quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

por um dia

 


 



 


 


Passei uma tarde encantadora. Foi um descanso merecido para um corpo que vai aturando maçaduras diversas. O dia soalheiro ajudou, a cadeira de jardim encorpou-se de vez e as leituras estavam a condizer. Se a perfeição existe, estive lá perto. Foram momentos de prazer indizível. Argumentei-me em cadeia e fiz sínteses que elevaram as motivações. Há tardes assim.


 


Numa das leituras viajei para longe das letras que os olhos percorriam. Visitei a memória. Um dos meus exercícios predilectos. Não obedece a formalidades nem a pormenores protocolares. A meu gosto. Entro por ali adentro, pesquiso à vontade e o tempo que quiser. Realço o que interessa, embora, e vezes sem conta, tropece em acontecimentos menos agradáveis. 

Foi hoje o caso. Lembrei-me do serviço militar. Vinte e poucos anos e zero tiros no currículo. De uma hora para a outra raparam-me os caracóis, encheram-me de fardas e de sei lá de mais o quê e disseram-me: vais ser comando; a honra suprema de um jovem português.


 


Chamavam-me Prudêncio, o meu último nome, coisa que até aí me parecia exclusiva do meu pai. Numa tropa para onde só ia quem queria, interrogavam-me: és voluntário?; respondia: não. Nos papéis cruzavam o sim e quanto mais refilasse pior. Aprendi rápido e sentenciei: se tem de ser, vamos a isso.

Foi o que se suspeitava. A dureza e a brutalidade diárias sucederam-se até o horror se instalar. Nem a estrela aos ombros garantiu atenuantes. A exigência de comandar era sufragada pelo espírito de corpo e pela resistência à dor comum. Lembrei-me, entre tantas outras coisas horrendas, de ter saboreado um naco de pão duro barrado com pelos da barba e sangue; ou de me ter deitado em terrenos cravejados de balas que quase não antecipavam o momento da queda do corpo. Violência acumulada em meses sem fim. Valeu-me a ausência da guerra. Não sei o que faria dos "inimigos".


 


Nos fins-de-semana exteriores ao campo de concentração, desenhei inúmeras fugas do país que foram sempre vencidas pela crença na passagem do tempo e pelo risco de ver carimbado o estatuto de desertor.

Como compreendo os jovens que lutam nas diversas guerras. Jamais quererão ouvir o nome do palco do mais infeliz dos teatros: o das operações militares. 

Da parte que me toca, nunca mais "perdoarei", à Amadora e a Santa Margarida, por terem sido os solos dos meus horrores.


 


(Texto não inédito. Rescrito).

8 comentários:


  1. Muito interessante o testemunho de um tempo de vida aqui partilhado pelo Paulo Prudêncio. Pergunto: e com estas recordações a tarde permaneceu perfeita? É que até é possível que sim. Talvez nada mais perfeito do que a memória encarada de frente, em sua inteira verdade.

    - Isabel X -

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  2. É Isabel X; a memória é isso mesmo; por isso o título: regresso por um dia; às vezes basta um detalhe para alterar todo um estado de espírito; a vida; abraço.

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  3. Viva Paulo,
    desse tempo da Amadora e de Stª Margarida (2º turno de 80) lembro algumas estórias cuja amargura e/ou tristeza foram amaciando com o passar dos anos:
    a "semana maluca", a "prova de fogo" e, acima de todas, a primeira ida à carreira de tiro para disparar com a G3 a 10 metros, com o respectivo banho como castigo pela nota negativa.
    Mas recordo também o dia 18 de Dezembro, quando respondi a um cap. Ferreira estupefacto que não queria ser comando e me recusava a usar a boina.
    O pobre homem não queria acreditar no que ouvia e ainda me perguntou se "o partido" me autorizava a recusar o crachat e a boina, sendo eu um dos poucos aspirantes daquele curso.
    E recordo com especial felicidade o dia seguinte quando, depois de jurar bandeira num grupo à parte do restante batalhão de instrução, fui à maternidade ver a minha filha acabada de nascer.
    Abraço,
    Francisco

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  4. Viva Francisco.

    É; já conversámos sobre isso; tiveste um gesto muito corajoso; o teu gesto caiu muito bem aos 7 resistentes que sobraram de toda aquela loucura que começou com 75; ninguém, a não ser quem por lá passou, imagina o que aquilo era;
    estive até á última para fazer o mesmo, mas uma ameaça (boato?) de deportação por um ano para os Açores impediu;
    a minha vida estava no Porto e a certeza que ficaria por ali como instrutor garantia-me muito tempo na cidade onde vivia; tem piada falares da carreira de tiro; ainda ontem pensei nisso quando rescrevia este texto; entrei com zero tiros e saí dali uma máquina a disparar; g3 com uma mão em rajada ou tiros de pistola de 9mm de fazer inveja a qualquer rambo; até arrepia; voltarei a estas histórias;

    Aquele abraço.

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  5. Voluntário à força18 de abril de 2011 às 01:06

    Rui Veloso - Máquina Zero

    Fui à inspecção ao quartel de infantaria
    Estava no edital da junta de freguesia
    Depois de inspeccionado deram-me uma guia
    Com um carimbo chapado dizendo que servia

    Ainda argumentei e disse que não ouvia
    Não regulava bem e que tinha miopia
    O capitão mirou-me no seu ar de comando
    E o sargento mandou-me um sorriso de malandro
    Do bolso tirou a velha máquina zero
    E tugindo gozou pró ano cá te espero

    Eu não quero ir à máquina zero
    Eu não quero ir à máquina zero

    Um dia na recruta fui limpar a latrina
    O rancho veio-me à boca e faltei à faxina
    O sargento de dia não me deixou impune
    Levou-me à companhia e aplicou-me o rdm
    Aqui nada se aprende odeio espingardas
    Não fui feito para isto e tenho horror a fardas

    Eu não quero ir à máquina zero
    Eu não quero ir à máquina zero

    Não me façam guerreiro eu nunca fui audaz
    Sou um gajo porreiro só quero viver em paz

    Eu não quero ir á máquina zero
    Eu não quero ir à máquina zero

    Nunca fiz inimigos em nenhum continente
    Não dividam o mundo em leste e ocidente
    Pactos e alianças são um bom remédio
    Para entreter marechais e lhes combater o tédio
    Pactos e alianças são um bom remédio
    Para entreter marechais e lhes combater o tédio

    Eu não quero ir à máquina zero
    Eu não quero ir à máquina zero


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  6. excelente prosa... parabéns

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