sábado, 12 de maio de 2012

labirinto da auto-estima

 


 


 



 


 


Casos, opiniões, natura e uso


Fazem que nos pareça esta vida


Que não há nela mais que o que parece.


 


Camões (Citado por Eduardo Lourenço em


"O labirinto da saudade", 1972, p.17)


 


 


 


A saudade é uma inscrição portuguesa e tem todas as condições para se intrometer na actualidade. Os portugueses já não conseguem ver em frente sem a nostalgia a empurrar-lhes o olhar para o passado. É interessante nomear que, dois anos depois do célebre país da tanga, em 2004, a convocação mediática da auto-estima era moda e terapia obrigatória. Seria ainda mais interessante, ouvir o que têm a dizer agora os assinantes dos receituários.


 


O país está deprimido. Vive-se a delapidação a cada passo. Não há nação que se levante sem um sistema escolar vivo de esperança. Se a depressão é um fenómeno geral, as escolas reflectem um sentimento duplicado: à pré-bancarrota acrescentam a devastação dos últimos anos.


 


Se os efeitos educativos são quase sempre a longo prazo, intuo que os resultados da desgastante luta de muitos professores portugueses também o serão. Talvez só no final desta década se sentirão os efeitos. Contudo, importa fazer um esforço de memória e pensar como seria o momento se os professores titulares ainda existissem, se o monstro burocrático da avaliação ainda nutrisse tanta simpatia desconhecedora, se o modelo de gestão escolar não estivesse descredibilizado e se o estatuto do aluno não tivesse os alicerces em desconstrução acelerada para benefício da condição dos discentes.


 


 


(Já usei parte deste texto noutro post.)

4 comentários:

  1. “… pensar como seria o momento se os professores titulares ainda existissem, se o monstro burocrático da avaliação ainda nutrisse tanta simpatia desconhecedora, se o modelo de gestão escolar não estivesse descredibilizado…”

    Os professores titulares já não existem, mas continuam a ser ex-professores titulares a desempenhar a maior parte dos cargos nas escolas, fruto dessa exigência então imposta e da duração dos respectivos mandatos.

    O monstro burocrático da avaliação, apenas um pouco aligeirado, só afecta os professores contratados, porque a ausência de progressões na carreira adormeceu a simpatia de muitos. Se as houvesse, eis que essa simpatia despertava num instante.

    Se alguma vez foi credibilizado, o modelo de gestão escolar descredibilizado continua a reinar sem fim à vista, com a agravante de cada vez depositar mais escolas, mais profissionais e alunos sob a alçada de um único director.

    Um país adiado é o que temos, Paulo!

    Sem querer vestir a pele do “velho do Restelo”, parece-me que no final desta década se sentirão os efeitos do descalabro a que se conduziu o país, em particular delapidando o sistema educativo público.

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  2. Corremos o risco de,ao acordar,já nem termos um lençol.Voltamos à idade média.

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  3. Concordo Ana. Um país adiado, sem dúvida.

    As duas faces da moeda, digamos assim. Foi muito mau o que se passou, e que continua, e levará a anos a reerguer.

    Quando referi o "daqui a uma década" estava apenas a referir-me ao reconhecimento do desgaste de muitos professores, que tiveram razão e que remaram contra muitas marés. Mas tenho ideia que já nem é preciso esperar: já está patente o desastre de uma série de políticas.

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  4. É Donatien. Nem consigo imaginar como estaremos daqui a um ano, por exemplo.

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