REFLEXÕES SOBRE O ENSINO E A ESCOLA
“Estava nos corredores, folheando nervosamente as minhas cinco pequenas fichas para reflectir as ideias chave que iria destacar no meu discurso. Dei um olhadela através da cortina e vi 1600 professores de liceu e responsáveis da educação, federais ou do Estado, sentados na sala – e quem eram: tratava-se de professores do programa “Advanced Placement”[1], que são os melhores professores do ensino secundário nos Estados Unidos, que são responsáveis por preparar os mais brilhantes alunos para a universidade.
Era uma assembleia geral anula do College Board, a organização que supervisiona os exames do SAT, o teste estandardizado que é feito por milhões de estudantes do secundário americanos se desejam aceder à universidade.
Gaston Caperton, o ex-governador da Virgínia Ocidental que se tronou presidente do College Board, tinha-me pedido para pronunciar um discurso de orientação para esta reunião. Tinha-me dado apenas uma instrução: “Sacuda-os! Transporte-os para o futuro! Dê-lhes o desafio de repensar a missão da educação americana num mundo em vias de integração.”
Fácil de dizer. Mas eu não estava muito seguro da reacção que teriam os professores se eu lhes dissesse o fundo do meu pensamento. Nos Estados Unidos e no mundo inteiro, o sistema escolar é um vestígio de uma era desaparecida: eis a verdade. Os programas estão obsoletos, afastados da realidade das crises ambientais e económicas actuais. Os postulados metodológicos e pedagógicos que orientam a educação desde há mais de cinquenta anos – depôs do início do ensino público obrigatório – são uma das razões da nossa caminhada para o abismo.
Em resumo, aquilo que nós ensinamos e a forma como nós ensinamos é em grande parte disfuncional e tóxica para o desenvolvimento futuro da espécie humana – mas os professores que pacientemente nos seus lugares, esperavam seguramente a um discurso tonificante sobre o valor da uma boa educação, estavam prestes a entendê-lo?
Eu entrei na sala. Respirei profundamente e comecei com um lamento sobre o estado do mundo – sentimento próprio para inspirar, eu esperava-o, para uma reflexão libertadora no final do meu discurso. Ao expor a amplitude da crise a que estamos confrontados, eu escrutinava o meu público: eu estava muito atento às expressões faciais, à linguagem do corpo. Eu senti a calma que reinava no anfiteatro e não estava seguro do sentido a dar-lhe. Logo que comecei a desconstruir o sistema educativo tradicional, detectei um ligeiro murmúrio em toda a sala. Mas foi quando passei aos novos métodos de ensino e de estudo distribuído e cooperativo que a atitude do público mudou radicalmente. Centenas de professores animaram-se, abanavam a cabeça para manifestar a sua aprovação. Quanto conclui a minha intervenção, compreendi que um grande número destes professores tinham muito avanço sobre mim: eles colocavam já na sua sala de aula questões que colocam em causa o futuro da educação, eles experimentavam já uma nova pedagogia, métodos de ensino inéditos para preparar a próxima geração a viver numa sociedade distribuída e cooperativa.
No final, eles aplaudiram de pé, mas eu verifiquei que muitos faziam-no virando-se uns para os outros. Para muitos deles, era um momento de auto-afirmação – eles sentiam-se no bom caminho, eles verificavam que os seus esforço pessoais para repensar a educação americana eram justificados.(...)
As universidades e as escolas secundárias devem começar a formar a mão-de-obra da terceira revolução industrial. Os programas deverão concentrar-se cada vez mais sobre a informática avançada, as nanotecnologias, as biotecnologias, as ciências da terra, a ecologia e a teoria de sistemas, assim como sobre certas qualificações profissionais como a fabricação e comercialização das tecnologias das energias renováveis, a transformação dos edifícios em minicentrais eléctricas, a implementação de tecnologias do hidrogénio e outras formas de armazenagem, desdobramento das redes eléctricas inteligentes, construção de meios de transporte em rede e a pilha de combustível, criação de redes logísticas verdes, etc..
Conscientes da necessidade de iniciar os alunos nas competências profissionais e técnicas que terão necessidade para viver e trabalhar numa economia sustentável da terceira revolução industrial, a nossa equipa mundial trabalha com as universidades e escolas que desejam transformar-se num meio de aprendizagem da terceira revolução industrial.nio e outras formas de armazenagem, desdobramento, assim como sobre certas qualificaç”
Os cinco pilares da terceira revolução industrial: “1º - passagem às energias renováveis; 2º - transformação do parque imobiliário de todos os continentes num conjunto de minicentrais energéticas que colectam localmente as energias renováveis; 3º - desdobramento da tecnologia do hidrogénio e de outras tecnologias de armazenamento em cada edifício e no conjunto da infraestrutura, para armazenar as energias intermitentes; 4º - utilização de tecnologia da internet para transformar a rede eléctrica de todos os continentes numa inter-rede de partilha da energia funcionando exactamente como a internet; 5º - mudança nos meios de transporte com a passagem aos veículos eléctricos que possam ligar à rede ou a pilha de combustível, capazes de adquirir e vender electricidade numa rede eléctrica interactiva continental inteligente.”
“Jeremy Rifkin” em The third industrial revolution (2011)
[1] Classes do ensino secundário de muito alto nível, comparáveis às dos primeiros anos do ensino superior.
Cortesia e tradução de José Luis Almeida e Silva,
que, como informação adicional, aconselha
Boa tarde,
ResponderEliminarGostei muito desta pequena reflexão sobre o ensino.
À muito tempo que venho comentando entre colegas que a escola atual está ultrapassada, esgotada, nos seus limites de sustentabilidade, e porquê? Se recuarmos no tempo ela continua praticamente igual, utilizando os mesmos processos e reivindicando as mesmas soluções!
Retirei uma ideia muito importante:
“Sacuda-os! Transporte-os para o futuro! Dê-lhes o desafio de repensar a missão da educação americana num mundo em vias de integração.”
Eu não acredito que mais sucesso escolar passe por mais escola. Quem está com eles e os vê crescer sabe que eles estão "fartos" de tanta escola.
Por isso, venho falando que, em vez de mais manifestações, greves ou vigílias, que entendo as suas razões de ser, devêssemos nos organizar em grupos de trabalho e repensar a escola, virá-la para o futuro, é aí que eu encontro a verdadeira importância dos professores.
Mas está difícil , muitos colegas preferem manifestar e exigir!
Até quando vamos aguentar um sistema de ensino público conturbado !!!!!!??????