terça-feira, 3 de maio de 2011

de neo a ultra

 


 



 


É estranho ouvir pessoas do grupo "mais sociedade" dizerem que desconhecem o que é o neoliberalismo e depois ouvi-las, como no último expresso da meia-noite, a teorizar sobre a avaliação de pessoas. Se não desconhecem a história, então são um caso que se deve considerar.


 


Francamente: dizer que a avaliação das pessoas tem de ser uma exigência diária que institua a meritocracia, é uma linguagem bem-pensante e sedutora que se pode transformar em totalitária, como é exemplo o caso France Telecom. A avaliação do desempenho profissional tem de ser discutida no âmbito da sua aplicabilidade. Para percebermos o que querem estes ultraliberais, temos de os obrigar a determinarem com rigor a medição dos resultados da produção e a estabelecerem quem-avalia-quem. Como alguém disse, nem um calceteiro pode ser avaliado de um modo puramente quantitativo e meritocrático.


 


Quando estas espécies de políticos se escondem na negação do neoliberalismo, trazem à memória os outrora novos liberais que diziam que Keynes, Stuart Mill ou Adam Smith tinham sido liberais da mesma colheita anglo-saxónica.


 


Espalham-se duplamente. Os tempos são outros e os pensamentos dos autores citados estão escritos e contextualizados. As propostas que a "mais sociedade" apresenta, evidenciam o serviço do neo no neoliberalismo e sustentam às claras o argumentário dos que apontam para um liberalismo contemporâneo que tem muito a ver com Milton Friedman e que está fora de Keynes, de Adam Smith ou de Stuart Mill.


 


É um liberalismo com neo que branqueia poderes privados não sufragados pelo voto e que estão acima de qualquer prestação de contas. Essa "mais sociedade" só se importuna com o poder político, mesmo com o que tem legitimidade democrática.


 


É um liberalismo que "desconhece" a "cartelização de capitais" e que tem influência suficiente para nos penhorar a todos sem remissão. Pois é. É um liberalismo que justifica um prefixo ainda mais nocivo: ultra, por exemplo.


 


"cartelização de capitais", que também negarão servir, repito, é a que nos exige um soldo para termos direito ao oxigénio e ao emprego.

4 comentários:

  1. Já tenho ouvido pessoas dizerem que se consideram liberais, mas que consideram um insulto chamarem-lhes neoliberais.
    Na verdade, embora isso não agrade a muitos, a maior parte das causas por que se batem as sociedades actuais são de carácter liberal. Não parecem porque não se referem ao âmbito económico.
    A avaliação tende a esmagar a diferença, a colocar tudo no mesmo nível e responde a razões económicas, tomadas como absolutas, de não pagar salários idênticos a quem trabalha nos mesmos sectores.
    Não é só a este nível que temos de estar muito atentos: nada que saia da norma é tolerável actualmente, e os argumentos invocados para isso têm uma suposta validade e justiça que contamina muitos de nós. Alguns totalmente, outros em parte. São argumentos incutidos em nós diariamente e que em nós se inscrevem sem bem nos apercebermos disso.
    "Mais sociedade" é uma expressão em si mesma ambígua, perigosa até. Há sempre elementos de totalitarismo nos regimes livres e democráticos, não devemos esquecê-lo.
    Muito interessante este post, Paulo. Dá que pensar.

    - Isabel X -

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  2. Lúcido. Brilhante. ...

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  3. Paulo G. Trilho Prudencio3 de maio de 2011 às 16:22

    Obrigado Isabel X Por vezes, convenço-me que algumas pessoas desconhecem a devastação provocada por algumas ideias.

    Obrigado ao anónimo e e ao Ramos Silva Pereira.

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