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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

Empadão

 


empadao.jpegGostamos muito de empadão de carne e somos comedidos no sal. A logística é pesada. Optamos por comprar a carne no talho onde a vemos ser picada. É cozinhada com predominância para o tomate. As batatas são da conhecida praça da fruta. Depois de descascadas à moda antiga, são cozidas e passadas no passe-vite. Levam leite, manteiga, uma gema de ovo e uma pitada de noz moscada.


Feito o puré, desenham-se camadas alternadas com a carne picada e vai ao forno. Há uma fase da confecção que não deve ser interrompida para que o puré não encaroce. Foi nessa altura, cerca das 20h30, que se noticiou esta mudança essencial para o futuro da Educação. Qual carreira, avaliação, gestão ou burocracia. Nem sei como se consegue leccionar sem essa decisão. Tive muita pena, mas não vi.


(Este post é de 1 de Outubro de 2010.


O link indicado vai mudando com o tempo.


O resto mantém-se actual.)

sábado, 13 de fevereiro de 2021

A Propósito de Gaudi


 


(Este texto não é inédito e reescrevi-o. Publiquei-o numa revista de educação, algures em 2000, 2001 ou 2002. "Recuperei-o" a propósito de uma conversa com quem visitou recentemente Barcelona. É uma homenagem a Gaudi, cuja igreja da sagrada família continua envolta em polémica; deveria ter sido concluída?)


Sempre que o tema da minha ocupação cerebral se relaciona com o pé direito, dois conceitos condicionam de imediato as minhas opiniões:



do lado a que sou menos dado, o das religiosidades, condiciona-me a abençoada e eterna entrada com o pé direito; foram tantos os seguidores desta superstição na passagem de ano da mudança de milénio que se esgotou a possibilidade de refutar os mais crentes;


do lado que mais me entusiasma, o do pé direito dos edifícios erguidos pelo esforço dos menos favorecidos dos Homens, podem contar com opiniões mais ousadas.



Suponho que este pé direito foi o verdadeiro motor da minha consciência cívica. Sei que buscar a origem da consciência dos Homens é tarefa só ao alcance de uns quantos. Mas da minha é algo que pode ficar ao critério do meu imaginário. Atrevo-me mesmo a dizer que quem em criança nunca quis tocar no tecto do mundo não pode ter uma boa consciência social. Fui tentando tocar nos tectos das minhas casas, embora a altura dos pés direitos me exigisse a adolescência para obter saborosos sucessos.

 

Na atmosfera do lugar onde nasci e depois cresci, vivia-se num constante apelo a duas actividades desportivas: o futebol e o basquetebol. A primeira mais do lado das religiosidades e a segunda mais do lado das ousadias.

Era com um sentimento de verdadeira transcendência que, de mãos dadas com os pais, avós ou tios, as crianças assistiam a esses rituais de boa convivência. É certo que nem sempre as coisas corriam bem. Na ânsia humana de ser mais veloz, de ser mais forte ou de chegar mais alto, os convívios tinham momentos que azedavam e se travestiam de aspectos assustadores.

 

Desde cedo que as crianças iniciavam os exames exploratórios. A primeira e última experiência como jogador de futebol num clube a sério ocorreu por volta dos onze anos. Vacinei-me. Como o campo de jogo era em tudo igual ao dos adultos, “o fenómeno pé direito” aparentemente só se manifestava no tamanho das balizas. Nada mais enganador. As dimensões intermináveis do campo e o peso insuportável da bola não me deixaram alternativa. Via, com uma surpresa ingénua, como os adultos sentiam uma alegria esfuziante com as dificuldades das crianças. As gargalhadas eram ruidosas. A desfaçatez chegava ao ponto de equiparem “os miúdos” com calções enormes para o espectáculo ser mais completo.

 

Fiquei para sempre nos jogos de rua com os meus amigos, onde eram as crianças que escolhiam o tamanho do campo, das balizas, da bola ou dos calções. Mas havia algo que começava a despertar a tal consciência de direitos de que vos falei antes.

 

Para a divulgação do jogo de basquetebol, os seus responsáveis construíam campos só para crianças onde o “fenómeno pé direito” era o inimigo número um. As dimensões do espaço do jogo, dos cestos ou das bolas eram apropriadas. Ideias avançadas com a assinatura de alguém que não se acomodou ao facto dos tectos parecerem estar a uma altura fora do alcance do comum dos mortais.

 

Foi também nesta altura que entrei para o liceu. Estávamos em 1971, em plena era marcelista. O liceu era ao melhor estilo da época, o inevitável liceu Salazar. O edifício era monumental e cheio de mármores brancos. Reinavam os espaços de amplitude arrasadora. A construção obedecia a ângulos absolutamente rectos. A altura do pé direito era de tal dimensão, que parecia desenhada com a única intenção de impossibilitar veleidades, até ao mais reverente. Lembro-me, e a propósito desta nossa conversa, de uma das primeiras aulas de matemática.

 

Para fundamentar o facto de duas linhas paralelas nunca convergirem, o pedagogo pediu-nos que olhássemos para as "intermináveis" colunas da sala de aula e imaginássemos a possibilidade delas se encontrarem. Nunca. Uns tempos depois, um colega segredou-me que ouviu alguém também autorizado afirmar o encontro das rectas paralelas no infinito.

 

Antes disso, e convém lembrar, o arquitecto catalão Gaudi iniciou a construção da igreja da Sagrada Família, desrespeitando a tese das colunas que nunca se encontram. Obra inacabada. Morreu em 1917 e os catalães ainda não conseguiram pôr fim ao pesadelo.

 

Tenho pensado muito sobre esta esquisita maneira de considerar que as crianças, os idosos ou os inadaptados não têm direito a querer tocar nos tectos dos seus mundos e ainda não encontrei as razões. 

quarta-feira, 22 de abril de 2020

em forma de u e até outro dia

 


 



Não sei se o universo mediático já instituiu o Prémio Covid-19 para o mais eloquente elogio aos professores, mas perante esta torrente laudatória os professores, que são os mesmos de há uns meses e de há uns anos, estarão algo perplexos. E neste sentido, lembrei-me de um texto de 2010 que permite, acho eu, um elenco alargado de conclusões e reflexões. (1ª edição em 10 de Maio de 2010)

 

Talvez tenha sido premonitório, talvez. São dezena e meia de alunos e só um vive com a mãe e com o pai. Nos últimos anos é muito assim: vê-se que os miúdos sofrem com isso, mas não é condição que se manifeste definitivamente trágica.


Chegam do intervalo quase sempre em polvorosa. A média de idades ronda os doze anos, a perturbação emocional de uns quantos é acentuada e a conflitualidade é latente.


No dia do U a informação era decisiva: o intervalo foi ainda mais caótico do que o esperado; merecia um início de aula raro e com resguardo cívico. Os bancos suecos formam a habitual linha recta, mas nessa aula a escolha caiu no tal U.


E de repente, nem houve espaço para o caso em apreço: alguém se justificou, com as lágrimas a jorrarem face abaixo, com a descrição de uma cena caseira violenta na noite anterior. O testemunho cativou uma surpreendente e imparável onda de partilhas. A atmosfera era de uma brutal tranquilidade: não se atropelava a outra comunicação, o ruído era inexistente, a comoção sossegava as almas e os relatos absorviam uma adulta vivência emocional. Que fazer? Os quarenta e cinco minutos protocolados para a aula voaram e a catarse parecia envolta numa penumbra iniciática. Tínhamos meia-hora de intervalo pela frente e aqueles pequenos corpos não podiam regressar à selva sem qualquer analgésico. Mas que grande embaraço.


O U ficou de mãos dadas em junção com o único que usou a cadeira. Foi um recurso inopinado. Uma corrente em busca de uma qualquer transcendência. Para tudo há sempre uma primeira vez, diz-se. Uma força colectiva ajudou a que se enchesse de energia o discurso de circunstância. As lágrimas esconderam-se como se dissessem: até outro dia.

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

As Minhas Calças Brancas

 


 


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(Este texto, que tem duas partes, aqui e aqui,

foi escrito em Março de 2006)

 


 


Parte I


 


Estava aqui a tentar perscrutar as sensações produzidas por vibrações mecânicas de frequência compreendidas entre determinados valores nas sinapses que acontecem nas circunvoluções do meu córtex cerebral.… Como?! 

Não, não, não, vou começar de novo.

Estava aqui a tentar ouvir o som dos meus pensamentos…. O som dos meus pensamentos?!

Não, não, isto ainda não está suficientemente claro.

Não desista, meu caro leitor. Por vezes, o que é difícil é começar. Tomar-lhe o jeito. Depois, tudo flui. Estou aqui a reflectir sobre duas categorias imensas: a morte e a consciência moral. Tão imensas, que por causa delas o Homem criou leis na terra e no céu para que com as diferenças não se fizesse apenas tragédia. Dificílimo tem sido o caminho.

Exercitando dificuldades sobre dificuldades, para que com a escrita se atenue alguma escuridão, ambiciono relacionar as categorias convocadas. Já está melhor? É capaz de me dizer que este assunto não promete? Claro que não é capaz. Tenho até a intenção de o abordar em poucas palavras.

Ora leia, se faz o favor.

Eu sei que poderia trazer à liça os círculos do inferno de Dante Alighieri, tão divina continua a comédia das vidas terrenas, já que este poeta do século XIII, um piscar de olhos, deixa qualquer outra tentativa desarmada.

Faria aqui o ponto final e ficávamos os dois descansados: eu e o caríssimo leitor, entenda-se.

É isso. Vou pela metáfora. Não deixo de lhe dizer que preferiria que não me conhecesse. Se chegou até aqui, só me posso desfazer em vénias. Nem sei para que é que estou com tantas questões prévias, já que o texto, uma vez publicado, já se sabe: ganha as asas que a cabeça de cada leitor quiser.


 


Parte II


 


Haverá ser humano que nunca tenha desejado ardentemente uma coisa material? No meu caso foi um par de calças.

Teria quase dezoito anos quando passei pela montra de uma loja em tudo inacessível e de me ter deslumbrado com um par de calças de ganga de cor branca.

Não digo a marca. Seria publicidade e não me pagam para isso e não só as tenho como ainda as uso.

Enquanto massacrava os meus progenitores, conquistava, diária e pacientemente, as graças das “minhas calças brancas”. A inacessibilidade não passou o primeiro natal.


A estreia coincidiu com a minha maioridade moral: a etária. Não, não se inquiete: sei que estas coisas da moral não têm barreiras definidas, mas ajuda-me a contar a história.

Saí de casa, depois de inúmeros olhares deslumbrados para um espelho de corpo inteiro, e dou com um charco imenso. Se a intenção era chegar a um local que se situava no lado oposto, o aparecimento de um obstáculo lamacento surgiu-me como uma dificuldade inultrapassável.

Parece-me que se compreende. As amadas calças salpicadas de lama no dia um? Nem pensar. Nem um pingo sequer. Havia que contornar o charco com a certeza da sua finitude; decerto que o outro lado se alcançaria.

Têm sido anos de caminhada e o charco parece não ter fim. Não raras vezes, recebo convites de pessoas que se atravessam charco adentro motivados pela impaciência para caminhadas longas, limpas e seguras. Chafurdam na lama. Também nunca as tinha visto de calças brancas, é certo. Acenam-me do outro lado ou mesmo em pleno charco. Digo que não e já não mudo. E o que é que isto tem a ver com a morte, direis vós? O outro lado, o inferno de que vos falei, direi eu. E as categorias não eram duas?

domingo, 16 de dezembro de 2018

Por Precaução - um livro sobre gestão escolar

 


 


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Encontra aqui o livro "Por precaução - o tratamento da informação nas organizações escolares" de que sou autor. 


Pode ler a descrição: 



Por precaução - O tratamento da informação nas escolas. 


Autoridade by Paulo Trilho Prudêncio 



A actual discussão política à volta do papel da escola e a predominância da ideia de sociedade global associada aos sistemas de informação e de conhecimento, foram factores nucleares para a escolha do tema para esta investigação.
Tivemos também a pretensão de contribuir para a novel investigação que se preocupa com a gestão escolar propriamente dita e com os seus sistemas de informação, numa lógica que tenta ultrapassar dois territórios que, e segundo Barroso (2005), têm ocupado o universo da Administração Educacional: o das Ciências da Educação e o das Ciências da Administração e Gestão. 
Não é ousado afirmarmos que não é possível identificar escolas de gestão escolar. Apesar destas instituições serem, e de acordo com Grade (2008), uma das organizações mais estudadas, podemos inscrever um estado de desconhecimento quanto aos modelos de gestão que estão em confronto. Existe uma larga latitude de opções quanto à forma como as redes de escolas se estruturam, mas o reconhecimento da singularidade organizacional das instituições é um espaço de investigação que dá os primeiros passos.
É precisamente no modo como as organizações escolares tratam a informação que se centra o nosso estudo. Fomos conhecer a cultura organizacional da escola na estreita relação com os sistemas de informação. Queríamos perceber se a maioria da informação é obtida por precaução e as conclusões da investigação comprovaram-no. Uma parte muito significativa das entradas de informação cumprem esse desígnio e não alimentam um sistema de informação que exista como tal: estudado, moderno, coerente e libertador dos actores para a tarefa essencial das escolas: o ensino. Importava conhecer as razões e foi disso que fomos à procura. 
A nossa opção de recolha de dados para o estudo empírico circunscreveu-se a entrevistas a directores escolares. Escolhemos uma abordagem qualitativa como método de investigação, com as consequentes análises de conteúdo e as respectivas apresentação e síntese de resultados.
Encontrámos um sistema escolar mergulhado em burocracia inútil e que faz depender as decisões dos actores escolares dos excessos normativos do poder central. Apesar da autonomia na gestão escolar ser um objectivo há muito perseguido nos textos de políticas educativas, o estado da gestão informacional inscreve uma entropia que bloqueia a afirmação das particularidades organizacionais dos estabelecimentos de ensino.



 


Nota: este livro resulta de uma dissertação de mestrado realizada (2009/2012) na Universidade de Coimbra (com requisitos de frequência anteriores a Bolonha e que, ao que julgo saber, não se voltou a realizar) que cruzou três Faculdades: Economia, Psicologia e Ciências da Educação e Direito. O tema para investigação está, com o passar do tempo, ainda mais actualizado.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

gorongosa, para uma teoria da paz restaurada




 

 

 


Reedição no dia da comemoração

do 43º aniversário da independência

da República Popular de Moçambique.

 

 



 


(1ª edição em 20 de Fevereiro de 2008)



 

 

Aproximava-se a independência de Moçambique quando fiz uma visita que guardo em lugar seguro.

 

Integrei uma selecção que representava a futura nação. Percorremos as principais cidades e realizámos jogos de basquetebol integrados nos festejos. O dia 25 de Junho de 1975 foi eleito para o momento mais esperado: descerrar a bandeira portuguesa e substitui-la pela moçambicana. A delegação era chefiada por um guerrilheiro da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique), o generoso Cariquirique.

 

O 25 de Junho coincidiu com o intervalo da digressão. Três dias de descanso e contemplação na Gorongosa, no centro do país: uma extensa e deslumbrante savana, onde se convivia com animais que povoavam os nossos imaginários.

 

Cariquirique estava preparado.

 

À meia-noite em ponto trocou os galhardetes, discursou - falou-nos num Moçambique livre e multirracial, usando como metáfora uma sopa de legumes -, e deu-nos a ouvir pela rádio, apenas a letra teve direito a conhecimento prévio, o hino da Nação. Cantámos e festejámos com habitantes da região, tocadores de tambor ao melhor ritmo moçambicano, numa cerimónia libertadora e em que fomos voluntários e felizes convidados. Estávamos ali de alma e coração. O sol nasceu e para todos: nós vimos.

 

Em virtude da guerra civil que estalou no país, a Gorongosa foi palco dos desmandos guerreiros dos humanos. Foi flagelada pela cobiça dos traficantes de peles e marfins, e de toda a espécie de adereços de animais selvagens que deliciavam alguns consumidores dos lados mais requintados que a inteligência humana conseguiu arquitectar.


A Gorongosa foi dizimada.

 

Recupera, agora, os seus habitantes naturais. Na savana também se combate para viver. Os animais são destituídos dos melhores atributos da nobre ciência humana, mas revelam uma qualidade nada desprezível: têm muita paciência.

 

Encontrei um vídeo espantoso que até nem é muito do meu género e apetite. Mas merece que o veja; suposição minha, claro. São quase oito minutos e só no final é que deve tirar conclusões. Pode dizer-se assim: 

 


Gorongosa, para uma teoria da paz restaurada.


 

Ora clique (dez anos depois, perdeu-se a ligação ao vídeo no youtube).


 


sábado, 17 de março de 2018

gosto de Bolonha

 


 


 


Gosto de Bolonha e dos quilómetros de arcadas em ambiente civilizado. É a única cidade que conheço onde, com um cartão recarregável (e já em 2005), se podia utilizar automóveis públicos a exemplo do sistema já usual das bicicletas. A gastronomia é muito boa. As Piadinas recomendam-se. Os melões são únicos e os gelados uma perdição. E podia escrever mais sobre uma urbe onde se sobe às torres para fotografar os telhados que fizeram com que a cidade fosse denominada de vermelha. 


É imerecida a ligação depreciativa que associa o nome de Bolonha aos diplomas do ensino superior. No caso português chega a ser exasperante. As novas gerações não têm que carregar um estigma. Esta solução foi projectada por razões financeiros. Antes da mudança, importava clarificar o processo de equivalências e a sua relação com a duração dos ciclos. Desse modo, impedir-se-ia o ruído. Nestes dias, leio coisas humoradas dos diplomados com requisitos de frequência anteriores a Bolonha (em que se interroga se bacharelato, licenciatura, mestrado - até onde me integro - e doutoramento passam ao grau seguinte). Não podia ser. O que me parece justa, e vem muito atrasada, é a equiparação, para efeitos de concurso nos diversos países do mundo, ao grau de mestre dos licenciados antes de Bolonha. A não equiparação resultava numa insuportável (injusta e evitável) exclusão.


 


Já usei esta argumentação noutras alturas.


 


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terça-feira, 10 de outubro de 2017

já não mudo

 


 


1ª edição em 15 de Novembro de 2010


 


Há aspectos na vida em que já não mudo. Vem isto a propósito do fim do prazo para a entrega dos objectivos individuais e para a candidatura a muito bom ou excelente.


 


Estive no décimo escalão e deixei de ser titular (uma vergonha a menos). Depois passei para o terceiro, de repente para o nono e de seguida retiraram-me do topo da carreira: a legislação, que tal como os direitos adquiridos é uma coisa pouco fiável, inscreveu mais um patamar: o décimo, que na antiguidade seria o décimo-primeiro. Uma espécie de reino comandado por tresloucados. E escrevo isto para afirmar que fiquei em igualdade de circunstâncias com uma boa parte dos meus colegas: tenho para onde progredir, salvo seja. Quando é que ninguém sabe.


 


Não entreguei os objectivos individuais e não me candidatei ao muito bom nem ao excelente, apesar das minhas aulas, e o modo como as concebo e realizo, estarem desde sempre à disposição dos meus colegas. Sou franco: não valorizo muito a não entrega nem sou capaz de fazer um qualquer juízo menos favorável a um comportamento diferente, nomeadamente com os professores contratados que têm sido muito mal tratados nos assuntos da avaliação por governos e sindicatos. Na recta final de 2011, entre Outubro e Dezembro, voltaremos a conversar, veremos quem é que se pôs a jeito e quem são os que conseguem pontuar de forma diferente os seus colegas num modelo comprovadamente inaplicável e injusto.


 


Houve umas coisas que me desgradaram e que deveriam ser inadmissíveis entre professores: as cópias e a proliferação de modelos de minutas ou de requerimentos. Também aí já não chego lá.


 


 

sexta-feira, 23 de junho de 2017

bandeira branca por um dia

 


 


 


 


 


 


(Este texto foi escrito em Junho de 2004. Resolvi reescrevê-lo e reeditá-lo)


 


 


 


Passei uma tarde encantadora. Foi um descanso merecido para um corpo que vai aturando maçaduras diversas. O dia soalheiro ajudou, a cadeira de jardim encorpou-se de vez e as leituras estavam a condizer. Se a perfeição existe, estive lá perto. Foram momentos de um prazer indizível. Argumentei-me em cadeia com sínteses que me elevaram as motivações. Tenho tardes assim. Mas hoje, uma das leituras fez-me viajar para longe das letras que os olhos percorriam. Fiz uma visita à minha memória. É um dos meus exercícios predilectos, pois não obedece a muitas formalidades nem aos necessários - para outros tipos de visitas, é claro - pormenores protocolares. A meu gosto. Entro por ali adentro, pesquiso à vontade e o tempo que quiser, realço o que mais me interessa, embora, e vezes sem conta, tropece em acontecimentos menos agradáveis. 

Foi hoje o caso. Lembrei-me do serviço militar. Vinte e poucos anos, muito poucos mesmo, e zero tiros no currículo. De uma hora para a outra raparam-me os caracóis, encheram-me de fardas e de sei lá mais o quê e disseram-me: vais ser comando; a honra suprema de um jovem português. Chamavam-me de Prudêncio, o meu último nome, coisa que até aí me parecia exclusivo do meu pai. Fui obrigado a fazer uma tropa de voluntários com detalhes engraçados: perguntavam-me:  - és voluntário?; respondia: - não. Mas nos papéis punham a cruz no sim e quando mais refilasse pior: aprendi rápido e sentenciei: - se tem de ser, vamos a isso.

Depois foi aquilo que se sabe. Mesmo com uma estrela aos ombros, já que ali éramos todos iguais, valha-lhes isso, a dureza e a brutalidade diárias sucederam-se até o horror se instalar. Lembro-me, entre tantas outras coisas tremendas, de saborear um naco de pão duro barrado com pelos da barba e sangue. Ou então, de me deitar em terrenos cravejados de balas que tinham acabado de cair. Violência acumulada em meses e meses sem fim. Valeu-me a ausência da guerra. Não sei o que faria dos "inimigos".

Como quero compreender os jovens que lutam nas diversas guerras. Humanos que são, jamais quererão ouvir o nome do palco do único e infeliz dos teatros: o das operações militares. 

Da parte que me toca, nunca mais "perdoarei", nem à Amadora nem a Santa Margarida, pelo facto de terem sido os solos dos meus horrores.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

mais pelas palavras

 


 


 



No tempo em que não havia google nem sequer internet, e considerando a informação preciosa que se perdia, dediquei-me à construção de bases de dados para alguns assuntos. A dos "ficheiros secretos" tem entradas com resumos de conferências. Andava à procura das questões que apresentei a Eduardo Prado Coelho e encontrei as que coloquei a Bragança de Miranda na conferência sobre corporeidade (estiveram lá os dois) em 7 de Novembro de 1997, na Cruz Quebrada.

Regressei a Bragança de Miranda por causa do vídeo, que colo mais abaixo, imperdível "Palavra e tentação". As questões foram colocadas assim:



Muito obrigado.


Vou colocar duas questões e gostaria que estabelecesse uma relação entre elas, partindo de três categorias: ideologia, responsabilidade e dor.


Primeira questão: considerando o conceito de ideologia, que por aqui estabelecemos, como um conjunto de interesses inconfessáveis (e pensei no consenso manufacturado de Chomsky e na comunidade que vem de Agamben) quais são os interesses inconfessáveis da ideologia do corpo?


Segunda questão: se a responsabilidade das ligações é de cada um dos corpos organológicos, e se o primeiro movimento da responsabilidade é a dor, como será a responsabilidade de um corpo sem dor e a que ideologia isso interessa?



A resposta de Bragança de Miranda, depois de sorrir e de uma pausa, foi sábia e merecia uma conferência: "o mundo passa mais pelas palavras do que pela fisiologia".


 



 

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Boas festas e feliz 2017

 


 


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Iniciei o blogue em 2004 e percorri os posts de Boas Festas. Guardo muito boas memórias deste blogue. Ainda ontem conversava sobre o desaparecimento dos postais analógicos de boas festas. A actualidade vai assumindo a voracidade da simplificação. Se a atmosfera relacional tem contorno diferentes, as emoções resistem às tendências e ligam as pessoas aos sentimentos de amizade e de respeito pelo próximo.


Dei uma volta por 2016. Em termos de saúde, que é afinal o mais importante, as notícias foram positivas. Em termos profissionais, foi mais um ano muito interessante na defesa da escola pública como valor inalienável da democracia e do Estado de direito.


Escolho sempre um vídeo significativo para este tipo de entradas. A esperança e o optimismo são recomendáveis. Quem veio ter aqui por acaso deve ver e ouvir o vídeo e, se for uma pessoa de boa vontade, pode crer que o que ficou escrito é para si também. Obrigado por passarem por aqui e por lerem.


Fique com o Time dos "Pink Floyd".


 



 


 


 


 

sábado, 29 de outubro de 2016

as minhas calças brancas parte I

 

 

 

 

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(Este texto, que tem duas partes,

foi escrito em Março de 2006)

 

 

 

Estava aqui a tentar perscrutar as sensações produzidas por vibrações mecânicas de frequência compreendidas entre determinados valores nas sinapses que acontecem nas circunvoluções do meu córtex cerebral.… Como?! 

Não, não, não, vou começar de novo.

Estava aqui a tentar ouvir o som dos meus pensamentos…. O som dos meus pensamentos?!

Não, não, isto ainda não está suficientemente claro.

Não desista, meu caro leitor. Por vezes, o que é difícil é começar. Tomar-lhe o jeito. Depois, tudo flui. Estou aqui a reflectir sobre duas categorias imensas: a morte e a consciência moral. Tão imensas que por causa delas o Homem criou leis na terra e no céu para que com as diferenças não se fizesse apenas tragédia. Dificílimo tem sido o caminho.

Exercitando dificuldades sobre dificuldades, para que com a escrita se atenue alguma escuridão, ambiciono relacionar as categorias convocadas. Já está melhor? É capaz de me dizer que este assunto não promete? Claro que não é capaz. Tenho até a intenção de o abordar em poucas palavras.

Ora leia, se faz o favor.

Eu sei que poderia trazer à liça os círculos do inferno de Dante Alighieri, tão divina continua a comédia das vidas terrenas, já que este poeta do século XIII, um piscar de olhos, deixa qualquer outra tentativa desarmada.

Faria aqui o ponto final e ficávamos os dois descansados: eu e o caríssimo leitor, entenda-se.

É isso. Vou pela metáfora. Não deixo de lhe dizer que preferiria que não me conhecesse pessoalmente. Se chegou até aqui só me posso desfazer em vénias. Nem sei para que é que estou com tantas questões prévias, já que o texto, uma vez publicado, já se sabe: ganha as asas que a cabeça de cada leitor quiser.

 

 

 

 


as minhas calças brancas parte II




 


 

 

 

Haverá ser humano que nunca tenha desejado ardentemente uma coisa material? No meu caso foi um par de calças.

Teria quase dezoito anos quando passei pela montra de uma loja em tudo inacessível e de me ter deslumbrado com um par de calças de ganga de cor branca.

Não digo a marca. Seria publicidade e não me pagam para isso e não só as tenho como ainda as uso.

Enquanto massacrava os meus progenitores, conquistava, diária e pacientemente, as graças das “minhas calças brancas”. A inacessibilidade não passou o primeiro natal.


A estreia coincidiu com a minha maioridade moral: a etária. Não, não se inquiete: sei que estas coisas da moral não têm barreiras definidas, mas ajuda-me a contar a história.

Saí de casa, depois de inúmeros olhares deslumbrados para um espelho de corpo inteiro, e dou com um charco imenso. Se a intenção era chegar a um local que se situava no lado oposto, o aparecimento de um obstáculo lamacento surgiu-me como uma dificuldade inultrapassável.

Parece-me que se compreende. As amadas calças salpicadas de lama no dia um? Nem pensar. Nem um pingo sequer. Havia que contornar o charco com a certeza da sua finitude; decerto que o outro lado se alcançaria.

Têm sido anos de caminhada e o charco parece não ter fim. Não raras vezes, recebo convites de pessoas que se atravessam charco adentro motivados pela impaciência para caminhadas longas, limpas e seguras. Chafurdam na lama. Também nunca as tinha visto de calças brancas, é certo. Acenam-me do outro lado ou mesmo em pleno charco. Digo que não e já não mudo. E o que é que isto tem a ver com a morte, direis vós? O outro lado, o inferno de que vos falei, direi eu. E as categorias não eram duas?

 

sábado, 15 de outubro de 2016

obladi-oblada

 


 


 


O meu escasso talento musical exige o isolamento para cantar ou sequer assobiar . Preparávamos o jantar e dei por mim a assobiar. Interroguei-me: que música é esta? Foram necessárias umas boas repetições para a descoberta e só o refrão desfez as dúvidas. O consciente não registou de imediato o Obladi-Oblada dos The Beatles, mas a memória mais profunda deu-me luz. O cérebro é impressionante. Trazer ao presente esta música é um enigma.


 


1ª edição em 12 de Outubto de 2012.


 


domingo, 8 de maio de 2016

Gincana do Onofre 2016

 


 


 


Há umas duas décadas que se realiza, na EBI de Santo Onofre, "A gincana do Onofre". Os alunos formam equipas e convidam um professor. Este ano, foi, mais uma vez, muito interessante. "Amigas Onofre" foi a minha equipa. As alunas trataram de toda a logística e tiveram uma participação inesquecível.


 


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A meio da gincana, as alunas registaram de imediato o seu estado de alma neste mural.


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O momento da partida com camisolas a condizer: Rita, Maria Inês, Inês, Paulo, Mónica e Joana.


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 A meio do percurso, na parte alta da "Praça da Fruta" (Caldas da Rainha).

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

a propósito de gaudi

 


 


 


 


 



 


 


 


(Este texto não é inédito e reescrevi-o. Publiquei-o numa revista da especialidade, algures em 2000, 2001 ou 2002. "Recuperei-o" a propósito de uma conversa com quem visitou recentemente Barcelona. É uma homenagem a Gaudi, cuja igreja da sagrada família continua envolta em polémica; deveria ter sido concluída?)


 


 

 

Sempre que o tema da minha ocupação cerebral se relaciona com o pé direito, dois conceitos condicionam de imediato as minhas opiniões:



  • do lado a que sou menos dado, o das religiosidades, condiciona-me a abençoada e eterna entrada com o pé direito; foram tantos os seguidores desta superstição na passagem de ano da mudança de milénio que se esgotou a possibilidade de refutar os mais crentes;

  • do lado que mais me entusiasma, o do pé direito dos edifícios erguidos pelo esforço dos menos favorecidos dos Homens, podem contar com opiniões mais ousadas.



Suponho que este pé direito foi o verdadeiro motor da minha consciência cívica. Sei que buscar a origem da consciência dos Homens é tarefa só ao alcance de uns quantos. Mas da minha é algo que pode ficar ao critério do meu imaginário. Atrevo-me mesmo a dizer que quem em criança nunca quis tocar no tecto do mundo não pode ter uma boa consciência social. Fui tentando tocar nos tectos das minhas casas, embora a altura dos pés direitos me exigisse a adolescência para obter saborosos sucessos.

Na atmosfera do lugar onde nasci e depois cresci, vivia-se num constante apelo a duas actividades desportivas: o futebol e o basquetebol. A primeira mais do lado das religiosidades e a segunda mais do lado das ousadias.

Era com um sentimento de verdadeira transcendência que, de mãos dadas com os pais, avós ou tios, as crianças assistiam a esses rituais de boa convivência. É certo que nem sempre as coisas corriam bem. Na ânsia humana de ser mais veloz, de ser mais forte ou de chegar mais alto, os convívios tinham momentos que azedavam e se travestiam de aspectos assustadores.

Desde cedo que as crianças iniciavam os exames exploratórios. A primeira e última experiência como jogador de futebol num clube a sério ocorreu por volta dos onze anos. Vacinei-me. Como o campo de jogo era em tudo igual ao dos adultos, “o fenómeno pé direito” aparentemente só se manifestava no tamanho das balizas. Nada mais enganador. As dimensões intermináveis do campo e o peso insuportável da bola não me deixaram alternativa. Via, com uma surpresa ingénua, como os adultos desses sítios, e doutros nossos conhecidos, sentiam uma alegria esfuziante com as dificuldades das crianças. As gargalhadas eram ruidosas. A desfaçatez chegava ao ponto de equiparem “os miúdos” com calções enormes para o espectáculo ser mais completo.


Fiquei para sempre nos jogos de rua com os meus amigos, onde eram as crianças que escolhiam o tamanho do campo, das balizas, da bola ou dos calções. Mas havia algo que começava a despertar a tal consciência de direitos de que vos falei antes.

Para a divulgação do jogo de basquetebol, os seus responsáveis construíam campos só para crianças onde o “fenómeno pé direito” era o inimigo número um. As dimensões do espaço do jogo, dos cestos ou das bolas eram apropriadas. Ideias avançadas com a assinatura de alguém que não se acomodou ao facto dos tectos parecerem estar a uma altura fora do alcance do comum dos mortais.

Foi também nesta altura que entrei para o liceu. Estávamos em 1971, em plena era marcelista. O liceu era ao melhor estilo da época, o inevitável liceu Salazar. O edifício era monumental e cheio de mármores brancos. Reinavam os espaços de amplitude arrasadora. A construção obedecia a ângulos absolutamente rectos. A altura do pé direito era de tal dimensão, que parecia desenhada com a única intenção de impossibilitar veleidades, até ao mais reverente. Lembro-me, e a propósito desta nossa conversa, de uma das primeiras aulas de matemática.

Para fundamentar o facto de duas linhas paralelas nunca convergirem, o pedagogo pediu-nos que olhássemos para as "intermináveis" colunas da sala de aula e imaginássemos a possibilidade delas se encontrarem. Nunca. Uns tempos depois, um colega segredou-me que ouviu alguém também autorizado afirmar o encontro das rectas paralelas no infinito.

Antes disso, e convém lembrar, o arquitecto catalão Gaudi iniciou a construção da igreja da Sagrada Família, desrespeitando a tese das colunas que nunca se encontram. Obra incabada. Morreu em 1917 e os catalães ainda não conseguiram pôr fim ao pesadelo.

Tenho pensado muito sobre esta esquisita maneira de considerar que as crianças, os idosos ou os inadaptados não têm direito a querer tocar nos tectos dos seus mundos e ainda não encontrei as razões. 



 

 

domingo, 23 de agosto de 2015

do meu vizinho e da rua

 


 


 



 


 Maputo, 7 de Setembro de 1974.


Encontrei a imagem aqui.


 


 


 


O meu vizinho era em tudo insuportável: racista, machista, fascista, mal-educado, brejeiro e por aí fora. Tinha três filhos: um da minha idade, outro dois anos mais novo e um terceiro uns quatro anos mais velho e um verdadeiro fora-da-lei. Das raras vezes que entrei na casa dele saí com a convicção de que não voltaria. Os filhos eram meus amigos, principalmente o da minha idade.


 


Estávamos em Setembro de 1974 e a Frelimo tinha iniciado pelo norte a jornada do "Rovuma ao Maputo (a capital, bem a sul)" que finalizaria o poder português através de um Governo provisório que prepararia a independência em Junho de 1975. Tinha uns 16 anos e despertava para o tema de todas as horas e discussões: a política. Nessa altura, o exército português depôs as armas e iniciou com os guerrilheiros da Frelimo uma força mista que patrulhava Maputo. As pessoas como o meu vizinho detestavam a mistura.


 


Em 7 de Setembro de 1974 a baixa da cidade estava cheia. Ao que confirmei depois, um automóvel passeava pelas ruas arrastando uma bandeira portuguesa. Gerou-se um tumulto que originou o "Movimento Moçambique Livre". Foram tomados o Jornal de Notícias e a Rádio Clube de Moçambique. Durante dois a três dias transmitiram-se comunicados a favor do movimento e contra a Frelimo. Instalou-se a violência. As populações moçambicanas dos subúrbios viraram e queimaram carros com pessoas lá dentro e invadiram as ruas da capital armadas com catanas. Alguns portugueses agiram como snipers e atingiram os "invasores". Foram dias de terror. Fiz três coisas de que me recordo bem: morava perto do hospital e assisti à chegada de várias camionetas de caixa aberta com cadáveres, refugiei-me em casa e, no segundo dia, fui com os meus pais ver o que se passava na Rádio Clube de Moçambique. Vi aí um dos chefes do movimento a discursar e a ser fortemente aplaudido: era o meu vizinho.


 


Dito tudo isto para relembrar uma coisa óbvia: da rua só saíram ditaduras.


 


Vi isso naquela altura (embora aquele movimento tenha durado três dias), já o tinha lido na História e confirmei-o ao longo dos anos com tantos lutadores a estalarem o verniz por coisas que "nada" tinham a ver com política.


 


Como fazer então a "revolução" sem ser a partir da rua (ou antes que parta da rua) é o grande desafio da sociedade portuguesa.


 


 


 


 1ª edição em 28 de Outubro de 2013.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Da cidadania numa espécie de Madeira

 


 


 


 


A localização é taxativa: a acção cívica prejudica-me e sou um alvo a abater pelo poder político local dominante. Há muito que me repetem a condição. São conhecidas as provas e dois conselhos gerais escolares acentuaram as certezas de quem conhece os corredores destas decisões.

É natural, portanto, que pense no assunto e que faça um qualquer balanço.

Assim de repente, já disputei, em quase três décadas, duas dezenas de eleições escolares na espécie de Madeira em que habito. Sempre como alguém que faz da acção cívica na defesa da escola pública um exercício de risco. Mas uma defesa com provas dadas, também em nome da ambição organizacional, da inovação e da qualidade e como primeiro numa equipa ou em modelo unipessoal. Em mais de trinta anos de exercício profissional, nunca fui nomeado pelo poder central ou local. Os cargos que exerci foram sempre por eleição em sufrágio directo e universal com cadernos eleitorais abrangentes.

Das duas dezenas disputadas (e nem sempre apresentei candidatura), venci, ou vencemos, umas quinze. Das cinco não vencidas, duas foram listas únicas que não obtiveram, por um voto (por incrível que possa parecer a coincidência e com um intervalo de cinco anos), os 50% exigidos pela lei, uma outra registou um empate em votação nominal (o poder da altura nomeou a outra pessoa) e conhecem-se duas derrotas em votação colegial (as únicas em que os representantes partidários, e afins, votaram) precedida de um simulacro de concurso, sempre o mais difícil para alguém com estas características e com a particularidade de uma delas ter registado um empate na primeira volta seguida de uma derrota por um voto (parece uma sina). Essas duas candidaturas foram também em nome dos profissionais da Educação e de defensores da escola pública que não esquecerei.

Para alvo a abater não me parece um currículo desprezível.

Não me acomodo na muito respeitável crítica pela crítica, aguento-me bem ao estatuto determinado e nunca sabemos o que é que o futuro nos reserva. Em 2009, publiquei um texto, "O golpe", como denúncia da promiscuidade no público-privado nos assuntos escolares. Parece que foi demasiado incómodo e que acentuou o tal alvo a abater (expressão que não gosto nem uso, mas que me tem sido repetida por pessoas autorizadas). Cada vez que o releio, vejo-o mais certeiro e isso explicará muita coisa.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Razões de uma candidatura - um livro sobre gestão escolar em versão digital

 


 


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Pode adquirir aqui a versão digital do livro "Razões de uma candidatura: Em busca de uma ideia de escola de gestão escolar (Portuguese Edition)". A editora é a "Amazon - kindle edition".


 


Pode ler a descrição:


 



A ideia de escola está associada à renovação e ao recomeço. Não existe alternativa. Quem abraça um desafio com estas características deve saber que o exercício de gestão escolar nunca se conclui e que invariavelmente nos remete para o famoso mito de Sísifo. Portanto, impõe-se a difícil depuração entre o que desejamos e o que é possível. Se a democracia se ergue também a partir das escolas e na riqueza da interação dos discursos, das atitudes e dos exemplos, então a ideia de compromisso ocupa um lugar essencial; e, neste caso, a minha afirmação inscreve-se na ideia de fazer o melhor que for capaz. Por isso, e para que a clareza aproxime este projeto de intervenção da sua necessária avaliação, não me proponho a um exercício retórico que se transforme num conjunto abstracto ou perdido no tempo. Este projeto de intervenção será um instrumento organizacional.(...)


A ideia de agrupamento de escolas vigente em Portugal é desconhecida pela literatura dedicada à gestão escolar e há investigadores que se mostram céticos em relação aos resultados. Esta escala organizacional parece dar corpo às inscrições nos dois parágrafos anteriores: transporta um sentimento de crise e é decidida pelos tempos que vivemos. Por outro lado, o pensamento que dita as políticas educativas relaciona-se com o pensamento político e económico. Por isso, a escola deve ser entendida segundo vários pontos de vista e de acordo com os interesses políticos e sociais em vigor.(...)