Ainda sobre os últimos rankings de escolas, o Público disponibiliza uma base de dados interessante e o Rui Ferreira escreve, no blogue de Octávio Gonçalves, um texto imperdível sobre o assunto.
Rankings das Escolas 2012
Li tudo ao pormenor e até fiz uma ficha de leitura (mais uma).
A conclusão é mais que a esperada numa realidade caracterizada pela complexidade e dinâmica dos fenómenos que ocorrem:
1. Tendo obviamente vantagens que jamais poderão ser escamoteadas, a divulgação dos “Rankings” cavará ainda mais o fosso na assimetria já observada entre as escolas. “A missão é difícil e os rankings não ajudam nada” (Tuna, pp. 18).
2. Mesmo com a inovação apresentada este ano, os rankings sofrem de uma patologia congénita e sem tratamento, pelo menos para já, entre outras, “haver dois ou três alunos mais interessados numa turma de 15 faz a diferença” (Ribeiro, pp. 20), “bastam 4 ou 5 alunos terem melhores resultados para alterar logo a média” ou “três ou quatro pais mais sensibilizados, mais colaborantes, ela acentua-se” (Rodrigues, pp. 20) e “como temos poucos alunos os resultados são voláteis” (Sampaio, pp. 21).
3. Os fatores socioeconómicos são preponderantes no (in)sucesso escolar dos alunos. Os gráficos apresentados são esclarecedores. “Os alunos que têm bons resultados são oriundos de famílias bem estruturadas e com condições económicas equilibradas” (Pereira, pp. 2), “A situação social das famílias e da comunidade envolvente tem enorme influência nos resultados” (Viana, pp. 3) e “existe uma elevada influência do contexto cultural e socioeconómico sobre os resultados dos exames” (Azevedo, pp. 5).
4. Se tudo pode ser mensurável e, por conseguinte, justificado, qual a razão de existirem escolas abaixo e acima do esperado? Mais complexo ainda, qual o motivo que leva uma escola (e são muitas) a subir ou descer cerca de mil lugares de um ano para outro? “Não mudaram nem os professores nem as estratégias de ensino, o que mudou para que a escola saltasse 984 lugares foram os alunos” (Basílio, pp. 20), “os professores são os mesmos mas mudou o público” (Pimenta, pp. 21) e “tem mais a ver com as características pessoais dos alunos e com o funcionamento do grupo” (Vieira, pp. 20).
5. Da parte da escola, os professores devem nortear a sua ação tendo como referências principais as questões pedagógicas e científicas.
Ou seja, nada que ainda não se soubesse. Entre muitos, Almeida e Ramos (1992), Benavente et. al. (1994), Sousa (2003), Janosz, Le Blanc, Boulerice e Tremblay (2000), Abbot, Hill, Catalano e Hawkins (2000), Lee e Ip (2003), Christenson e Thurlow (2004), Nowicki, Duke, Sisney, Stricker e Tyler (2004) Beekhoven e Dekkers (2005), a redução do insucesso e abandono escolar apenas poderá ser perspetivada a partir de uma intervenção que abranja todos os sistemas em que o aluno está inserido, o seu sistema familiar, a escola e as políticas educativas a nível nacional.
Mais uma vez os políticos não ficam bem na fotografia. A nós, aos professores, só nos compete aplicar a política, de preferência, calados. “Mas o que é ainda mais grave é que se criou um lastro escorregadio e muito perigoso de facilitação e até incentivo à proliferação de uma agenda que está a fazer da escola pública uma escola selectiva …” (Azevedo, pp. 5).
Rui Ferreira
Já tinha lido este texto na fonte, mas não aplaudi lá, como desejava, porque não há caixa de comentários.
ResponderEliminarEstá um "trabalho de casa" muito bem feito, muito bem documentado e elucidativo.
Retenho a expressão "patologia congénita e sem tratamento".
Se assim é, espero que morra depressa, pois a sua acção malfazeja, em pequenas comunidades muito heterogéneas, é fatal.
Concordo Ana.
ResponderEliminarDevidamente fundamentado, para MNE ler!
ResponderEliminarDe acordo Ana!
ResponderEliminarExactamente.
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