segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

componentes da mistificação

 


 


 




 


 


 


A ideia de introduzir quatro dimensões na avaliação de desempenho dos professores foi o primeiro passo para garantir a descomunalidade da coisa. Como o relatório do Conselho Científico veio comprovar  - e refiro este facto para não me acusarem de uma qualquer parcialidade -, a avaliação deve centrar-se na dimensão ensino e aprendizagem.


 


As outras três dimensões - social e ética, participação na escola e relação com a comunidade e desenvolvimento profissional - fazem parte do exercício profissional dos professores, mas contêm um conjunto de indicadores que são imensuráveis, mais ainda num modelo que instituía uma pontuação assente em descritores quantitativos.


 


Com a redução decretada em Janeiro de 2009, a dimensão ensino e aprendizagem passou a integrar a componente científico-pedagógica e as outras três dimensões a componente funcional.


 


É, portanto, no chamado "perfil funcional" do professor que se joga toda a polémica conceptual: o primeiro patamar, digamos assim. Há quem entenda que se deve avaliar e certificar a carga de má burocracia que asfixia os professores e as escolas, que é aquilo que na minha óptica está na base do "eduquês" e no que o blogue de Ramiro Marques sublinha aqui. E depois há quem entenda que a avaliação dos professores se deve localizar na sala de aula e no ensino. Concordo com a segunda asserção e o relatório do Conselho Científico também.


 


Mas o mais grave no "reduzido" em vigor é que os professores que não solicitaram a menção de excelente ou de muito bom são apenas avaliados na componente funcional. Uma barbaridade e uma impossibilidade, como se pôde comprovar.


 


Em coerência, digam lá: auto-avalia-se o quê do modelo em curso? Mesmo nas escolas onde aconteceu alguma coisa, o modelo tem seis meses de exercício. Mas se todos concordamos que a componente funcional é imensurável, auto-avalia-se o quê também aí do modelo em curso? Deve o governo seguir, no mínimo, o relatório do Conselho Científico que nomeou e suspender a farsa que criou. Baste de prolongar esta dolorosa mistificação.


 


Para os mais interessados, reeditei, aqui, um post sobre o assunto que escrevi no ano passado.


 


 


 


(1ª edição em 22 de Junho de 2009)

13 comentários:

  1. ok... já respondi ao teu desafio lá no meu cantinho

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  2. Lembrei-me agora do Mané(figura típica cá do burgo e que adora dar umas valentes gargalhadas) que, no velho Pinheiro Chagas, no intervalo de um filme do Cantinflas, a rir, afirmava "Isto é melhor que ir ao cinema!"
    Autoavaliar o quê?
    Avaliação séria foi a que foi feita a 7 de Junho, com o "votozinho" na urna. O boletim de voto foi o instrumento de registo. Agora, deviam fazer a autoavaliação. Mas não há um passo nesse sentido e eis que aí vem uma nova ficha, bem no final do ano lectivo.
    Tanto ou mais que todas estas "simplificações" e "complicações", aflige-me o adesivar constante de quem está à frente das escolas que, com a pressa de obedecer e agradar, vai agora mandar para a sucata todas as fichas já preenchidas.
    E se o papel está caro!
    Enfim, "isto é melhor que ir ao cinema".

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  3. "E depois há quem entenda que a avaliação dos professores se deve localizar na sala de aula e no ensino. Concordo com a segunda asserção e, como já referi, o relatório do Conselho Científico também.
    Mas o mais grave no "reduzido" em vigor (outros chamam-lhe simplex) é que os professores que não solicitaram a menção de excelente ou de muito bom são apenas avaliados na componente funcional. Uma barbaridade e uma impossibilidade, como se pôde comprovar."

    Concordo com quase tudo do excerto que cito excepto com a expressão: professores que solicitaram a menção de excelente... Sou uma das que não prescindiu da avaliação na componente cientifico-pedagogica e didactica por motivos vários, devidamente ponderados, mas o prinicipal dos quais é, e em acordo total com o que afirma, considerar que esta é a componente central da nossa actividade. Sei que nos temos feito pouco ouvir mas gostaria de lembrar que, como bem sabe, as palavras são muito importantes e pessoalmente (como aliás acontece com vários casos semelhantes que conheço) não consideramos a questão como estando a candidatar-nos a nada. De resto concordo que todo o processo seria risível se não fosse trágico.

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  4. ok; já lá fui e já lá deixei o meu comentário

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  5. Concordo Maria.

    Mas a minha crítica centra-se na componente funcional. Embora considere que a dimensão ensino e aprendizagem tenha de ser bem depurada como proponho no post "um ponto e milhares de situações".

    Obrigado e um abraço.

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  6. Começa hoje a ser claro, até para os motoristas de táxi, aquilo que é verdade há muitos anos: que o Ministério da Educação não serve para gerir a Educação (e muito menos - abrenúncio! - o Ensino), mas sim para proteger e garantir os lucros de toda uma indústria parasitária que cresceu à sombra do «eduquês».

    Daí que os professores não possam ser avaliados pelo seu desempenho na sala de aula, mas sim pela sua rentabilidade enquanto servidores indirectos da dita indústria. Por este critério, a Ministra tem razão: competente é ela, os incompetentes somos nós.

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  7. Viva José Luiz.

    "Daí que os professores não possam ser avaliados pelo seu desempenho na sala de aula, mas sim pela sua rentabilidade enquanto servidores indirectos da dita indústria. Por este critério, a Ministra tem razão: competente é ela, os incompetentes somos nós."

    Está tudo aí.

    Gosto muito de te ver por aqui e quero desejar-te uma vida com saúde.

    Aquele abraço.

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  8. Caro Paulo Prudêncio
    A tua posição "a avaliação deve centrar-se na dimensão ensino e aprendizagem", está correcta. Mas como acho que existem mais pontos em que a Ministra legislou mal, não tendo ouvido os Professores, claro que compreendes a minha posição pessoal de revolta.
    Sempre amigo
    João Ramos Franco

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  9. Viva João Franco.

    É um prazer ler os teus comentário e compreendo tudo. Não imaginas como tem sido difícil a justa luta dos professores em nome da razão e da escola pública de qualidade para todos e com poder democrático. No início foi contra quase tudo e contra quase todos. Mas, e como quase sempre, a força da razão faz o seu inexorável caminho.

    Muito obrigado.

    Abraço.

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  10. Toda a razão, Paulo!
    Fala-se de avaliação de professores mas ninguém fora da nossa profissão sonha que, este ano, um bom professor pode até ter-se baldado a todas as aulas.

    Basta que diga que "funcionou" no resto.
    O resto é tudo o que se quiser incluir na auto-avaliação.
    Tudo menos dar aulas.

    bluff...

    bj
    reb

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  11. 1ª pergunta - Será que afinal os últimos poucos que resistiram, sempre acabam por ser os ganhadores? Ou, pelo menos por enquanto, apenas se trata de uma meia-vitória?
    2ª pergunta - Será o tal "simplex" (assim chamado, numa clara alusão caricatural às parangonas de que esta equipe governamental tanto se ufanava) a solução para ficar? Para aceitar?
    3º e última - Valerá ainda a pena algum esforço de adequação a investir nesta absurdo (sim, porque o que era absurdo, não deixa de o ser apenas porque passaram alguns dias - ou meses que sejam... quanto a mim... digo eu...)?
    De algum modo, e com a consciência tranquila, sabem bem todos aqueles com quem, de um modo ou de outro, aqui ou além, fui trocando impressões e ideias, que sou a favor da necessidade de uma AVALIAÇÃO... Mas não de uma alavaliaa... quer dizer de uma avalavilaç... ou seja de uma... Bolas, não sou capaz de verbalizar uma confusão desta natureza... Mais, sou a favor de um instrumento avaliativo que se consiga aproximar de algo com algumas características que me atrevo a alinhar:
    a) clareza; b) máximo rigor possível (porque isto de avaliar, como o sabe bem qualquer um que se dedique a este mister, não é "papa-doce", e rigor a 100% é capaz de ser mais difícil que acertar no "euro-milhões"); c) sem lapsos, lacunas ou aberturas que favoreçam , actuais ou futuros compadrios, amizades, lambe-botas e outras variantes desta família zoológica que constituímos todos (que também os há entre nós, disso me parece não haver dúvidas); d) com "feed-back" que proporcione a oportunidade e possibilidade de auto-correcção, de auto-melhoria, de aperfeiçoamento do que menos bem possa estar e sempre na perspectiva de melhor desempenho (porque é disso que se trata... de melhorar a "performace" de todos e de cada um "per si") e sempre com os olhos postos em horizontes de qualidade e não de quantidade (é disso e de similares pressupostos que depende aquilo para o qual trabalhamos - melhores seres humanos, melhores gerações futuras, melhores comunidades, sejam nacionais, europeias ou mundiais)...
    Deixemo-nos de "conversas da treta" a propósito de tema tão sério quanto me parece ser o da educação e reservemos o nosso espírito de aceitação de tal tipo de conversas para os bem arrancados momentos de humor da dupla que a essa expressão deu nome... Deixemo-nos de "filosofias baratas" e de teorias muito giras de ouvir quando assistimos a exposições e defesas de teses de mestrados e doutoramentos - podem ser valiosos tais discursos, mas antes de mais deverão/terão de ser testados em campo, antes de se aplicarem e de mexerem com milhares de vidas de concidadãos, com contas para pagar, filhos para criar, medicamentos para adquirir, afectividades para partilhar/trocar, em família ou fora dela que seja, etc etc e tal...
    Se para avaliar um pré-adolescente ou um adolescente, nós que somos especialistas (de acordo com a nossa "chefa"), em campos e matérias bem mais simples e mais que depuradas, e se queremos aproximar-nos o mais possível do tal rigor e verdade (e muitos de nós queremos, a maioria ao que suponho) precisamos de 2, 3 ou mais trimestres (em muitos casos os 6 trimestres do ciclo de escolaridade em que trabalho, "chegam a não chegar"), o que se poderá dizer desta questão da avaliação de professores em 1 mês (ou menos - Sº Onofre é disso exemplo), 3 meses ou 1 ano que seja? Só pode ser a brincar, não?
    Para concluir - se queremos de facto algo que valha alguma coisa, talvez tenha começado agora um período que poderá muito bem vir a estender-se por alguns anos - acertos, afinações, correcções serão decerto indispensáveis, mas só valerão a pena se partirem de algo mais bem elaborado, mais sério e não de uma fantochada como a que foi montada...

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  12. "Tudo menos dar aulas." Bem me parece. E digo-o sem demagogia nenhuma, podes crer.

    Bj.

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  13. "1ª pergunta - Será que afinal os últimos poucos que resistiram, sempre acabam por ser os ganhadores? Ou, pelo menos por enquanto, apenas se trata de uma meia-vitória?"

    Espero que a primeira questão se reforce mais ainda. Por enquanto a minha opinião é que tínhamos vencido sem o termos feito em termos mais concretos. Na avaliação, o primeiro monstro foi claramente derrotado. Neste modelo, o reduzido 2, fica a componente funcional por derrotar. Mas temos ainda o estatuto, a gestão, a escola a tempo inteiro...

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