Ouvi, ontem, um argumento recorrente: fazer greve é uma falta de respeito pelos desempregados. Estes especialistas em anestesias são os mesmos que noutras alturas afirmam que os desempregados não gostam de trabalhar e que são uns preguiçosos.
Esta greve é importante e nem sei se quem a convocou equacionou todas as consequências. Têm sempre o argumento de que os tempos são imprevisíveis e têm razão, embora em 2011 tenha acontecido algo parecido. O Governo estava tão manietado (era tão conivente como o actual, embora, quer num quer noutro, existam remadores contra a maré) pelos contratos leoninos e "blindados" estabelecidos com que as delapidadoras PPPs, BPNs e Madeiras, que para pagar os juros astronómicos teve de se socorrer dos cortes nos salários da função publica, da redução nas prestações sociais, do aumento dos impostos e da subida exponencial do desemprego. O debate actual é esse e começa a evidenciar-se uma mistura de medo e de desespero com o afundamento da economia.
Voltemos a 2011. Numa greve ou manifestação parecida com a de hoje, a adesão não foi grande coisa pelos motivos meio esquizofrénicos que deixam a sorrir os tais PPPs (desculpem escrever assim, mas é só para abreviar e penso que se entende). As pessoas já conheciam o estado do país e ficaram com uma sensação de pessimismo, de revolta com tanta injustiça e ganância e de-que-não-há-nada-a-fazer. E isso é demasiado perigoso, como se sabe (e "encomendar" a salvação à CGTP e ao PCP é datado e já não funciona). Foi daí que nasceu o movimento dos indignados que, em Março de 2011, aterrorizou o mainstream e levou à queda inapelável de Sócrates.
Os próximos tempos prometem aquecer, penso que ninguém se deve ficar a rir nem dizer que não foi avisado. Não basta propalar com a responsabilidade criminal futura para o género predador, é importante tratar do passado.
Parabéns pelo excelente Blog. Os textos revelam grande lucidez como disseram no outro comentário.
ResponderEliminarConcordo que o timing da greve geral não foi o mais indicado (passaram apenas 4 meses da última greve geral) mas os motivos invocados são justos. Vivemos num período de pós-democracia e que reina a oligarquia. A destruição do estado social teve início na década de 70 em Inglaterra com a governação de Margaret Thatcher . Desengane-se quem julgar que isto é passageiro e melhores dias virão, a escola de chicago já teve experiências no Chile (também noutros países da América Latina) e os resultados desastrosos estão à vista. Na velha Europa o avanço neo-liberal está no seu apogeu e Portugal é apenas uma amostra. Temo que fiquemos demasiado parecidos com os E.U.A ou com a China em termos sociais e laborais mas infelizmente isso vai acontecer…se não houver uma oposição forte da população.
ResponderEliminarJá há muitas portugueses a procurar emprego nos EUA. Creio que este país is não se compara nem com Portugal nem com a China, mesmo no que respeita ao mercado de trabalho.
ResponderEliminarEm direitos laborais e socais não é mesmo comparável...não há serviço nacional de saúde (cerca de 40 milhões de estadunidenses estão fora de qualquer sistema de saúde), a flexibilização do emprego é sempre a favor da entidade patronal (grosso modo), a actividade sindical não é livre como na Europa (as empresas fecham as portas até os trabalhadores aceitarem suas propostas salariais - lock-out). A desigualdade social é por demais evidente (mais de 40 milhões de pessoas que vivem abaixo do limiar da pobreza) e uma sociedade puramente individualista, com vários atentados nas escolas...enfim não é este tipo de sociedade que eu quero para a Europa...mas infelizmente há vários sinais nesse sentido..
ResponderEliminarSincero e sonoro aplauso!!!!!!
ResponderEliminarEsta greve não merece riso, mas sim uma boa choradeira, por muitas razões.
ResponderEliminarPorque é aqui que nos conduziram, ao labirinto de outrora, só que agora a caminho de um fundo de túnel sem qualquer luz.
Dito isto, não a fiz, como cerca de quase 100% de doentes e funcionários de uma escola que há 3 anos as fazia acima dos 90%.
Porquê?
Neste momento era importante reflectirmos sobre isso antes de ser marcada nova greve - devido ao evidente sucesso desta - para diminuir a desvantagem em relação às greves gerais gregas...
Descrente?
Talvez...
Concordo Paulo. 100% de doentes :) O único gralhador que te supera devo ser eu :)
ResponderEliminarTambém me informam de escolas sem aulas em que os grevistas foram, por esmagadora maioria, assistentes operacionais contratados, precários e com ameaças de retaliação.
Força aí. Os motivos para descrer são sempre os mesmos e que também nos podem levar a crer :)
Paulos civilizados e inteligentes até quando decidem de maneira diferente. É a causa que me faz seguir-vos e admiro a coerência, coragem e lucidez. Bem hajam.
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