o PEC para realçar os esforços do Governo para reduzir o défice das contas e reafirma a sua confiança no crescimento económico impulsionado pelas reformas estruturais» é mais outro ferroada de Sócrates a Passos Coelho, por intermédio da central governamental de informação, produtora dos tais conteúdos e veiculada pelos meios de confiança, neste caso o DN, de 17-5-2010. Beijos de Judas que culminam na frase assassina, e de muito mau gosto, de Sócrates que, hoje, no Foro ABC, em Madrid , revelou Passos Coelho como seu parceiro de… tango (i, de 17-5-2010):
«Como se diz em espanhol [sic] para dançar o tango são precisos dois. Durante muitos meses não tinha parceiro para dançar. Felizmente houve uma mudança na oposição. Tem agora um líder que olha para a situação com responsabilidade e patriotismo».
Sócrates é um dançarino que morde depois de beijar. E Passos Coelho não recuperará desta ferida.
Estamos numa encruzilhada, com políticos destes vamos viver na incerteza!
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